contos sol e lua
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
A Luz da Alma Imortal.
A vida é mais complexa do que parece. Buddhi, o sexto princípio da consciência humana, não funciona como um bloco compacto, mas como uma tríade.
A alma espiritual é o nível de consciência simbolizado - na lenda cristã - pela figura de Jesus Cristo. Buddhi é aquele que se sacrifica. Ele desce ao plano da alma mortal e do mundo externo, encarna, é crucificado neste plano, e vive a ressurreição. A ressurreição ocorre no pós-morte, através do Devachan, ou na vida concreta, através do caminho teosófico e iniciático, e como resultado de um esforço que dura várias encarnações.
Na sua relação dinâmica com a alma mortal, Buddhi é uma tríade:
1) Buddhi em si;
2) Buddhi-Manas;
3) Buddhi-Kama.
Buddhi-manas é a combinação de Buddhi com o mundo mental. E existe também a combinação de Buddhi com o mundo emocional pessoal, Buddhi-kama. Esta última não é um processo fácil.
Buddhi-Manas, sem Buddhi-Kama, está sujeito a um “sequestro emocional” (termo criado por Daniel Goleman). O sequestro ocorre quando emoções inferiores “roubam” ideias espirituais e colocam o discurso altruísta a serviço de objetivos egocêntricos.
É comum surgir uma desconexão entre as emoções e ambições pessoais profundas e as ideias universais que o indivíduo adotou.
Então as emoções anti-evolutivas desafiam veladamente os ideais filosóficos, e tratam de usar as ideias generosas para seus fins egoístas. Isso configura o “sequestro” do que é generoso por parte daquilo que é anti-evolutivo. Esta luta deve ser compreendida, porque ela ocorre na maior parte das pessoas e traz perigo real.
O que produz um progresso espiritual verdadeiro, portanto, não é apenas aumentar as ideias e o conhecimento no plano conceitual, como se as ideias tivessem peso próprio decisivo. Ideias são feitas de ar e não de terra. O que trará progresso, além de ter ideias filosoficamente corretas, é examinar constantemente os sentimentos pessoais, olhando para eles desde o ponto de vista de Atma e Buddhi. Isso diminuirá o peso dos sentimentos opacos e inferiores, e irá restaurar o equilíbrio necessário entre os dois pratos da balança: o prato de Buddhi-Manas, e o prato de Buddhi-Kama.
Buddhi-Kama é feito pelas emoções da alma imortal, e entre elas está o sentimento do herói, que enfrenta perigos por uma causa maior e renuncia voluntariamente à sua vida menor para fazer a jornada nobre do auto-sacrifício, vivendo a vida maior. Esta decisão voluntária produz a devoção pelo companheiro de caminhada que é mais experiente, a devoção pelo crescimento e aprendizagem de todos os seres, e a devoção pelo mestre - ou mestres - como fontes de ensinamento sagrado.
Devoção é o amor do pequeno pelo grande, do terrestre pelo celestial. A percepção intelectual do divino fica prejudicada sem a sua contrapartida emocional, o amor pelo mundo divino e seus habitantes. Este compromisso maior gera a psicologia do herói em sua jornada épica, cujo nome técnico é “discipulado”.
O aprendiz deve examinar com cuidado o processo da aspiração espiritual em si mesmo. Deve verificar se há um equilíbrio entre dois elementos:
A) De um lado, a curiosidade intelectual-búdica, a vontade de compreender a si mesmo e ao universo.
B) De outro lado, a vivência emocional-búdica, a ânsia por contribuir altruisticamente com a Causa da evolução humana e com o bem-estar de todos os seres.
No plano intelectual, buscamos a verdade. No emocional, buscamos retribuir à vida por aquilo que ganhamos dela.
Quando a relação na balança entre pensamentos e sentimentos é disfuncional, ao invés de existirem emoções búdicas e pensamentos búdicos lado a lado nos dois pratos, temos emoções de raiva, competição, inveja e rancor - ao lado de pensamentos universais e búdicos.
Desta maneira, a substância que um prato da balança está pesando é o oposto da substância que o outro prato da balança contém. Em uma simetria desfavorável, os dois pólos do processo anulam-se reciprocamente, e o resultado prático é o oposto do amor e da verdade, ainda quando o individuo, no plano externo, possa usar as palavras e as aparências da espiritualidade.
