contos sol e lua

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domingo, 6 de setembro de 2015

FORÇA INTERNA AUXILIAR DA CURA.

FORÇA INTERNA AUXILIAR DA CURA Pelo poder da VONTADE nós projetamos uma idéia através da mente, tomando ela forma concreta como pensamento-forma ao atrair da Região do Pensamento Concreto a matéria mental com que então se reveste”. (Conceito Rosacruz do Cosmos”). A mente humana, portanto, quando dirigida positivamente pelo Espírito, pode alcançar grandes coisas continuamente em todas as fases da vida. Assim, uma atitude mental construtiva, criativa, é a chave de nossos poderes internos de fortaleza, saúde, coragem e equilíbrio. O pensamento é considerado como força e energia, poderosa para o bem ou para o mal, como também o é a intangível força conhecida como eletricidade. Daí precisarmos ter muito cuidado ao lidar com os nossos processos mentais quando desejamos determinados resultados. Pensamentos são coisas, e todo pensamento que formamos torna-se parte de nossa aura mental e de nossa vida. Pensamentos criadores, individuais e coletivos, produzem tudo o que do esforço humano é útil, belo e de valor duradouro na vida para a saúde e para o progresso das pessoas. Por conseguinte, pensar e viver retamente produz saúde, felicidade e prosperidade, e encoraja a transmutação de qualquer mal que nos aflija. Por outro lado, hábitos destrutivos de pensar reagem desfavoravelmente sobre o organismo físico, criando condições doentias e infelizes nas vidas e nos negócios das pessoas. Indivíduos que se permitem pensamentos negativos têm todas as probabilidades de serem vencidos pelo mal. Aquele que se encontra enfermo, fraco e aflito, independentemente dos sintomas que apresente, deve formar uma imagem mental da perfeição e saúde físicas que deseje para viver mais abundantemente. Deve condicionar sua mente para visualizar saúde enquanto, obviamente, esteja sofrendo por alguma doença. Isso é razoável e lógico porque a doença se deve principalmente a conceitos mentais errôneos e a reações emocionais indevidas. Como toda a humanidade começa a ter uma mais ampla compreensão, apreciação e utilização das potencialidades ocultas e poderes da mente humana, em virtude dos atuais e crescentes meios de comunicação e informação, a vida de um também crescente percentual de pessoas em todo o mundo deve mudar para melhor “A Vida não espera de nós sacrifícios inatingíveis, ela apenas pede que façamos nossa jornada com alegria em nosso Coração e para ser uma benção para todos aqueles que nos rodeiam. Se nós fazemos o mundo melhor com a nossa visita, então nós cumprimos a nossa missão.” Dr. Edward Bach

OS MISTÉRIOS, DE GOETHE.

Trad. Raul Guerreiro I Uma magnífica balada vos está reservada; Com agrado a escutai, e a todos conclamai! Por vales e montanhas a vereda avança; Aqui a visão se limita, ali outra vez se liberta, E se a senda de manso se embrenha na mata, Não imaginai que se trata de engano; O que queremos, após o bastante subirmos, É em boa hora nos acercarmos da meta. II Mas não creia alguém que à custa de reflectir Poderá um dia decifrar por inteiro esta balada: Muita gente deverá aqui imenso ganhar, Pois variegados frutos tem a terra-mãe a oferecer; Uns há que, de olhar sombrio, se afastam daqui, Enquanto outros, de ânimo alegre, se deixam ficar: Goze assim cada um segundo o seu prazer, Para alguns peregrinos a fonte deverá brotar. III Fatigado da longa e penosa jornada, Que ele por elevado impulso encetara, De bastão na mão, a modos de peregrino devoto, Chegou o irmão Marcus, por rumos erradios E carente de algo comer e beber, Num fim-de-tarde ameno a um vale, Desejoso de naqueles baixios arborizados Encontrar um tecto acolhedor onde pernoitar. IV No monte escarpado que se depara à sua frente, Crê entrever os vestígios de um caminho; Segue então o sendeiro, que em curvas avança, Tendo que contornar rochedos para poder subir; Em breve se encontra elevado sobre o vale, Enquanto o Sol de novo o alumia com afável luz, E em breve ele avista, com íntima satisfação, O cimo do monte ao alcance do seu olhar. V E ao seu lado o Sol, que no seu declínio Reina ainda esplêndido entre nuvens obscuras; Ele reúne forças para conseguir galgar ao topo, Onde espera ver em breve a sua faina compensada. "Ora bem", diz ele de si para si, "já devia se mostrar, Se vive pelas cercanias qualquer coisa de humano!" Após subir, põe-se à escuta e sente-se como renascido, Conforme um repique de sinos alcança os seus ouvidos. VI E depois de atingir o pináculo máximo, Ele avista um vale próximo, suavemente ondulado. O seu olhar calmo reluz de satisfação; Pois defronte à mata ele de súbito divisa Um esbelto edifício erigido na campina verde. Agora mesmo o último raio de Sol o veio beijar: Rápido ele cruza os prados humedecidos de orvalho, Rumo ao mosteiro, cuja luz vem ao seu encontro. VII Em breve ele se encontra junto desse lugar sereno, Que inunda o seu espírito de paz e esperança, E sobre a ogiva do portão cerrado Vislumbra um misterioso ornato. Ele pára e cisma, murmurando as palavras De devoção que em seu coração arqueja, E põe-se a reflectir: "O que quer isto significar?" Baixa agora o Sol e extingue-se o som de sinos. VIII Ele avista aquele símbolo majestosamente erigido, Aquele conforto e esperança para o mundo inteiro, Em nome do qual espíritos aos milhares se prometeram E corações aos milhares com ardor suplicaram, O qual o poder da amargosa morte aniquilou, E em tantos pendões triunfais vai ostentado: Um novo alento revivesce os membros fatigados, Enquanto os olhos baixa, após avistar a cruz. IX De novo ele sente a redenção que daí irrompeu, E sente em si próprio a fé de meio mundo; Mas eis que um novo sentido lhe invade a alma, Perante a cena que aos seus olhos se oferece: Rosas abraçam em profusão a cruz! Quem terá à cruz rosas acrescentado? A coroa parece vicejar de todos os lados Como que a trazer brandura ao rude madeiro. X Nuvens ténues e argênteas pairam no céu, Alteando-se com rosas e cruz nos ares, E do centro irrompem, qual vida sagrada, Três raios de luz, de um só ponto irradiados; Não há palavra alguma a acompanhar esta cena, Que possa trazer sentido e clareza ao mistério. À luz do crepúsculo cada vez mais ensombrado Ele põe-se de pé, medita e sente-se edificado. XI Ele bate por fim à porta, conforme as estrelas Já elevadas lançam sobre ele o seu luzidio olhar. Abre-se a porta e ele é recebido com alegria, Com braços abertos, com mãos