contos sol e lua

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para nunca mais chorar.


Passava do meio-dia, o cheiro de pão quente invadia aquela rua, um sol escaldante convidava a todos para um refresco...

Ricardinho não agüentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!

O pai, seu Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho, e pede mais um pouco de paciência...

- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!

Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, seu Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente.

Ao entrar, dirige-se a um senhor no balcão:

- Meu Senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos aí na porta com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei. Eu lhe peço que, em nome de Jesus, me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino. Em troca, posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o Senhor precisar.

Seu Amaro, o dono da Padaria, estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho.

Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o ao seu Amaro que, imediatamente, pede que os dois sentem-se junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (prato feito) - arroz, feijão, bife e ovo.

Para Ricardinho, era um sonho comer após tantas horas na rua. Para Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá. Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada.

A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples, como se fosse um manjar dos deuses, e a lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades.

Seu Amaro se aproxima de Agenor e, percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:

- Oh, Maria, sua comida deve tá muito ruim ! Olha, o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato...?

Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer. Seu Amaro pede, então, que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho.

Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome estava nas costas. Após o almoço, seu Amaro convida o seu Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório.

Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos "biscates" aqui e acolá, mas que há 2 meses não recebia nada. Seu Amaro resolve então, contratar o Agenor para serviços gerais na padaria e, penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias.

Agenor, com lágrimas nos olhos, agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho. Ao chegar em casa com toda aquela "fartura", Agenor é um novo homem: sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso....

Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores. No dia seguinte, às 5h da manhã, Agenor estava na porta da padaria, ansioso para iniciar seu novo trabalho... seu Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem, que nem ele sabia porque estava ajudando.

Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa. E ele não se enganou: durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres.

Um dia, seu Amaro chama o Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos, um quarteirão acima da padaria e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar.

Agenor até hoje não consegue esquecer o primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta... Doze anos se passaram desde aquele primeiro dia de aula. Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, hoje advogado, abrindo seu escritório para seu cliente e depois outro, e depois mais outro...

Ao meio dia, ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o "antigo funcionário", tão elegante em seu primeiro terno...

Mais dez anos se passam e, agora o Dr. Agenor Baptista, já conta com uma clientela que mistura os mais necessitados - que não podem pagar - e os mais abastados, que o pagam muito bem. Resolve criar uma Instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida, diariamente, na hora do almoço.

Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar, que é administrado por aquele seu filho, que agora é o nutricionista Ricardo Baptista. Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, seu Amaro e seu Agenor, impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um.

Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que a mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.

Ricardinho, o filho, mandou gravar na frente da "Casa do Caminho", que seu pai fundou com tanto carinho:

Um dia eu tive fome e você me alimentou.
Um dia eu estava sem esperanças, e você me deu um caminho.
Um dia, acordei sozinho e você me deu Deus e, isso, não tem preço.
Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma...
E que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar.
Paulo Roberto Gaefke.

Terra dos Homens: Olhando Mozart.


E agora aqui, na ultima página deste livro, eu me lembro daqueles burocratas envelhecidos que nos serviram de cortejo na madrugada de nosso primeiro vôo, quando nos preparávamos para virar homens, tendo tido a sorte de ser designados Eles eram semelhantes a nós, mas não sabiam que tinham fome.

E há muitos homens assim, dormindo, sem que ninguém os desperte.

Há alguns anos, durante uma longa viagem de estrada de ferro, resolvi visitar aquela pátria em marcha em que ficaria por três dias, prisioneiro, durante os três dias, daquele ruído de seixos rolados pelo mar. Levantei-me. Pela uma hora da madrugada corri os carros, de ponta a ponta. Os dormitórios estavam vazios. Os carros de primeira classe estavam vazios.

Mas os carros de terceira estavam cheios de centenas de operários poloneses despedidos na França, que voltavam para a sua Polônia. Caminhei pelo centro do carro levantando as pernas para não tocar nos corpos adormecidos. Parei para olhar. De pé, sob a lâmpada do carro, contemplei naquele vagão sem divisões que parecia um quarto, que cheirava a caserna e a delegacia, toda uma população confusa, sacudida pelos movimentos do trem. Toda uma população mergulhada em sonhos tristes, que regressava para a sua miséria. Grandes cabeças raspadas rolavam no encosto dos bancos. Homens, mulheres, crianças, todos se viravam da direita para a esquerda, como atacados por todos aqueles ruídos, por todas aquelas sacudidelas que ameaçavam seu sono, seu esquecimento. Não achavam ali a hospitalidade de um bom sono.

E assim eles me pareciam ter perdido um pouco a qualidade humana, sacudidos de um extremo a outro da Europa pelas necessidades econômicas, arrancados à casinha do Norte, ao minúsculo jardim, aos três vasos de gerânio que notei outrora nas janelas dos mineiros poloneses. Nos grandes fardos mal arrumados, mal amarrados, eles haviam juntado apenas seus utensílios de cozinha, suas roupas de cama e cortinas. Mas tudo o que haviam acariciado e amado, tudo a que se haviam afeiçoado em quatro ou cinco anos de vida na França, o gato, o cachorro, os gerânios, tudo tiveram de sacrificar, levando apenas aquelas baterias de cozinha.

Uma criança chupava o seio de sua mãe que de tão cansada parecia dormir. A vida transmitia-se assim no absurdo e na desordem daquela viagem. Olhei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo dobrado no desconforto do sono, preso nas suas vestimentas de trabalho, um rosto escavado com buracos de sombra e saliências de ossos. Aquele homem parecia um monte de barro. Era como um desses embrulhos sem forma que se deixam ficar à noite nos buracos das feiras. E eu pensei: o problema não reside nessa miséria, nem nessa sujeira, nem nessa fealdade. Mas esse homem e essa mulher sem dúvida se conheceram um dia, e o homem sorriu para a mulher; levou-lhe, sem dúvida, algumas flores depois do trabalho. Tímido e sem jeito, ele temia ser desprezado. Mas a mulher, por fagueirice natural, a mulher, certa de sua graça, talvez se divertisse em inquietá-lo. E ela, que hoje é apenas uma máquina de cavar ou de martelar, sentia assim no coração uma deliciosa angústia. O mistério está nisso: eles se terem tornado esses montes de barro. Por que terrível molde terão passado, por que estranha máquina de entortar homens? Um animal ao envelhecer conserva a sua graça. Porque essa bela argila humana se estraga assim?

