contos sol e lua

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terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Caminho de Santiago - O Caminho das Estrelas.



Já vimos que o presumível corpo de Tiago descoberto por um certo Pelágio (homem do mar) em princípios do século nono da nossa era, pode muito bem ser o corpo do bispo Prisciliano, a primeira vítima mortal da perseguição da Igreja aos que considerava hereges.

O nome de Compostela pode ter tido várias origens e, certamente, tem diversos significados. Vulgarmente Compostela quer dizer “o campo da estrela”, uma referência à estrela que teria aparecido indicando o local exacto da sepultura de Tiago. Para os alquimistas pode ser o “compost”, a estrela que se forma na superfície do crisol numa das primeiras operações da Grande Obra. Mas existe um outro significado mais secreto, em que “compost” significa “mestre”, o que dará “Mestre da Estrela”.

Este último significado, apesar de aparentemente incompreensível, relaciona-se com Tiago que, na tradição lígure, um povo que ocupou o ocidente europeu antes dos celtas, Tiago é o nome dado ao talhador da pedra, ou mestre construtor. Neste caso estamos a falar de uma época muito anterior ao advento do cristianismo.

A origem do nome “Tiago” é bem estranha pois, apesar de todas as explicações, é difícil compreender como é que Jacó ou Jacob, por muitas corruptelas que possa ter havido, tenha resultado em Tiago, que acaba também por ser uma corruptela de Santiago (Santo Iago). Este nome só existe em português ou castelhano com algumas variantes como Yago ou Iago.

Mestre Tiago, o talhador de pedra, era natural de uma aldeia dos Pirenéus, e aqui começa outra lenda que nos chega das relações que havia entre fenícios e lígures, dois povos que mantêm ainda hoje um certo mistério, pois desconhecemos realmente quem eram uns e outros, e qual a sua origem. No entanto, esta lenda parece-nos mais verosímil do que a lenda de Santiago.

Tiago era um mestre Jars, um mestre iniciado no tratamento da pedra e a lenda diz-nos que talhava a pedra desde a idade de quinze anos. Na época da construção do Templo de Salomão, este pediu ajuda ao rei de Tiro, Hiram, que era fenício, pois entre os israelitas, um povo que recentemente saíra da vida nómada e de viver em tendas, não havia quem soubesse tratar a pedra e a madeira de cedro, abundante no antigo Líbano. Hiram teria convocado Mestre Tiago e alguns companheiros para o virem ajudar na construção do Templo.

Isto acontece por volta do ano 900 antes da nossa era, de acordo com a Bíblia. Sabe-se que os fenícios mantinham relações comerciais com os lígures, que viajaram por todo o Mediterrâneo e pelo Atlântico, transpondo as “Colunas de Hércules” (Estreito de Gibraltar), e portanto, é natural que tenham visitado muitas vezes a costa da Galiza, aportando talvez a antigas cidades marítimas como Noya. Desta forma teriam tido conhecimento da existência desses mestres construtores ou talhadores da pedra. Assim, não é impossível que esses mestres construtores tenham viajado até Jerusalém para aí participarem da construção do Templo de Salomão.

No século XII, no Códice Calixtino, atribuído ao Papa Calixto II, denomina-se pela primeira vez para a cristandade o Caminho de Santiago como o Caminho das Estrelas, ou da Via Láctea, explicando que o caminho terrestre é o desenho da Via Láctea, porque a sua rota se situa exactamente sob ela, indicando a direcção de Santiago e servindo assim, durante a noite, de orientação aos peregrinos.

Antes da era cristã e da presumível descoberta do corpo de Tiago, essa rota já era um caminho de peregrinação que simbolizava a viajem do Sol de oriente para ocidente, afogando-se no oceano para lá do cabo Finisterra e voltando a renascer no dia seguinte a leste. Havia em Finisterra um templo dedicado ao Sol, o templo de Ara Solis. Actualmente, muitos peregrinos chegados a Compostela, continuam a caminhar até Finisterra, porque entendem que a verdadeira peregrinação ali termina em face do oceano, o que põe em causa, de certo modo, a definição do Caminho como exclusivamente católico.

Ainda que possamos considerar que esta simbologia solar possa estar relacionada com a influência romana pelo seu culto do “Sol Invictus”, é provável que a sua origem seja mais antiga. Embora não existem referências do Sol como divindade entre os celtas, estes celebravam os Equinócios e os Solstícios, rituais relacionados com o Sol. Há também uma clara semelhança entre este caminho solar e o culto egípcio do Sol.

Pode também ser que este culto do Sol não tenha origem celta, mas lígure. Os fenícios consideravam este povo representante da civilização ocidental. É provável que os lígures tenham dado origem a outros povos. Para alguns historiadores, os lusitanos seriam de origem lígure, e não celta. É possível também que os etruscos, anteriores aos romanos na Península itálica, tenham tido origem nos lígures.

Não se sabe muito acerca deste povo, nem da religião que eles praticavam, mas é de supor, considerando que era comum aos povos da antiguidade, que entre as suas divindades o culto do Sol tivesse um lugar importante.

Evidentemente que a Via Láctea não é uma observação exclusiva do Caminho de Santiago. Em qualquer outro lugar da Terra, desde que a noite não seja atenuada pelas luzes das cidades, temos sempre sobre as nossas cabeças esse espectáculo grandioso do mar de estrelas que parece terminar na Constelação de Cão Maior, onde sobressai a estrela mais brilhante do nosso firmamento, Sírius. No entanto, algo de estranho acontece no Caminho de Santiago.

Desde os seus primórdios, logo a seguir ao célebre Concílio de Niceia em que se estabeleceram os seus fundamentos dentro do Império Romano, A Igreja adoptou sempre duas atitudes em relação às tradições e religiões locais que ia encontrando: ou as destruía, substituindo-as pela sua própria doutrina; ou adaptava-as, sempre que se verificasse grande dificuldade em eliminá-las. Isto aconteceu por todo o lado durante os séculos em que a Igreja tinha todo o poder e dominava o mundo ocidental. Na costa mediterrânica, por exemplo, substituiu o culto de Ísis, nas suas variadas formas de expressão, pelo culto de Maria Madalena. No Caminho das Estrelas, não podendo eliminar a sua tradição, adaptou-a e transformou-a num caminho de peregrinação para a cristandade. Para isso usou de muitos artifícios que foram acrescentando detalhes à lenda para a tornar mais verosímil. É o caso da presumível “revelação” de Carlos Magno.

Carlos Magno, filho mais velho de Pepino o Breve, foi rei dos Francos, dos Lombardos e o primeiro Imperador do Sacro Império Romano a partir do ano 800, restaurando o antigo Império Romano do Ocidente. Viveu portanto numa época coincidente com a descoberta do túmulo de Tiago.