distendidas. Ele diz então de onde vem, de que distante lugar Os desígnios de entes superiores o enviaram. Todos o escutam e pasmam. Honram então o enviado, Tal como antes o visitante e estranho haviam honrado. XII Juntam-se depois os demais, ávidos também de ouvir, E sentem-se comovidos por misteriosa energia. Nenhum suspiro ousa o invulgar visitante disturbar, Pois cada palavra faz eco nos corações. O que ele tem a relatar age como profunda lição, Proferida com sabedoria por lábios infantis: Na franqueza e pureza com que se revela Ele mais parece um habitante de outra terra. XIII «Bem-vindo", exclama então um velho, "bem-vindo, Se consolo e esperança for o que a tua mensagem traz! Bem vês, que angústia nos assola a todos, Conquanto a nossa alma se deleite em te ver: Mas, ah! o mais belo tesouro nos será arrebatado, E assim vivemos mergulhados em receios e tormentos. Em grave hora os nossos muros te vêm acolher, Ó estrangeiro, para connosco também lamentar. XIV Pois, ah! o homem que todos aqui uniu, Esse que temos por pai, amigo e guia, Que foi pela vida abrasado com luz e coragem, Dentro em breve de nós se apartará, Apenas há pouco ele próprio o anunciou; Mas sobre o quando ou o como, nada nos revela: E assim, a certeza da sua partida é para nós Misteriosa e repleta de amargo sofrimento. XV Como vês, todos aqui já temos cabelos agrisalhados, Pois a natureza a nós próprios já ordena a descansar: Nunca aceitámos alguém que, no verdor dos anos, Tenha renunciado cedo demais o seu coração ao mundo. Após termos provado das alegrias e mágoas da vida, E conforme o vento as nossas velas já não insuflava, Permitido nos foi vir com honra aqui aportar, Consolados de um porto seguro descobrir. XVI Divina paz habita no peito desse homem, Esse nobre que aqui nos conduziu; Ao longo do sendeiro da vida o acompanhei, E bem vivos tenho na consciência os velhos tempos; As horas em que ele agora solitário se prepara, Anunciam-nos a perda que se aproxima. O que é o Homem? Por que pode ele a sua vida Assim deixar, e não doá-la a um melhor? XVII Esse seria portanto o meu único desejo! Por que devo abdicar de semelhante anseio? Quantos e quantos já partiram antes de mim! Mas só ele devo com mais amargura chorar. Oh, com que alegria ele outrora te receberia! Mas os encargos da casa já nos cedeu; Embora ninguém ainda tenha tomado a sucessão, Em espírito ele já de nós se apartou. XVIII Uma só breve hora diariamente vem ter connosco, Narrando coisas, e mais do que nunca se comovendo: Podemos então ouvir da sua própria boca, Quão maravilhosamente o guiou a Providência; A tudo atentamos, para que dessa revelação segura Nenhum pormenor se perca para a posteridade; Cuidamos até para que um de nós zelosamente tudo anote, E assim as suas memórias permaneçam puras e fiéis. XIX Com efeito, muita coisa preferiria eu próprio contar, Em vez de agora apenas permanecer quieto a ouvir; O menor detalhe não me deverá escapar, Pois tudo guardo ainda vivo na lembrança; Oiço atento, mas só a custo consigo dissimular, Que nem sempre estou satisfeito com tudo isso: Se alguma vez eu falar de todas essas cousas, Bem mais esplêndidas elas deveriam ressoar da minha boca. XX Eu, como terceiro, mais e livremente posso contar, Como um espírito mui cedo o anunciou à mãe, E como uma estrela, durante a celebração do seu baptismo, Resplendente se revelou no céu crepuscular; E também como um gavião, de asas distendidas, Veio pousar entre as pombas no pátio; Mas não cruel e desalmado, como de habitual, Mas sim como a convidá-las amenamente à concórdia. XXI Depois, ele ainda modestamente nos ocultou, Como enquanto criança subjugou a cobra, Que tinha encontrado enleada no braço da irmã, Envolvendo a adormecida em forte aperto. A ama havia fugido, abandonando o bebé; Com mão decidida ele esmagou a serpente, E chegando a mãe, admirou-se a tremer de alegria Com a façanha do filho, e a filha que vivia. XXII E também nos ocultou, como de uma rocha seca, Após tocada pela sua espada, uma fonte brotou, Rolando forte como uma ribeira, em ondas agitadas, Montanha abaixo até ao fundo do vale: Ainda hoje ela jorra tão forte e tão cintilante Como no instante em que irrompeu à sua frente, E os acompanhantes, que ao milagre assistiram, Nem ousaram matar a sede que os abrasava. XXIII Se a natureza um homem de tal modo elevou, Não é milagre algum se tanto pode realizar; Nele devemos louvar o poder do Criador, Que a frágil argila de tal maneira honrou; Mas se um homem, de todas as provas da vida, A mais amarga vence, que é vencer-se a si próprio, Podemos então jubilosos apontá-lo aos demais e dizer: Eis alguém que é verdadeiro, que vale por si próprio! XXIV Pois qualquer força avança em frente pelo espaço, Buscando viver e actuar aqui e acolá; Em contrapartida, o caudal impetuoso do mundo Prende e tolhe de todos os lados, arrastando-nos consigo: Em meio a semelhante tormenta interior e luta externa Ouve o espírito uma mensagem de difícil compreensão: Da dominância que sobre todos os seres impera, Liberta-se o homem que a si próprio se supera. XXV Quão cedo já lhe ensinara o coração, O que nele nem devo chamar de virtude: Que respeitasse a severa palavra do pai, Sendo diligente mesmo quando este, cru e rude, As horas livres da juventude com tarefas onerava, Às quais o filho de bom gosto se entregava, Tal como um miúdo errante e sem lar o faria, Por carência, em troco de uma parca esmola. XXVI Teve que acompanhar os combatentes às lutas, Inicialmente como peão, fizesse chuva ou sol, Cuidando dos cavalos e preparando as mesas, Mostrando-se útil a cada velho guerreiro. A qualquer hora do dia ou da noite, solícito, Ele percorria os bosques como veloz estafeta, E assim, acostumado a viver só para os demais, As suas estafas pareciam só lhe dar prazer. XXVII Tal como em combate, de ânimo valoroso e vivaz, Ele recolhia as flechas que no solo encontrava. Corria depois a colher ele próprio ervas curativas, Preparando com elas pensos para os feridos. Tudo em que tocasse começava logo a sarar, Sentindo a sua mão, os enfermos se animavam: Não havia quem o não estimasse com alegria! Só o pai parecia não reconhecer o seu valor. XXVIII Leve, como um veleiro que da carga Não sente o peso e rápido vai de porto a porto, Suportava com ligeireza o ensino paternal; Ser obediente era o seu preceito basilar; E tal como pelo prazer o menino, ou pela fama o jovem, Ele só pela vontade alheia se afastou do lar. Debalde tentou o pai novas provas