contos sol e lua

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sábado, 3 de julho de 2010

O Cavaleiro do Cisne.


Entre as óperas de Wagner, talvez nenhuma seja tão universalmente apreciada pela maioria das pessoas do que Lohengrin. Provavelmente porque a história, numa apreciação superficial, pareça muito simples e bonita. A música é de um caráter primoroso e incomum, agradando a todos de um modo não igualado pelas outras óperas do mesmo autor baseadas em mitos como Parsifal, o Anel do Niebelungo ou mesmo Tannhauser.
Apesar dessas obras afetarem poderosamente as pessoas que as ouvem pelo seu conteúdo espiritual (estejam conscientes ou não do fato), nem sempre são apreciadas, principalmente na América, onde o espírito de misticismo não é tão forte como na Europa.
É diferente com Lohengrin. Aqui há uma história do tempo em que a classe de cavaleiros florescia e, embora haja um encanto mágico na chegada de Lohengrin e do cisne em resposta às preces de Elsa, isto é apenas uma linda fantasia poética sem significado mais profundo. Neste mito é revelado um dos supremos requisitos da Iniciação - a fé.
Quem não possuir esta virtude não poderá obter a Iniciação, e quem a possuir verá atenuadas muitas de suas faltas.
O resumo do enredo é o seguinte: o herdeiro do Ducado de Brabant desapareceu. É apenas uma criança e irmão de Elsa, a heroína da peça, que no início da cena é acusada por seus inimigos, Ortrud e Telramund, de ter feito desaparecer esse irmão mais novo para que ela pudesse obter a posse do principado. Em conseqüência, foi intimada a comparecer perante a corte real para defender-se de seus acusadores. Na cena de abertura, nenhum cavaleiro havia ainda aparecido para defender sua causa e matar seus caluniadores. Então, aparece no rio um cisne com um cavaleiro que se aproxima do lugar onde está havendo o julgamento. Ele salta em terra e oferece-se para defender Elsa com a condição de que se casem. Ela logo concorda, pois ele não lhe é estranho; ela o tem visto freqüentemente em seus sonhos e aprendeu a amá-lo. No duelo entre o cavaleiro desconhecido e Telramund, este último é derrubado, mas sua vida é magnanimamente poupada pelo vencedor, que depois reivindica Elsa como sua noiva. Contudo, havia imposto outra condição, isto é, que ela nunca perguntasse quem ele era e de onde viera.
Bom e nobre, e como viera em resposta às suas preces, ela também não faz objeção a esta condição, e o casal se retira para os aposentos nupciais.
Embora temporariamente vencidos, Ortrud e Telramund não desistem da conspiração contra Elsa, e seu próximo passo é envenenar sua mente contra seu nobre protetor, para que ela o mande embora e fique novamente à mercê deles. Esperam, futuramente, ficar de posse do principado do qual Elsa e seu irmão são os legítimos herdeiros. Com este propósito em vista, ambos se apresentam à porta de Elsa e conseguem ser ouvidos por ela. Aparentam estar extremamente arrependidos pelo que fizeram e muito solícitos pelo seu bem-estar. Dizem sentir muito que ela tenha desposado alguém cujo nome nem mesmo sabe, e que tem tanto medo de que sua identidade seja conhecida, que a proibiu de perguntar seu nome, sob pena de ser abandonada por ele.
Argumentam que deve haver alguma coisa em sua vida da qual ele se envergonha, algo que não pode suportar a luz do dia, do contrário, por que desejaria negar a quem uniu-se por toda a vida, o conhecimento de sua identidade e antecedentes?
Por meio destes argumentos eles conseguem suscitar uma dúvida na alma de Elsa que, em seguida, dirige-se transformada para Lohengrin. Ele nota a diferença e pergunta-lhe a causa. Ela admite estar insegura em relação a ele e que gostaria de saber seu nome. Assim, quebrou a promessa feita, e ele lhe diz que agora havendo expressado uma dúvida a seu respeito, ser-lhe-á impossível ficar. Nem lágrimas nem protestos podem mudar esta resolução, e eles vão juntos para o rio onde Lohengrin chama seu fiel cisne. Quando este aparece, ele revela sua identidade dizendo: "Eu sou Lohengrin, o filho de Parsifal". Em seguida, o cisne transforma-se e aparece diante deles como o irmão de Elsa. Torna-se, portanto, seu protetor no lugar de Lohengrin, que se afasta.