Em que condições o fiel da balança é de fato a Sabedoria, como deve ser?
O equilíbrio se dá na Sabedoria quando os dois pratos da balança contêm respectivamente VERDADE IMPESSOAL (Buddhi-Manas) e AMOR ALTRUÍSTA (Buddhi-Kama).
Não é por acaso que o sentimento de Amor pela Verdade está na origem da palavra “filo-sofia” (“amor ao saber”) e no lema do movimento teosófico: “Não Há Religião Mais Elevada Que a Verdade”.
Em última instância, a construção do movimento teosófico autêntico em língua portuguesa depende do despertar de Buddhi, que combina emoções como devoção e renúncia, por um lado, com pensamentos universais, impessoais e lúcidos, de outro lado.
A mudança externa da vida de um estudante ocorre quando emoções sinceras e generosas acompanham passo a passo as concepções filosóficas.
Quando as emoções não acompanham os pensamentos universais, elas passam a contrapor-se ativamente a eles. Alimentadas pelas motivações e pelas ações reais no mundo externo, as emoções passam então a ser OPOSTAS aos pensamentos e ao discurso de natureza universal. Elas passam a desafiá-los, a boicotá-los. Levam o indivíduo a odiar, competir e invejar ativamente aqueles que, em seu mundo pessoal, deveriam co-personificar a vivência do universal. Daí a luta interna que alguns estudantes enfrentam em suas próprias almas. Daí, também, as lutas neuróticas e subterrâneas pelo poder e pela “liderança” nos movimentos esotéricos cuja proposta de ensino e aprendizagem não é a melhor.
Embora as palavras e os conceitos sejam fundamentais, eles não bastam. É preciso restabelecer o equilíbrio na balança entre buddhi-manas e buddhi-kama: a balança entre as ideias e os sentimentos.
A teosofia é búdica. O princípio búdico transforma todos os aspectos da vida, ainda que isso às vezes tome mais tempo do que se pode prever.
Em última instância, Buddhi não funciona apenas como uma tríade, mas é uma luz setenária, cuja energia, além de preservar-se em seu próprio âmbito búdico, se combina com cada um dos outros seis princípios da consciência.
A verdadeira luz de buddhi é literalmente como a luz do sol. Atma é sol, e Buddhi é luz. A luz ilumina tudo, e não só pensamentos. A luz búdica transforma tudo, ou não transforma nada. Ela desmancha todas as paredes e proteções, ou não é búdica. Palavras sobre a luz não substituem a luz. Quando o estudante percebe a luz, ele compreende que ela ilumina tanto coisas agradáveis como coisas desagradáveis. Ele deve concentrar o foco da visão na luz, evitando a dispersão, porque no seu devido tempo a visão universal transmuta todas as coisas para melhor. O buscador da verdade deve manter a visão ampla e o foco preciso. Deve ser fundamentalmente otimista, porque está em contato prioritário com o que é ótimo. Num segundo plano, deve ser calmamente rigoroso e severo em relação às ilusões, porque só há progresso real na medida em que elas são deixadas de lado. Carlos Cardoso Aveline.
A Ocasião.
Quem és tu? Se és mulher, não pareces mortal,
Tanto o céu te adornou de graça original.
Por que razão jamais descansas? Por que trazes
Asas nos pés? Por que só em fugir te aprazes?
Sou a Ocasião. Bem raro é conhecer-me alguém
Pois sempre em movimento estou. Nada detém
Meu passo. Um de meus pés sobre uma roda pisa.
Mais veloz do que o meu, − vôo nenhum desliza
Ou me iguala sequer. Tonteia quem fitar
Das asas de meus pés a rapidez sem par.
Puxo por sobre a testa a esparsa cabeleira
Toda a face e o pescoço a encobrir, de maneira
Que não se me conheça, em eu chegando. Atrás
Meu crânio é frio e nu; sem um cabelo jaz.
Quem me deixou passar, ou esse em cuja frente
Voltei-me, − esse fará esforço inutilmente
Para apanhar-me ... Em vão! ... Breve se cansa e cai...
− Mas, dize-me: Quem é que os teus passos vai
Como sombra seguindo?
− É o Arrependimento.
Pega-o quem me pegar não pôde: ele é mais lento.