conceber, Mas quando ia a exigir, já tinha que louvar. XXIX Por último deu-se também este por vencido, Reconhecendo activamente o valor do filho; Desvanecera-se já a aspereza do velho, E ofereceu-lhe de surpresa um cavalo de valor; Dispensado foi o rapaz de serviços de menor, Ostentava agora uma espada, em vez de curto punhal: E assim adentrou ele, após tantas provas, uma Ordem, À qual de nascimento o direito lhe assistia. XXX Assim poderia eu ainda dias a fio relatar, Cousas capazes de assombrar qualquer ouvinte; Certamente a sua vida será um dia comparada Por descendentes às mais sublimes histórias; Aquilo que para a alma em fábulas e poesias Se afigura irreal, mas sobremaneira a fascina, Aqui lhe é dado escutar e de bom grado gozar, Duplamente feliz de o receber autenticamente. XXXI Perguntas-me tu como se chama esse eleito, Esse pelos olhos da Providência escolhido? Esse que amiúde eu louvo, mas jamais o suficiente, E a quem tantas e incríveis cousas sucederam? Humanus é o nome desse santo, desse sábio, O melhor homem que os meus olhos já viram: E a sua estirpe, tal como a chamam os fidalgos, Deverás conhecer junto com os seus antepassados.» XXXII Assim o Ancião falou, e bem mais falaria, Pois de tantas maravilhas ele era conhecedor, E nós ainda semanas a fio nos deleitaríamos Com tudo aquilo que nos tinha a contar; Mas de súbito o seu falar se interrompe, Conforme o coração bate mais forte pelo hóspede. Retiram-se em breve os demais irmãos, voltando depois, Até já lerem dos seus lábios o que ele quer dizer. XXXIII E desfrutada a refeição, sentindo-se agora Marcus Afeiçoado ao senhor da casa e à sua comitiva, Solicitou ainda um cálice límpido Cheio d'água, o qual também lhe foi servido. Em seguida conduziram-no ao grande salão, Onde se lhe depara uma cena extraordinária. O que ele aí viu, não deverá ficar oculto, Conscienciosamente vos desejo narrar. XXXIV Nenhum adorno havia aí que ofuscasse os olhos, Uma simples abóbada em arestas se erguia ao alto, E ao longo das paredes treze cadeiras ele avistou, Dispostas em círculo, qual piedoso coro, Entalhadas com extrema arte por hábeis mãos; À frente de cada uma estava uma pequena estante. Sentia-se aqui a devoção como algo natural, Bem como uma paz de vida e um convívio fraternal. XXXV Nas cabeceiras avistou treze escudos pendentes, Pois a cada cadeira um deles pertencia. Pareciam aqui não ostentar orgulho da sua casta, Cada qual parecia imbuído de significado e intenção, E o irmão Marcus ardia agora de anseio Para saber o que tantas imagens ocultavam; No centro de tudo avista então aquele símbolo Pela segunda vez: uma cruz com ramos de rosas. XXXVI Coisas infindas pode a alma aqui imaginar, Os objectos sucedem-se uns aos outros; E elmos pendem sobre vários brasões, Espadas e lanças também se avistam aqui e ali; Armamentos, tais como de campos de batalha Se pode recolher, ornamentam este local: Aqui pendões e armas de terras estrangeiras, E acolá, se bem vejo, até correntes e correias! XXXVII Cada qual se ajoelha diante da sua cadeira, Batendo no peito, imerso em silenciosa prece; Nos seus lábios soam curtas canções, Das quais piedosa alegria se alimenta; Abençoam-se agora os irmãos fielmente unidos E retiram-se para um sono que a fantasia não perturba: Enquanto os demais se vão, fica Marcus Com uns poucos na sala, imerso em contemplação. XXXVIII Embora tão exausto, ele quer permanecer acordado, Pois uma profusão de imagens fortemente o atrai: De um lado, avista um dragão cor de fogo, Saciando a sua sede em chamas selváticas; Do outro lado, um braço enfiado na goela de um urso, Da qual jorra sangue em borbotões ardentes; Os dois escudos pendiam, igualmente distanciados, À direita e à esquerda da cruz rosada. XXXIX Para onde quer que os seus olhos se dirijam, Mais ele se espanta com tanta arte e grandeza, A riqueza parece daqui premeditadamente banida, Tudo parece ter-se simplesmente autocriado. Deverá ele admirar-se que a obra esteja consumada? Deverá ele admirar-se que ela fosse assim concebida? Afigura-se-lhe como se só agora, em divino arrebatamento, Ele tivesse começado a viver, nesse exacto momento. XL «Por sendeiros maravilhosos cá vieste ter", Diz-lhe de novo com afecto o Ancião; "Deixa que estas imagens te convidem a ficar, Até chegares a saber o que tantos heróis praticaram; O que aqui se oculta não pode ser decifrado, A menos que te seja revelado em segredo; Bem podes imaginar quanto aqui foi sofrido, Vivido e perdido, e o quanto foi conquistado. XLI Mas não julgues que apenas de tempos antigos O velho fala, pois muito aqui se passa agora mesmo; O que tu vês, pretende muito mais exprimir; Em breve uma cortina, e depois um véu, o ocultará. Se te apraz, podes então te preparar: Atravessaste, ó amigo, apenas a primeira porta; Com amizade foste recebido no umbral, Creio que mereces no mais íntimo adentrar.» XLII Após breve sono numa cela imersa em paz Um surdo repique de sinos acorda o nosso amigo. De pronto ele se ergue, infatigável e vivaz, O filho do céu respondendo ao apelo à devoção. Vestindo-se num ápice, ele corre para o umbral, E já lhe vai adiante o coração a caminho da igreja, Submisso e sereno, transportado nas asas da oração; Tenta abrir o ferrolho, mas encontra-o fechado. XLIII E conforme escuta, repete-se a espaços iguais, Três vezes, um golpe sobre um bronze cavo; Mas não são horas a dar, nem sinos a soar, E de quando em quando misturam-se sons de flauta; O timbre, que é tão invulgar e difícil de interpretar, Ressoa de tal modo, que o coração inunda de gozo, Sério e convidativo, como se fossem cânticos Entoados de passagem por felizes pares. XLIV Ele corre à janela, para talvez daí ver, O que o confunde e maravilhosamente o comove; No distante Oriente avista o dia a amanhecer, O horizonte orlado com névoas diáfanas. E em seguida – como acreditar nos próprios olhos? – Uma estranha luminosidade a vaguear pelos jardins: Três jovens ele vislumbra, com tochas nas mãos, Percorrendo de abalada as alamedas. XLV Ele vê claramente o brilho dos trajes alveados, Que graciosamente mal envolvem os seus corpos, Avista também flores nas cabeças encaracoladas, E rosas entrelaçadas a orlar os seus cintos; Eles parecem estar a voltar de danças nocturnas, Reanimados e esbeltos após jovial esforço. Apressam depois o passo e apagam, como as estrelas, As tochas, desaparecendo na distância. eria oportuno esclarecer os seus enigmas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O BOTÃO DE ROSA.