Como todo o monarca na altura, passou a vida em batalhas e conquistas. Ao fim de dezoito batalhas conseguiu um império considerável. Nessas conquistas procedeu à conversão forçada ao cristianismo dos povos dominados, massacrando os que se recusavam a converter-se. Mas talvez um dos seus objectivos principais, a conquista da Península Ibérica, nunca o conseguiu realizar.

Carlos Magno nunca se aventurou a passar para ocidente dos Pirenéus, nunca pôs os pés na Península Ibérica, mas fez-se constar que teria visitado o túmulo de Tiago e banhado a espada nas águas do Atlântico. No entanto, apesar de nunca ter trilhado o Caminho das Estrelas, no seu túmulo em Aix-la-Chapelle encontram-se esculpidas duas filas de estrelas assinalando a sua “revelação” no Caminho de Compostela.

Por estranho que possa parecer, estas duas filas de estrelas existem no terreno, mais ou menos ao longo do paralelo 42.

Se desenharmos duas linhas rectas entre a costa atlântica e a costa mediterrânica do sul de França, vamos encontrar essas duas filas de estrelas ao longo do paralelo 42. Assim, partindo da costa mediterrânica em direcção a oeste, que é o sentido do Caminho, na latitude 42º 30´ vamos encontrar “Pic Estelle” (Pico da Estrela), depois “Puig de l´ Estelle” (Monte da Estrela) e, mais a oeste encontramos o “Puig de Tres Estelles”. Continuando para oeste encontramos mais algumas povoações cujos nomes estão relacionados com as estrelas. Esta linha termina perto de Pontevedra, na ilha de La Toja.

Um pouco mais a norte, numa latitude de 42º 46´ encontramos outra fila de estrelas. Começando no leste temos “Les Eteilles”, a seguir vem “Estillon”, depois “Lizarra”, Lizarraga, todos nomes que significam uma relação com as estrelas. Esta linha passa um pouco a sul de Compostela, mas passa sobre o Pico Sacro e vai terminar em Noya.

Desconhecemos a antiguidade destas povoações, mas acreditamos que sejam mais antigas que o cristianismo, pois alguns dos nomes, como Lizarra, são em língua basca. Se não eram originalmente povoações, eram pelo menos marcos de um caminho demarcado com toda a precisão por uma ciência antiga da qual nos sobraram alguns testemunhos.

Como veremos em próximos capítulos, existe uma relação entre o Caminho de Compostela e o Antigo Egipto onde, principalmente aqui, se encontra a expressão maior desse conhecimento antigo: a Grande Pirâmide. Para além das especulações e das várias teorias sobre a sua construção, alguns dados são simplesmente fantásticos: está situada num meridiano que atravessa o maior número de terras e menor número de mares, o que pressupõe um excelente conhecimento geográfico; o côvado, que talvez tenha sido a medida usada para a sua construção, é a décima milionésima parte do raio de Terra no pólo; a sua altura corresponde à bilionésima parte da distância média da Terra ao Sol.

A hipótese das linhas do Caminho de Compostela serem obra do acaso não pode ser considerada. Não é possível que essas povoações tenham nascido exactamente ao longo do mesmo paralelo por acaso ou coincidência. Então, essas linhas terão sido traçadas em tempos remotos com determinada finalidade. Qual?

Juan G. Atienza, no seu livro sobre Compostela “La Ruta Sagrada” diz o seguinte:

“O Caminho constitui um itinerário sagrado em direcção a mitos que nos dão conta de um arcaico centro do mundo, onde se encontravam supostamente implantadas chaves fundamentais do conhecimento transcendente.”
Manuel O. Pina

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

DEUSA ÍSIS.

Eu concebi
carreguei
e dei à luz a toda vida
Depois de dar-lhe todo meu amor
Dei-lhe também meu amado Osíris
Senhor da vegetação
Deus dos cereais
para ser ceifado
e nascer outra vez
Cuidei de você na doença
fiz suas roupas
observei seus primeiros passos
Estive com você até mesmo no final
segurando sua mão
para guiá-lo para a imortalidade
Você para mim é TUDO
E eu lhe dei TUDO
E para você eu fui TUDO
Eu sou sua Grande-Mãe, ÍSIS.

Nossa amada Deusa Ísis foi cultuada e adorada em inúmeros lugares, no Egito, no Império Romano, na Grécia e na Alemanha. Quando seu amado Osíris foi assassinado e desmembrado pelo seu irmão Seth que espalhou seus pedaçospor todo o Egito, Ísis procurou-os e os juntou novamente. Ela achou todos eles, menos seu órgãos sexual, que substitui por um membro de ouro. Através de magia e das artes de cura, Osíris volta à vida. Em seguida, ela concebe seu filho solar Hórus.
Os egípcios ainda mantêm um festival conhecido como a Noite da Lágrima. Tal festival tem sido preservado pelos árabes como o festival junino de Lelat-al-Nuktah.


ÍSIS, DO MITO À HISTÓRIA.

No começo só existia o grande, imóvel e infinito mar universal, sem vida e em absoluto silêncio. Não havia nem alturas, nem abismos, nem princípio, nem fim, nem leste, nem oeste, nem norte e nem sul. Das primeiras sombras se desprenderam as trevas e apareceu o caos. Desse ilimitado e sombrio universo surgiu a vida e, com ela, a estirpe dos Deuses.
Conta a mitologia solar que o criador de tudo foi Atum, o Pai dos Pais. A partir do momento que Atum toma consciência de si mesmo, ele tornou-se Rá.
Em sua infinita sabedoria, o Deus consciente, desejou e materializou uma separação entre si mesmo e as águas primordiais, desejando emergir a primeira terra seca em forma de colina a que os egípcios chamaram a "colina benben".
Então Atum criou os outros Deuses. Recolheu seu próprio sêmen na mão, e engolindo-o se fecundou a si mesmo. Vomitou, dando vida a Shu e Tefnut, o ar seco e o ar úmido.
Shu e Tefnut se unem e dão a luz ao Deus Geb, a terra, e a Deusa Nut, o céu, que, por sua vez, quando se uniram fisicamente tiveram quatro filhos: Osíris (Deus da Ordem), Seth (Deus da Desordem) e suas irmãs Ísis e Neftis, nascidos nessa ordem. A nova geração completa o número de nove divindades, a Enéada, que começa com o Deus criador primordial. Na escrita egípcia o três era utilizado para representar o número plural, enquanto que o nove proporciona um meio simbólico de indicar o "todo". A Enéada do Deus Sol é conhecida entre os egiptólogos como a Enéada Heliopolitana.
Osíris, o primogênito, havia herdado de seu pai Geb a terra para governá-la. Já a Deusa Ísis, cujo nome significa "o trono", "a sede" (capital), se uniu a seu irmão Osíris, para sustentar todo o seu poder, estabelecendo-se assim, o primeiro casal real do Egito. Se ele era o rei, soberano da terra, ela ia ser seu trono, a sede eternamente estável, de onde era exercida toda a realeza sobre o Egito.