E continuo minha viagem entre uma população de sono turvo e inquieto. Flutua no ar um barulho vago feito de roncos roucos, de queixas obscuras, do raspar das botinas dos que se viram de um lado para outro. E sempre, em surdina, o infatigável acompanhamento dos seixos rolados pelo mar.

Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a testa lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, um homem se acostuma, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

O que me atormenta, as sopas populares não remediam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essa feiúra. É um pouco, em cada um desses homens, Mozart assassinado.
Só o Espírito, sobrando sobre a argila, pode criar o Homem.
Antoine de Saint-Exupéry

Do livro Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, mesmo autor de O Pequeno Príncipe.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"A Megera Domada”


A Megera Domada (no original, The Taming of the Shrew) é uma das primeiras comédias escritas por William Shakespeare. Tem como tema central – que compartilha com outras comédias do autor, como Much Ado About Nothing (“Muito Barulho por Nada”) e A Midsummer Night’s Dream (“Sonho de uma Noite de Verão”) – o casamento, a guerra dos sexos e as conquistas amorosas. Contudo, “A Megera Domada” diferencia-se ao dedicar boa parte da ação à vida matrimonial, ou seja, aos acontecimentos que se sucedem à cerimônia nupcial em si, já que não raro as comédias shakespeareanas tem o casamento como final da ação, a exemplo de Much Ado About Nothing. Os principais personagens são Lucêncio, o filho de um rico mercador, e seu empregado Trânio; Petruchio, um rico viajante; Catarina, uma megera; e a doce e meiga Bianca.

Enredo.

A trama, relativamente simples, teria sido coletada por Shakespeare de antigos contos da tradição oral e diz respeito a um pai, Batista, que estabelece como condição para ceder a mão de sua filha mais jovem, a bela e doce Bianca, aos possíveis pretendentes, que sua filha mais velha, a megera Catarina, consiga antes um esposo. Bianca tem não menos que três pretendentes – Gremio, Hortencio e Lutencio, este último um jovem forasteiro que chega à cidade de Pádua e enamora-se de imediato por Bianca. Os dois primeiros, rivais nas pretensões de casar-se com Bianca, fazem um acordo para conseguir um marido para Catarina e, assim, deixar livre o caminho para seguirem em sua disputa amorosa. Petrúquio, um nobre falido de Verona, chega à cidade em busca de um bom casamento e apaixona-se pela idéia de se casar com Catarina, proposta feita a ele por seu amigo Hortensio. Aparentemente contra a vontade da moça, o casamento de Catarina e Petrúquio é realizado e ambos voltam para Verona, onde o esposo, impondo algumas privações e um tanto de mau humor à nova esposa, termina por amansá-la. Após diversas peripécias, dentre as quais o disfarce dos rivais em professores de música e retórica para que pudessem fazer a corte à jovem Bianca, Lucencio e Bianca casam-se, em segredo; Batista e Vicencio, pai de Lucencio, terminam por aceitar o casamento dos jovens e, ao final, Petrúquio prova a todos que Catarina tornou-se uma esposa mais obediente que a doce Bianca.

Técnicas dramatúrgicas.

Para obter o efeito desejado em “A Megera Domada”, o riso, Shakespeare usa diversos elementos anteriormente citados. A trama central, por exemplo, parte justamente de uma quebra de expectativa – a forma de agir de Catarina, a de uma mulher insubmissa, e a maneira pela qual ela é conquistada pelo futuro esposo, Petruqúio –, a qual é reforçada pelo uso exacerbado do engano e das inversões retratadas nos disfarces usados pelos pretendentes para obter o acesso à jovem Bianca com o intuito de cortejá-la. Além disso, há a forma grosseira com que Petrúquio trata os demais, em contraste com todo o ambiente de cavalheirismo e cortesias extremadas dos que disputam o amor da irmã de sua noiva Catarina – um contraste que é refletido até mesmo na forma de vestir e no desrespeito às regras de etiqueta na cena do casamento.

O engano e a assimilação para melhor, bem como a quebra de hierarquia, estão presentes, aliás, já no prólogo da peça, no qual Shakespeare cria uma situação cômica na qual um lorde resolve brincar com um bêbado miserável que encontra em uma taverna, Sly, vestindo-o de roupas nobres e cercando-o de cuidados e serviçais, para que ele pensasse ser um nobre que acordava de um pesadelo no qual vivia na pobreza absoluta. Curiosamente, tal prólogo, que serviria de moldura à trama central de The Taming of the Shrew, já que esta seria uma “peça dentro da peça”, encenada para o nobre/miserável Sly por um grupo de atores, não é retomado ao final do texto de Shakespeare, provavelmente por uma extração feita da peça original no decorrer dos tempos. Há registros de versões anteriores na qual a trama do prólogo é retomada ao final da peça, como o despertar de Sly novamente como um reles bêbado na taverna de onde o lorde o havia recolhido para seu jogo cômico, dizendo que “havia tido o mais incrível dos sonhos” e que agora ele, Sly, “sabia como devia tratar a mulher em casa”.

Há ainda, em “A Megera Domada”, um interessante paralelismo entre as tramas de Lucentio/Bianca e Petrucchio/Katherine. Em verdade, a primeira parece assumir um caráter de protagonista em boa parte da peça, servindo a relação conflituosa de Petrucchio e Katherine como um contraponto burlesco ao amor proibido e sublimado de Lucentio e Bianca. Além disso, o relacionamento de Katherine e Petrucchio oferece a Shakespeare a possibilidade de composição de um humor popular que atingiria boa parte do público de seu teatro, em oposição ao humor que a relação de Lucentio e Bianca podem oferecer, algo mais sofisticada.