O campo abrira o seio às expansões frementes das árvores senis, dos galhos viridentes. Caía a tarde fresca Loira, gentil, vivaz como a canção tudesca. A iluminada esfera Calma, profunda, azul como um sonhar de virgem, Dava um brilho-cetim às verdes folhas d'hera. No ar uma harmonia avigorada e casta, No crânio uma vertigem Duma idéia viril, duma eloqüência vasta. Tardes formosíssimas, Ó grande livro aberto aos geniais artistas, Como tanto alargais as crenças panteístas, Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas. Quanta vitalidade indefinida, quanta, Na pequenina planta, No doce verde-mar dos trêmulos arbustos, Que misticismo, justos, Bebia a alma inteira ao devassar o arcano Das árvores titãs, das árvores fecundas Que tinham, como o oceano, Febris palpitações intérminas, profundas. Esplêndidas paisagens, Opunha o largo campo às vistas deslumbradas. As múrmuras ramagens, À luz serena e terna, à luz do sol - que espadas De fogo arremessava, em frêmitos nervosos, Pelo côncavo azul dos céus esplendorosos, Tinham falas de amor, segredos vacilantes Finos como os brilhantes. A música das aves Cortava o éter calmo, em notas multiformes, Límpidas e graves Que estouravam no ar em convulsões enormes. Aqui e além um rio Serpejava na sombra, em meio de um rochedo Áspero e sombrio. O olhar perscrutador, o grande olhar, sem medo E o espírito mudo, Como um herói gigante avassalavam tudo... Nuns madrigais risonhos Abria-se o país fantástico dos sonhos. Alavam-se os aromas Leais, inexauríveis Das largas e invisíveis Selváticas redomas. A seiva rebentava Em ondas - irrompia Na doce e maviosa e plácida alegria De uma ave que cantava, Dos belos roseirais Que ostentavam a flux as rosas virginais. E as jubilosas franças Dos arvoredos altos, Rígidos, atléticos, Derramavam no campo uns fluidos magnéticos Dumas vontades mansas. A doce alacridade ia explosindo aos saltos. E toda a natureza Robusta de saúde e estrênua de grandeza Libérrima e vital, Erguia-se pujante, audaz e redentora, No gérmen material da força criadora, Dentre a vida selvagem, mística, animal... Dos roseirais preciosos Nos renques primorosos, Numa linda roseira abria castamente, Como um sonho de luz numa cabeça ardente, O mais belo, o mais puro entre os botões de rosa. Tinha essa cor formosa, Tinha essa cor da aurora, Quando ensangüenta em rubro a vastidão sonora. Era um botão feliz Sorrindo para o Azul, zombando da matéria. Tinha o leve quebranto e a maciez etérea Que uma estrofe não diz. Das pétalas macias, Das pétalas sanguíneas, Doces como harmonias Brandas e velutíneas Uns perfumes sutis se espiralavam, raros, Pela mansão do Bem, pelos espaços claros. Perfumes excelentes, Perfumes dos melhores Perfumes bons de incógnitos Orientes. Matéria, não deplores O viver natural dos vegetais alegres; Eles são mais ditosos Que os nababos e reis nos seus coxins pomposos; E por mais que tu regres O matéria fatal, a tua vida inteira, No rigor da higiene; E por mais que a maneira Do teu grande existir, desse existir - perene De ironias e pasmos, Explosões de sarcasmos Tu completes, matéria - ó humanidade ousada Com a ciência altanada; E por mais que no século, Tu mergulhes a idéia, o prodigioso espéculo, Será sempre maior e exuberante e forte, Ó matéria fatal, Essa vida tão rica Que se corporifica Na valente coorte Do poder vegetal. Era um botão feliz, Cuia roseira, impávida, Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida De completa fragrância, Palpitava com ânsia Desde a própria raiz. E entanto o sol tombara e triunfantemente Como um supremo Rubens, Jorrando à curvidade etérea do poente, O ouro e o escarlate, aprimorando as nuvens, Numa distribuição simpática de cores, De tintas e de luzes De galas e fulgores Rubros como o estourar dos férvidos obuses. O cérebro em nevrose, No pasmo que precede a augusta apoteose De uma excelsa visão perfeitamente bela, De uma excelsa visão em límpidos docéis, Exaltava o acabado artístico da Tela E o gosto dos pincéis. Caíam da amplidão em névoas singulares Os pálidos crepúsculos. Os fúlgidos altares Do homem primitivo - a relva, o prado, o campo Onde ele ia buscar a força de uma crença Que então lhe iluminasse a alma escura e densa, Morriam de clarões - os poderosos músculos Da fértil mãe de tudo - a natureza ingente - Deixavam de bater. - O olhar do pirilampo Oscilava, tremia - azul, fosforescente. As sombras vinham, vinham, Lembrando um batalhão d'espectros que caminham E a casta nitidez sintética das cousas Tomava a proporção das funerárias lousas. Completara-se então o mais extraordinário, O mais extravagante, Dos fenômenos todos: A noite. - Enfim descera a treva do Calvário, A treva que envolveu o Cristo agonizante. Coaxavam negras rãs nos charcos e nos lodos. A abóbada espaçosa, a física amplitude, Mostrava a profundez da angústia de ataúde De um operário pobre, Quando se escuta o dobre Amplíssimo e funéreo, Sinistro e compassado, Rolar pela mansão gloriosa do mistério, Assim com um soluço aflito, estrangulado. Devia ser, devia Por uma noite assim, Como esta noite igual, Que derramou Maria A lágrima da dor, - que o célebre Caim Sentiu dentro do crânio as convulsões do Mal. Mas o botão de rosa, Traído pelo estranho zéfiro da sorte, Rolou como uma cisma Intensa e luminosa Ardente e jovial em que a razão se abisma E foi cair, cair no pélago da morte, Em um dos mais raivosos, Em um dos mais atrozes Rios impetuosos, Cheios de surdas vozes, Sozinho, em desamparo, assim como um proscrito, Em meio à placidez Dos astros no infinito E à mesma irracional e fúnebre mudez. Depois e além de tudo, Além do grave aspecto inteiramente mudo, Ao tempo que morria O cândido botão - em um dos tantos galhos Virentes da roseira - alegre no ar se abria Um outro que ostentava as pétalas sedosas, As pétalas gracis de cores deliciosas, De cores ideais. As auras musicais Passavam-lhe de leve, Nos tímidos rumores, De um ósculo mais breve. E dentre a exposição das delicadas flores, Das rosas - o botão Aberto ultimamente às cúpulas austeras, Às plagas da esperança, a irmã das primaveras, Pendido um quase nada, esbelto na roseira, Mostrava aquela unção, A ínclita maneira De quem se glorifica Subindo ao céu azul da majestade pura, Da eterna exuberância, Da fonte sempre rica, Da esplêndida fartura Da luz imaculada - a egrégia substância Que faz das almas claras Pela fecundidade olímpica do amor, Magníficas searas, De onde se difunde à vida sempiterna, À vida essencial, à lei que nos governa, À idéia varonil do poeta sonhador. A arte especialmente, esse prodígio, atriz, Como o botão de rosa Tão meigo e tão feliz, Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego, Na treva silenciosa, Onde o espírito vai, atordoado e cego, Cair, entre soluços, Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços, Ou pode equilibrar-se em admirável base Estética e profunda, Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura. Deves sondá-la bem nesta segunda fase. Precisas para isso uma alma mais fecunda. Precisas de sentir a artística loucura... Cruz e sousa.

