contos sol e lua

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terça-feira, 22 de junho de 2010

A Espada Flamejante.


Netsah - Glaudius.
O setenário é o número sagrado em todas as teogonias e em todos os símbolos, porque é composto do ternário e do quaternário. O número sete representa o poder mágico em toda a sua força; é o espírito protegido por tidas as potências elementares; é a alma servida pela natureza; é o sanctum regnum de que falam as Clavículas de Salomão, e que é representado, no Tarô, por um guerreiro coroado, trazendo um triângulo na sua couraça, e de pé, em cima de um cubo, ao qual estão atreladas duas esfinges, uma branca e outra preta, que puxam em sentido contrário e voltam a cabeça, olhando uma à outra. Este guerreiro está armado com uma espada flamejante, e tem, na outra mão, um cetro rematado por um triângulo e uma bola.
O cubo é a pedra filosofal. As esfinges são as duas forças do grande agente, correspondentes a Jakin e Bohas, que são as duas colunas do templo; a couraça é a ciência das coisas divinas, que faz o sábio invulnerável aos golpes humanos; o cetro é a baqueta mágica; a espada flamejante é o sinal da vitória sobre os vícios, que são em número de sete, como as virtudes; as idéias dessas virtudes e desses vícios eram figuradas, pelos antigos, pelos símbolos dos sete planetas então conhecidos.
Assim, a fé, esta aspiração ao infinito, esta nobre confiança em si mesmo, sustentada pela crença em todas as virtudes, a fé, que, nas naturezas fracas, pode degenerar em orgulho, era representada pelo Sol; a esperança, inimiga da avareza, pela Lua; caridade, oposta à luxúria, por Vênus, a brilhante estrela da manhã e da tarde; a força, superior à cólera, por Marte; a prudência, oposta à preguiça, por Mercúrio; a temperança, oposta à gula, por Saturno, a quem se dá uma pedra para comer ao invés de seus filhos; e a justiça, enfim, oposta à inveja, por Júpiter, vencedor dos Titãs. Tais são os símbolos que a astrologia tira do culto helênico. Na Cabala dos Hebreus, o Sol representa o anjo de luz; a Lua, o anjo das aspirações e dos sonhos; Marte, o anjo exterminador; Vênus, o anjo dos amores; Mercúrio, o anjo civilizador; Júpiter, o anjo do poder; Saturno, o anjo das solidões. Chamam -nos também: Mikael, Gabriel, Samael, Anael, Rafael, Zacariel e Orifiel. Estas potências dominadoras das almas partilham a vida humana por períodos, que os astrólogos mediam sobre as revoluções dos planetas correspondentes.
Porém, não se deve confundir a astrologia cabalística com a astrologia judiciária. Explicaremos esta distinção. A infância é votada ao Sol, a adolescência à Lua, a juventude a Marte e Vênus, a virilidade a Mercúrio, a idade madura a Júpiter e a velhice a Saturno. Ora, a humanidade inteira vive sob leis de desenvolvimento análogas às da vida individual. É sobre esta base que Trithemo estabelece a sua clavícula profética dos sete espíritos de que falamos alhures, e por meio da qual se pode, seguindo as proporções analógicas dos acontecimentos sucessivos, predizer com certeza os grandes acontecimentos futuros, e fixar adiantadamente, de período em período, os destinos dos povos e do mundo.
São João, depositário da doutrina secreta do Cristo, consignou esta doutrina no livro cabalístico do Apocalipse, que ele representa fechado com sete selos. Acham - se aí os sete gênios das mitologias antigas, com as copas e espadas do Tarô. O dogma escondido sob estes emblemas é a pura Cabala, já perdida pelos fariseus, na época da volta do Salvador; os quadros que se sucedem nesta maravilhosa epopéia profética são tantos pantáculos que o ternário, o quaternário, o setenário e o duodenário são as chaves. As suas figuras hieroglíficas são análogas às do livro de Hermes ou da Gênese de Enoque, para nos servir de arriscado título que exprime somente a opinião pessoal do sábio Guilherme Postello.
O querubim ou touro simbólico que Moisés coloca à porta do mundo edênico, e que tem na mão uma espada flamejante, é uma esfinge, tendo um corpo de touro e uma cabeça humana; é a antiga esfinge assíria, de que o combate e a vitória de Mitra eram a análise hieroglífica. Esta esfinge armada representa a lei do mistério que vigia à porta da iniciação para desviar dela os profanos. Voltaire, que nada sabia de tudo isso, riu muito de ver um boi armado de espada. Que teria ele dito se tivesse visitado as ruínas de Mênfis e Tebas, e que teria a responder aos seus insignificantes sarcasmos, tão apreciados em França, este eco dos séculos, que dorme nos sepulcros de Psammético e Ramsés?
O querubim de Moisés representa também o grande mistério mágico, de que o setenário exprime todos os elementos, sem, todavia, dar a sua última palavra. Este verbum inenarrabile dos sábios da escola de Alexandria, esta palavra que os cabalistas hebreus escrevem Heh. Vav. Heh. Yod. traduzem por Aleph.Yod.Resh.Aleph. Resh.Aleph. , exprimindo, assim, a triplicidade do princípio secundário, o dualismo dos meios e a unidade tanto do primeiro princípio como do fim, depois também a aliança do ternário com o quaternário numa palavra composta de quatro letras, que formam sete, por meio de uma tríplice e uma dupla repetição; esta palavra se pronuncia Ararita.
A virtude do setenário é absoluta em magia, porque o número é decisivo em todas as coisas; por isso, as religiões o consagraram nos seus ritos. O sétimo ano, entre os Judeus, era jubilar; o sétimo dia é consagrado ao repouso e à prece, há sete sacramentos, etc.
As sete cores do prisma, as sete notas da música, correspondem também aos sete planetas dos antigos, isto é, às sete cordas da lira humana. O céu espiritual nunca mudou, e a astrologia ficou mais invariável que a astronomia. Os sete planetas, com efeito, não são mais do que símbolos hieroglíficos dos laços de nossas afeições. Fazer talismãs do Sol, da Lua ou de Saturno, é prender magneticamente a vontade a signos que correspondem aos principais poderes da alma; consagrar alguma coisa a Vênus ou a Mercúrio é magnetizar esta coisa numa intenção direta, quer de prazer, quer de ciência ou proveito. Os metais, animais, plantas ou perfumes análogos são, nisso, nossos auxiliares. Os animais mágicos são: entre os pássaros, correspondentes ao mundo divino, o cisne, a coruja, o gavião, a pomba, a cegonha, a águia e a poupa; entre os peixes, correspondentes ao mundo espiritual ou científico, a foca, o celerus, o lúcio, o timalo, o mugem, o delfim, e a siba; entre os quadrúpedes, correspondentes ao mundo natural, o leão, o gato, o lobo, o bode, o macaco, o veado e a toupeira. O sangue, a gordura, o fígado e o fel destes animais servem para os encantamentos; o seu cérebro se combina com os perfumes dos planetas, e é reconhecido, pela prática dos antigos, que possuem virtudes magnéticas correspondentes às sete influências planetárias.
Os talismãs dos sete espíritos se fazem, quer em pedras preciosas, tais como o carbúnculo, o cristal, o diamante, a esmeralda, a ágata, a safira e o ônix, quer nos metais, como o ouro, a prata, o ferro, o cobre, o mercúrio fixo, o estanho e o chumbo. Os símbolos cabalísticos dos sete espíritos são: para o Sol, uma serpente, com cabeça do leão; para a Lua, um globo ocupado por dois crescentes; para Marte, um dragão mordendo o cabo de uma espada; para Vênus, um lingam; para Mercúrio, o caduceu hermético e o cinocéfalo; para Júpiter, o pentagrama flamejante nas garras ou no bico de uma águia; para Saturno, um velho coxo uma serpente enlaçada ao redor da pedra helíaca. Todos estes signos se acham nas pedras gravadas dos antigos, e particularmente nos talismãs das épocas gnósticas, conhecidos sob o nome de Abraxas. Na coleção dos talismãs de Paracelso, Júpiter é representado por um padre com hábito eclesiástico, e no Tarô é figurado por um grande hierofante vestido com a tiara de três diamantes, tendo na mão a cruz de três braços, formando o triângulo mágico e representando, ao mesmo tempo, o cetro e a chave dos três mundos.
R esumindo tudo o que dissemos da união do ternário e do quaternário, teremos tudo o que nos restaria a dizer do setenário, esta grande e completa unidade mágica, composta de 4 e 3. Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Equilíbrio Mágico.