INTRODUÇÃO.
Cena I
(Num prado. Defronte de una cervejaria. Entram a Estalajadeira e Sly)
SLY – Hei de vos dar uma tunda, palavra de honra.
ESTALAJADEIRA – Um par de algemas, velhaco!
SLY – Marafona! Os Slys não são velhacos. Lede as crônicas. Chegamos aqui com Ricardo, o conquistador. Por isso, pauca palabris. Deixai o mundo rodar. Cessa!
ESTALAJADEIRA – Não quereis pagar os copos que quebrastes?
SLY – Não, nem um real. Vai, por São Jerônimo! Vai te aquecer em tua cama fria.
ESTALAJADEIRA – Já sei o que tenho a fazer; vou chamar o inspetor do quarteirão.
(Sai.)
SLY – Quarteirão ou quinteirão, pouco me importa. Hei de responder-lhe de acordo com a lei. Não cederei uma polegada, rapaz. E ele que venha com jeito.
(Deita-se no chão e dorme. Toque de trompa. Entra um nobre que volta da caçada, com caçadores e criados.)
NOBRE – Caçador, recomendo-te cuidado com meus cachorros. A cadela Merriman de cansada até espuma. Atrela Clowder com a de latido forte. Não notaste, rapaz, como o Prateado fez bonito lá na dobra da sebe, quando o rasto já fora interrompido? Não quisera perdê-lo agora nem por vinte libras.
PRIMEIRO CAÇADOR – Bellman vale, senhor, tanto quanto ele; não deixou de latir, e por duas vezes voltou a achar a pista, embora o rasto se achasse quase extinto. Acreditai-me: esse é o melhor de todos os cachorros.
NOBRE – És um bobo; se fosse Eco mais ágil, valeria por doze iguais a Bellman. Mas alimenta-os bem e não descures de nenhum, que amanhã teremos caça.
PRIMEIRO CAÇADOR – Pois não, milorde.
NOBRE (enxergando Sly) – Que é isso? Morto ou bêbedo? Respira?
SEGUNDO CAÇADOR – Respira, sim, milorde. Se a cerveja não o aquecesse, o leito em que se encontra por demais frio fora para o sono.
NOBRE – Óh animal monstruoso! Está deitado como um porco. Medonha morte, como tua pintura é feia e repulsiva! Vamos fazer uma experiência, amigos, com este bêbedo. Que tal a idéia de o pormos numa cama e de o cobrirmos com lençóis bem macios, colocarmos-lhe anéis nos dedos, um banquete opíparo junto ao leito lhe pormos e solícitos serventes ao redor, quando ele a ponto estiver de acordar? Não esquecera sua própria condição este mendigo?
PRIMEIRO CAÇADOR – Não teria outra escolha, podeis crer-me.
SEGUNDO CAÇADOR – Ao despertar, perplexo ficaria.
NOBRE – Como de um sonho adulador, ou mesmo de inócua fantasia. Carregai-o, portanto, e preparai a brincadeira. Ponde-o com jeito em meu mais belo quarto, que adornareis com quadros mui lascivos; água cheirosa e quente na vazia cabeça lhe passai, e no aposento queimai lenha aromática, deixando cheiroso todo o ambiente. Arranjai música logo que ele acordar, para que toadas possa ouvir agradáveis e divinas. E, se acaso falar, sede solícitos E com profunda e humilde reverência lhe perguntai: “Vossa Honra que deseja?” Um se apresente com bacia argêntea cheia de água de rosas em que pétalas donosas sobrenadem; o jarro outro sustente; o guardanapo, enfim, terceiro, que lhe perguntará: “Vossa Grandeza não quer lavar as mãos?” Vestes custosas tenha alguém prestes, para perguntar-lhe que muda ele prefere; outro lhe fale de seus cavalos e dos cães de caça, e lhe diga que a esposa ainda lastima sua infelicidade, convencendo-o de que esteve lunático. E se acaso declarar seu estado verdadeiro, dizei que está sonhando, pois, de fato, ele é um nobre importante. Fazei isso, gentis senhores, sim, porém, com jeito. Passatempo será muito agradável, se discrição souberdes ter em tudo.
PRIMEIRO CAÇADOR – Garanto-vos, milorde, que sairemos bem do nosso papel, sendo certeza vir ele a convencer-se, tão-somente por nossa diligência, de que é tudo quanto lhe sugerirmos.
NOBRE – Levantai-o com bem jeito e na cama o ponde logo. E quando despertar, todos a postos
(Sly é carregado. Toque de trombeta.)
Rapaz, vai logo ver o que esse toque de trombeta anuncia.
(Sai um criado.)
Com certeza é algum fidalgo que se encontra em viagem e se deteve aqui para descanso.
(Volta o criado.)
Então, que é que há?
CRIADO – Com permissão de Vossa Senhoria, os atores, que oferecem a Vossa Honra os serviços.
NOBRE – Manda-os vir.
(Entram comediantes.)
Amigos, sois bem-vindos.
COMEDIANTES – Obrigados ficamos a Vossa Honra.
NOBRE – É intenção vossa passar a noite aqui?
UM COMEDIANTE – Caso Vossa Honra se digne de aceitar nossos serviços.
NOBRE – De todo o coração. Ainda me lembro deste rapaz, quando representava de filho de rendeiro.
Era na peça em que a corte fazíeis gentilmente a uma senhora nobre. Vosso nome já me esqueceu; mas é certeza: dita foi vossa parte com bastante engenho e naturalidade.
UM COMEDIANTE – Vossa Graça decerto pensa no papel de Soto.
NOBRE – Perfeitamente! E tu o representaste por maneira admirável. Bem; chegaste na hora precisa, tanto mais que tenho já iniciado um desporto em que vossa arte muito útil me será. Há aqui um nobre que esta noite deseja ver alguma peça do vosso elenco. Mas receio que não possais guardar a compostura à vista da atitude extravagante de Sua Senhoria, por ser certo que Sua Honra jamais foi ao teatro, o que explosão de riso vos causara, podendo isso ofendê-lo. Pois vos digo, senhores, que se rirdes, ele torna-se impaciente a valer.
UM COMEDIANTE – Nenhum receio vos cause isso, milorde; saberíamos conter-nos, muito embora se tratasse do mais risível ser que acaso exista.
NOBRE – Recolhe-os tu à copa, dando a todos bom tratamento, sem que lhes faleça coisa nenhuma do que houver em casa.
(Sai um criado com os comediantes.)Shakespeare.