A Verdade. Osho.

“A verdade é. Não é preciso esforço algum de sua parte para inventá-la. A verdade tem que ser descoberta, não inventada. E o que está nos impedindo de descobri-la? Nos ensinaram muitas mentiras, montanhas de mentiras. Estas são as barreiras que continuam falsificando a verdade, que não permitem que nossos corações sejam um reflexo daquilo que ela é. A verdade não é uma conclusão lógica. A verdade é a existência, a realidade. Ela já está aqui – ela sempre esteve aqui. Somente a verdade existe. Então, por que não conseguimos encontrá-la? Porque desde o início da infância, nos ensinaram falsidades, pré-julgamentos, ideologias, religiões, filosofias... Tudo isto fez com que ficássemos perdidos. Como fazer para encontrá-la? A verdade não é uma idéia. Você não precisa ser um hindu para conhecê-la, ou um muçulmano, ou um cristão. Se você for um hindu, nunca irá conhecê-la; exatamente por ser um hindu, isto irá mantê-lo cego. O que queremos dizer quando dizemos, ‘eu sou um hindu, ou um muçulmano, ou um judeu’? Nos queremos dizer, ‘ eu já tenho idéias a respeito do que é a verdade – idéias da Bíblia, do Corão, ou do Gita, mas eu já tenho as idéias. Eu não conheço a verdade, mas já sei muito a respeito dela.’ E este ‘já sei muito a respeito’ é o único problema que tem que ser resolvido. Uma vez que você abandone suas idéias a respeito da verdade, você se verá face a face diante dela interna e externamente. Você se verá diante dela porque nada mais existe. Mas, os pais, a sociedade, o estado, a igreja e o sistema educacional, todos eles dependem de mentiras. Assim que a crianca nasce, eles começam a montar as armadilhas para lhe incutir mentiras. A criança é indefesa. Ela não consegue escapar de seus pais, ela é completamente dependente. Você pode explorar a sua dependência... E isto tem sido explorado ao longo dos séculos. Ninguém foi tão explorado quanto as crianças – nem o proletariado, nem as mulheres. Ninguém foi explorado tanto, tão profundamente e tão destrutivamente quando as inocentes crianças. E porque são indefesas e dependentes, elas aprendem qualquer coisa que vocês lhes ensinem. Elas têm que engolir todas as mentiras que vocês continuam empurrando para dentro delas. É uma questão de sobrevivência, pois elas não conseguem sobreviver sem vocês. É uma questão de vida ou morte! Elas têm que ser hindus, ou muçulmanas, ou jainas, ou budistas, ou comunistas. Tudo que vocês estiverem interessados em colocar em suas mentes, vocês colocarão. Ao invés de torná-las mais alertas, mais conscientes, mais vivas e mais reflexivas como um espelho, ao invés de torná-las mais puras, vocês as tornam cheias de idéias... Camadas e camadas de poeiras. E assim, fica impossível para elas ver aquilo que é. Elas começam a ver aquilo que não é e param de ver aquilo que é. Então, ser verdadeiramente religioso significa um renascimento: tornar-se novamente como uma criança e abandonar tudo o que a sociedade lhe deu. A religião é uma rebelião contra tudo o que lhe foi imposto, uma rebelião contra ser reduzido a um computador. Simplesmente olhe para dentro! Tudo o que você sabe, foi-lhe ensinado, não é um conhecimento seu, não é autenticamente seu. Como pode ser autêntico, se não é seu? Você não é uma testemunha dele, você é apenas uma vítima – vítima das circunstâncias. É apenas um acidente nascer na Índia ou na Inglaterra. É apenas um acidente nascer numa família hindu ou numa família cristã. Por causas desses acidentes, a sua natureza essencial foi perdida. Você foi forçado a perdê-la. Se você quiser resgatá-la, você terá que renascer. E é isto exatamente o que Jesus quer dizer quando diz a Nicodemos: ‘A não ser que nasça novamente, você não entrará no reino de Deus.’ Na verdade, ele não quer dizer que você tem que morrer, tem que cometer suicídio e depois nascer de novo. Isto não irá ajudar, pois você irá nascer novamente com alguns pais, numa certa sociedade, dentro de uma certa igreja, e de novo a mesma estupidez será feita com você. Por ‘renascimento’, Jesus quer dizer que agora, deliberadamente e conscientemente, você é capaz de abandonar tudo o que lhe foi ensinado. Abandone o seu conhecimento e torne-se inocente. E esta é a única maneira de se tornar inocente. O conhecimento é a contaminação. Ser inocente é estar num estado de não-conhecimento e, funcionar a partir deste estado, é a única maneira de conhecer a verdade. Medite sobre estes sutras tremendamente significantes de Goutama Buda. Ele diz: Tomando erradamente o falso como sendo verdadeiro E o verdadeiro como sendo falso, Você faz vista grossa para o coração E se enche de desejos. A mente nada mais é que desejos. O coração não conhece desejos. Você ficará surpreso ao saber que todos os desejos pertencem à cabeca. O coração vive no presente, ele pulsa e bate no aqui e agora. Ele nada conhece a respeito do passado e do futuro. Ele sempre está aqui e agora. E eu não estou falando a respeito de uma filosofia. Eu estou simplesmente declarando um fato tão simples que você pode observá-lo dentro de si mesmo: o seu coração está batendo agora. Ele não consegue bater no passado nem no futuro. O coração conhece apenas o presente, por isto ele é completamente puro. Ele não está poluído pelas memórias do passado, pelos conhecimentos, pelas experiências passadas, por tudo que lhe foi dito e ensinado, pelas escrituras e pelas tradições. Ele nada sabe a respeito de todas estas tolices! Ele nada sabe a respeito do futuro, do amanhã. Para ele o passado não existe mais e o futuro ainda não existe. Ele está completamente aqui. Ele é imediato. Mas a mente é exatamente o oposto do coração. Ela nunca