Mas tu que, a me falar, perdendo tempo estás,
Não percebes, não vês, ó, mísero incapaz
Que enquanto frases vãs ouves e pronuncias,
Eu já me escapuli das tuas mãos tardias?
Affonso Celso.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
As 42 Leis de Maat.
Na mitologia egípcia, Maet ou Maat é a deusa da Justiça e do Equilíbrio.
É representada por uma mulher jovem exbindo na cabeça uma pluma. É filha de Rá, o deus do Sol e esposa de Tot(alguns escritores defendem que o deu-lua Thot era o irmão de Ma'at), o escriba dos deuses com cabeça de ibis. Com a pena da verdade ela pesava as almas de todos que chegassem ao Salão de Julgamento subterrâneo. Colocava a pluma na balança e no prato oposto o coração do falecido. Se os pratos ficassem em equilíbrio, o morto podia festejar com as divindades e os espíritos da morte. Entretanto, se o coração fosse mais pesado, ele era devolvido para Ammut (deusa do Inferno, que é parte hipopótamo, parte leão, parte crocodilo) para ser devorado). Os deuses egípcios não eram pessoas imortais para serem adoradas, mas sim ideais e qualidades para serem honradas e praticadas.
1 - Eu não cometi assasinato e nem incitei qualquer ser humano a matar em meu favor
2 - Eu não cometi estupro e nem forçei qualquer mulher a fazer fornificação
3 - Eu não me vinguei e nem " agi " com raiva
4 - Eu não causei terror e nem causei aflição a alguém
5 - Eu nunca fiz ninguém sentir dor e nem forçei alguém a trabalhar pesadamente
6 - Eu nunca fiz qualquer dano ou mal a alguém, nem causei miséria
7 - Eu nunca feri qualquer ser humano e nem forjei qualquer danos aos animais
8 - Eu nunca fiz ninguém lamentar
9 - Eu não tenho nenhum conhecimento do Mal, não agi maldosamente e nem prejudiquei as pessoas.
10-Eu nunca roubei, nem tomei aquilo que não me pertence nem aquilo que pertence a outros. Nunca tomei nada dos pomares nem arrebatei o leite da boca das crianças
11-Eu nunca cometi fraude, nem adicionei pesos a balança e nem fiz o peso ficar mais leve
12-Eu não cometi desperdício na terra arada nem pisoteei os campos
13-Eu não tirei o gado do seu pasto e nem privei qualquer um daquilo que era seu direito
14-Eu nunca acusei nenhum homem falsamente e nem dei apoio a qualquer falsa acusação
15-Eu não falei mentiras, nem falei falsamente para ferir o outro
16-Eu nunca proferi palavras maldosas nem incitei à discussão
17-Eu não agi enganosa e traiçoeiramente, nem negociei desonestamente e nem falei qualquer coisa para ferir o outro
18-Eu nunca zombei de ninguém nem dirigi minhas palavras contra qualquer homem
19-Eu nunca fui intrometido
20-Eu não tirei meu ouvido das palavras do Direito/Daquilo que é certo e da verdade
21-Eu não julguei apressadamente e nem julguei severamente
22-Eu não causei nenhum crime no lugar do Direito e da Verdade
23-Eu não causei nenhum mal que possa ser feito aos empregados pelos seus patrões
24-Eu nunca fiquei bravo sem uma causa
25-Eu não disviei a água do seu fluxo, nem parei o fluxo da água corrente
26-Eu não quebrei a fonte de água corrente
27-Eu nunca turvei a água nem poluí a terra
28-Eu nunca almadiçoei e menosprezei Deus, nem fiz qualquer coisa que Deus "abomina"
29- Eu nunca vexei ou enfureci a Deus
30-Eu não roubei a Deus nem furtei o que foi oferecido nos templos
31-Eu não adicionei nada as oferendas e nem diminui as oferendas
32-Eu não roubei o bolo dos deuses
33-Eu não retirei ás oferendas feitas no corpo morto abençoado
34-Eu não desconsiderei a área designada para as oferendas
35-Eu não mandei embora o gado reservado para o sacrifício
36-Eu não contrariei as procissões de Deus
37-Eu não massacrei com más intenções o gado de Deus
Transgressões Pessoais.
38-Eu não agi enganosa e traiçoeiramente e nem agi com insolência
39-Eu não fui por demais orgulhoso, nem me comportei com arrogância
40-Eu nunca magnifiquei minha condição para além do que ela realmente é
41-Cada dia eu tenho trabalhado mais do que é requerido de mim
42-Meu nome não veio além do barco do Príncipe.
sábado, 19 de janeiro de 2013
um poema.