A tempestade.


Uma história de dor e reconciliação - Última peça escrita por Shakespeare, A tempestade é Uma história de vingança, é uma história de amor, é uma história de conspirações oportunistas, e é uma história que contrapõe a figura disforme, selvagem, pesada dos instintos animais que habitam o homem à figura etérea, incorpórea, espiritualizada de altas aspirações humanas, como o desejo de liberdade e a lealdade grata e servil.


Uma Ilha é habitada por Próspero, Duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, que para lá foram levados à força, num ato de traição política. Próspero tem a seu serviço Caliban, Um escravo EM terra, homem adulto e disforme, e Ariel, o espírito servil e assexuado que pode se metamorfosear em ar, água ou fogo.

Os poderes eruditos e mágicos de Próspero e Ariel combinam-se e, depois de criar um naufrágio, Próspero coloca na Ilha seus desafetos (no intuito de levá-los à insanidade mental) e um príncipe, noivo em potencial para a filha. Se o amor acontece entre os dois jovens, se a vingança de Próspero é bem-sucedida, se Caliban modifica-se quando conhece os poderes inebriantes do vinho numa cena cômica com outros dois bêbados, tudo isso Shakespeare nos revela no enredo desta que por muitos é considerada sua obra-prima . Shakespeare.

sábado, 23 de abril de 2011

A Páscoa no mundo.


Bélgica e França.
Nesses países, os sinos das igrejas não tocam entre a Sexta-Feira da Paixão e o Domingo de Páscoa. Diz a lenda que os sinos voam para Roma até a Páscoa e, no caminho de volta, deixam cair ovos, que as crianças devem encontrar. As crianças belgas fazem ninhos de palha e os escondem na grama, esperando que o coelho da Páscoa os encha de ovos.

Bulgária.
Os búlgaros colorem ovos cozidos na Quinta-Feira Santa, após a missa. Os pães pascais também são uma tradição muito forte: podem ser pequenos ou grandes, mas sempre decorados. O pão é chamado "kolache" ou "kozunak". Seu sabor é semelhante ao do panetone brasileiro. Um desses desses pães é especialmente decorado incrustando-se ovos vermelhos nele (sempre em números ímpares) e levado à igreja na madrugada de sábado, para uma sequência de liturgias. Após esses eventos, os pães e ovos são abençoados e levados de volta para casa. Com esses alimentos presenteiam-se amigos turcos da família (que se sentem muito honrados e retribuem com dinheiro), os chamados pais espirituais (padrinho e madrinha), pais biológicos e todos os outros parentes e amigos.

Os ovos são quebrados após a missa da meia-noite e durante os próximos dias. Um dos ovos é quebrado na parede da igreja (e esse é o primeiro ovo a ser comido após o jejum de Quaresma). Outro ritual, o da quebra de ovos, acontece após o almoço de Páscoa. Cada pessoa escolhe um ovo e, então, cada um a sua vez, bate seu ovo contra o dos outros. Aquele que ficar com o seu ovo inteiro por último terá um ano de sorte.

Estados Unidos.
A atividade mais comum nos Estados Unidos é a caça ao ovo de Páscoa. Os ovos cozidos, decorados com tintas, são escondidos e as crianças devem encontrá-los. Em comunidades menores, as crianças da cidade se reúnem em praças para encontrar os ovos, escondidos por todo lugar.

A Páscoa na Casa Branca, sede do governo norte-americano, reúne pessoas de todo o país. A tradição vêm do início da década de 1870, quando crianças brincavam, durante a Páscoa, no gramado do Capitólio, em Washington D.C. Elas levavam seus ovos cozidos e os rolavam na grama para ver quem conseguia mandar o ovo mais longe. Em 1877, uma lei proibiu a atividade, mas o presidente Rutherford Hayes, em 1878, liberou o gramado sul da Casa Branca para a rolagem de ovos.

Hoje, o evento (gratuito) tem ingressos colocados à disposição de crianças entre 3 e 6 anos, acompanhadas dos pais, que participam de diversas brincadeiras em volta da Casa Branca, até seu momento de rolar ovos no gramado.

Índia.
Os hindus têm um festival chamado Holi. É o momento em que toda a população de religião hindu reúne-se para lembrar, dançando e tocando flautas, como o deus Krishna apareceu. Comidas especiais são feitas para a ocasião e todos visitam seus amigos, experimentando as comidas de cada um. É costume também que o dono da casa marque a testa de seus convidados com um pó colorido.

México.
Nesse país é popular a "malhação de Judas", o apóstolo que traiu Jesus. Ao meio-dia do Domingo de Páscoa, bonecos representando Judas são socados, enforcados e queimados. Em algumas cidades, Judas também é representado por uma piñata, um jarro cheio de doces que as crianças devem tentar quebrar, espalhando doces para todos os presentes.

Oriente Médio.
A cerimônia do lava-pés é um dos pontos altos da comemoração. Na Quinta-Feira Santa, os padres convidam mendigos a entrar e lavam seus pés e lhes dão presentes, para lembrar o ato de Jesus Cristo.

Suécia.
OS casamentos e batizados nessa época é considerado inapropriado. Mas esse quadro, aos poucos, vem mudando: já há alguns anos os cinemas estão abrindo na Sexta-Feira da Paixão. Devido ao clima do país, as palmas do Domingo de Ramos costumam ser substituídas por ramos de salgueiro. De tão ligada a essa liturgia, a folha de salgueiro ficou conhecida como "palma" pelos suecos.