ÍSIS E O NOME SECRETO DE RÁ.

O Deus Sol Rá tinha tantos nomes que inclusive os Deuses não conheciam todos. Um dia, a Deusa Ísis, Senhora da Magia, se pôs a aprender o nome de todas as coisas, para tornar-se tão importante como o Deus Rá.
Depois de muitos anos, o único nome que Ísis não sabia era o nome secreto de Rá, assim decidiu enganá-lo para descobrir.
A cada dia, enquanto voava pelo céu, Rá envelhecia e até já começava a babar. Ísis recolheu sua baba e modelando-a com terra, deu forma a uma serpente, que depois colocou no caminho de Rá. Esse foi mordido e caiu ao solo agonizante. Ísis disse ao Deus que poderia curá-lo, desde que ele lhe revelasse seu nome secreto. Ele se negou, porém ao notar que o veneno da cobra era potente suficientemente para matá-lo, não teve outra opção a não ser revelá-lo. Com esse conhecimento secreto, Ísis pode apropriar-se de parte do poder de Rá.


ÍSIS E OSÍRIS (segundo Plutarco).

No Egito, assim como na Babilônia, o culto da lua precedeu o do sol. Osíris, Deus da lua, e Ísis, a Deusa da lua, irmã e esposa de Osíris, a mãe de Hórus, o jovem Deus da lua, aparecem nos textos religiosos antes da quinta dinastia (cerca de 3.000 a. C.).
É difícil fazer um estudo conciso sobre o significado do culto de Ísis e Osíris, pois, durante muitos séculos nos quais esta religião floresceu, aconteceram mudanças na compreensão dos homens em relação a ele.
Nos primeiros registros, Osíris, parece ser um espírito da natureza, concebido como o Nilo ou como a lua, o qual, pensava-se, controlava as enchentes periódicas do rio. Era o Deus da umidade, da fertilidade e da agricultura. Durante o período da lua minguante, Seth, seu irmão e inimigo, um demônio de um vermelho fulvo incandescente, devorava-o. Dizia-se que Seth tinha se unido a uma rainha etíope negra para ajudá-lo na sua revolta contra Osíris, provavelmente uma alusão à seca e ao calor, que periodicamente vinham do Sudão, assolavam e destruíam as colheitas da região do Nilo.
Seth era o Senhor do Submundo, no sentido de Tártaro e não de Hades, usando-se termos gregos. Hades era o lugar onde as sombras dos mortos aguardavam a ressureição, correspondendo, talvez, à idéia católica do purgatório. Osíris era o Deus do Submundo neste sentido, Tártaro é o inferno dos condenados, e era deste mundo que Seth era o Senhor.
Nas primeiras formas do mito, Osíris era a lua e Ísis a natureza, Urikitu, a Verde da história caldéia. Mas, posteriormente, ela tornou-se a lua-irmã, mãe e esposa do Deus da lua. É neste ciclo que este mito primitivo da natureza começou a tomar um significado religioso mais profundo. Os homens começaram a ver na história de Osíris, que morreu e foi para o submundo, sendo depois restituído à vida pelo poder de Ísis, uma parábola da vida interior do homem que iria transcender a vida do corpo na terra.
Os egípcios eram um povo de mente muito concreta, e concebiam que a imortalidade poderia ser atingida através do poder de Osíris de maneira completamente materialista. Era por essa razão que conservavam os corpos daqueles que tinham sido levados para Osíris, através da iniciação, como conta o "Livro dos Mortos"; com efeito, acreditavam que, enquanto o corpo físico persistisse, a alma, ou Ka, também teria um corpo no qual poderia viver na Terra-dos-bem-aventurados, como Osíris que, no texto de uma pirâmide da quinta dinastia, é chamado de "Chefe daqueles que estão no Oeste", isto é, no outro mundo.
Ísis e Osíris eram irmãos gêmeos, que mantinham relações sexuais ainda no ventre da mãe e desta união nasceu o Hórus-mais-velho. No Egito, nesta época, era hábito entre os faraós e as divindades a celebração de núpcias entre irmãos, para não contaminar o sangue.
A história continua contando que quando Osíris tornou-se rei, livrou os egípcios de uma existência muito primitiva. Ensinou-lhes a agricultura e a feitura do vinho, formulou leis e instruiu como honrar seus deuses. Depois partiu para uma viagem por todo o país, educando o povo e encantando-o com sua persuasão e razão, com a música, e "toda a arte que as mesas oferecem".
Enquanto ele estava longe sua esposa Ísis governou, e tudo correu bem, mas tão logo ele retornou, Seth, que simbolizava o calor do deserto e da luxúria desenfreada, forjou um plano para apanhar Osíris e afastá-lo. Confeccionou um barril do tamanho de Osíris. Então convidou todos os Deuses para uma grande festa, tendo escondido seus setenta e dois seguidores por perto. Durante a festividade, mostrou seu barril que foi admirado por todos. Prometeu dá-lo de presente àquele que coubesse nele. Então todos entraram nele por sua vez, mas ele se ajustou somente a Osíris. Neste momento, os homens escondidos apareceram e, rapidamente lacraram a tampa do barril. Levaram-o e jogaram no rio Nilo. Ele boiou para longe e alcançou o mar pela "passagem que é conhecida por um nome abominável".
Este evento ocorreu no décimo sétimo dia de Hator, isto é, novembro, no décimo oitavo ano de reinado de Osíris. Ele viveu e reinou por um ciclo de vinte e oito períodos ou dias, porque ele era a lua, cujo ciclo completa-se a cada vinte e oito dias.
Quando Ísis foi sabedora dos acontecimentos fatídicos, cortou uma mecha de seu cabelo e vestiu roupas de luto e vagou por todos os lugares, chorando e procurando pelo barril. Foi seu cachorro Anúbis, que era filho de Néftis e Osíris, que levou-a até o lugar onde o caixão tinha parado na praia, no país de Biblos. Ele havia ficado perto de uma moita de urzes, que cresceram tanto com sua presença, que tornou-se uma árvore que envolveu o barril. O rei daquele país mandou cortar a tal árvore e de seu tronco fez uma viga para a cumeeira de seu palácio, sem sequer imaginar que o mesmo continha o barril.
Ísis para reaver seu marido, fez amizade com as damas de companhia da rainha daquele país e acabou como enfermeira do príncipe. Ísis criou o menino dando-lhe o dedo ao invés de seu peito para mamar.
Os nomes do rei e da rainha são: Malec e Astarte, ou Istar. Bem sugestivo, pois nos faz ver que Ísis teve que recuperar o corpo de Osíris de sua predecessora da Arábia.
Acabou tendo que revelar-se para a rainha e implorou pelo tronco da árvore que continha o corpo de Osíris. Ísis retirou o barril da árvore e levou-o consigo em sua barcaça de volta para casa. Ao chegar, escondeu o caixão e foi procurar seu filho Hórus, para ajudá-la a trazer Osíris de volta à vida.
Seth que havia saído para caçar com seus cachorros, encontra o barril. Abriu-o e cortou o corpo de Osíris em catorze pedaços espalhando-os. Aqui temos a fragmentação, os catorze pedaços que óbviamente referem-se aos catorze dias da lua.
Ísis soube do ocorrido e saiu à procura das partes do corpo. Viajou para longe em sua barcaça e onde quer que acahasse uma das partes fazia um santuário naquele lugar. Conseguiu reunir treze das peças unindo-as por mágica, mas faltava o falo. Então fez uma imagem desta parte e "consagrou o falo, em honra do qual os egípcios ainda hoje conservam uma festa chamada de "Faloforia", que significa "carregar o falo".
Ísis concebeu por meio dessa imagem e gerou uma criança, o Hórus-mais-jovem.
Osíris sugiu do submundo e apareceu para o Hórus-mais-velho. Treinou-o então para vingar-se de Seth. A luta foi longa, mas finalmente Hórus trouxe Seth amarrado para sua mãe.
Este é o resumo do mito.
Os cerimoniais do Egito eram relacionados com esses acontecimentos. A morte de Osíris, interpretada todos os anos, bem como as perambulações de Ísis e suas lamentações, tinham um papel conspícuo. O mistério final de sua ressureição e a demonstração pública, em procissão, do emblema de seu poder, a imagem do falo, completavam o ritual. Era uma religião na qual a participação emocional da tristeza e alegria de Ísis tinha lugar proeminente. Posteriormente, tornou-se de fato uma das religiões nas quais a redenção era atingida através do êxtase emocional pelo qual o adorador sentia-se um com Deus.