TIPHERETH - UNCUS.
A inteligência suprema é necessariamente razoável. Deus, em filosofia, pode não ser mais do que uma hipótese imposta pelo bom senso bom à razão humana. Personificar a razão absoluta é determinar o ideal divino.
Necessidade, liberdade e razão, eis o grande do e supremo triângulo dos cabalistas, que chamam a razão Kether , a necessidade Hocmah e a liberdade Binah , no seu primeiro ternário divino.
Fatalidade, vontade e poder, tal é o ternário mágico que, nas coisas humanas, corresponde ao triângulo divino.
A fatalidade é o encadeamento inevitável dos efeitos e causas numa ordem, dada.
A vontade é a faculdade diretora das forças inteligentes para conciliar a liberdade das pessoas com a necessidade das coisas.
O poder é o sábio emprego da vontade, que faz servir a própria fatalidade à realização dos desejos do sábio.
Quando Moisés fere a rocha, não cria a fonte de água; ele a revela ao povo, porque uma ciência oculta lha revelou a ele próprio por meio da baqueta adivinhatória.
O mesmo acontece com todos os milagres da magia: existe uma lei, o vulgo a ignora, o iniciado serve- se dela.
As leis ocultas são, muitas vezes, diametralmente opostas às leis comuns. Assim, por exemplo, o vulgo crê na simpatia dos semelhantes e na guerra dos contrários; é a lei oposta que é verdadeira.
Diziam outrora: a natureza tem horror ao vácuo; era preciso dizer: a natureza é amante do vácuo, se o vácuo não fosse, em física, a mais absurda das ficções.
O vulgo toma, habitualmente, em todas as coisas, a sombra pela realidade. Volta as costas à luz e se mira na obscuridade que projeta.
As forças da natureza estão à disposição daquele que lhes sabe resistir. Se sois tão senhor de vós mesmo para nunca ficar bêbado, disponde do terrível e fatal poder do embebedamento. Se quiserdes embebedar os outros, dai - lhes de beber à vontade, mas não bebais.
Dispõe do amor dos outros, quem é senhor do seu. Quereis possuir, não vos deis. O mundo está imantado da luz do sol, e estamos imantados da luz astral do mundo. O que se opera no corpo do planeta se repete em nós. Há, em nós, três mundos análogos e hierárquicos, como na natureza inteira.
O homem é o microcosmo ou pequeno mundo, e conforme o dogma das analogias, tudo o que está no grande mundo se reproduz no pequeno. Há, pois, em nós, três centros de atração e de projeção fluídica: o cérebro, o coração ou o epigastro e o órgão genital. Cada um destes órgãos é único e duplo, isto é: nele se encontra a idéia do ternário. Cada um destes órgãos atrai de um lado e repele do outro. É por meio desses aparelhos que nós nos pomos em comunicação com o fluido universal, transmitido em nós pelo sistema nervoso. São Também estes três centros que são a sede da tríplice operação magnética, como explicaremos alhures.
Quando o mago chegou à lucidez, quer por intermédio de uma pitonisa ou sonâmbula, quer por seus próprios esforços, comunica e dirige à vontade vibrações magnéticas em toda a massa da luz astral, cujas correntes adivinha com o auxílio da baqueta mágica, que é uma baqueta adivinhatória aperfeiçoada. Por meio destas vibrações, influi no sistema nervoso das pessoas submetidas à sua ação, precipita ou suspende as correntes da vida, acalma ou atormenta, cura ou faz adoecer, mata, enfim, ou ressuscita. Mas, aqui paramos, diante do sorriso da incredulidade. Deixemos - lhe o triunfo fácil de negar o que não sabe.
Demonstraremos, mais tarde, que a morte é sempre precedida de um sono letárgico e só opera por graus; que a ressurreição, em certos casos, é possível; que a letargia é uma morte real, mas não acabada, e que muitos mortos acabam de morrer depois do seu enterro. Mas não é disso que se trata neste capítulo. Dizemos, pois, que uma vontade lúcida pode agir sobre a massa da luz astral, e, com o concurso de outras vontades que absorve e arrasta, determinar grandes e irresistíveis correntes. Digamos também que a luz astral se condensa ou se rarifica, conforme as correntes a acumulam, mais ou menos, em certos centros. Quando falta energia suficiente para alimentar a vida, causa doenças de decomposição súbita, que fazem o desespero da medicina. O cólera -morbo, por exemplo, não tem outra causa, e as colunas de animálculos observados os supostos por certos sábios podem ser o efeito dele, antes que a causa. Era, pois, preciso tratar o cólera por insuflação, se, em tal tratamento, o operador não se expusesse a fazer com o paciente uma troca muito perigosa para o primeiro.
Todo esforço inteligente da vontade é uma projeção de fluido ou luz humana, e aqui importa distinguir a luz humana da luz astral, e o magnetismo animal do magnetismo universal.
Servindo - nos da palavra fluido, empregamos uma expressão generalizada e procuramos fazer- nos compreender por este meio; mas estamos longe de dizer que a luz latente seja um fluido. Tudo nos levaria, pelo contrário, a preferir, na explicação deste ente fenomenal, o sistema das vibrações. Seja como for, esta luz, sendo o instrumento da vida, se fixa naturalmente em todos os centros vivos. Ela se prende ao centro dos planetas como ao coração do homem (e por coração entendemos, em magia, o grande simpático), mas se identifica à vida própria do ser que anima, e é por esta propriedade de assimilação simpática que ela se divide sem confusão. Assim, ela é terrestre nas suas relações com o globo da terra e exclusivamente humana nas suas relações com os homens.
É por isso que eletricidade, o calórico, a luz e a imantação produzidas pelos meios físicos ordinários, não somente não produzem, mas, ao contrário, tendem a neutralizar os efeitos do magnetismo animal. A luz astral, subordinada a um mecanismo cego, e procedendo dos centros dados de autotelia, é uma luz morta, e opera matematicamente, conforme os impulsos dados ou conforme leis fatais; a luz humana, pelo contrário, só é fatal no ignorante que faz tentativas ao acaso; no vidente, ela é subordinada à inteligência, submetida à imaginação e dependente da vontade. É esta luz que, projetada sem cessar pela nossa vontade, forma o que Swedenborg chama as atmosferas pessoais. O corpo absorve o que o rodeia e irradia sem cessar, projetando seus miasmas e suas moléculas invisíveis; o mesmo acontece com o espírito, de modo que este fenômeno, chamado por alguns místicos o respiro , tem realmente a influência que lhe é atribuída, quer no físico, quer no moral. É realmente contagioso respirar o mesmo ar que os doentes, e achar- se no círculo de atração e expansão dos malvados.
Quando a atmosfera magnética de duas pessoas é de tal modo equilibrada que o atrativo de uma aspira a expansão da outra, produz - se uma atração que se chama a simpatia; então, a imaginação, evocando a ela todos os raios ou reflexos análogos ao que experimenta, se faz um poema de desejos que arrastam a vontade, e se as pessoas são de sexo diferente, produz - se nelas ou geralmente na mais fraca das duas um embebedamento completo de luz astral, que se chama a paixão propriamente dita ou amor.