As tradições pascais da Suécia e de outros países escandinavos lembram muito o Halloween norte-americano. Na Quinta-Feira Santa ou na véspera da Páscoa, as crianças suecas vestem-se como bruxos e visitam seus vizinhos, deixando um cartão decorado (a "carta de Páscoa") e esperando receber um doce ou dinheiro em troca.

Esse costume tem origem numa lenda local, que dizia que durante a Páscoa, a atividade de bruxas e bruxos crescia muito. A tradição das "cartas" é especialmente difundida no oeste da Suécia, onde também é costume colocar essas cartas nas caixas de correios ou por debaixo das portas sem ser visto. A identidade de quem enviou o cartão é sempre secreta. Os suecos também entregam ovos cozidos decorados durante a Páscoa, mas nem de longe tão elaborados como em outros países da Europa.

domingo, 17 de abril de 2011

A PÁSCOA E SEUS SÍMBOLOS.


O nome páscoa surgiu a partir da palavra hebraica "pessach" ("passagem"), que para os hebreus significava o fim da escravidão e o início da libertação do povo judeu (marcado pela travessia do Mar Vermelho, que se tinha aberto para "abrir passagem" aos filhos de Israel que Moisés ia conduzir para a Terra Prometida).
Ainda hoje a família judaica se reúne para o "Seder", um jantar especial que é feito em família e dura oito dias. Além do jantar há leituras nas sinagogas.

Para os cristãos, a Páscoa é a passagem de Jesus Cristo da morte para a vida: a Ressurreição. A passagem de Deus entre nós e a nossa passagem para Deus. É considerada a festa das festas, a solenidade das solenidades, e não se celebra dignamente senão na alegria.
Em tempos antigos, no hemisfério norte, a celebração da páscoa era marcada com o fim do inverno e o início da primavera. Tempo em que animais e plantas aparecem novamente. Os pastores e camponeses presenteavam-se uns aos outros com ovos.
OVOS DE PÁSCOA.

De todos os símbolos, o ovo de páscoa é o mais esperado pelas crianças.
Nas culturas pagãs, o ovo trazia a idéia de começo de vida. Os povos costumavam presentear os amigos com ovos, desejando-lhes boa sorte. Os chineses já costumavam distribuir ovos coloridos entre amigos, na primavera, como referência à renovação da vida.
Existem muitas lendas sobre os ovos. A mais conhecida é a dos persas: eles acreditavam que a terra havia caído de um ovo gigante e, por este motivo, os ovos tornaram-se sagrados.

Os cristãos primitivos do oriente foram os primeiros a dar ovos coloridos na Páscoa simbolizando a ressurreição, o nascimento para uma nova vida. Nos países da Europa costumava-se escrever mensagens e datas nos ovos e doá-los aos amigos. Em outros, como na Alemanha, o costume era presentear as crianças. Na Armênia decoravam ovos ocos com figuras de Jesus, Nossa Senhora e outras figuras religiosas.
Pintar ovos com cores da primavera, para celebrar a páscoa, foi adotado pelos cristãos, nos século XVIII. A igreja doava aos fiéis os ovos bentos.

A substituição dos ovos cozidos e pintados por ovos de chocolate, pode ser justificada pela proibição do consumo de carne animal, por alguns cristãos, no período da quaresma.
A versão mais aceita é a de que o surgimento da indústria do chocolate, em 1830, na Inglaterra, fez o consumo de ovos de chocolate aumentar.
COELHO.
O coelho é um mamífero roedor que passa boa parte do tempo comendo. Ele tem pêlo bem fofinho e se alimenta de cenouras e vegetais. O coelho precisa mastigar bem os alimentos, para evitar que seus dentes cresçam sem parar.
Por sua grande fecundidade, o coelho tornou-se o símbolo mais popular da Páscoa. É que ele simboliza a Igreja que, pelo poder de cristo, é fecunda em sua missão de propagar a palavra de Deus a todos os povos.
CORDEIRO.

O cordeiro é o símbolo mais antigo da Páscoa, é o símbolo da aliança feita entre deus e o povo judeu na páscoa da antiga lei. No Antigo Testamento, a Páscoa era celebrada com os pães ázimos (sem fermento) e com o sacrifício de um cordeiro como recordação do grande feito de Deus em prol de seu povo: a libertação da escravidão do Egito. Assim o povo de Israel celebrava a libertação e a aliança de Deus com seu povo.
Moisés, escolhido por Deus para libertar o povo judeu da escravidão dos faraós, comemorou a passagem para a liberdade, imolando um cordeiro.
Para os cristãos, o cordeiro é o próprio Jesus, Cordeiro de Deus, que foi sacrificado na cruz pelos nossos pecados, e cujo sangue nos redimiu: "morrendo, destruiu nossa morte, e ressuscitando, restituiu-nos a vida". É a nova Aliança de Deus realizada por Seu Filho, agora não só com um povo, mas com todos os povos.

CÍRIO PASCAL.
É uma grande vela que se acende na igreja, no sábado de aleluia. Significa que "Cristo é a luz dos povos".
Nesta vela, estão gravadas as letras do alfabeto grego"alfa" e "ômega", que quer dizer: Deus é princípio e fim. Os algarismos do ano também são gravados no Círio Pascal.
O Círio Pascal simboliza o Cristo que ressurgiu das trevas para iluminar o nosso caminho.
GIRASSOL.
O girassol é uma flor de cor amarela, formada por muitas pétalas, de tamanho geralmente grande. Tem esse nome porque está sempre voltado para o sol.
O girassol, como símbolo da páscoa, representa a busca da luz que é Cristo Jesus e, assim como ele segue o astrorei, os cristãos buscam em Cristo o caminho, a verdade e a vida.