Enquanto acalma sua mente, ouça a sabedoria do sábio...
Procure seguir placidamente em meio ao barulho e a pressa e lembre-se da paz que se encontra no silêncio.
Tanto quanto possível, viva bem com todas as pessoas.
Fale a sua verdade clara e mansamente.
E escute os outros, mesmo os estúpidos e ignorantes: eles também têm uma história para contar.
Evite as pessoas escandalosas e agressivas; elas afligem o espírito.
Se vc se comparar com os outros, pode se tornar vaidoso ou amargo, pois haverá sempre pessoas superiores e inferiores a vc.
Viva intensamente seus ideais e o que vc já conseguiu realizar.
Mantenha-se interessado em sua carreira, por mais humilde que seja: ela é um verdadeiro tesouro na contínua mudança dos tempos.
O mundo é cheio de armadilhas, mas não deixe que isso venha cegá-lo para a presença da virtude.
Seja vc mesmo.
Sobretudo não finja afeição.
Não seja cínico quanto ao amor, pois diante de toda falta de sensibilidade e de todo o desencanto, ele é tão perene quanto a relva.
Cultive a força do espírito para proteger-se em caso de um inesperado infortúnio.
Mas não se desgaste com temores imaginários.
Muitos medos nascem da fadiga e da solidão.
Seja gentil consigo mesmo.
Vc é filho do Universo, assim como as árvores e as estrelas.
Vc tem direito de estar aqui.
E, quer vc entenda, quer não, o Universo está se desenrolando como deveria.
Portanto, fique em paz com Deus, seja qual for a forma como vc o concebe.
E, quaisquer que sejam suas aspirações, na confusão ruidosa da vida, procure manter a paz em sua alma.
A despeito de todas as fraudes, enganações e sonhos perdidos, este ainda é um mundo belo.
Então, seja alegre e esforce-se para ser feliz.osho.
DESAFIOS.
A vida só é possível através dos desafios. A vida só é possível quando você tem tanto o bom tempo quanto o mau tempo, quando tem prazer e dor; quando tem inverno e verão, dia e noite; quando tem tristeza tanto quanto felicidade, desconforto tanto quanto conforto. A vida passa entre essas duas polaridades. Movendo-se entre essas duas polaridades, você aprende a se equilibrar. Entre essas duas asas, você aprende a voar até a estrela mais brilhante.
Nascemos para atingirmos o êxtase, a felicidade suprema, é nosso direito de nascença. Mas as pessoas são tão tolas, nem mesmo exigem seus direitos de nascença. Ficam mais preocupadas com aquilo que os outros possuem e começam a correr atrás dessas coisas. Nunca olham para dentro, nunca procuram em suas próprias casas. Uma pessoa inteligente irá começar sua busca a partir de seu ser interior. Este será o ponto de partida de sua exploração, porque a menos que eu saiba o que está dentro de mim, como poderei sair procurando mundo afora? O mundo é tão vasto. E aqueles que olharam para dentro encontraram imediatamente aquilo que buscavam. Não é uma questão de progresso gradual, é um fenômeno súbito, uma iluminação repentina.
Ame algo mais elevado, algo maior, algo no qual você se perderá e que não possa controlar; você pode ser possuído por ele, mas não pode possuí-lo. Então o ego desaparece, e, quando o amor não tiver ego, ele será prece."
A vida deveria ser uma celebração contínua, um festival de luzes por todo o ano. Somente então você pode se desenvolver, você pode florir. Transforme pequenas coisas em celebração... Tudo o que você faz deveria expressar a si próprio; deveria ter a sua assinatura. Então a vida se torna uma celebração contínua.
Osho.
Eros e Psique.
Há muito, muito tempo, quando os deuses ainda viviam entre os homens, havia na Grécia um rei que tinha três filhas. Todas belíssimas, todas em idade de casar.