O amor é um dos grandes instrumentos do poder mágico; mas é formalmente interdito ao mago, ao menos como embebedamento ou como paixão. Desgraçado do Sansão da Cabala, se deixar adormecer por Dalila! O Hércules da ciência, que muda o seu cetro real contra o fuso de Omphale, sentirá logo as vinganças de Dejanira, e só lhe restará a fogueira do monte Eta para escapar ao apertamento devorador da túnica de Nesso. O amor sexual é sempre uma ilusão, porque é o resultado de uma miragem imaginária. A luz astral é o sedutor universal, figurado pela serpente do Gênese. Este agente sutil, sempre ativo, sempre luxuriante de seiva, sempre florido de sonhos sedutores e inebriantes imagens; esta força cega por si mesma e subordinada a todas as vontades, quer para o bem, quer para o mal; este circulus sempre renascente de vida indômita que dá vertigem aos imprudentes; este corpo ígneo; este éter impalpável e presente em toda parte; esta imensa esta sedução da natureza, como defini - la inteiramente e como qualificar a sua ação? De algum modo indiferente por si mesma, ela serve para o bem como para o mal; ela leva a luz e propaga as trevas; pode - se chamá- la igualmente Lúcifer e Lucífugo: é uma serpente, mas pode pertencer aos tormentos do inferno como às oferendas de incenso prometidas ao céu. Para apoderar- se dela, é preciso, como a mulher predestinada, pôr o pé sobre sua cabeça.
O que corresponde à mulher de cabalística, no mundo elementar, é a água, e o que corresponde à serpente é o fogo. Para dominar a serpente, isto é, para dominar o círculo da luz astral, é preciso chegar a pôr- se fora das suas correntes, isto é, isolar- se. É por isso que Apolônio de Thyana se envolvia inteiramente num manto de lã fina, no qual punha os pés, e cuja ponta punha em cima da cabeça; depois, arcava em semicírculo a sua coluna vertebral e fechava os olhos, após ter realizado certos ritos de deviam ser passes magnéticos e palavras sacramentais, tem por fim fixar a imaginação e determinar a ação da vontade. O manto de lã é de grande uso em magia, e é o veículo ordinário dos feiticeiros que vão ao sabbat , o que prova que os feiticeiros não iam realmente ao sabbat, mas sim que o sabbat vinha achar os feiticeiros isolados nos seus mantos e trazia ao seu translúcido as imagens análogas às suas preocupações mágicas, misturadas com os reflexos de todos os atos do mesmo gênero que se tinham realizado antes deles no mundo.
Esta corrente da vida universal é também figurada, nos dogmas religiosos, pelo fogo expiatório do inferno. É o instrumento da iniciação, é o monstro a dominar, é o inimigo a vencer; é ela que envia às nossas evocações e conjurações da goecia tantas larvas e fantasmas; é nela que se conservam todas as formas cujo conjunto fantástico e fortuito povoa nossos pesadelos de tão abomináveis monstros. Deixar- se arrastar para baixo por este rio que dá viravoltas é cair nos abismos da loucura, mais terríveis que os da morte: afastar as sombras deste caos e fazer- lhe dar formas perfeitas aos nossos pensamentos é ser homem de gênio, é criar, é ter triunfado do inferno!
A luz astral dirige os instintos animais e dá combate à inteligência do homem, que tende a perverter pelo luxo de seus reflexos e a mentira das suas imagens; ação fatal e necessária, que os espíritos elementares e as almas sofredoras dirigem e tornam mais funestas ainda, com suas vontades inquietas, que procuram simpatias nas nossas fraquezas e nos tentam, menos para nos perder do que para adquirir amigos.
Esse livro das consciências que, conforme p dogma cristão, deve ser manifestado no último dia, não é outro senão a luz astral, na qual se conservam as impressões de todos os verbos, isto é, de todas as ações e de todas as formas. Os nossos atos modificam o nosso respiro magnético, de modo que um vidente pode dizer, aproximando - se de uma pessoa pela primeira vez, se esta pessoa é inocente ou culpada, e quais suas virtudes e seus crimes. Esta faculdade, que pertence à adivinhação, era chamada, pelos místicos cristãos da Igreja primitiva, o discernimento dos espíritos.
As pessoas que renunciam ao império da razão e gostam de desviar sua vontade em perseguição dos reflexos da luz astral, estão sujeitas a alternativas de furor e tristeza que fizeram imaginar todas as maravilhas da possessão do demônio; é verdade que, por meio destes reflexos, os espíritos impuros podem agir sobre tais almas, fazer delas instrumentos dóceis e mesmo habituar - se a atormentar o seu organismo, no qual vêm residir por obsessão ou embrionato . Estas palavras cabalísticas são explicadas no livro hebreu da Revolução das Almas, de que nosso décimo terceiro capítulo conterá a análise detalhada.
É , pois, extremamente perigoso divertir - se com os mistérios da magia; é, principalmente, temerário praticar seus ritos por curiosidade, por ensaio e como que para tentar as forças superiores. Os curiosos que, sem serem adeptos, se preocupam de evocações ou magnetismo oculto, parecem crianças que brincam com fogo perto de um barril de pólvora fulminante; serão, mais cedo ou mais tarde, vítimas de alguma terrível explosão.
Para isolar- se da luz astral, não basta rodear- se de pano de lã; é preciso ainda, e principalmente, ter imposto uma quietação absoluta ao seu espírito e ao seu coração, ter saído do domínio das paixões e estar seguro na perseverança dos atos espontâneos de uma vontade inflexível. É preciso também reiterar muitas vezes os atos desta vontade, como veremos na nossa introdução Ritual , a vontade fica certa de si mesma só por atos, como as religiões só têm império e duração pelas suas cerimônias e seus ritos.
Existem substâncias inebriantes que, exaltando a sensibilidade nervosa, aumentam o poder e por das representações e, por conseguinte, das seduções astrais; pelos mesmos meios, mas seguindo uma direção contrária, pode - se amedrontar e perturbar os espíritos. Estas substâncias, magnéticas por si mesmas e magnetizadas ainda pelos práticos, são o que se chamam filtros ou beberagens encantadas. Mas não trataremos desta perigosa aplicação da magia envenenadora. Não existem mais, é verdade, fogueiras para os feiticeiros, mas há sempre, e mais do que nunca, castigos para os malfeitores. Limitemo -nos, pois, a constatar, na ocasião, a realidade deste poder.
Para dispor da luz astral é preciso também compreender a sua dupla vibração e conhecer a balança das forças, que se chama o equilíbrio mágico, e que, em Cabala, se exprime pelo senário.
Este equilíbrio, considerado na sua causa primeira, é a vontade de Deus; no homem, é a liberdade, na matéria, é o equilíbrio matemático.
O equilíbrio produz a estabilidade e a duração.
A liberdade produz a imortalidade do homem, e a vontade de Deus põe em ação as leis da razão eterna.
O equilíbrio é rigoroso. Se for observada a lei, ele existe; se for violada, por mais levemente que seja, ele não existe mais.
É por isso que nada é inútil ou perdido. Toda palavra e todo movimento são pró ou contra o equilíbrio, pró ou contra a verdade; porque o equilíbrio representa a verdade, que se compõe de pró e do contra conciliados, ou, ao menos, mutuamente equilibrados.
Dizemos, na introdução do Ritual , como o equilíbrio mágico deve ser produzido, e por que ele é necessário para o sucesso em todas as operações.
A onipotência é a liberdade mais absoluta. Ora, a liberdade absoluta não poderia existir sem um equilíbrio perfeito. O equilíbrio mágico é, pois, uma das condições primárias do sucesso nas operações da ciência, e deve - se procurá - lo até na química oculta, aprendendo a combinar os contrários sem os neutralizar um por outro.
É pelo equilíbrio que se explica o grande e antigo mistério da existência e da necessidade relativa do mal.
Esta necessidade relativa dá, em magia negra, a medida do poder dos demônios ou espíritos impuros, aos quais as virtudes que são praticadas na terra dão mais furor, e, em aparência, até mais força.
Nas épocas em que os santos e anjos fazem abertamente milagres, os feiticeiros e diabos fazem, por sua vez, maravilhas e prodígios.
É a rivalidade que, muitas vezes, faz o sucesso; sempre se acha apoio no que resiste.Eliphas Levi - Ritual e Dogma da Alta Magia.