PÃO E VINHO.
O pão e o vinho, sobretudo na antiguidade, foram a comida e bebida mais comum para muitos povos. Cristo ao instituir a Eucaristia se serviu dos alimentos mais comuns para simbolizar sua presença constante entre e nas pessoas de boa vontade. Assim, o pão e o vinho simbolizam essa aliança eterna do Criador com a sua criatura e sua presença no meio de nós.
Jesus já sabia que seria perseguido, preso e pregado numa cruz. Então, combinou com dois de seus amigos (discípulos), para prepararem a festa da páscoa num lugar seguro.
Quando tudo estava pronto, Jesus e os outros discípulos chegaram para juntos celebrarem a ceia da páscoa. Esta foi a Última Ceia de Jesus.
A instituição da Eucaristia foi feita por Jesus na Última Ceia, quando ofereceu o pão e o vinho aos seus discípulos dizendo: "Tomai e comei, este é o meu corpo... Este é o meu sangue...". O Senhor "instituiu o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar assim o Sacrifício da Cruz ao longo dos séculos, até que volte, confiando deste modo à sua amada Esposa, a Igreja, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que se come Cristo, em que a alma se cumula de graça e nos é dado um penhor da glória futura".
A páscoa judaica lembra a passagem dos judeus pelo mar vermelho, em busca da liberdade.
Hoje, comemoramos a páscoa lembrando a jornada de Jesus: vida, morte e ressurreição.

Colomba Pascal.
O bolo em forma de "pomba da paz" significa a vinda do Espírito Santo. Diz a lenda que a tradição surgiu na vila de Pavia (norte da Itália), onde um confeiteiro teria presenteado o rei lombardo Albuíno com a guloseima. O soberano, por sua vez, teria poupado a cidade de uma cruel invasão graças ao agrado.


SINO.
Muitas igrejas possuem sinos que ficam suspensos em torres e tocam para anunciar as celebrações.
O sino é um símbolo da páscoa. No domingo de páscoa, tocando festivo, os sinos anunciam com alegria a celebração da ressurreição de cristo.
Quaresma.
Os 40 dias que precedem a Semana Santa são dedicados à preparação para a celebração. Na tradição judaica, havia 40 dias de resguardo do corpo em relação aos excessos, para rememorar os 40 anos passados no deserto.
Óleos Santos.
Na antiguidade os lutadores e guerreiros se untavam com óleos, pois acreditavam que essas substâncias lhes davam forças. Para nós cristãos, os óleos simbolizam o Espírito Santo, aquele que nos dá força e energia para vivermos o evangelho de Jesus Cristo. F.P.A vitória da Páscoa, Georges Chevrot, Editora Quadrante, São Paulo, 2002

quinta-feira, 14 de abril de 2011

As Tribos Urbanas.

A tribo é uma forma de organização da sociedade primitiva. A expressão "tribos urbanas" refere-se a grupos de juvenis, que se identificam por motivos diversos, e que assumem características que os tornam fáceis de identificar: o modo de vestir, os adornos, os gostos musicais, etc. Andam em grupo, assumem por vezes comportamentos de risco e conduta violenta, mesmo associada ao consumo de drogas. O seu comportamento reproduz muitos traços comparáveis com os da infância da humanidade, como seja a incapacidade para o domínio dos impulsos instintivos – agressivos e libidinais – e certas práticas rituais. Vamos ver algumas das últimas.

Rito – Cerimonial.

Um rito, ou um ritual, é um conjunto de gestos e actos, individuais ou colectivos, realizados em tempo e lugar próprio. Incluem certas fórmulas que possuem uma eficácia de ordem simbólica ou real. Todos os ritos têm uma componente física e verbal.

Os baptizados e os casamentos, por exemplo, são momentos ritualistas muito conhecidos. Segundo as nossas tradições, devem realizar-se em determinados momentos para assinalar acontecimentos de relevo e de acrescida responsabilidade. O baptismo é o protótipo da iniciação cristã. Parece ter origem no baptismo dos prosélitos judeus e estava dividido em três partes. Na primeira, fazia-se interrogatório preliminar, em que se apelava para as dificuldades que ia sofrer. Se, depois disso, ainda queria entrar no judaísmo, passava pelo rito da circuncisão, mesmo que já tivesse sido circuncidado noutra religião, e depois pelo do baptismo.

O rito do casamento desenvolve-se de modo verdadeiramente interessante. Convém recordar alguns termos que ampliarão o seu entendimento. Tudo quanto se diga sobre a busca nupcial na humanidade primitiva ou, melhor, como foi a procura da mulher, fora do clã ou da tribo, não passa de conjectura mais ou menos fantasiosa. Tirados os casos, aliás frequentes, do rapto e de "presas de guerra", as formas mais pacíficas de obtenção de mulher podiam ser várias: a compra ou troca (coemptio), e a convenção festiva celebrada num repasto (conferreatio), que é a origem das bodas actuais. E não falaremos do usus dos Romanos, que nos nossos tempos medievais era designado por "pública fama", por não ser forma de conseguir mulher, mas a de consagrar uma situação já criada.

A "família" constitui-se a partir do casamento (de casa). A casa forma-se com o matrimónio, de matrimonium + patrimonium: a mulher-mãe mais os bens do marido. O casamento celebra-se por meio das núpcias, que é a cerimónia ritual do matrimónio. O noivo e a noiva são os "nubentes", aqueles que celebram as núpcias e, segundo o uso, o noivado começa a contar-se a partir do acto do pedido de casamento. Em linguagem mais correcta deverão designar-se, antes, por "esposos" – sponsus, sponsa: os prometidos em casamento. O pedido de casamento é o "desposório", a sponsalia dos Romanos. Muitas vezes estipulava-se neles o dote, ou "arras", para garantia de sobrevivência da mulher em caso de viuvez.

Consumado o casamento, os noivos transformam-se em marido e mulher, o maritus e a marita ou mulier (mulher maridada) em latim, que é o oposto a virgo, a virgem, e preparam-se para ascender ao grau superior de paterfamilias e de mater: de pai e de mãe. Considera-se hoje o casamento um contrato e ao mesmo tempo um sacramento, mas na forma externa, os seus ritos variavam conforme os locais e neles descobrem-se ressaibos simbólicos do rapto primitivo ou da transacção entre o pretendente e o chefe da família.

O aparelho mágico e religioso que tem envolvido o acto nupcial, a concepção e o nascimento, é o símbolo de que os homens se servem para atenuar a "violência" biológica da consumação que faz da donzela uma "mulher maridada", como diziam os antigos na sua extraordinária pureza vocabular.