ARQUÉTIPO DA PROVEDORA DA VIDA.

É pelo poder de Ísis, através de seu amor, que o homem afogado na luxúria e na paixão, eleva-se a uma vida espiritual. Ísis, antes de tudo, é provedora da vida. Comumente é representada amamentando seu filho Hórus, pois ela é a mãe que nutri e alimenta tudo que gera. Ísis com seu bebê no colo, acabou transformada na Virgem Maria com o menino Jesus.
Embora Isis fosse considerada como mãe universal ela era venerada como protetora das mulheres em particular. Sendo aquela que dá a vida, que presidia sobre vida e morte, ela era protetora das mulheres durante o parto e confortava aquelas que perdiam seus entes queridos. Em Ísis, as mulheres encontravam o apoio e a inspiração para prosseguirem com suas vidas. Ísis proclamava ser, em hinos antigos, a deusa das mulheres e dotava suas seguidoras de poderes iguais aos do homem.
Esta Deusa é também freqüentemente representada como uma Deusa negra. Este fato está diretamente associado ao período de luto de Ísis (morte de Osíris), quando ela vestia-se de preto ou ela própria era preta.
As estátuas pretas de Ísis tinham também um outro sentido. Plutarco declara que "suas estátuas com chifres são representações da Lua Crescente, enquanto que as estátuas com roupa preta significavam as ocultações e as obscuridades nas quais ela segue o Sol (Osíris), almejando por ele. Conseqüentemente, invocam a Lua para casos de amor e Eudoxo diz que Ísis é quem os decide".
No Solstício de Inverno, a Deusa, na forma de vaca dourada, coberta por um traje negro, era carregada sete vezes em torno do Santuário de Osíris morto, representando as perambulações de Ísis, que viajou através do mundo pranteando sua morte e procurando pelas partes espalhadas de seu corpo. Este ritual, era um procedimento mágico, que tencionava prevenir que a seca invadisse as regiões férteis do Nilo, pois a ressurreição de Osíris era, naquela época, um símbolo da enchente anual do Nilo, da qual a fertilidade da terra dependia.


ÍSIS E HÓRUS.

Muita conhecida de todos os nós é a história de Hórus, o filho de Ísis, a Deusa do Egito, tanto quanto os também tão estimados e conhecidos Maria e o menino Jesus no cristianismo. Entretanto, existem algumas diferenças entre os dois: a Ísis é adorada como uma divindade maternal muito antiga. Algumas vezes é representada com um disco do sol (ou lua) na cabeça, flanqueada à direita e à esquerda por dois chifres de vaca. A vaca era e é por seu úbere dispensador de leite o animal-mãe, usado em muitas culturas como símbolo materno. Outra diferença fundamental entre Ísis e Maria é também o fato de Ísis ter sido venerada como a grande amada. Ainda no ventre materno ela se casou com seu irmão gêmeo Osíris, que ela amava acima de tudo.
Nos rituais antigos egípcios, executados para obter a ressurreição, o olho de Hórus tinha papel muito importante e era usado para animar o corpo do morto cujos membros tinham sido reunidos. Hórus, filho e herdeiro por excelência, é invocado também, para que impeça a ação do réptéis que estão no céu, na terra e na água, os leões do deserto, os crocodilos do rio.
Protetor da realeza, Hórus desempenha ainda, o papel capital do Deus da cura. A magia de Hórus desvia as flechas do arco, apazigua a cólera do coração do ser angustiado.


ARQUÉTIPO DE CURA.

Ísis era invocada nas antigas escrituras como a senhora da cura, restauradora da vida e fonte de ervas curativas. ela era venerada como a senhora das palavras de poder, cujos encantamentos faziam desaparecer as doenças.
À noção de magia liga-se também, imediatamente ao nome de Ísis, que conhece o nome secreto do Deus supremo. Ísis dipõe do poder mágico que Geb, o Deus da Terra, lhe ofereceu para poder proteger o filho Hórus. Ela pode fechar a boca de cada serpente, afastar do filho qualquer leão do deserto, todos os crocodilos do rio, qualquer réptil que morda. Ela pode desviar o efeito do veneno, pode fazer recuar o seu fogo destruidor por meio da palavra, fornecer ar a quem dele necessite. Os humores malignos que perturbam o corpo humano obedecem a Ísis. Qualquer pessoa picada, mordida, agredida, apela a ísis, a da boca hábil, identificiando-se com Hórus, que chama a mãe em seu socorro. Ela virá, fará gestos mágicos, mostrar-se-á tranqüilizadora ao cuidar do filho. Nada de grave irá lesar o filho da grande Deusa.
Ísis aparece em na nossa vida para dizer que é hora de meditar. Você tem desperdiçado sua energia maternal sem guardar um pouco para si mesma? Sua mãe lhe deu todo o amor que você precisou? Pois agora é tempo de você se dar "um colo" para curar as mágoas do passado. Todos nós precisamos de cuidados maternos, independente de sermos donzela, mãe ou mulher madura.


ARQUÉTIPO DA MÃE-NATUREZA.