As filhas do rei eram belas, mas a mais nova delas, Psiquê, era mais do que bela. As palavras humanas não davam conta de descrever seus encantos e os milhares de pretendentes que chegavam ao reino, atraídos pela fama das irmãs, sentiam-se indignos diante dela e sequer ousavam pedi-la em casamento. O reino fervilhava, gente de todos os outros reinos vinham em romarias e se deixavam ficar pela cidade, apenas esperando ver a jovem princesa passar; músicas e poemas eram escritos em sua homenagem, mas Psiquê, no alto do castelo de seu pai, continuava solitária: nenhum homem podia se apaixonar por uma mulher bela como uma deusa.
E como os deuses não costumam tolerar os arroubos divinos dos humanos. Afrodite estava mais do que furiosa! Como ousava uma mortal ser mais bela do que a própria Deusa da Beleza? "Vê, Grande Mãe da Natureza, origem de todos os elementos, observa como tu, que és a alma de todo o universo, estás dividindo as honras da majestade com uma simples mortal e como teu nome está sendo profanado pelos humanos!", resmungava a deusa para si mesma.
Chamou seu filho - quem senão Eros - o Deus do Amor e mandou, como só mandam as mães: Psiquê deveria se apaixonar pedidamente pelo mais horrendo dos homens. E mal disse, partiu, deixando o filho com a imagem da princesa. Partiu Afrodite, solene, para o mar, onde nascera, e que se abria encantado a cada vez que a deusa tocava os pés nas brancas espumas.
Enquanto isso, desesperado com a situação da filha mais nova, o rei havia decidido buscar os conselhos do oráculo do deus Apolo: "Vista a princesa de luto, leve-a à mais alta rocha à beira do mar. Lá, uma serpente alada virá buscá-la e a transformará em sua esposa!". Terrível profecia! Mas como os gregos não costumavam discutir os conselhos dos deuses, a bela Psiquê foi levada em cortejo pelas ruas para cumprir seu destino, em meio às lágrimas e à tristeza de todos.
Mas qual seria o destino de Psiquê? Sem querer - ops, como pode uma deusa fazer algo sem querer? - Afrodite não tinha apenas alterado o futuro de sua rival. Sozinho com a imagem da jovem, Eros havia se apaixonado, irremediavelmente.
Uma pausa, só para perguntar se você reconhece por detrás do cenário os temas universais que tornam esta história fascinante ainda hoje?
Mas espere só para ver... é claro que será Eros em forma de "monstro alado" que vai resgatar Psiquê acorrentada no alto do rochedo. É ele que vai tornar-se seu esposo, com uma única condição: a princesa jamais poderia ver o rosto do marido! Parece fácil, não é? Mas todas as mulheres que um dia tentaram manter casamentos ou relações à custa de varrer para baixo do tapete os aspectos sombrios do parceiro ou da relação sabem que esta é realmente uma tarefa impossível.
E foi impossível mesmo para Psiquê. Embora feliz como um gato , vivendo como uma rainha, rodeada de todo luxo de que precisava e com um marido amoroso que só via à noite e no escuro. algo a incomodava. Um dia, alimentada pelas suspeitas das irmãs invejosas de sua riqueza, ela decide descobrir com quem estava realmente casada. Aproximou-se do marido e, pela primeira vez ousou olhar. E, imediatamente, apaixonou-se pelo Deus do Amor. Psiquê, aflitíssima, queria voltar atrás, fingir que nada havia acontecido, continuar sua vidinha, mas não era mais possível. A cera da lâmpada escorreu e pingou no rosto do deus adormecido.
E lá está a pobre Psiquê em prantos. Eros, indignado, vai embora sem ouvir as desculpas nem ligar para as lágrimas da esposa. E, de certa forma, é neste momento que a história começa de verdade. Porque, para recuperar o amor e a confiança do marido, Psiquê precisa percorrer um longuíssimo caminho.
A viagem da alma.
Em grego, Psiquê significa "alma". No momento em que conhece o esposo, a jovem se transforma em mulher, apaixona-se e precisa sair em busca de si mesmo. A história de Psiquê foi usada pelos estudiosos como analogia para a história do desenvolvimento da alma. E não são fáceis estes movimentos da alma. Assim como a jornada de Psiquê, o caminho do autoconhecimento e do amor verdadeiro é cheio de perigos, cheio de armadilhas. Nenhum herói se faz sem provar sua coragem e sua competência. Psiquê é uma história de heróis, feminina...