Quer do ponto de vista da sociologia da família, como da antropologia do amor, o rito do casamento é um meio para desenvolver a reflexão sobre a espiritualidade do amor e da ética matrimonial.

Dito isto, voltemos ao nosso tema para analisar a origem dos ritos agora associados ao nosso calendário folclórico e religioso. Ao estudar os conteúdos latentes em todos estes festejos, pode ver-se claramente o fundo ritualístico anterior às medidas proibitivas dos primeiros tempos do cristianismo.

Estes ritos serviam para assinalar datas importantes associadas aos ciclos cósmicos e agrários, e contribuíam para a compreensão do mundo e das suas relações com as divindades protectoras da fertilidade, da Terra e dos homens.

Tinham nos solstícios do Inverno (Dezembro) e do Verão (Junho) e nos equinócios da Primavera (Março) e do Outono (Setembro), o seu ponto alto, quando se representava, de modo teatral, a vida quotidiana articulada com o mito, o rito e a exaltação colectiva.

Os ritos actuais mais conhecidos, que são restos de práticas das antigas hierofanias em homenagem ao Sol, que o cristianismo não conseguiu abolir, e que, por isso; os integraram na hagiografia, celebram-se no Natal (solstício de Inverno), na Páscoa (equinócios da Primavera) e no "mês dos santos", por ocasião do solstício de Verão: Santo António, S. João e S. Pedro. Esquecida a sua matriz original, permanece ainda a sua função de renovar a ordem social e refazer os laços sociais, e porque não as bases para o desenvolvimento de uma promissora indústria cultural. Vamos agora falar de um pouco dos ritos da puberdade, ou da adolescência, para rectificação de alguns conceitos e nova iluminação de alguns outros aspectos.

Ritos da Adolescência.

Ainda hoje a cultura juvenil assinala a entrada na idade adulta. A Festa dos Rapazes, que se realiza todos ao anos na região de Bragança, entre 24 de Dezembro e 6 de Janeiro, é um exemplo conhecido do cerimonial de admissão do jovem na vida comunitária dos adultos. Participam na festa rapazes com idade próxima dos 14 anos. É a idade da puberdade, quando desperta o corpo de desejos ou emocional, capacitando o jovem para a propagação e a assunção das suas responsabilidades na vida social. Diga-se de passagem que, no antigo direito, os esponsais celebravam-se a partir dos 7 anos, sendo possível reclamar-se atingida a puberdade. Sabemos bem como é importante a harmonia deste primeiro período septenário no desenvolvimento harmonioso da criança, em que o veículo vital intensifica a sua actividade para impulsionar o crescimento do corpo físico.

Na fase final da festa, depois da "ronda das boas-festas", que percorre a aldeia para recolha de presentes, chega o momento alto com a realização do baile, que tem implícito o consentimento social pela aproximação do sexo oposto.

O instituto humano do casamento é também um instituto iminentemente social. Por si mesmo é um paradigma da sociedade que existe e se desenvolve no âmbito de uma sociedade maior. A família faz-se gens; a gens, tribo; a tribo, Urbs – a Cidade, o Estado. A natureza social da família vem-lhe da sua essência "conjugal"; a política, das suas relações com outras famílias vizinhas. As consequências típicas e imediatas de uma sociedade de pai e mãe reflectem-se nos filhos.

Os pais, antes de entregarem os filhos já criados à sociedade – no baile – que é o rito final da Festa dos Rapazes, preparam-nos, educando-os e instruindo-os. O baile é o prenúncio do encontro conjugal, que é o acto primário relevante da sociabilidade, provocado pela força atractiva dos esposos que se unem para fazerem da sua oposição uma unidade. Na Antiguidade Clássica, os ritos de núpcias celebravam-se em três fases distintas. A primeira realizava-se junto do fogo sagrado do lar, para desligar a filha da religião doméstica dos antepassados. A noiva era coberta com um véu e usava uma coroa de flores. Na segunda fase, havia um cortejo acompanhado de um facho, com o fogo sagrado. Na terceira, às portas da casa do futuro marido, celebrava-se um ritual mímico, em que o fogo volta a desempenhar uma função importante. Viriato celebrou assim o seu casamento, à maneira grega, como nos contam os historiadores. Mas outros povos tinham diferentes usos, em que aflora o primitivo animismo para impetrar ajuda das forças ocultas. As tatuagens, excisões, incisões e mutilações eram – e ainda são – supostos meios para atingir esses fins.

Tatuagens e Mutilações.

A Festa dos Rapazes, como rito típico da adolescência que ficou assimilada à festa do santo padroeiro, S. Estêvão, realiza-se num ambiente de grande exuberância e exaltação festiva, liberta já, ao que parece, de práticas sádicas da horda primitiva. A relação entre a festa, o jogo, o sentimento religioso, o rito e os mistérios sagrados ficou demonstrada por Huizinga. Não é possível, na maior parte dos casos, traçar a fronteira ente o ambiente de divertimento e a emoção pelo mistério central. A festa constitui-se, assim, um componente do rito, um acto que se destina a facilitar a aceitação do seu conteúdo doloroso.

As sociedades civilizadas conservam costumes religiosos e normas éticas baseadas em prescrições associadas aos antigos mitos e respectivos rituais, ligados aos acontecimentos fundamentais da vida.

Na história da humanidade antiga, e em especial nas civilizações da Ásia Menor e do Mediterrâneo, encontram-se práticas com fundamentos religiosos ou sancionadas pelo costume, em que os pais se unem, como cúmplices, para impor ao filho um "sinal particular" característico, ou até para o sacrificar.

Em tais sociedades, não bastava alcançar a idade viril para se fazer parte da sociedade dos adultos. O direito a esta nova dignidade não se conferia sem participar em rituais adequados. Procedia-se então à cerimónia que promovia a esse estádio social. No contexto dos costumes religiosos destaca-se, pela sua universalidade, a prática das mutilações e das tatuagens.