Ísis, Deusa da lua, também é Mãe da Natureza. Ela nos diz que para este mundo continuar a existir tudo que é criado um dia precisa ser destruído. Ísis determina que não deve haver harmonia perpétua, com o bem sempre no ascendente. Ao contrário, deseja que sempre exista o conflito entre os poderes do crescimento e da destruição. O processa da vida, caminha sobre estes opostos. O que chamamos de "processo da vida", não é idêntico ao bem-estar da forma na qual a vida está neste momento manifesta, mas pertence ao reino espiritual no qual se baseia a manifestação material.
Com certeza, se a morte e a decadência não tivessem dotados de poderes tão grandes quanto as forças da criação, nosso mundo inteiro já teria alcançado o estado de estagnação. Se tudo permanecesse para sempre como foi primeiramente feito, todas as capacidades de "fazer" teriam sido esgotadas há séculos. A vida hoje estaria hoje totalmente paralisada. E, assim, inesperadamente, o excesso de bem, acabaria em seu oposto e tornar-se-ia excesso de mal.
Ísis, tanto na forma da natureza, como na forma de Lua, tinha dois aspectos. Era criadora, mãe, enfermeira de todos e também destruidora.
O nome Ísis, significa "Antiga" e era também chamada de "Maat", a sabedoria antiga. Isto corresponde a sabedoria das coisas como são e como foram, a capacidade inata inerente, de seguir a natureza das coisas, tanto na forma presente como em seu desenvolvimento inevitável, uma relação à outra.P.Wikepédia.

domingo, 5 de agosto de 2012

NAS MARGENS DO GANGES - por Rabindranath Tagore.


Se gostas de ouvir narrações dos tempos passados, então senta-te nesse degrau e presta atenção ao chapinhar da água.
Estávamos nas proximidades do mês de Ashwin (Setembro). A ribeira ia cheia. Da escadaria que descia, somente quatro degraus estavam fora da água. Na margem da ribeira cresciam tufos de plantas compactos sob os ramos dos bosques de mangueiras, onde a corrente formava um ângulo e deixava a descoberto três grandes montões de tijolo As barcas de pesca, amarradas aos troncos de babilas, balouçavam-se indolentemente. Os grandes caniços que cobriam o banco de areia captavam os primeiros raios de sol e começavam a florir antes de atingir o seu pleno desenvolvimento.
Os barcos abriam as suas velas sobre a ribeira cheia de sol. O sacerdote, com os seus vasos rituais, dispunha-se a tomar o banho. As mulheres, em grupos, vinham buscar água. Era a hora em que Kusum tinha o costume de aparecer no alto da escadaria e tomar banho.
Mas naquela manhã não a vi chegar. Diante do ghât (1), Bhudan e Swarno lamentavam-se. A sua amiga - diziam - tinha sido levada para casa do marido, uma localidade muito afastada da ribeira, e que se distinguia por uma população estranha, casas estranhas e caminhos estranhos.
Entretanto ela quase desapareceu da minha memória. Passou um ano. As mulheres que vinham tomar banho falavam novamente de Kusum. Uma tarde, porém, estremeci ao reconhecer dois pés familiares. Mas ai, eles não traziam anéis e tinham perdido o seu tilintar musical de outrora!
Kusum estava viúva. Dizia-se que o marido fora chamado a uma cidade longínqua e que ela apenas o vira uma ou duas vezes. O correio trouxera-lhe a notícia da sua morte. Viúva aos oito anos, apagara na fronte o sinal vermelho de casada, despojara-se dos seus braceletes e voltara para a velha casa à beira do Ganges. Mas encontrou poucas amigas dos tempos de solteira. Bhudan, Swarno e Amala tinham casado e partido; só Sarat ficara; mas afirmavam que se dispunha a casar em Dezembro.
Da mesma forma que o Ganges, na estação das chuvas aumenta gradualmente de volume e transborda, assim Kusum se aproximava, dia a dia, da plena floração de beleza. Mas com vestes brancas e sem enfeites, de rosto pensativo e atitude calma, lançavam-lhe um véu sobre a juventude e ocultavam-na, como uma bruma, aos olhos dos homens. Dez anos tinham decorrido sem que ninguém reparasse que Kusum se desenvolvia.
Uma manhã, há muitos anos e por esta mesma temperatura de fim de Setembro, um sannyasi (2) jovem e de pele clara, chegado não se sabe donde, veio abrigar-se no templo de Sivá, na minha frente. A notícia da sua chegada em breve se espalhou por toda a aldeia. Abandonando as bilhas, as mulheres acorriam ao templo para saudar o santo homem.
A multidão aumentava de dia para dia. A fama do sannyasi depressa se espalhou entre as mulheres. Ele, ora recitava o Bhagvat ora comentava o Gita (3), ou pregava no templo acerca do tema que escolhiam num livro santo. Uns pediam-lhe conselhos, outros os seus sortilégios ou a sua ciência de curar.
Passaram-se meses. Em Abril, na época do eclipse solar, os banhos do Ganges atraíam uma multidão considerável. Uma feira se organizou sob as árvores de babla. Entre os numerosos peregrinos, acorridos para saudar o sannyasi, vinha um grupo de mulheres da aldeia onde Kusum fora casada.
Era uma manhã. O sannyasi, sentado num degrau, rezava, quando, de súbito, entre os peregrinos, uma mulher fazendo sinal a uma das suas companheiras, murmurava:
- Mas é o esposo de Kusum!
A companheira, afastando um pouco o véu exclamou:
- Palavra, é bem ele! É o filho mais novo dos Chattergi, que habita na minha aldeia!
Uma terceira, disse por sua vez:
- Ele tem exactamente a mesma testa, o mesmo nariz e os mesmos olhos.
Enquanto uma outra, sem mesmo olhar para o sannyasi, agitava a sua bilha na água, suspirando:
- Ai! Ele não é nem será o que foi! Pobre da Kusum!
Uma delas objectou então: «Ele não tinha uma barba tão grande»; e outra: «Ele não era tão magro»; uma outra ainda: «Parecia-me mais alto». E a discussão ficou por aí.
Uma noite de lua cheia, Kusum veio sentar-se perto da água, no mais alto dos meus degraus.
A sua sombra projectava-se sobre mim.
Estávamos sós junto do ghât. Os grilos cantavam à nossa volta. O tanger dos gongos e das sinetas do templo tinham cessado e o murmúrio da água era cada vez mais fraco, para se perder em breve, como a saudade dum som, nos bosques indistintos da margem oposta. Um raio da lua brilhava nas águas escuras do Ganges. Ao montante do rio, sob as sebes e arbustos, sob o pórtico do templo e sob os bosques das palmeiras, perfilavam-se sombras de formas fantásticas. Os morcegos balouçavam-se nos ramos de chatuns. Na proximidade das habitações, os chacais soltavam uivos arrepiantes e prolongados.
O sannyasi saiu do templo com o seu passo lento. Desceu alguns degraus ghât e viu uma mulher só. Ia afastar-se quando de súbito Kusum ergueu a cabeça; voltou-se. O véu caiu e a lua iluminou-lhe o rosto.
Um mocho voou por cima da sua cabeça. Ao ouvir o pio da ave ela estremeceu, ajustou o véu e prosternou-se aos pés do sannyasi.
O Sannyasi deu-lhe a bênção e perguntou:
- Quem sois?
Ela respondeu:
- O meu nome é Kusum.
Nessa noite não trocaram mais palavra. Kusum voltou para casa, lentamente, e o sannyasi permaneceu durante longas horas nos degraus do ghât. Quando, enfim, a lua emigrou do este para o oeste, o Sannyasi levantou-se e entrou no templo.
Vi todos os dias Kusum vir prosternar-se aos pés do sannyasi. Quando ele comentava os livros sagrados, permanecia a um canto e escutava-o; quando acabava as suas orações da manhã, ele chamava-a para junto de si e conversava com ela sobre assuntos religiosos. Kusum não podia compreender tudo, mas escutava-o com atenção e fazia esforços para o compreender. Ele dirigia-a e ela obedecia-lhe escrupulosamente. Kusum ajudava o serviço, sempre pronta à adoração de Deus, colhendo flores para a oferenda e indo buscar água ao Ganges para lavar o chão do templo.
O inverno ia terminar. Os ventos eram ainda frios, por vezes; à noite, a brisa quente da primavera soprava bruscamente do sul e o céu tornava-se azulado; depois dum longo silêncio ouvia-se novamente o som das flautas e a música da aldeia. Os barqueiros deixavam ir os barcos ao sabor da corrente, paravam de remar e entoavam cânticos a Krishna. Era a primavera.
Nesta altura, perdi Kusum de vista. Havia alguns dias que ela deixara de aparecer no templo, no ghât ou diante do sannyasi.
Ignoro o que se passou então, mas, pouco depois, os dois encontraram-se de novo, uma noite, nas escadarias.
Com os olhos baixos, Kusum perguntou:
- Senhor, chamou-me?
- Sim, porque não vinhas? Porque esqueceste, há algum tempo, o serviço de Deus?
Ela ficou silenciosa.
- Diz-me o teu pensamento, sem receio.
Voltando o rosto, ela respondeu:
- Senhor, eu sou uma pecadora, faltei ao meu dever de adoração.
O sannyasi disse-lhe:
- Kusum, eu sei que a tua alma está perturbada.
Ela estremeceu ligeiramente; depois, cobrindo o rosto com o Sari, sentou-se no degrau aos pés do sannyasi e começou a chorar.
Ele recuou um pouco e continuou:
- Diz-me o que tens no coração; eu te mostrarei o caminho da paz.
Ela respondeu com fé e palavras entrecortadas:
- Se me ordena, falarei. Mas receio que não possa exprimir-me com clareza. Mestre, certamente adivinhou tudo. Eu adorei um ser humano como a um Deus, venerei-o, e, ao render-lhe este culto, o meu coração transbordou de felicidade. Mas uma noite, eu sonhei que o Senhor da minha alma estava sentado num jardim, estreitando a minha mão direita na sua mão esquerda e murmurava palavras de amor. A cena não parecia de forma alguma estranha. O sonho desfez-se, mas a sua impressão ficou. No dia seguinte, quando os meus olhos se levantaram para ele, pareceu-me diferente. A imagem que me apareceu no sonho continuava a perseguir-me. Atemorizada tentei fugir para longe, mas a imagem não saía do meu espírito. Desde então, a minha alma não conhece a paz, e tudo em mim se tornou sombrio!
Enquanto enxugava as lágrimas ao mesmo tempo que falava, o Sannyasi martelava convulsivamente, com o pé, o degrau de pedra.
Quando ela acabou de contar, o Sannyasi perguntou:
- Diz-me: quem viste no teu sonho?
Com as mãos juntas, ela suplicou:
- Não posso.
Ele insistiu:
- Deves dizer-me tudo.
Ela contorceu as mãos e interrogou:
- Assim o deseja?
- É teu dever! - respondeu o sannyasi.
Então ela exclamou:
- Senhor, fostes vós que eu vi!
E deixando-se cair no degrau, começou a soluçar profundamente.
Quando sossegou e pôde levantar-se, o Sannyasi disse numa voz meiga:
- Deixarei este lugar esta mesma noite e não me verás mais. Sabes que sou um sannyasi e que não pertenço a este mundo. Deves esquecer-me.
Kusum respondeu em voz baixa:
- Assim farei, Senhor!
O sannyasi murmurou:
- Digo-te adeus...
Sem dizer palavra, Kusum inclinou-se e tocou os pés do sannyasi com a fronte.
E o santo homem deixou a aldeia.
A lua desaparecera; a noite tornou-se escura. Ouvia-se o chapinhar da água. O vento soprava furiosamente nas trevas, como se quisesse varrer as estrelas do céu.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