domingo, 20 de junho de 2010

O Pentagrama.


GEBURAH - Ecce
Até agora expusemos o dogma mágico no que tem de mais árido e mais abstrato; aqui começam os encantamentos; aqui podemos anunciar os prodígios e revelar as coisas ocultas.
O pentagrama exprime a dominação do Espírito sobre os elementos, e é por este signo que encadeamos os Silfos do ar, as salamandras do fogo, as Ondinas da água e os Gnomos da terra.
Armado deste signo e convenientemente disposto, podeis ver o infinito através daquela faculdade que é como que o olho de vossa alma, e vós vos fareis servir por legiões de anjos e colunas de demônios.
E , primeiramente, estabeleçamos princípios:
Não há mundo invisível, há somente vários graus de perfeição nos órgãos.
O corpo é a representação grosseira e como que a casca passageira da alma.
A alma pode perceber de si mesma e sem intermédio dos órgãos corporais, por meio da sua sensibilidade e do seu diáfano , as coisas quer espirituais, quer corporais, que existem no universo.
Espiritual e corporal são palavras que somente exprimem os graus de tenuidade ou densidade da substância.
O que se chama, em nós, imaginação, não é mais que propriedade inerente à nossa alma de se assimilar as imagens e os reflexos contidos na luz viva, que é o grande agente magnético.
Estas imagens e estes reflexos são revelações, quando a ciência intervém para nos revelar o seu corpo ou a sua luz. O homem de gênio difere do sonhador e do louco somente nisto: as suas criações são análogas à verdade, ao passo que a dos sonhadores e loucos são reflexos perdidos e imagens desviadas.
Assim, para o sábio, imaginar é ver, como, para o mago, falar é criar.
Podem - se, pois, ver realmente e em verdade os demônios, as almas, etc., por meio da imaginação; mas a imaginação do adepto é diáfana, ao passo que a do vulgo é opaca; a luz de verdade atravessa uma como por janela esplêndida, e se refrata na outra como uma massa vítrea cheia de escórias e corpos estranhos.
O que contribui mais para os erros do vulgo e as extravagâncias da loucura são os reflexos das imaginações depravadas umas nas outras.
Mas o vidente sabe, com certeza, que as coisas imaginadas por ele são verdadeiras, e a experiência sempre confirma as suas visões.
Dizemos, no Ritual , por que processo se adquire esta lucidez.
É por meio desta luz que os visionários extáticos se põem em comunicação com todos os mundos, como isso acontecia tão freqüentemente a Emanuel Swedenborg, que, não obstante, não era perfeitamente lúcido, pois que não discernia os reflexos dos raios e misturava, às vezes, ilusões aos seus mais admiráveis sonhos.
Dizemos sonhos, porque o sonho é o resultado de um êxtase natural e periódico que se chama sono. Estar em êxtase é dormir; o sonambulismo magnético é uma reprodução do êxtase.
Os erros do sonambulismo são ocasionados pelos reflexos do diáfano das pessoas acordadas, e principalmente do magnetizador.
O sonho é a visão produzida pela refração de um raio de verdade; a ilusão é a alucinação ocasionada por uma reflexão.
A tentação de Santo Antonio, com seus pesadelos e monstros, representa a confusão dos reflexos com os raios diretos. Enquanto a alma luta, ela é razoável; quando sucumbe a esta espécie de embebedamento invasor, é louca.
Distinguir o raio direto e o separar do reflexo, tal é a obra do iniciado.
Agora, digamos alto que esta obra sempre foi realizada por alguns homens de “elite ”no mundo; que a revelação por intuição é, assim, permanente, e que não há barreira intransponível que separe as almas, porque na natureza não há nem interrupções repentinas nem muralhas abruptas que possam separar os espíritos. Tudo é transição e matizes e, se supusermos a perfectibilidade, se não infinita, ao menos indefinida das faculdades humanas, veremos que todo homem pode chegar a tudo ver, e, por conseguinte, a tudo saber, ao menos num círculo que pode alargar indefinidamente.
Não há vácuo na natureza, tudo é povoado. Não há morte real na natureza, tudo está vivo.
"Vedes esta estrela?" - dizia Napoleão ao cardeal Fresch. - " Não, Senhor" - " Pois bem, eu a vejo! ”E, certamente, ele a via.
É por isso que acusam os grandes homens de terem sido supersticiosos: é que eles viram o que o vulgo não vê.
Os homens de gênio diferem dos simples videntes pela faculdade que possuem de fazer sentir aos outros homens o que vêem e de se fazer crer por entusiasmo e simpatia.
São os médiuns do Verbo divino.
Digamos, agora, como se opera a visão. Todas as formas correspondem a idéias, e não há idéia que não tenha sua forma própria e particular.
A luz primordial, veículo de todas as idéias, é a mãe de todas as formas, e transmite- as de emanação em emanação, apenas diminuídas ou alteradas por causa da densidade dos meios.
As formas secundárias são reflexos que voltam ao foco da luz emanada.
As formas dos objetos, sendo uma modificação da luz, ficam na luz onde o reflexo as envia. Por isso, a luz astral ou o fluido terrestre, que chamamos o grande agente mágico, está saturado de imagens ou reflexos de toda espécie os quais a nossa alma pode evocar e submeter ao seu diáfano , como falam os cabalistas. Estas imagens sempre nos estão presentes e somente se acham apagadas pelas impressões mais fortes da realidade durante a vigília, ou pelas preocupações do nosso pensamento, que deixa a nossa imaginação desatenta ao panorama móvel da luz astral. Quando dormimos, este espetáculo se apresenta por si mesmo a nós, e é assim que se produzem os sonhos: sonhos incoerentes e vagos, se alguma vontade dominante não fica ativa no sono e não dá, mesmo contra a vontade da nossa inteligência, uma direção ao sonho, que, então, se transforma em visão.
O magnetismo animal não é nada mais do que um sono artificial produzido pela união, quer voluntária, quer forçada, de duas almas, uma das quais está acordada, enquanto a outra dorme, isto é, uma das quais dirige a outra na escolha dos reflexos para mudar os sonhos em visões e saber a verdade por meio das imagens. Assim, as sonâmbulas não vão realmente aos lugares aonde o magnetizador as manda; elas evocam as suas imagens na luz astral, e nada podem ver do que não existe nesta luz.
A luz astral tem uma ação direta sobre os nervos, que são os condutores, na economia animal, e que a levam ao cérebro; por isso, no estado de sonambulismo, pode - se ver pelos nervos, e sem mesmo ter necessidade da luz irradiante, o fluido astral sendo uma luz latente, como a física reconheceu que existe um calórico latente.
