contos sol e lua

contos sol e lua

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

TEXTO DE :Prem Rawat.


Dentro.
"Todo mundo tem sonhos. Felizmente, a realidade é mais bela do que qualquer sonho.
Durante muitos séculos, uma voz vem clamando: “O que você procura está dentro de si. A sua verdade está dentro. A sua paz é dentro.”
O desejo de sentir essas coisas é o que chamo de sede. Cada ser humano tem uma sede inata que é simples e verdadeira – uma sede de paz, de alegria, de contentamento. É uma sede de algo que já existe em nosso interior. Temos sede de sentir-nos em paz, de sentir-nos completos.
A paz que reside no coração pode ser sentida independentemente das circunstâncias – se a pessoa é rica ou pobre, boa ou má, certa ou errada, feliz ou triste. É um direito de nascença de cada ser humano."

Aceitação.
"O que procuramos está dentro de nós, não fora. Dentro de nós podemos encontrar a serenidade, a paz, uma alegria simples.
A paz não é somente algo bonito de ter; é algo que precisamos sentir. Precisamos do apoio sólido da paz na nossa existência. É por isso que essa jornada é tão importante.
Como nos preparamos para aceitar que o que buscamos está dentro de nós? Primeiro, temos de diminuir o ruído das distrações externas para poder perceber o contraste entre o que vem de fora e o que podemos sentir em nosso interior.
Quando começamos a sentir esse contraste, fica mais e mais fácil ver que a paz, a beleza, a alegria que procuramos já estão dentro de nós. Então cresce a aceitação de que há um mundo interior."

Experiência.
"Somos feitos para sentir. Somos a mais incrível máquina de sentir que existe. Podemos sentir quente e frio, alegria e tristeza.
Se conectar essa incrível máquina de sentir ao seu interior, você vai sentir paz, alegria, felicidade.
Essa experiência tem de ser sentida. Você não pode criá-la. Os símbolos ou as fórmulas de felicidade não vão satisfazer o coração. A felicidade tem de ser sentida. O coração precisa sentir a paz.
O seu coração sente a serenidade, a beleza? Ou sente o vazio? Se você quiser que o vazio se vá, deixe o coração sentir a plenitude que também reside dentro de você.
Você pode sentir a serenidade. Você pode sentir a beleza. É disso que se trata o presente do Conhecimento. A jornada do Conhecimento é uma jornada de autodescoberta.
Para os que desejam fazer essa jornada, ofereço ajuda na preparação para aprender as técnicas do Conhecimento e forneço inspiração e orientação contínuas para uma vida inteira de desfrute."

Deixe Que o Coração Seja o Juiz.
"Talvez, em nossas vidas, não tenhamos tido tempo para escutar o nosso coração. Talvez tenha acontecido muita coisa, tenhamos andado ocupados. Quando somos jovens, estamos ocupados. Quando ficamos um pouco mais velhos, ainda continuamos ocupados. Ficamos ainda mais velhos e continuamos ocupados. Esperamos pelo dia em que não estaremos tão ocupados. A cada dia que passa, as coisas externas ficam mais complexas.
O que estamos procurando é simples. Nós somos simples. O coração é simples. O que o coração quer é belo – somente essa alegria.
Isso não é egoísta. Cada ser humano tem um desejo inato de experimentar paz. É por isso que não é egoísta. Nós não criamos a sede de estar em paz. A sede está já aí; precisa apenas ser reconhecida.
Escute o coração; deixe o coração ser o juiz, não as outras pessoas. Podemos nos permitir não escutar o nosso próprio coração?"

Lar.
"O Conhecimento não é uma solução para os problemas nem um meio de melhorar nossas circunstâncias de vida. A única função do Conhecimento é fixar a atenção nesse lugar interno onde é possível sentir a alegria, a paz, a tranquilidade.
Como essa experiência é fundamental, o Conhecimento é fundamental. Como se trata de experimentar a si mesmo, trata-se do Conhecimento de Si Mesmo.
Só é possível experimentar a paz e a alegria no momento chamado agora. Podemos tentar imaginar o futuro ou lembrar o passado, mas nem por um milésimo de segundo podemos existir no futuro ou no passado. O momento chamado agora é a nossa casa. É onde realmente vivemos. É por isso que é tão importante experimentar a vida um momento de cada vez."