está aqui e agora. Ou ela está pensando nas belas experiências do passado ou está desejando as mesmas belas experiências no futuro. Assim ela segue pulando entre o passado e o futuro. Ela nunca pára no presente. Ela ignora completamente o presente. Para a mente, o presente não existe. Veja o ponto: o presente é a unica coisa que existe, mas para a mente o presente é a unica coisa que não existe. O passado é não-existencial, o futuro é não-existencial, mas para a mente essas são as únicas coisas existenciais. A cabeça é o problema... E o coração é a solução. A criança funciona a partir do coração. Na medida em que você começa a crescer, começa a se mover do coração para a cabeça. Quando alcança a graduação na universidade, o coração já foi esquecido completamente. Você está pendurado na cabeça. Toda a sua energia moveu-se para a cabeça. Agora você nada sabe a respeito da realidade. Você está cheio de lixo erudito e tolices acadêmicas. Você pode ser um Ph.D. um D.Litt. Você conhece muito, mas nada conhece! Porque o verdadeiro conhecer acontece no coração, não na cabeça. E as universidades existem para desviar a sua energia do coração para a cabeça. Todas as universidades no mundo, até agora, têm sido inimigas da humanidade. Toda a função delas é servir ao estado e à igreja. Elas são agentes do status quo, elas são agentes de interesses ocultos. Elas não servem a você. Elas servem aos poderosos, aos patrões, aos opressores e aos exploradores. As universidades servem a tudo o que está ao redor do poder. Elas ainda não estão a serviço da humanidade. Se elas estivessem verdadeiramente a serviço da humanidade, então as universidades seriam os locais para se aprender a rebelião, elas criariam revolucionários. A univerdade não criaria pessoas convencionais, conformistas. Ela criaria rebeldes, aventureiros, prontos para arriscarem suas vidas pela verdade. Isto não aconteceu ainda. É um fato triste que em nome da educação seja dada continuidade a alguma coisa muito feia. Por trás da fachada, algo muito criminoso continua. E o crime é este: eles desviam sua energia do coração para a cabeça, destroem sua capacidade de amar e forçam-no a aprender lógica. Para eles a lógica é mais importante que o amor, pensar é mais importante que ser sensível. Isto é colocar o carro na frente dos bois. Isto está totalmente às avessas. É por isto que a humanidade está em tal confusão. O que não é verdadeiro parece ser verdadeiro e o que é verdadeiro parece ser não-verdadeiro. Eles tem tido êxito em distorcer a sua visão. Os Budas têm lutado contra todos estes interesses ocultos. Buda diz: Tomando erradamente o falso como sendo verdadeiro E o verdadeiro como sendo falso, Você faz vista grossa para o coração E se enche de desejos. A mente é desejo e vocês continuam se enchendo de mais e mais desejos, mais e mais ambições, buscando poder, prestígio e riqueza. E se esqueceram completamente que existe um coração batendo dentro, o qual já vive em Deus, o qual já é parte da lei maior – ais dhammo sanantano – aquilo que já é parte da inesgotável e eterna lei. Vocês já estão ligados a Deus a partir de seus corações. Seus corações são raízes no solo de Deus. Seus corações ainda são alimentados por Deus, pela verdade. Mas vocês não estão ali. Vocês deixaram o local vazio. Vocês vivem na cabeça. Vocês passam todos os dias em suas cabeças; nunca descem de lá. Mesmo durante a noite, enquanto dormem, vocês continuam com o barulho na cabeca... Sonhos, sonhos e mais sonhos. Durante o dia, pensamentos, e durante a noite, sonhos. Eles não são diferentes. O sonho é apenas a tradução do pensamento para a linguagem do sono, e vice-versa: pensar nada mais é que a tradução do sonho para a linguagem do dia. Você continua se movendo entre estas duas coisas: sonhar e pensar. Ambos são desejos. O que você pensa a não ser desejos? O que você sonha a não ser desejos? Buda diz que o falso parece ser verdadeiro porque você se tornou falso para a sua própria verdade, para o seu próprio coração. Volte para o seu coração e então você será capaz de reconhecer a verdade como verdade e o falso como falso. Isto é iluminação, isto é voltar para casa. Veja o falso como falso. Mas, por onde começar? Comece por ver o falso como falso. É por isto que todos os Budas parecem ser negativos, todos os Budas parecem ser destrutivos. Eles negam. Jesus nega. Ele diz repetidas vezes: ‘No passado lhes foi dito isto, mas eu digo a vocês...’ E ele muda todo o ponto de vista. Por exemplo, ele diz: ‘No passado foi dito que a lei era: pague com a mesma moeda. Se alguém lhe atirar um tijolo, reaja atirando-lhe uma pedra. Mas eu lhes digo, se alguém bater-lhe em uma face, ofereça a outra também. E se alguém levar-lhe o casaco, dê-lhe a camisa também. E se alguém forçá-lo a andar uma milha, ande duas.’ Maomé é contra todas as imagens de Deus porque seu povo esteve adorando imagens por séculos. Eles tinham trezentos e sessenta e cinco deuses, um deus para cada dia do ano. A Caaba, na época de Maomé, era um dos maiores templos do mundo, dedicado a trezentos e sessenta e cinco deuses. Maomé destruiu todos aqueles ídolos. Isto parece negativo! Buda diz: ‘Não existe verdade nos Vedas nem nos Upanishads. Cuidado com palavras bonitas! Cuidado com especulações filosóficas! Não desperdice seu tempo com lógica. Fique em silêncio! Jogue fora os Vedas de sua cabeça; somente assim você consegue ficar em silêncio.’ Ele parece negativo, ele parece nihilista, perigoso – mas esta é a única maneira que você pode ser ajudado. O falso tem que ser mostrado a você como falso. Você tem que começar com isto: neti neti – nem isto nem aquilo. O Mestre tem que dizer a você: ‘Isto é falso e aquilo é falso.’ Ele tem que continuar apontando para você tudo o que for falso, porque quando você souber tudo o que for falso, de repente uma transformação acontece em sua consciência. Quando você se tornar consciente do que é falso, começará então a ficar consciente do que é verdadeiro. Não se consegue ensinar o que é a verdade, mas certamente se consegue ensinar o que não é a verdade. Você foi condicionado; você pode ser descondicionado. Você foi hipnotizado – como hindu, muçulmano, cristão, jaina... A função do Mestre é desipnotizá-lo. Uma vez que você seja desipnotizado, de repente será capaz de ver a verdade. A verdade não precisa ser ensinada.”