O magnetismo entre dois é, sem dúvida, uma descoberta maravilhosa; mas o magnetismo de um só, dirigindo - se a si mesmo, ficando lúcido à vontade, é a perfeição da arte mágica; e o segredo desta grande obra não está para ser achado: foi conhecido e praticado por um grande número de iniciados, e principalmente pelo célebre Apolônio de Thyana, que deixou dele uma teoria, como veremos no nosso Ritual .
O segredo da lucidez magnética e da direção dos fenômenos do magnetismo provém de duas coisas: da harmonia das inteligências e da união perfeita das vontades numa direção possível e determinada pela ciência; isto é, para o magnetismo operado entre diversos. O magnetismo solitário exige preparações de que falamos no nosso primeiro capítulo, quando enumeramos e fizemos ver, em toda a sua dificuldade, as qualidades exigidas para ser um verdadeiro adepto.
Esclareceremos cada vez mais este ponto importante e fundamental nos capítulos que vão seguir.
Este império da vontade sobre a luz astral, que é a alma física dos quatro elementos, é figurado em magia, pelo pentagrama, cuja figura colocamos no frontispício deste capítulo.
Assim, os espíritos elementais são submissos a este signo, quando é empregado com inteligência, e pode - se, colocando - o no círculo ou na mesa das evocações, fazê - los dóceis, o que, em magia se chama prendê - los.
Expliquemos, em poucas palavras, esta maravilha. Todos os espíritos criados comunicam entre si por sinais e aderem a um certo número de verdades expressas por certas formas determinadas.
A perfeição das formas aumenta em razão do desembaraço dos espíritos, e os que não estão presos pelas cadeias da matéria reconhecem, à primeira intuição, se um signo é a expressão de um poder real ou de uma vontade temerária.
A inteligência do sábio dá, pois, valor ao seu pantáculo, como a sua ciência dá peso à sua vontade, e os espíritos compreendem imediatamente este poder.
Assim, com o pentagrama, pode - se forçar os espíritos a aparecerem em sonho, quer durante a vigília, quer durante o sono, trazendo eles mesmos, diante do nosso diáfano, o seu reflexo, que existe na luz astral, se viveram, ou um reflexo análogo ao seu verbo espiritual, se não viveram na terra . Isto explica todas as visões e demonstra, principalmente, por que os mortos aparecem sempre aos videntes, quer como eram na terra, quer como estão ainda no túmulo, nunca como estão numa existência que escapa às percepções do nosso organismo atual.
As mulheres grávidas estão, mais que os outros, sob a influência da luz astral, que concorre para a formação dos seus filhos, e que lhes apresenta, sem cessar, as reminiscências de formas de que está cheia. É assim que as mulheres muito virtuosas enganam por semelhanças equívocas a malignidade dos observadores. Elas imprimem, muitas vezes, ao fruto do seu casamento uma imagem que as comoveu em sonho, e é assim que as mesmas fisionomias se perpetuam, de século em século.
O uso cabalístico do pentagrama pode, pois, determinar a figura dos filhos a nascer, e uma mulher iniciada pode dar a seu filho as feições de Nereu ou de Aquiles, como as de Luiz XIV ou de Napoleão. Nós indicamos no nosso Ritual o modo de o fazer.
O pentagrama é o que se chama, em Cabala, o signo do microcosmo, o signo cujo poder Goethe exalta no belo monólogo do Fausto:
"Ah! como a esta vista todos meus sentidos estremeceram! Sinto a juvenil e santa volúpia da vida ferver nos meus nervos e nas minhas veias. Será um Deus aquele que traçou este signo que acalma a vertigem de minh ’alma, enche de alegria meu pobre coração, e, numa impulsão misteriosa, desvenda ao redor de mim as forças da natureza? Sou um Deus? Tudo se torna tão claro para mim; vejo, nestes simples traços, a natureza ativa se revelar à minh ’alma. Agora, pela primeira vez, reconheço a verdade desta palavra do sábio: - O mundo dos espíritos não está fechado! Teu sentido está obtuso, teu coração está morto. Levanta -te! Banha, ó adepto da ciência, o teu peito, ainda envolto de um véu terrestre, nos esplendores do dia nascente!" - (Fausto, 1 parte, cena 1).
Foi em 24 de Julho de 1854 que o autor deste livro, Eliphas Levi, fez em Londres a experiência da evocação pelo pentagrama, depois de se ter preparado, para isso, por todas as cerimônias que estão marcadas no Ritual . O sucesso desta experiência, cujas razões e detalhes damos no 13 º capítulo do Dogma e as Cerimônias no 13 º capítulo do Ritual , estabelecem um novo fato patológico que os homens de verdadeira ciência admitirão sem dificuldade. A experiência, reiterada até três vezes, deu resultados verdadeiramente extraordinários, mas positivos e sem mistura alguma de alucinação. Convidamos os incrédulos a fazerem um ensaio consciencioso e razoável, antes de levantar os ombros e sorrir.
A figura do Pentagrama, aperfeiçoada conforme a ciência e que serviu ao autor para esta prova, é a que está no começo deste capítulo e que não se acha tão completa nem nas clavículas de Salomão, nem nos calendários mágicos de Tycho - Brahé e Duchenteau.
Observemos somente que o uso do pentagrama é muito perigoso para os operadores que não tem completa e perfeita inteligência dele. A direção das pontas da estrela não é arbitrária, e pode mudar o caráter de toda operação, como explicaremos no Ritual .
Paracelso, este inovador em magia, que sobrepujou todos os outros iniciados pelos sucessos de realização obtidos por ele só, afirma que todas as figuras mágicas e todos os signos cabalísticos dos pantáculos aos quais os espíritos obedecem, se reduzem a dois, que são a síntese de todos os outros; o signo do macrocosmo ou do selo de Salomão, cuja figura já demos e reproduzimos na página seguinte, e o do microcosmo, ainda mais poderoso que o primeiro, isto é, o pentagrama, do qual dá, na sua filosofia oculta, uma minuciosa descrição.
Se perguntarem como um signo pode ter tanto poder sobre os espíritos elementais, perguntaremos, por nossa vez: por que o mundo cristão se prosternou diante do sinal da cruz? O sinal por si mesmo nada é, e só tem força pelo dogma de que é resumo e verbo. Ora, um signo que resume, exprimindo -as, todas as forças ocultas da natureza, um signo que sempre manifestou aos espíritos elementares e outros um poder superior à sua natureza, naturalmente os enche de respeito e temor e os força a obedecer, pelo império da ciência e da vontade sobre a ignorância e a fraqueza.
O Sêlo de Salomão.
É também pelo pentagrama que se medem as proporções exatas do grande e único athanor necessário à confecção da pedra filosofal e à realização da grande obra. O alambique mais perfeito que possa elaborar a quintessência é conforme esta figura, e a própria quintessência é figurada pelo signo do pentagrama.Eliphas Levi - Ritual e Dogma da Alta Magia.