Como foi dito, a história de Lohengrin contém uma das mais importantes lições a serem aprendidas no caminho da realização. Ninguém poderá jamais alcançar a Iniciação até que tenha aprendido isto. Para que possamos entender devidamente este ponto, olhemos primeiramente para o símbolo do cisne, vejamos o que ele representa e por que é usado. Os que assistiram a ópera Parsifal, ou que tenham lido atentamente a literatura sobre o Graal, já estão cientes do fato de que os cisnes estavam presentes nos emblemas usados por todos Cavaleiros do Graal.
Na própria ópera, são mencionados dois cisnes preparando um banho curativo para o sofredor Rei Amfortas Parsifal é mostrado matando um destes cisnes, e os Cavaleiros do Graal manifestam uma grande tristeza por esta crueldade não justificada.
O cisne é capaz de movimentar-se em vários elementos. Pode voar com grande ligeireza; também desliza majestosamente sobre a água; e, com seu longo pescoço, pode explorar profundidades e investigar o que pode ser encontrado no fundo de um lago não muito profundo. É o símbolo apropriado para o Iniciado que, em virtude do poder desenvolvido internamente, é capaz de elevar-se aos reinos superiores e movimentar-se em mundos diferentes. Assim como o cisne voa pelo espaço, da mesma forma alguém que tenha desenvolvido os poderes de seu corpo-alma, pode viajar por cima das montanhas e lagos; assim como o cisne mergulha abaixo da superfície da água, também o Iniciado pode ir abaixo da superfície do oceano, em seu corpo-alma, pois não está exposto aos perigos do fogo, da terra, do ar, ou da água. Na verdade, este é um dos primeiros ensinamentos mostrados aos Auxiliares Invisíveis e por isso quando se revestem com o Dourado Manto Nupcial, sobre o qual muito temos falado, estão imunes a qualquer perigo que possa atingi-los no corpo denso. Podem entrar num edifício em chamas para ajudar os que estão em perigo, algumas vezes de maneira miraculosa; ou podem estar a bordo de um navio que está naufragando para encorajar aqueles que estão próximos a enfrentar a grande mudança.
A antiga mitologia nórdica descreve como os nobres guerreiros de então entoavam seu canto de cisne quando, tendo guerreado, eram finalmente derrotados ou mortalmente feridos. Mas não pensemos que isto significava apenas a luta brutal travada no campo de batalha com espada e lança. Simbolizava, principalmente, a luta interna, o significado oculto, a luta de uma nobre alma na batalha da vida cantando seu canto de cisne, quando alcançava o que era possível nessa época, isto é, após ter feito seu juramento de Iniciação, tornar-se capaz de entrar em outro reino para lá ajudar outros como os havia ajudado aqui. Foi sempre o sagrado dever de um cavaleiro nobre socorrer os fracos e os oprimidos.
Elsa é filha de um rei. Portanto, é da mais alta e nobre linhagem. Ninguém que não seja tão bem-nascido pode exigir os serviços de um cavaleiro como Lohengrin. Isto quer dizer, naturalmente, que não há na humanidade nem superiores nem inferiores, a não ser na escala da evolução. Quando uma alma já passou por vários estágios da vida, quando já cursou a escola em muitos renascimentos, gradualmente adquire essa nobreza que se origina do aprendizado das lições e do trabalho executado, segundo as linhas estabelecidas pelos Mestres, nossos Irmãos Maiores, que estão agora a ensinar-nos as lições da vida. A nobreza conseguida pelo anseio de praticar boas ações em favor dos nossos companheiros menos desenvolvidos, é a chave para obtermos a sua preferência. Vimos que quando Elsa estava em perigo, foi-lhe enviada uma alma nobre para ensiná-la e guiá-la.