LÓTUS, A FLOR SAGRADA.


Ela cobre as planícies alagadas do Oriente, do Egito à China. E é venerada em todo o mundo por milhões de pessoas, que a consideram o símbolo máximo da pureza espiritual.

A fumaça do incenso envolve como nuvens os monges budistas do templo DoiSuthep, construído no século XIV nos arredores da cidade de Chiang Mai, no norte da Tailândia. Ao amanhecer, como de costume, eles levam nas mãos os botões rosados da flor de lótus, espalhando um perfume suave no ar. Com voz grave, murmuram um dos principais mantras, os cânticos sagrados do Budismo:

"OM MANI PADME HUM".

Originária do antigo idioma sânscrito, a frase significa: "Ó jóia preciosa de lótus". Terminada a oração, eles depositam uma quantidade tão grande de lótus sob os pés de Buda que quase soterram a imagem sagrada.

Milhões de pessoas de vários países asiáticos acreditam que o mantra do lótus tem a capacidade de transformar as pessoas em seres puros e iluminados como o próprio Buda.

Na Índia, está relacionada à criação do mundo. De acordo com as escrituras indianas, foi do umbigo do deus Vishnu que teria nascido uma brilhante flor de lótus, e dela surgido outra divindade, Brahma, o criador do cosmo. Nas gravuras indianas, deuses costumam aparecer em pé ou sentados sobre a flor.

São assim, por exemplo, as representações do deus-elefante Ganesha, de Lakshmi, a deusa da prosperidade, e de Shiva, o criador e destruidor.

No interior das pirâmides e nos antigos palácios do Egito, o lótus também é representado como planta sagrada, pertencente ao mundo dos deuses. Como na Índia, essa flor testemunha a criação do universo. Um dos mais interessantes relatos da mitologia egípcia sobre a origem de nosso planeta conta que, num tempo muito distante, um cálice de lótus, com as pétalas fechadas, flutuava nas trevas. Entediada com o vazio, a flor pediu ao deus Sol Ra que criasse o universo. Agradecida pelo desejo realizado, a flor passou a abrigar o deus Sol em suas pétalas durante a noite, de onde ele saía ao amanhecer para iluminar sua criação.