Uma Realidade Magnífica.
"Se a sede de satisfação não estiver clara na nossa vida, podemos estar rodeados de água e não fará diferença. No meio do deserto, quando a sede fica evidente, até meio copo de água é a coisa mais preciosa. Ponha todo o ouro do mundo e meio copo de água na frente de uma pessoa no deserto e veja qual dos dois ela vai escolher.
Quando a nossa sede está clara, tudo faz sentido — não há mais mistérios, não há mais ideias, não há mais dúvidas, não há mais perguntas. Nadamos então nas águas belas e cristalinas da clareza. Podemos relaxar. Podemos desfrutar. Mais uma vez, podemos ser quem fomos feitos para ser, quem realmente somos.
Isso não é algo que temos de aprender. É algo que temos de desvelar, descobrir.
A nossa vida é uma realidade magnífica. Somos uma realidade magnífica em um mundo magnífico. Dentro de nós existe uma paz infinita. Dentro de nós existe uma alegria infinita. Ela não está na antiguidade. Não está na ciência moderna.
Está dentro, dentro do coração de cada ser humano."

Simples.
"No final das contas, a vida é simples. Esta respiração é simples. O Conhecimento é muito simples.
E a compreensão do Conhecimento é muito, muito simples. A simplicidade, às vezes, não é um processo da fazer, mas de desfazer. Não é um processo de aprender, mas de desaprender, descobrir o que já está aí. Não é um processo de introduzir novos elementos.
Trata-se de remover os elementos indesejados, de remover tudo que é desnecessário, tudo que é indesejado. Tal como acontece quando o escultor retira os pedaços que mascaram a figura oculta na rocha, fazendo emergir uma bela forma. O que fica é esse diamante belo e brilhante – a própria vida."

Jornada.
"Nesta viagem, o esforço que se requer é o de prestar atenção, entender, aspirar a encontrar o lugar dentro de você.
Todas as viagens que fizemos em nossa vida nos levaram para longe de nós.
Aonde leva essa viagem? À experiência interior. Essa é uma viagem de volta a você, apenas a você.
É por isso que essa viagem não é apenas bela e agradável; ela também é, na verdade, a descoberta mais fascinante. O Conhecimento é ele próprio uma viagem.
A meta não é apenas aprender as técnicas do Conhecimento, mas desfrutar esta vida, desfrutar cada respiração — a cada dia. A própria viagem é o destino.
Essa é de fato uma viagem para a vida toda."

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A porta até você.


Em toda sua vida você se relaciona com duas portas: a porta pela qual você veio através do nascimento, e aquela pela qual você partirá.
Mas há uma outra porta, e essa é a porta até você.

Eu ofereço ajuda para abrir aquela porta até você. Eu chamo de Conhecimento um modo prático de você se habilitar a ir para dentro de si e sentir aquele sentimento que está lá, dentro de você. Eu ofereço quatro técnicas para aqueles que desejarem este Conhecimento. Existe um processo muito simples de se preparar para ele, e em seguida você tem a possibilidade de ir para dentro e sentir aquele sentimento.

Do que eu estou falando está dentro de você.
Sempre esteve, sempre estará.

Recentemente falei, em muitos eventos na Índia, que a coisa mais importante que temos é esta existência. Quando você nasce, recebe como presente uma experiência chamada vida.
E, nesta vida, o que você tem ?
Você tem uma respiração.

Você tem um dia, uma hora, um minuto, um segundo. Essas são suas realidades. Isso não é ficção. Não é um conceito. O que falo, o que quero experimentar na minha vida e o que quero que você vivencie não é a ficção. É realidade. Uma realidade que você pode tocar, sentir, que você pode entender. Em sua vida, aceitação deveria ser o que você sabe, entende, sente. Não com o pensamento, mas com o sentimento.
Há um lindo poema Indiano : "Que gotas compõem o oceano, todo mundo sabe; mas, que a gota contém o oceano, pouquíssimos o sabem".
Eu quero que você faça parte desses poucos que entendem isso.