sábado, 19 de junho de 2010

O Tetragrama .


GEBURAH CHESED - PORTA LIBRORUM - ELEMENTA.
H á, na natureza, duas forças que produzem um equilíbrio, e os três são simplesmente uma única lei. Eis o ternário resumindo - se na unidade, e, ajuntando a idéia à unidade à do ternário, chega - se ao quaternário, primeiro número quadrado e perfeito, fonte de todas as combinações numéricas e princípio de todas as formas.
Afirmação, negação, discussão, solução, tais são as quatro operações filosóficas do espírito humano. A discussão concilia a negação com a afirmação, fazendo -as necessárias uma à outra. É assim que o ternário filosófico, produzindo - se do binário antagônico se completa pelo quaternário, base quadrada de toda verdade. Em Deus, conforme o dogma consagrado, há três pessoas, e estas três pessoas são um só Deus. Três e um, dão a idéia de quatro, porque a unidade é necessária para explicar os três.
Por isso, em quase todas as línguas, o nome de Deus é de quatro letras, e, em hebreu, estas quatro letras fazem três, porque há uma delas que se repete duas vezes: a que exprime o Verbo e a criação do Verbo.
Duas afirmações tornam possíveis ou necessárias duas negações correspondentes. O ente é significado, o nada não o é. A afirmação, como Verbo, e cada uma destas afirmações corresponde à negação do seu contrário.
É assim que, conforme o dizer dos cabalistas, o nome do demônio ou do mal se compõe das letras invertidas do próprio nome de Deus ou do bem.
Este mal é o reflexo perdido ou a miragem imperfeita da luz na sombra.
Mas tudo o que existe, quer em bem, quer em mal, quer na luz, quer na sombra, existe e se revela pelo quaternário.
A afirmação da unidade supõe o número quatro, se esta afirmação volta à unidade como num círculo vicioso. Por isso, o ternário, como já observamos, se explica pelo binário e se resolve pelo quaternário, que é a unidade quadrada dos números pares e a base quadrangular do cubo, unidade de construção, de solidez e de medida.
O tetragrama cabalístico: Jodhéva, exprime Deus na humanidade e a humanidade em Deus. Os quatro pontos cardeais astronômicos são, relativamente a nós, o sim e o não da luz: o oriente e o ocidente, e o sim e o não do calor: o sul e o norte.
O que está na natureza visível revela, como já o sabemos, conforme o dogma único da Cabala, o que está no domínio da natureza invisível, ou das causas segundas, todas proporcionais e análogas às manifestações da causa primeira.
Por isso, esta causa primeira sempre se revelou pela cruz: a cruz, esta unidade composta de dois, que se dividem um ao outro, para formar quatro; a cruz, esta chave dos mistérios da Índia e do Egito, o Tau dos patriarcas, o signo divino de Osíris, o Stauros dos gnósticos, a chave de arco do templo, o símbolo da maçonaria oculta; a cruz, este ponto central da junção dos ângulos retos de dois triângulos infinitos; a cruz que, na língua nacional, parece ser a raiz primitiva e o substantivo fundamental do verbo crer e do verbo crescer, reunindo, assim, as idéias de ciência, religião e progresso.
O grande agente mágico se revela por quatro espécies de fenômenos, e foi classificado, pelas experiências das ciências profanas sob quatro nomes: calórico, luz, eletricidade, magnetismo.
Deram - lhe também os nomes de tetragrama, inri, azoth, éter, od, fluido magnético, alma da terra, serpente, lúcifer, etc.
O grande agente mágico é a quarta emanação da vida -princípio de que o sol é a terceira forma (ver os iniciados da escola de Alexandria e o dogma de Hermes Trismegisto).
De modo que o olho do mundo (como o chamavam os antigos) é a miragem do reflexo de Deus e a alma da terra é um olhar permanente do sol que a terra recebe e guarda por impregnação.
A lua concorre para esta impregnação da terra, repelindo para ela uma imagem solar durante a noite, de sorte que Hermes teve razão de dizer, falando do grande agente: “O sol é seu pai, a lua é sua mãe ”. Depois, acrescenta: "O vento o trouxe no seu ventre, porque a atmosfera é o recipiente e como que o cadinho dos raios solares, por meio dos quais se forma esta imagem viva do sol que penetra a terra inteira, vivifica -a, fecunda- a e determina tudo o que se produz na sua superfície, por seus eflúvios e suas correntes contínuas, análogas às do próprio sol ”.
Este agente solar é vivente por duas forças contrárias: uma força de atração e uma forma de projeção, o que faz Hermes dizer que ele sempre sobe e desce.
A força de atração se fixa sempre no centro dos corpos, e a forma de projeção nos seus contornos ou na sua superfície.
É por esta dupla força que tudo é criado e tudo subsiste.
Seu movimento é um enrolamento e um desenrolamento sucessivos e indefinidos, ou antes simultâneos e perpétuos, por espirais de movimentos contrários que nunca se encontram.
É o mesmo movimento que o sol, que atrai e repele, ao mesmo tempo, todos os astros do seu sistema.
Conhecer o movimento deste sol terrestre, de modo a poder aproveitar das suas correntes e dirigi - las, é ter realizado a grande obra, e é ser senhor do mundo.
Armado de uma tal força, podeis vos fazer adorar e o vulgo vos julgará Deus.
O segredo absoluto desta direção foi possuído por alguns homens, e pode ainda ser achado. É o grande arcano mágico; depende de um axioma incomunicável e de um instrumento que é o grande e único athanor dos hermetistas do mais alto grau.
O axioma incomunicável está contido cabalisticamente nas quatro letras do tetragrama, dispostas do modo como está representado na página seguinte, nas letras das palavras Azoth e Inri , escritas cabalisticamente, e no monograma do Cristo, tal como estava bordado no lábaro, e que o cabalista Postello interpreta pela palavra Rota , da qual os adeptos formaram o seu Tarô ou Tarot, repetindo duas vezes a primeira letra, para indicar o círculo e fazer compreender que a palavra está invertida.
Toda a ciência mágica consiste no conhecimento deste segredo. Conhecê- lo e ousar servir- se dele é a onipotência humana; mas revelá - lo a um profano é perdê- lo; revelá- lo até a um discípulo é abdicar em favor desse discípulo, que, a partir desse momento, tem direito de vida e morte sobre o seu iniciador (fá - lo no ponto de vista mágico), e o matará certamente, temendo a si próprio a morte. (Isto nada tem de comum com os atos qualificados de assassinato em legislação criminal, desde que a filosofia prática, que serve de base e ponto de partida às nossas leis não admite os fatos de enfeitiçamento e influências ocultas).
Os quatro nomes cabalísticos.