Já os chineses tinham outra interpretação, que ia além da mitologia: eles associavam a flor ao órgão genital feminino. Na China antiga não havia elogio melhor para uma cortesã do que ser chamada de Lótus de Ouro, segundo informam os pesquisadores franceses Jean Chevalier e Alain Gheerbrant no livro Dicionário de Símbolos. Explica-se assim porque entre os chineses a planta é tão associada ao nascimento e à criação.

Mesmo assim, o lótus não deixa de fazer parte das tradições religiosas daquele país. A deusa do amor e da compaixão Kuan Yin, a mais venerada entre as divindades femininas na China, é representada com flores de lótus ainda fechadas nas mãos e nos pés. Como o botão da flor tem o formato do coração, os fiéis acreditam que a planta teria o dom dos sentimentos amorosos.

Os chineses acrescentam ainda outras qualidades preciosas ao lótus. Segundo eles, a haste dura simboliza a firmeza, a opulência de sementes estaria relacionada à fertilidade, as folhas - como nascem juntas - indicariam felicidade conjugal e a opulência da planta, prosperidade. O passado, presente e o futuro também seriam simbolizados, respectivamente, pela flor seca, pela aberta e pelas sementes que irão germinar.

Nas pinturas dos artistas tibetanos, linhagens de budas e homens santos aparecem flutuando sobre flores de lótus - uma representação dos tronos da suprema espiritualidade. Nas escrituras budistas do Tibet, conta-se que o pequeno Buda já podia andar ao nascer e que, a cada passo, brotavam flores de lótus de suas pegadas - um sinal de sua origem divina. Hoje, muitos monges e fiéis dessa religião visualizam essa mesma cena enquanto caminham, imaginando que flores de lótus surgem debaixo de seus pés. Com essa prática meditativa, acreditam eles, estariam espalhando o amor e a compaixão de Buda simbolizados pela flor.


Om Mani Padme Hum.

Este Mantra expressa a energia pura da compaixão que existe em todos os seres. Pronunciá-lo na meditação, ou enquanto executamos nossas tarefas diárias, não apenas desperta a nossa compaixão, mas o fato de nos unirmos com os outros milhões de indivíduos que também o pronunciam, contribu i para o crescimento da energia de paz e de amor no mundo.

"OM" Encerra as dimensões do Corpo, Fala e Espirito. Às vezes, em nossa vida , experimentamos distúrbios e emoções negativas que nos tiram de nossa verdadeira natureza. "OM" nos dá a possibilidade de transformá-las, de purificá-las. Pode ser traduzido também como a essência de toda forma de esclarecimento.

"MANI" Significa uma pedra preciosa para o amor e a compaixão.

"PADME" É a flor de lótus, a flor que cresce na água e que se mostra exatamente como é. Uma visão da realidade, a flor da sabedoria e do entendimento.

"HUM" Representa o espírito do esclarecimento. Produz o efeito de estabilização e de purificação espiritual.
Grupo Mahavidya.

Durga - Dakini.


Quando Mahishashura, o búfalo demônio, ameaçava destruir o mundo, os Devas que tinham os poderes de detê-lo juntaram seus poderes (Shakti), e criaram Devi Durga, que com sucesso destruiu o demônio. Durga é a protetora de lei e da ordem (Dharma), e a destruidora do mal. Durga está identificada próximo com Shakti, e, como tal, é a contra-forma feminina de Siva. Ela é a guardiã protetora sempre atenta, tanto feroz como no amor. Ela possui dez braços, três olhos, e monta um leão ou um tigre. O Durga Puja é celebrado em toda a Índia como um dos mais importantes festivais.A deusa Durga representa a força do ser supremo que preserva a ordem moral e a correção da criação. A palavra sânscrita durga significa a força ou o lugar protegido, difícil de ser alcançado. Durga, também chamada de divina mãe, protege da ação dos demônios e da miséria. Ela destrói as forças do mal como inveja, ira e orgulho. Sua adoração é muito popular entre os hindus. Ela é chamada de muitos outros nomes, como Parvati, Ambika e Kali. Na forma de Parvati, ela é conhecida como a divina esposa do deus Shiva e a mãe de seus filhos, Ganesha e Karttikeya.

Simbolismos associados à figura e Durga:

Durga veste roupas vermelhas. A cor vermelha simboliza ação. Sua aplicação na vestimenta indica que Durga está sempre ocupada destruindo o mal e protegendo da dor e sofrimento.

O tigre simboliza a força ilimitada. Durga montando um tigre indica sua força ilimitada, seu poder de proteção da virtude e destruição do mal.

Os dezoito braços de Durga significam a força combinada das nove encarnações do deus Vishnu (que apareceu na terra em diferentes tempos no passado). A décima encarnação, a Kalkin (um homem em um cavalo branco), ainda está por vir.

O som que emana da concha é o som sagrado da sílaba AUM, que é o som da criação. Uma concha em uma das mãos de Durga significa a última vitória da virtude sobre o mal e do certo sobre o errado.

As armas nas mãos de Durga passam a idéia de que apenas um tipo de arma não é suficiente para a destruição de todos os tipos de inimigos. Por exemplo, orgulho precisa ser destruído pela humildade, o egoísmo pelo desapego e o prejuízo pelo auto-conhecimento.Wikepédia.

A DANÇA CÓSMICA.


Sim, o universo é uma dança. E nós somos os dançarinos que participam deste evento mágico. A dança e os dançarinos existem juntos. Como haverá dança sem o dançarino? E como haverá dançarino sem dança? Deus e a criação existem juntos, sempre existiram, e sempre existirão. Universos aparecem, universos desaparecem. Mas Aquilo que deu origem, a fonte de energia principal que deu início ao aparecimento simplesmente não desaparece, porque é Eterna, está fora do tempo, está fora do espaço. Apenas Isto existe independentemente de qualquer coisa. Deus Pai existe além de tudo. Deus Filho é a criação. A criação é passageira. Deus Pai é Eterno.

O que é Eterno sempre foi chamado de simplesmente luz. A escuridão vem a vai. Ela é uma ausência temporária da luz. Mas a luz permanece. Escuridão é apenas ausência de luz.

Muitos de nós ainda estamos fora do foco principal da espiritualidade. Sofremos e alimentamos nossos problemas, porque simplesmente não sabemos viver sem eles. Mantemos o foco no mundo relativo do sofrimento, no mundo passageiro, e não olhamos com atenção e carinho para Aquilo que sempre permanece, todo o instante, e é a fonte de tudo que há.


Se escuridão é falta de luz, o que você precisa? Simplesmente aprender uma coisa muito bela e muito simples: aprender a focar o Eterno, exatamente no momento presente, exatamente aqui.