Essa coisa incrível - nela está tudo e ela está em você, também. Você é a gota. Não a gota líquida, você é a gota. O oceano está em você.
E, sim, você pode sentir isso. Eu entendo isso, porque a mesma energia que está por toda parte chega até mim na forma de respiração - me toca e traz o presente da vida.

Por que se tornar pleno? A resposta para essa pergunta está na escritura que não exige alfabetização.
As pessoas se expressam de diversos modos, mas o que dizem é a mesma coisa. Somos todos humanos e, em última instância, temos a mesma paixão, queremos ter paz, ter contentamento, queremos ser felizes.

Recentemente, quando eu cruzava em vôo uma tempestade, tive uma experiência mágica. Havia belas nuvens de um lado, e uma espécie de abertura: nuvens do lado do oceano, nuvens do lado da terra firme, e o sol brilhava no meio. Às vezes apenas as extremidades se iluminavam e, de repente, as nuvens se acendiam por inteiro.
Não havia raios, só a chuva, e belos arco-íris. Parecia algo saído de um livro.

Eu estava lá olhando para isso tudo. Sei muito bem o que é um arco-íris. Posso até dizer onde vai surgir um, se tiver que surgir. Para isso é preciso que haja gotas d´água em suspensão e sol. É a refração da luz nas gotas d´água que faz o arco-íris.

E há nuvens. Sei exatamente o que são as nuvens: elas são vapor d´água. Na medida em que o calor aumenta, começa o resfriamento e a nuvem se forma. A chuva é o vapor d´água que sobe pela atmosfera, resfria-se e cai.
E pensei: "Sim, sei disso tudo. Mas por que é tão belo?"

Desfrutei aquilo. Não há equivalência entre toda a lógica do mundo e o que o coração tem para oferecer em termos de apreciação. O coração faz parte das pessoas tanto quanto o cérebro.
Dê ao coração o tempo necessário e sua vida começará a mudar, pois se há algo que todo mundo pode usar, mas faz isso de modo precário, é a apreciação.

Os médicos não vão dizer isso. Não aparece no exame de sangue. Mas somos todos deficientes em apreciação. Não sabemos o valor das coisas qeu nos foram dadas. Não compreendemos a beleza desta respiração. Quando se compreende a beleza da respiração, como é possível não apreciar?

Não é ciência o que vou dizer, mas creio que seja nossa capacidade de apreciar, de desfrutar, o que faz de nós o que somos. Os cães gostam daquilo que gostam, sem dúvida. Abanam o rabo e um brilho surge em seus olhos. Chegam até a sorrir . Gostam daquilo que gostam. Com os gatos é a mesma coisa. Gostam do que gostam.

Mas há algo que podemos apreciar por sermos o que somos. E isso, em minha opinião, é o que nos diferencia um pouco.

Espero que descubra o que é e preste atenção nessa coisa que está dentro de você e com a qual vai estabelecer um relacionamento. Aí, não estará apenas sobrevivendo, mas florescendo.

Não se julgue pelo que o mundo fez com você, com o que o mundo lhe diz, pelo o que aconteceu ou não aconteceu. Você está vivo. Respira. E por estar respirando você é rico, não pobre.
Você tem uma grande dádiva. O mesmo poder que sustenta todo o Universo mantém você - é algo que nem posso ter a pretensão de dimensionar.
Conheço a palavra infinito. Não consigo avaliá-la, mas posso senti-la, porque esse infinito também está dentro de mim. Esta é a minha força. O Universo respira; se contrai e se expande. É uma coisa viva. É algo que o mantém intacto. E a respiração chega a você graças a isso. A maioria das pessoas ignora que seja assim: "Respiração? O que é essa respiração?"
Mas não a ignore, sinta-a.

Essa coisa chamada vida tem sido descrita como um portal. É o mais próximo que o infinito e o infinito pode chegar um do outro. E aqui, nesta vida, o finito pode sentir o infinito. Assim como no espaço, o infinito poderá consumir o finito.
O finito voltará a ser apenas pó, e o infinito vai permanecer.