A mutilação mais visível é a perfuração (piercing) das orelhas para colocação de brincos; mas também se perfuram os lábios, língua, sobrancelhas, septo nasal, etc. Das mutilações genitais1, a mais comum é a circuncisão. A prescrição religiosa de circuncidar os filhos varões alcançou uma importância tão grande que o Papa Gregório XIII inscreveu a celebração da "festa da circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo" no dia 1 de Janeiro, que é o primeiro do seu calendário, adoptado universalmente.

Nos ritos mutilatórios femininos, que são quase tão difundidos quanto os rituais masculinos, os costumes tribais também submetem as jovens a excisões e incisões. A infibulação, tal como é praticada em África, é a mais cruel das mutilações genitais femininas. É uma tradição que tem o efeito imediato de despertar a repugnância e a rejeição de todas as pessoas medianamente desenvolvidas.

Os efeitos profiláticos destes ritos são nulos, segundo a maior parte dos autores, e revelam completa indiferença pelos danos psíquicos decorrentes. Todas estas mutilações são mais frequentes nas culturas orientais e africanas do que nas ocidentais. Em Portugal deixou de praticar-se a circuncisão por ser um corpus delicit muito grave aos olhos da Inquisição. Mas este preceito, que era necessário para entrar na aliança de Abraão, já não é observado, mesmo sem as antigas restrições. Nem mesmo em grande parte das comunidades israelitas da América, como se depreende da correspondência trocada entre o eminente cientista judeu Moisés Tractemberg e o antigo Primeiro-Ministro Israelita David ben Gurion.

Na tatuagem, abrem-se no corpo do jovem diversos golpes: na cabeça, braços ou barriga. O corpo do famoso Homem do Gelo, que foi encontrado quase intacto por alpinistas, nos Alpes italianos, em 1991, conservado pelas baixas temperaturas, é a múmia mais antiga e bem conservada descoberta até hoje: tem 5000 anos. Apresenta nitidamente diversas tatuagens nas costas, ao longo da coluna vertebral. Também se encontraram múmias do Antigo Egipto tatuadas.

No continente africano a tatuagem tem uma variante: como a pele negra dos indígenas não permite o uso de pigmentos para o desenho das figuras, recorre-se ao processo da escarificação epidérmica, que consiste, na maior parte dos casos, em friccionar as incisões com cinza, para deter o sangue; e depois com ervas amargas de certas espécies vegetais, para que a ferida deixe fortes cicatrizes ao sarar. Por vezes, os dentes incisivos médios são limados de modo que formem uma abertura triangular. Estes ritos consumavam a entrada do jovem na sociedade dos adultos. Acredita-se também que eles conferiam aptidões especiais, e até a sorte.

A experiência da dor parece ter exercido uma função importante na formação da identidade cultural dos povos. A serenidade com que os jovens suportavam o seu martírio mostra bem como o limiar da dor é variável para cada cultura, como assinala Max Heindel.

Conclusão.

A crescente globalização da sociedade deu origem a um movimento contrário de reacção, de contracultura, que é particularmente visível em diversos grupos juvenis, incluindo os que denominamos de "tribos urbanas". Este movimento de contracultura é particularmente evidente a partir dos anos 50, em pleno pós-guerra, e tem as suas raízes históricas na cidade de S. Francisco, nos Estados Unidos2. Quase todos estes grupos adoptam comportamentos típicos orientado para a exacerbação, experimentação ou superação de normas ou convenções, muitas vezes associados a comportamentos de risco.

Esta maneira de agir deve-se, por via de regra, à intensificação emocional provocada pela suspensão das inibições socialmente instauradas. O consumo de drogas, provenientes de um vasto arsenal de substâncias farmo-químicas, e o recurso a expressões musicais fortemente rítmicas, contribuem para levar o corpo aos limites da resistência física e sensorial. A efervescência colectiva assume aspectos semelhantes aos dos ritos orgiásticos das possessões tribais. A linguagem empobrece porque se privilegia a expressão física. Tudo se resume à procura da sensação hedonista do "sentir-se bem".

A negação da dor e o consequente abandono de práticas mutilatórias marcam, na história da humanidade antiga, o início da desagregação interna da sua cultura, incluindo a componente mágico-religiosa, por influência o impulso civilizador do progresso. Na Bíblia, a proibição do Dt 14, 1-2 e do Lev 19, 27-28, surge na tentativa de pôr termo ao vínculo com os deuses antigos das nações tribais. O recrudescimento de práticas mutilatórias e da tatuagem, associadas a ritos antigos, ocorre hoje em algumas culturas juvenis. A solidariedade grupal exigida aos seus elementos, ociosos, sem origem nem destino, sem terem sequer a velha espiritualidade da sociedade que rejeitam, torna instáveis estas colectividades em que a nota característica é a transitoriedade e o imediatismo das suas preocupações fundamentais e a inexistência de projectos racionais para o futuro. No seu universo de referências associam-se vários traços que os ligam ao passado, mas não há esforço algum para esclarecer os principais dinamismos que estão na sua origem. Aceitam-nos como simples compulsões inconscientes associadas a pontos de vista estéticos capazes de modificar a aparência física – ou por razões emblemáticas distintivas do grupo
Bibliografia

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Camphausen, Rufus C.; Return of the Tribal; Park Street Press; Vermont, 1997.
Guerreiro; Manuel Viegas; Bochimanes; Junta de Investigações do Ultramar; Lisboa, 1968.
Guinzburg, Carlo; Os Andarilhos do Bem: Feitiçaria e Cultos Agrários nos Séculos XVI e XVII; Companhia das Letras; S. Paulo, 1988.
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Huizinga, Johan; Homo Ludens, Ed. Perspectiva; S. Paulo, 1999.
Lazlo, M.D., Andras E.; Doctors, Drums and Dancers; Robert Hale, Ld.; Londres, 1956
Sokovieds, V. F.; Magia Negra e Magia Branca, Ed. Inova, Ldª, Porto, 1968.
Weber, Max; A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo; Ed. Presença; Lisboa 2001.