Aprender a focar a fonte da luz é o que mestres e professores espirituais tem chamado de meditação. E esta luz está disponível onde Deus está. Onde Deus estaria senão aqui-agora o tempo inteiro? Mas, então, porque nos sentimos tão separados de Deus e da vida? Porque todos os conceitos de Deus que nós aprendemos na sociedade nos fizeram separar-se Dele, e não aproximar-se Dele.

Nós aprendemos que Deus está distante, em algum lugar, depois da morte, julgando nossos atos bons e maus. Que infantilidade! Nós simplesmente criamos um Deus humano com apegos e aversões, e então vivemos com medo de nós mesmos. Criamos um Deus a partir de nossas neuroses. É por isso que Niesztche disse: “Deus está morto”. É claro que ele estava se referindo ao Deus criado pelo homem, fabricado pela mente humana e sua sede de poder e controle. Sim, temos de enterrar aquele Deus castigador, aquele Deus vingativo ao qual temos de temer. Este Deus não pode ser o Deus real, porque o Deus real não pode ser entendido pelo pensamento. O Deus real é Amor. Pelo pensamento apenas coisas mundanas e culturais podem ser entendidas. Deus não precisa ser entendido, apenas vivido. Você não precisa entender o amor, não precisa escrever tratados sobre o amor. Você tem de viver o amor. Deus é o mistério da sua natureza. Ele não está distante de você, porque em última instância, ele é a única coisa que existe. Os universos vêm e vão, os corpos vêm e vão, a mente vêm e vai, mas aquilo que deu origem a tudo isso permanece. Meu corpo, pensamentos e sentimentos estão sempre mudando. Mas há algo que posso verificar agora que não está mudando e nunca mudará: esse algo é Consciência Pura, ou o Eterno em mim. Reconhecer isto é estar em paz.

Naseeb é terapeuta, professor de meditação, e palestrante.

Terra.


Aceita a minha homenagem, Terra, enquanto faço a minha última vénia ao dia.
Ajoelhado aos pés do altar do poente

Tu és poderosa, e apenas reconhecível pelos poderosos;
Tu equilibras o encanto e a severidade,
Misturando o masculino com o feminino,
Trazendo à vida humana o insuportável conflito.
A taça que a tua mão direita enche com nétar
É esmagada pela tua mão esquerda;
O teu pátio ressoa com o teu riso trocista.
Tornas o heroísmo difícil de alcançar;
Toda a excelência custosa
Não tens misericórdia com aqueles que merecem misericórdia.
Um incessante combate oculta-se a teus pés:
As tuas colheitas e frutos são coroas de vitória ganhas na batalha.
Terra e mar são os teus cruéis campos de batalha –
A vida proclama o seu triunfo no rosto da morte.
A civilização finda os seus alicerces na tua crueldade:
A ruína é a condenação exata para qualquer falta.

No primeiro capitulo da tua história os Demónios eram supremos –
Rudes, bárbaros, brutais
Aos seus dedos toscos e grossos faltava arte;
Com clavas e malhos nas mãos armaram motins do mar e nas montanhas.
O seu fogo e o seu fumo agitaram violentamente o céu até ao pesadelo;
Eles controlaram o mundo inerte;
Eles cegaram o ódio da Vida.

Os deuses vieram a seguir; com os seus feitiços e subjugaram os Demónios –
Despedaçada foi a insolência da matéria
A Terra-Mãe estendeu no seu manto verde:
Nos picos do Este estava a Aurora;
Nas costas Oeste caiu A Noite
Derramando a Paz no seu cálice

Os Demónios foram humilhados
Mas a barbárie primordial manteve as suas garras na tua história.
De repente podia invadir a ordem com a anarquia –
Dos negros esconderijos do teu ser
Pode surgir como uma serpente.
A sua loucura está no seu sangue
Os feitiços dos deuses ressoam no céu e no ar e na floresta,
Cantando solenemente dia e noite; alto e baixo;
Mas das regiões sob a tua superfície
Às vezes os Demónios semidomesticados levantam os seus capelos –
Eles ferem-te profundamente e às tuas criaturas
Arruinando a tua própria criação.

No teu assento sobre o bem e o mal,
À tua vasta e terrível beleza,
Ofereço hoje a minha homenagem de vida ferida.
Toco o teu enorme e sepultado depósito da vida e da morte,
Sinto-o através do meu corpo e do meu pensamento.
Os cadáveres de inúmeras gerações de homens jazem amontoados no teu pó:
Eu também acrescentarei alguns punhados, a medida à medida da final das minhas dores e alegrias,
Acrescentando a esse enorme absorvente, a essa forma absorvente, a essa fama absorvente,
A esse silencioso monte de pó.

Terra, presa à pedra ou voando entre as nuvens;
Absorta na medição silenciosa da cordilheira
Ou ruidosamente como o bramido de insones ondas do mar;
És a beleza e a fertilidade, o terror e a fome.
Por um lado acres de searas, inclinando-se com a maturação,
Limpas do orvalho de cada manhã por delicados raios de sol –
Ao poente também, oferecendo na sua ondulante verdura a Alegria, a Alegria;
Por outro lado, nos desertos insalubres, secos, estéreis,
A dança de espetros entre ossos de animais espalhados.

Contemplai as tuas tempestades Baisakh desceras velozmente como falcões negros
Rasgando o horizonte com bicos de luz relampejante
Com chicotada da cauda nas arvores
Até estas caírem desesperadas no chão;
Telhados de colmo soltam-se
Fugindo do vento como condenados das suas correntes.

Mas em Phalgun vi a quente brisa do Sul,
Propagar todas as rapsódias e solilóquios do amor
No seu perfume de flor e manga;
Vi o vinho espumante do Céu transbordar da taça da lua;
Ouvi sebes submeterem-se bruscamente à agitação do vento
E estalarem em ofegantes murmúrios.
Tu és gentil e feroz, antiga e renovada;
Emergiste do fogo sacrificial da criação original há muito, muito tempo.
A tua peregrinação cíclica está preparada com vestígios sem sentido da história;
Abandonando as tuas criações sem remorsos, juntas umas sobre as outras,
Esquecidas.

Guardião da Vida, tu alimentas-nos
Em pequenas gaiolas de tempo fragmentado,
Fronteiras de todos os nosso jogos, limites reconhecidos.

Hoje, estou à tua frente sem ilusões:
Não te peço a imortalidade à tua porta
Para os muitos dias e noites que passei a tecer as tuas grinaldas.
Mas se eu tivesse dado real valor
Ao teu pequeno assento um minúsculo segmento de uma das Eras
Que se abrem e fecham como clarões nos milhões de anos
Da tua órbita solar ;
Se eu tivesse ganho nos tribunais da vida algum sucesso,
Então marcaria a minha fronte com um sinal feito da tua argila –
Para ser apagado a tempo pela noite
Na qual todos os sinais desaparecem no desconhecido final.

Ó longínqua, impiedosa Terra,
Antes de eu ser completamente esquecido
Deixa-me colocar a minha homenagem aos teus pés.
Rabindranath Tagore.