Acho isso surpreendente. Há uma imensidão do nada. E a certa altura passa a haver algo, algo que é realmente alguma coisa. Depois volta a imensidão do nada. Expansão e contração.
Respiração, existência. Desaparecendo, reaparecendo. Colisão. Torna-se algo. Não faça comparações: "Isso é tão trivial". Neste Universo nada é trivial, nada. Nem mesmo o pó é trivial, pois isso é tudo o que existe: pó compactado, partícula dispersa. Você é pó. Mas isso é algo, não um nada.

Então fique livre da confusão, da dúvida, do sofrimento. Não se preocupe com o que vai acontecer. Para onde vou? Isso é o que você tem se perguntado a vida toda.
As pessoas têm muitas idéias. Tudo bem. Acredito firmemente que o céu seja aqui. E não apenas creio, eu sei que este é o recipiente que pode sentir a beleza do céu.
Isso é o que lhe foi dado.

PREM RAWAT.

A Sinfonia Interior.


Há uma música que acompanha essa representação incrível da vida, que se pode ouvir com os ouvidos abertos e também tapados, porque a sinfonia que está tocando à nossa volta faz parte da sinfonia
de dentro de nós.
Aprenda a sentir não só o que está fora, mas também
o que está dentro, porque a peça continua a ser representada também dentro de você.
Nesta vida não há nenhum manual.
Mas há um coração.
Não há nenhuma norma. Mas há um sentir.
Será que aperfeiçoamos essa arte em nossa vida?
É uma arte.Tem que ser aperfeiçoada.
Tem que ser utilizada, uma vez, outra vez e outra vez.
Os músicos precisam praticar.
Se deixarem de praticar, deixam de tocar bem.
O desfrutar, o desfrutar a existência, também é uma arte. Ou se usa ou então o que acontece?
Perde-se. Há um festival acontecendo dentro de nós,
à espera de nossa participação. Talvez o que eu esteja falando pareça estranho demais.
Talvez estejamos habituados a ter festas com os amigos.
Mas estou falando da possibilidade de termos festa conosco mesmos
e, à propósito, é o melhor tipo de festa, porque nosso convidado não precisa ir embora.
Há uma sinfonia tocando com cada respiração.
Desperte para essa possibilidade.
É uma possibilidade, apenas isso.
Sim, é possível sentir-se preenchido, estar em paz consigo mesmo. Sim, é possível compreender o valor de cada respiração.É possível reconhecer o anseio desta vida.
É possível. É possível transformara dor em prazer,
a confusão em gratidão, a dúvida em saber.
É possível transformar as perguntas numa resposta.
Uma só. Uma resposta. Que tipo de resposta?
Aquela que não tem pergunta.
Prem Rawat.

domingo, 15 de janeiro de 2012

QUANDO NIETZSCHE CHOROU. Irvin D. Yalom.


No último quartel do séc.XIX em Veneza, no café Sorrento, tem lugar um encontro entre o médico austríaco, Josef Breuer e a insinuante jovem russa Lou Salomé, que promoveu uma série de outros encontros entre aquele e Friederich Nietzsche.

Explicadas as motivações tecidas à volta de um triângulo amoroso entre si, Paul Reé e Nietzsche, e porque a humanidade não poderia arriscar-se a perder o seu mais promitente filósofo, Lou materializa a primeira entrevista deste com Breuer, por intermédio do amigo comum Overbeck, com vista à descoberta da origem do mal, que vinha atacando o filósofo, o qual, é mantido na ignorância desta sua diligência, por aquela saber o que este pensa das ajudas desinteressadas.

Horas de intensa observação deram a conhecer a Breuer a personalidade obstinada e orgulhosa de Nietzsche. Como tratar alguém que recusa ajuda? Porque recusa?

Gorado o acordo para o tratamento, despediram-se friamente. Mas uma recaída do filósofo retoma o contacto com Breuer que lhe ouve, em estado quase comatoso um inesperado mas inconsciente pedido de ajuda. Aberta a brecha, Breuer avança, decidido a fazer Nietzsche soçobrar às suas tentativas de penetração na sua, até então, inviolável psique.