A escuridão não existe.

"Eu não vejo escuridão em lugar algum. Você é que está mantendo os olhos fechados. A escuridão não existe. É criação sua. O sol está em todo lugar, a luz está em todo lugar, estamos em pleno meio-dia. Mas você continua apertando os seus olhos, mantendo-os fechados. Daí a escuridão. Agora, ninguém pode forçar os seus olhos a se abrirem. Existem algumas coisas que você tem que fazer por si mesmo. Se você quiser espirrar, você terá que espirrar, eu não posso fazer isso por você. Se você quiser assoar o nariz, você que terá que fazer isso, eu não posso fazer por você. Existem algumas coisas que você tem que fazer por si mesmo. Esta é uma das coisas mais fundamentais da vida. Se não fosse assim, mesmo em sua liberdade, você seria um escravo. Se eu tirá-lo da sua escuridão, ou qualquer outra pessoa, aquela luz não será muito luminosa. Você estará aprisionado naquela luz, você não veio de livre e espontânea vontade, você não floresceu espontaneamente. Alguma vez você já observou uma criança tentando abrir à força um botão de flor? O botão pode ser aberto, mas não será uma flor, alguma coisa ficará faltando, algo de grande significado. A alma estará faltando. A flor tem alma quando ela floresce espontaneamente, daí ela tem vida. Quando você a força, você a destrói. Tudo que é belo na vida pode apenas acontecer; não pode ser feito. Existe uma bela história sobre um mestre Zen, Joshu: Um dia, Joshu caiu na neve e gritou 'Ajude-me! Ajude-me!' Um discípulo de Joshu aproximou-se e deitou ao seu lado. Joshu riu, levantou-se e disse ao discípulo: 'Certo! Perfeitamente certo! Isso é o que eu estou fazendo com você também.' Joshu tinha caído na neve e gritado, 'Ajude-me! Ajude-me!' Mas não havia necessidade alguma. Se você caiu, você pode se levantar. A mesma energia que fez você cair, consegue fazer você se levantar. A pessoa que não consegue se levantar, não consegue nem mesmo cair. A mesma energia que o leva a se perder, pode trazê-lo para casa. A pessoa que não consegue voltar para casa, não consegue também se perder, porque é necessário energia. A mesma energia que faz de você um pecador, pode fazê-lo um santo. Na verdade, ser um pecador é mais complexo, mais difícil, mais trabalhoso. Ser um santo não é complexo nem trabalhoso. E ser religioso definitivamente não é trabalhoso. É a mesma energia! Você está mantendo os seus olhos fechados, e despendendo muita energia para mantê-los fechados. A mesma energia que os está mantendo fechados, se relaxados, irá ajudá-los a se abrirem. O discípulo é um discípulo de verdade. Ele entendeu Joshu perfeitamente bem. Ele sabe que ele criou uma situação, ele deitou-se conscientemente. Talvez o discípulo estivesse passando e Joshu caiu - criou uma situação - e gritou, 'Ajude-me! Ajude-me!' E o discípulo veio e deitou-se ao seu lado. Ele não o ajudou, em absoluto. O que ele estava fazendo? Ele não estava tentando ajudá-lo, de modo algum. Ele estava simplesmente sendo compreensivo. Ele estava dizendo, 'O que pode ser feito? Ok, eu sou seu discípulo, eu vou deitar ao seu lado. O que mais eu posso fazer?' Um mestre é compassivo com você, ele tem compaixão. O que mais ele pode fazer? Um mestre verdadeiro não pode segurar suas mãos, porque isso o manterá sempre dependente. Trazer você para fora à força, é o mesmo que mantê-lo ainda dentro. Na hora em que o mestre soltar suas mãos, você voltará para o seu velho mundo, para a sua velha mente. Aquilo ainda não estava encerrado, ainda estava agarrado dentro de você. Um mestre verdadeiro ajuda sem ajudar. Tente entender: um mestre verdadeiro ajuda sem ajudar. A sua ajuda é muito indireta, ele nunca vem imediatamente ajudá-lo. Ele vem de maneira muito sutil. Ele se aproxima de você como uma brisa muito frágil, não como uma ventania selvagem. Ele se aproxima de você como uma aura, invisível. Ele o ajuda certamente, mas nunca força você. Ele o ajuda apenas até onde você está pronto para ir, nunca um passo a mais. Ele nunca empurra você violentamente, porque qualquer coisa feita violentamente será perdida, mais cedo ou mais tarde. Aquilo que você não desenvolveu de livre e espontânea vontade, você perderá. Você não pode desfrutar aquilo que não cresceu em seu ser espontaneamente. Você desfruta o seu próprio crescimento. Eu posso até mesmo dar-lhe a verdade, e você irá jogá-la fora, porque você não irá reconhecê-la. Eu posso forçá-lo a acordar, mas você irá cair no sono no momento em que eu me for, e você vai me xingar e ficar com raiva de mim, pois você ainda estava curtindo os seus sonhos. Você estava curtinho sonhos doces e aí chegou um homem e o acordou. Algumas vezes observe a si mesmo. Você tem que pegar um trem bem cedo, quatro ou cinco horas da manhã, e você pede alguém para acordá-lo às quatro horas. Assim ele faz. E você fica com raiva. Você não gosta da idéia, mas essa idéia foi sua. Você sente como se ele fosse seu inimigo. Ouvi contar a respeito de Emanuel Kant, um filósofo alemão, que ele era muito preso a horários. Ele quase se movia como um ponteiro de relógio, exatamente na hora, tudo, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Por toda a sua vida ele costumava acordar cedo, às cinco horas da manhã. Ele tinha um criado. O criado tinha que arrastá-lo para fora da cama e às vezes até mesmo bater nele. Ele tinha dado tal poder ao criado. Ele lhe disse: 'Ainda que você tenha que me bater, bata. Vai ser uma boa luta para você, mas você tem que me acordar. Não escute o que eu lhe disser de manhã cedo. Eu irei repreendê-lo, gritarei com você e o ameaçarei dizendo que irei colocar fogo