No Livro da Revelação lemos sobre o casamento místico da Noiva e do Cordeiro. Esse enlace existe na experiência de cada alma e sempre sob as mesmas circunstâncias. Um dos primeiros requisitos é que a alma tenha sido abandonada por todos os demais: deve estar sozinha, sem nenhum amigo no mundo. Quando este ponto for atingido, quando a alma não conta com nenhum socorro de origem terrena, quando se volta com todo seu coração para o céu e reza pela libertação, então, chega o libertador e também o pedido de casamento. Em outras palavras, o verdadeiro Mestre sempre vem em resposta às preces sinceras do aspirante, mas não antes que este tenha abandonado o mundo e tenha sido abandonado por ele. O Mestre se oferece para cuidar daquele que anseia por um guia e, imediatamente, vence a mentira com a espada da verdade, mas, tendo dado esta prova, exige doravante uma fé absoluta e inquestionável. Lembre-se por favor - deixe que isto fique gravado em sua mente, com letras de fogo e no mais íntimo do seu ser. Quando o Mestre vem, em resposta às orações do aspirante (que não devem ser apenas palavras mas uma vida de aspiração), é-lhe dada a prova indubitável e inquestionável do poder e habilidade do Mestre para ensiná-lo, guiá-lo e ajudá-lo. Daí para a frente, é exigido que haja fé absoluta nEle, do contrário, torna-se-Lhe impossível trabalhar com o aspirante.
Esta é a grande lição ensinada por Lohengrin e tem em si uma suprema importância. Há, atualmente, milhares de pessoas andando pelas ruas de muitas cidades, olhando para lá e para cá, procurando um Mestre. Alguns pretendem tê-lo encontrado ou iludem-se com essa crença: mas a exigência que é enunciada em Lohengrin é um requisito verdadeiro. O Mestre deve, quer e prova sua, capacidade. Ele é conhecido por seus frutos. Em troca, exige lealdade, e a não ser que esta fé, esta lealdade, esta prontidão em servir, esta disposição para fazer o que for exigido estejam disponíveis no aspirante, o relacionamento estará terminado. Não importa quão amargas sejam as lágrimas de arrependimento que possam ser vertidas no caso do aspirante falhar em sua lealdade para com o Mestre; não importa quão sincero seja seu arrependimento, a próxima oportunidade não virá na sua vida presente.
Portanto, é da máxima importância que aqueles que procuram a Iniciação compreendam que há algo que devem observar no pretenso Mestre, antes de aceitá-lo. Ele deve mostrar os frutos de seu trabalho, pois como Cristo disse "Vós os conhecereis por seus frutos". Isto o autêntico Mestre sempre apresenta sem lhe ser solicitado e sem parecer fazê-lo ou querer apresentar um sinal. Ele sempre apresenta alguma evidência à qual a mente do aspirante pode unir-se, como uma prova indubitável de seu superior conhecimento e habilidade. Quando isto for demonstrado, é absolutamente essencial que o passo seguinte seja a lealdade ao Mestre. Não importa quem diga isto, aquilo, ou qualquer outra coisa, o aspirante não deve se deixar perturbar, mas apegar-se firmemente ao fato provado, aferrar-se ao que acredita ser verdadeiro e apoiar-se fielmente naquele a quem recorre para ensiná-lo, pois, a não ser que essa fé exista, não há razão para continuar o relacionamento.
Entretanto, é muito significativo, como aprendemos na cena final, que o irmão de Elsa fosse o próprio cisne que levou Lohengrin até sua irmã, e que voltou à sua forma natural quando Lohengrin partiu. Havia passado pela Iniciação. Sem dúvida, ele sabia da situação angustiante de sua irmã, e como uma alma avançada e versada nestes assuntos, compreendia a luta dos outros. Mas, embora visse o dilema desta aspirante sincera ou alma irmã, não teve medo, pois, não foi ele o agente que trouxe o auxílio que ela poderia ter tido permanentemente, se tivesse sido tão fiel como ele o foi?
Max Heindel.

Um comentário:

Átila Siqueira. disse...

Oi, gostei muito do seu blog. Parabéns.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.