Mantinha-se, no entanto, inexpugnável o filósofo a quaisquer intromissões na sua fortaleza interior. Sucedem-se diálogos de prospecção psíquica, tão duros como inteligentes que os conduzem a um acordo peculiar.

Assentam, então num tratamento recíproco. Breuer, autor da iniciativa, aceita como clínico tentar debelar as enxaquecas de Nietzsche, e este como médico da mente, aceita tratar Breuer.

Homem realizado na sociedade vienense, pela excelência da sua ciência e do seu profissionalismo, Breuer conquistou a fama pela descoberta da importância do ouvido interno para o equilíbrio.

Tendo aplicado o mesmerismo a Bertha, uma jovem lindíssima, sua paciente, com uma grave histeria, criou problemas pelo tempo passado junto da doente, que fizeram nascer em Mathilde, sua esposa, ciúmes inconvenientes. A passar dos quarenta anos, Breuer pergunta-se se era aquilo por que tinha lutado.

Um sonho que recorrentemente o perseguia, e de que já havia falado com o seu amigo Freud, curioso destas fitas cerebrais, piora a situação pelo que poderia significar.

Mas com Bertha afastada da sua vida Breuer sente começar a descer para um subterrâneo desconhecido.

A argúcia argumentativa de Nietzsche, calça botas de soldado com que lhe pisa a estrutura familiar laboriosamente construída. E confronta-o, sem piedade, com a paternidade das escolhas assumidas. Então compreende!

Não havia sido Breuer a escolher o seu caminho. Sempre na esteira dos outros. A carreira, os amigos, o bem-estar, a mulher tinham-no moldado aos seus interesses. A sua genuinidade dormia sob o anestésico da sociedade. Sentiu um ferrão a rasgar o tórax.As escolhas não tinham sido suas. Foram eles que lhe apontaram os caminhos. Como a um cavalo condicionado por antolhos. E de repente tudo se desmorona.

Nietzsche médico das almas, cruel cirurgião da mente, tendo penetrado nos labirínticos meandros da psique de Breuer, desperta-lhe a força da idiossincracia própria de um ser irrepetível e único, pelo que começa a sentir-se como o caçador caçado.

Equipado com as armas necessárias à superação de si, Nietzsche encaminha Breuer para um exercício de auto consciência, o qual, induzido por hipnose pelo seu amigo Freud, consegue figurar Bertha, na intimidade com um outro clínico, dessacralizando assim momentos considerados como possíveis unicamente consigo. Imagina-se, então, profundamente ridículo. A catarse funcionou. Breuer recuperou-se e tornando-se naquilo que é assumiu-se como autor do seu futuro.

Sorridente, afirma-se curado para desgosto de Nietzsche que assim perde mais um amigo.

Nietzsche, a maior parte do ano doente, acossado por doenças do foro psiquiátrico acompanhadas de graves manifestações somáticas, era um homem deprimido. A atravessar desertos de solidão. Uma solidãoaltiva, desejada, própria dos fortes.A sua imaginação febril, afectada pelo rompimento com Wagner, ficou fundamente abalada com as notícias da irmã Elizabeth sobre o que Lou fazia correr sobre ele na sociedade. A traição de novo a corroer-lhe as entranhas. Está condenado a viver só com o seu mal. Longe do mundo e dos homens. Voltaria a galgar o alto Engadine de onde administraria na companhia da sua querida e orgulhosa dor o vasto e exclusivo império do seu EU, tanto mais robusto quanto mais sofrido.

Breuer sarado tinha de se ir embora. É quando se apercebe da íntima tristeza com que Nietzsche saudou a sua cura, e lembrando-se do pedido de ajuda, resolve fazer xeque mate ao mal do, agora, seu amigo. Sempre vencido nos diálogos mantidos com ele,não podia dispersar esta oportunidade única. Tal mostra de fragilidade seria a salvação dele. E sua também. Como clínico. Como amigo.