Quando parte em busca do amado, Psiquê está absolutamente só... mas grávida (talvez porque as mulheres, quando decidem percorrer seu caminho feminino, nunca estejam de fato sós; talvez porque toda decisão de mudança faça germinar uma semente de possibilidades). Mesmo assim, nem os outros deuses se atrevem a ajudá-la. Finalmente, é levada até a própria Afrodite que, como não poderia deixar de ser, uma vez que este é um legítimo conto de fadas, impõe à moça várias tarefas, para testá-la ou para destruí-la.
As tarefas de Psiquê.
Seu primeiro trabalho é separar um gigantesco monte de grãos variados em pilhas organizadas. E como não podia pedir ajuda aos deuses, Psiquê chama pelas pequenas criaturas da terra e as formigas vêm em seu auxílio. Depois desta, Afrodite manda a nora trazer a penugem de ouro que cobria a pele de uns carneiros ferozes que vagavam pelos campos. Mais uma vez, quem salva a moça é uma criatura da terra, um junco que lhe dá bons conselhos: "seja paciente, menina, aguarde o momento certo. Quando cair a noite, os ferozes carneiros não vão parecer tão ferozes, nem tão ameaçadores para quem traz em si a semente do feminino”...
Para completar a terceira tarefa, Psiquê deve trazer a água da fonte que alimenta os rios infernais, no cume de um rochedo. Desta vez, quem vem ajudar a jovem é a águia de Zeus, a pedido de Eros, que começava a sentir saudades da esposa. Afrodite dá ainda à moça uma última tarefa. A mais difícil. E se você - que está lendo - é mulher, vai concordar... Psiquê deve descer até as profundezas do mundo subterrâneo e pedir o creme de beleza de Perséfone, a rainha do Hades. Quando a moça já vem vindo de volta, quase chegando, quase vitoriosa, não resiste e abre a caixinha, na esperança de passar na pele um pouquinho só do creme mágico e tornar-se mais bela... para Eros. E no mesmo instante, é envolvida pelo sono da morte! Não, nem adianta se impacientar com a vaidade da moça.
Erich Neumann, que conta a história no belo livro Eros e Psiquê, comenta: no momento em que escolhe o fracasso de forma tão paradoxal, Psiquê realiza seu destino feminino.
E é um Eros que não tem mais nada do menino ferido, que busca abrigo nas pregas da saia da mãe, quem vai acordar Psiquê. Ele devolve o sono à caixinha, toca a mulher com a ponta de suas asas e diz a ela para ir cumprir sua tarefa até o final, sem medo. É ele que vai ao Olimpo solicitar a benção dos deuses para o casamento. E é ele que pede a Hermes, o deus-guia, que conduza Psiquê à sua nova e eterna morada.
A história acaba como devem acabar todas as histórias: os deuses comemoram as núpcias de Psiquê e Eros com um grande banquete. Zeus oferece à jovem o néctar da imortalidade. Afrodite, a Grande-Mãe, ora terrível, ora bela, apaziguada, recebe sua nora. E juntas celebram o mistério do nascimento e do renascimento, quando Psiquê dá à luz uma menina, Volúpia. que vai ser chamada também, Deleite ou Bem-aventurança. Expressão mais do que feminina da união entre o humano e o divino.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
SOLIDÃO DE DUENDES.
Enquanto não se cumpre o ditame do destino...
Sofro, mantendo a luz dentro de mim,
Mesmo na noite
A solidão de duendes...
O silêncio o vento, invocam ao beijo
Que não bebi nos teus lábios.
A Lua reflete seu brilho,
Avivando suas opiniões que são minhas,
Um ou dois, são quantos parecem
Aos olhos da alquimia de quem ama.
Da mocidade
A amargura da cura finda,
Ao ver os ídolos todos nus
Na dura realidade da mente e,
afinal brilha um raio
Que ilumina a cegueira...
E faz, no silêncio de um olhar,
Nos tocarmos...
Sonho o que mortal algum sonharia
Assim, devolvo a paz ao coração
Onde repousa a dor
Que flutua quando surge a tua luz
E desperto radiante
Como a estrela que se ergue em teu olhar.
Brindo, a cada alvorecer e,
Com o sol a despertar-me
Trazendo consigo
O desenho perfeito de teu rosto.
Brindo, em taças o vinho da vida que renasce,
Quando renasço, quando te vejo.
Como a um bailado de luzes multicores,
Quando por pequenos momentos
Estendo minhas mãos
E tua face parece que toco.
Ana Maria Passos.
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