em você, mas não se preocupe. Qualquer coisa que eu disser, vai ouvindo, mas me arraste para fora da cama.' Ele tornou-se muito dependente desse criado, de tal modo que o criado quase se tornou o patrão e o patrão tornou-se o criado. Algumas vezes o criado o deixava. Daí, ele tentava encontrar outros criados, mas ninguém se adaptava, pois como bater no seu patrão às cinco horas da manhã? Mesmo ele dizendo, 'Bata-me!', o criado ficava com medo. E o velho criado tinha que ser trazido de volta novamente. Mas, como isso acontece? Você pode estar curtinho um sonho bom e aconchegante. Está fazendo frio, mas debaixo do cobertor está quente e aconchegante. Sim, você havia decidido antes que iria se levantar cedo, mas e agora... ? Você quer virar para o lado e cair no sono de novo. Ninguém pode ser acordado antes da sua hora, nem deve ser. E não há qualquer problema. Simplesmente tente compreender porque você mantém seus olhos fechados. Mais do que pedir-me para forçá-los a se abrirem, tente compreender porque você os mantém fechados. Tente compreender quais sonhos você ainda tem que sonhar. Você já não sonhou o bastante? Você, na verdade, já não sonhou mais do que o suficiente? Por milhões de vidas você tem sonhado. E você não alcançou nada com todos esses sonhos. Você permanece vazio, oco. Ainda assim, você continua se enchendo com novos sonhos, com novos desejos, com novas ambições. É bem possível que agora você esteja sonhando com iluminação, por isso você fez essa pergunta. Você sonhou muitos sonhos. Agora um novo sonho surgiu em sua mente: tornar-se um buda, alcançar a iluminação. Isto é novamente um sonho. Se você tivesse realmente terminado com todos os seus sonhos, então quem estaria mantendo você dormindo? Abra seus olhos! Na verdade, nem mesmo haverá necessidade de abrir os seus olhos. Uma vez que você tenha compreendido que você já sonhou todos os sonhos possíveis, os olhos se abrirão. Não haverá nem mesmo a necessidade de abri-los porque ninguém estará lá para fechá-los. Olhe para meu punho: se eu tiver que mantê-lo como um punho, eu terei que mantê-lo fechado, cerrado. No momento em que eu parar de fechá-lo, ele começará a se abrir espontaneamente. Estar aberto é natural, estar fechado é antinatural. Para mantê-lo fechado você tem que colocar muita energia nele. Para abrir, nenhuma energia é necessária. Isso é uma coisa muito estranha: para permanecer miserável, você precisa colocar muita energia nisso. Para permanecer alegre, você não precisa de qualquer energia, de jeito algum. A felicidade é grátis, ela nada custa. A miséria você precisa fazer por merecer. Se você quiser ser miserável, muito esforço será necessário para permanecer miserável. É um estado muito antinatural. Um punho cerrado é antinatural; uma mão aberta é natural. A mão aberta não necessita energia, caso contrário você se sentiria cansado; ao final do dia você estaria morto de cansado por ter ficado todo o dia com a mão aberta. Daí, você dirá, 'Por todo o dia eu mantive minhas mãos abertas e agora eu estou me sentindo muito cansado.' Qualquer dia, mantenha o seu punho fechado por todo o tempo e ao final da tarde você se sentirá realmente cansado. O natural é a mão aberta. Um coração aberto é um fenômeno natural; um ser aberto é simplesmente natural. Um ser fechado é muito antinatural, muito artificial; você tem que colocar toda a sua energia nisso. Essa é a minha observação em milhares de pessoas: elas dão toda a sua energia para se manterem miseráveis. Permanecer no inferno é um grande investimento. Não é fácil, é muito difícil. Você precisa ser muito forte para estar no inferno, muito teimoso, decidido. (...) Você tem que ser duro como um diamante, somente então você pode permanecer no inferno. Se não for assim... ninguém está impedindo o seu caminho. Basta relaxar e você entra no céu, o relaxamento é a porta. Você diz: Eu estou tateando no escuro. Relaxe. No momento em que você relaxar, os seus olhos começarão a se abrir, assim como um botão abre e se torna uma flor, assim como um punho que não mais se mantém cerrado começa a se abrir e se torna uma mão aberta. Eu não estou aqui para forçar isto. Eu estou aqui para esclarecê-lo como isto acontece. Eu posso falar a respeito desse processo, eu não posso fazê-lo para você. Compreendido, ele acontece. Eu não lhe prometo coisa alguma. Eu só lhe prometo uma coisa: o que aconteceu comigo eu farei com que fique óbvio para você. Daí, cabe a você seguir. Buda disse: os budas só indicam o caminho, mas é você que tem que ir, cabe a você seguir o caminho."osho.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Presságio.

O AMOR, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente... Cala: parece esquecer... Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse P'ra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar... Fernando Pessoa

Quando Eu não te Tinha.

Quando eu não te tinha Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. Agora amo a Natureza Como um monge calmo à Virgem Maria, Religiosamente, a meu modo, como dantes, Mas de outra maneira mais comovida e próxima ... Vejo melhor os rios quando vou contigo Pelos campos até à beira dos rios; Sentado a teu lado reparando nas nuvens Reparo nelas melhor — Tu não me tiraste a Natureza ... Tu mudaste a Natureza ... Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, Por tu me escolheres para te ter e te amar, Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente Sobre todas as cousas. Não me arrependo do que fui outrora Porque ainda o sou. Só me arrependo de outrora te não ter amado. Alberto Caeiro