Se consigo Bertha foi a um tempo a origem da sua angústia, não teve dúvidas em eleger Lou Salomé como uma das grandes causadoras dos pesadelos, insónias e aflições de Nietzsche. Que finalmente se abre e denuncia um coração dilacerado, ao saber que aquela havia produzido, com ele Breuer, o mesmo comportamento insinuantemente provocador tal como, com ele, Nietzsche, que se julgava, no recesso do seu individualismo, senhor absoluto dos mimos de Lou Salomé.

Chamando então a si Freud e toda a sua ciência, a par de tudo o que com o filósofo aprendera, Breuer, impiedoso, escalavra aquele coração, libertando-o da solidão auto imposta, como sobrevivência num mundo imperfeito. Com a certeza e segurança da amizade entretecida na cumplicidade da dor, diluída pelo abraço que acede ao humano, demasiado humano.E que se torna menos mau sempre que um homem chora.

Friedrich Wilhelm Nietzsche 15/10/1844. 25/08/1900.


Órfão de pai aos cinco anos, Nietzsche passou a sua infância em Naumburg, uma pequena cidade da Alemanha às margens do rio Saale, onde cresceu em companhia da mãe, tias e avó. Foi batizado como Friedrich Wilhelm em homenagem ao rei da Prússia. Mais tarde, o filósofo abandonou o nome do meio.

Considerado por professores como um aluno brilhante, recebeu dos colegas o apelido de "pequeno pastor", profissão dos seus avós, que eram protestantes. Aos 14 anos, em conseqüência de sua dedicação aos estudos, obteve uma bolsa na renomada escola de Pforta. Lá, ganhou fluência em grego e latim e, ao mesmo tempo, começou a questionar os ensinamentos do cristianismo.

Depois de Pforta, foi para Bonn estudar filosofia e teologia. Convocado para o Exército em 1867, escapou da atividade devido a uma queda durante uma cavalgada. Convencido por um professor, passou a morar em Leipzig para estudar filologia. Com apenas 24 anos, conseguiu ser nomeado professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. Seu primeiro trabalho acadêmico conhecido foi "A Origem e Finalidade da Tragédia", que escreveu em 1871.

Nesta época, começou a sua amizade com o compositor Richard Wagner. A casa de campo do músico, localizada nas imediações do lago de Lucerna, em Tribschen, serviu-lhe de refúgio e inspiração.

Saúde debilitada
Em 1870, acontece a guerra franco-prussiana e Nietzsche participa como enfermeiro do Exército, mas uma crise de difteria e disenteria impede o filósofo de continuar trabalhando. A partir daí, publica o seu primeiro livro, "O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música" (1871), obra que recebeu grande influência de Wagner e Schopenhauer.

Com crises constantes de cefaléia, problemas de visão e dificuldade para se expressar, foi obrigado a interromper a sua carreira universitária por um ano, mas não deixou de escrever. Quando tentou retornar às atividades acadêmicas, enfrentou sérios problemas em suas cordas vocais que tornaram a sua fala quase inaudível.

Em 1879, quase cego, Nietzsche abandonou definitivamente a universidade, passando a dedicar-se exclusivamente à escrita. Neste período, editou seus principais livros, mas a fama somente chegou ao final do século 19, perto de sua morte. Publicou, então, "Humano, muito humano", e passou temporadas em Veneza e Gênova. Muito abatido com a rejeição por parte de Lou Andréas Salomé, jovem finlandesa com quem pretendia se casar, o filósofo voltou a morar com a mãe e a irmã, sempre demonstrando solidão e sofrimento.

Na última década de vida, Nietzsche começou a apresentar sinais de demência e a escrever cartas para muitas pessoas. Assinava seus textos como "Dionísio" e "O Crucificado". Internado na Basiléia, teve o diagnóstico de paralisia cerebral progressiva, que segundo os médicos, provavelmente foi causada pelo uso de drogas como ópio e haxixe, ingeridas pelo filosofo como auto-medicação. O filósofo morreu em 25 de agosto de 1900, sem recuperar a sua sanidade mental.

Uma de suas obras mais conhecidas é "Assim falava Zaratustra". O livro narra os ensinamentos de um filósofo, Zaratustra, após a fundação do Zoroastrismo na antiga Pérsia. Baseado em episódios, as histórias do livro podem ser lidas em qualquer ordem. Outras obras importantes do filósofo são "Além do Bem e do Mal" (1886), "A Genealogia da Moral" (1887), "O Caso Wagner" (1888), "O Crepúsculo dos Ídolos" (1889) e "Os Ditirambos de Dionísio" (1891).

Os estudiosos em Nietzsche classificam a sua obra como uma crítica aos valores ocidentais, da tradição cristã e platônica. Desde seus primeiros textos, as idéias do filósofo grego Platão eram condenadas como decadentes. Ao mesmo tempo, o filósofo repudiava o cristianismo e o classificava como 'platonismo para o povo'. A sua proposta era o resgate de um super-homem criador, que ficasse além do bem e do mal.

O Anticristo. Friedrich Nietzsche.


Este pequeno livro escrito em 1888 marca a posição do autor de transvalorar todos os valores. Uma crítica radical dos valores do cristianismo com o ousado diagnóstico de que estes são responsáveis pelo adoecimento do homem.
Um experimento transvalorado, já que aqui o cristianismo não é avaliado na verdade de seus dogmas, mas sim como fenômeno moral que norteia todo o processo civilizatório ocidental; se posiciona de fora destes valores buscando identificar o jogo de forças que estão presentes na sua origem e que permanecem ainda. O que quer saber é: o que valem esses valores e para onde eles nos levam.
Verifica no cristianismo uma interpretação do mundo puramente ficcional, sem nenhum contato com a realidade, pelo contrario, movida pelo ódio e pelo ressentimento desta mesma realidade.
Busca entendê-lo desde sua raíz judaica quando esta ainda possuía um Deus poderoso e que se transforma depois num Deus bom; quando se torna impotente perante o conquistador. A releitura que seus profetas fizeram do seu passado, no exílio, traduzida em termos de obediência ou não a Deus, é a causa das grandezas e sofrimentos de um povo. A invenção do pecado como forma de controle sacerdotal sobre um povo.
O papel de Jesus: Visto como um revolucionário anarquista que traz a Boa Nova na sua prática de vida, destruindo toda a distância entre Deus e o homem. Jesus veio ensinar uma vida nova e não uma nova fé.
Sua morte na cruz renova o espírito de vingança em seus apóstolos que não conseguem entender o motivo de tanta crueldade e precisam encontrar um culpado. Paulo encontra no signo Deus na cruz a fórmula para a vingança e invertendo todos os ensinamentos do mestre, que ele nem mesmo conheceu, cria uma religião do ódio aos valores aristocráticos em favor de tudo o que é baixo, fraco, impotente.
Paulo consegue inverter a boa nova de Jesus criando uma religião sacerdotal que vence Roma, o modelo de civilização para homens fortes.
O modelo de civilização que triunfa com o cristianismo é um adestramento e domesticação do tipo homem e a forma encontrada para levá-lo a cabo foi o adoecimento do animal homem.
Um experimento transvalorado que termina com uma sentença de condenação ao cristianismo e marca o êxito da transvaloração de seu autor.
Sobra a questão: Quem foi o anticristo?
Nietzsche? o primeiro a transvalorar o cristianismo?
Paulo? Aquele que transformou a boa nova na religião do ressentimento?
ou Jesus? Aquele que, com sua vida, negou todos os valores defendidos pelo cristianismo?

Decepção.


Com você conheci todos os sentimentos
possíveis e imagináveis
Por você chorei, sofri, amei e odiei!
Odiei pessoas que nada me fizeram
mas o fiz por você!


Por você perdi noites de sono
temi coisas inexistentes
que me fizestes acreditar
chorei e orei!


Não queria que fosse assim
eu não merecia
Acreditava em tudo que você dizia
fui infantil talvez por crer demais


Hoje estou desolado nem sei se é pecado
perdi a fé nas pessoas
Por você errei na minha boa fé
de coração desejo que sejas feliz


A vida é uma sementeira
na qual plantamos nossas ações
o colhedor somos nós não há escapatória
escrevemos no livro da vida nossa história
o protagonista somos nós!
Joe Luigi.