Nós entramos, aqui, em revelações estranhas, e nos preparamos para todas as incredulidades e todos os desprezos do fanatismo incrédulo; porque a religião de voltariana tem também seus fanáticos, muito embora contra a vontade das grandes sombras que devem amuar- se, agora, de um modo lastimoso, nas carneiras do Pantheon, enquanto catolicismo, sempre forte com suas práticas e seu prestígio, canta o ofício sobre suas cabeças.
A palavra perfeita, aquela que é adequada ao pensamento que exprime, contém sempre virtualmente ou supõe um quaternário: a idéia e suas três formas necessárias e correlativas, depois também a imagem da coisa expressa com os três termos do juízo que a qualifica. Quando digo: “O ente existe", afirmo implicitamente que o nada não existe.
Uma altura, uma largura que a altura divide geometricamente em dois, e uma profundidade separada da altura pela intersecção da largura, eis o quaternário natural composto de duas linhas que se cruzam. Há também, na natureza, quatro movimentos produzidos por duas forças que se sustêm uma à outra por sua tendência contrária. Ora, a lei que rege os corpos é análoga e proporcional àquela que governa os espíritos, e a que governa os espíritos é a própria manifestação do segredo de Deus, isto é, do mistério da criação. Suponde um relógio de duas molas paralelas, com uma endentação que as faça mover em sentido contrário, de modo que, uma afrouxando - se, aperte a outra: assim, o relógio se dará corda por si mesmo, e tereis achado o movimento perpétuo. Esta endentação deve ser para dois fins e de grande precisão. Será impossível de se achar? Não o cremos. Mas quando um homem a tiver descoberto, este homem poderá compreender, por analogia, todos os segredos da natureza: o progresso em razão direta da resistência .
O movimento absoluto da vida é, assim, o resultado perpétuo de duas tendências contrárias que nunca são opostas. Quando uma das duas parece ceder à outra, é uma mola que recebe corda, e podeis esperar uma reação de que é muito possível prever o momento e determinar o caráter; é assim que, na época do maio fervor do cristianismo, o reino do Anticristo foi conhecido e predito. Mas o Anticristo preparará e determinará a nova vinda e o triunfo definitivo do Homem -Deus. Ainda isto é uma conclusão rigorosa e cabalística contida nas premissas evangélicas.
Assim, a profecia cristã contém uma quádrupla revelação:
1 ª - a queda do mundo antigo e o triunfo do Evangelho sob a primeira vinda;
2ª - grande apostasia e vinda de Anticristo;
3 ª - queda do Anticristo e volta às idéias cristãs;
4ª - triunfo definitivo do Evangelho ou segunda vinda, designada sob o nome de juízo final.
Esta quádrupla profecia contém, como se pode ver, duas afirmações e duas negações, a idéia de duas ruínas ou mortes universais e de dois renascimentos; porque a toda idéia que aparece no horizonte social se pode assinar, sem temor de erro, um oriente e um ocidente, um zênite e um nadir . É assim que a cruz filosófica é a chave da profecia, e que se podem abrir todas as portas de ciência com o pantáculo de Ezequiel, cujo centro é uma estrela formada pelo cruzamento de duas cruzes.
A vida humana também não é formada destas quatro fases ou transformações sucessivas: nascimento, vida, morte, imortalidade? E notai que a imortalidade da alma, necessitada como complemento do quaternário, é cabalisticamente provada pela analogia, que é o dogma único da religião verdadeiramente universal, como é a chave da ciência e a lei inviolável da natureza.
A morte, com efeito, não pode ser um fim absoluto, do mesmo modo que o nascimento não é um começo real. O nascimento prova a preexistência do ente humano, pois que nada se produz do nada, e a morte prova a imortalidade, porque o ente não pode cessar de existir, do mesmo modo que o nada não pode cessar de não existir. Ente e nada são duas idéias absolutamente inconciliáveis, com esta diferença: que a idéia do nada (idéia inteiramente negativa) sai da própria idéia do ente, de que o nada nem mesmo pode ser compreendido como uma negação absoluta, ao passo que a idéia do ente nem mesmo pode ser aproximada do nada, e ainda menos sair dele.
Dizer que o mundo saiu do nada é proferir um monstruoso absurdo. Tudo o que existe procede do que existia; por conseguinte, tudo que existe nunca poderá não existir mais. A sucessão das formas é produzida pelas alternativas do movimento: são fenômenos da vida que se substituem uns aos outros, sem de destruírem. Tudo muda, porém nada perece. O sol não está morto quando desaparece no horizonte; até as formas mais móveis são imortais e sempre substituem na permanência da sua razão de ser, que é a combinação da luz com os poderes agregativos das moléculas da substância prima. Por isso, elas se conservam no fluido astral, e podem ser evocadas e reproduzidas conforme a vontade do sábio, como o veremos ao tratar da Segunda vista e da evocação das lembranças na necromancia e noutras operações mágicas.
Voltaremos a tratar do grande agente mágico no quarto capítulo do Ritual , onde acabaremos de indicar os caracteres do grande arcano e os meios de prender este formidável poder.
Digamos, aqui, duas palavras dos quatro elementos mágicos e dos espíritos elementares.
Os elementos mágicos são: em alquimia, o sal, o mercúrio, o enxofre, e o azoth; em Cabala, o macrocosmo, o microcosmo e as duas mães; em hieróglifos, o homem, o águia, o leão e o touro; em física antiga, conforme os termos e as idéias vulgares, o ar, a água, a terra e o fogo.
Em magia, sabe - se que a água não é a água ordinária; que o fogo não é simplesmente fogo, etc. Estas expressões ocultam um sentido mais elevado. A ciência moderna decompôs os quatro elementos dos antigos e encontrou neles muitos corpos considerados simples. O que é simples é a substância prima e propriamente dita; só há, pois, um elemento material e este elemento se manifesta sempre pelo quaternário, nas suas formas. Conservaremos, pois, a sábia distinção das aparências elementares, admitida pelos antigos, e reconheceremos o ar, o fogo, a terra e a água pelos quatro elementos positivos e visíveis da magia.
O sutil e o espesso, o dissolvente rápido e o dissolvente lento, ou os instrumentos do calor e do frio, formam, em física oculta, os dois princípios positivos e os dois princípios negativos do quaternário, e devem ser figurados assim:
O ar e a terra representam, assim, o princípio masculino, o fogo e a água se referem ao princípio feminino, pois que a cruz filosófica dos pantáculos é, como já dissemos, um hieróglifo primitivo e elementar do lingham dos ginosofistas.
A estas quatro formas elementares correspondem as quatro idéias filosóficas seguintes:

O Espírito
A Matéria
O Movimento
O Repouso

A ciência inteira, com efeito, está na inteligência destas quatro coisas, que a alquimia reduzia a três:

O Absoluto
O Fixo
O Volátil

e que a Cabala refere à própria idéia de Deus, que é razão absoluta, necessidade e liberdade, tríplice noção expressa nos livros ocultos dos Hebreus.

Sob os nomes de Kether, Hocmah e Binah para o mundo divino, de Tiphereth, Hesed e Geburah no mundo moral, e, enfim, de Yesod, Hod e Netsah no mundo físico, que, com o mundo moral, está contido na idéia do reino ou Malkuth , explicaremos, no décimo capítulo deste livro, esta teogonia, tão racional quanto sublime.

Ora, os espíritos criados, sendo chamados à emancipação pela prova, são colocados, desde o seu nascimento, entre estas quatro forças, duas positivas e duas negativas, e são postos em condições de afirmar ou negar o bem, de escolher a vida ou a morte. Achar o ponto fixo, isto é, o centro moral da cruz, é o primeiro problema que lhe é dado para resolverem; a sua primeira conquista deve ser a da sua própria liberdade.
Começam, pois, por ser arrastados uns ao norte, outros ao sul; uns à direita, outros à esquerda, e, enquanto não são livres, não podem ter o uso da razão, nem se encarnarão a não ser em formas animais. Estes espíritos não emancipados, escravos dos quatro elementos, são o que os cabalistas chamam os demônios elementares, e povoam os elementos que correspondem ao seu estado de servidão. Existem, pois, realmente silfos, ondinas, gnomos e salamandras, uns errantes e procurando encarnarem - se, outros encarnados e vivendo na terra. Estes são os homens viciosos e imperfeitos.
Voltaremos a este assunto no décimo quinto capítulo, que trata dos encantamentos e dos demônios.
É também uma tradição de física oculta que fez ser admitida, pelos antigos, a existência das quatro idades do mundo; somente que não se dizia ao vulgo que essas quatro idades deviam ser sucessivas, como as quatro estações do ano e renovar- se também. Assim, a idade de ouro passou e ainda está para vir. Mas isto se refere ao espírito de profecia, e falaremos disso no capítulo nono, que trata do iniciado e do vidente.
Ajuntaremos, agora, a unidade ao quaternário, e teremos conjunta e separadamente as idéias da síntese e da análise divinas, o deus dos iniciados e dos profanos. Aqui o dogma se populariza e torna - se menos abstrato; o grande hierofante intervém.Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Triangulo de Salomão.


PLENITUDO VOCIS – BINAH - PHYSIS.
O verbo perfeito é o ternário, porque supõe um princípio inteligente, um princípio que fala e um princípio falado.
O absoluto, que se revela pela palavra, dá a esta palavra um sentido igual a si mesmo, e cria um terceiro sentido na inteligência desta palavra.
É assim que o sol se manifesta pela sua luz e prova esta manifestação ou a torna eficaz pelo seu calor.
O ternário está traçado no espaço pela ponta culminante do céu., o infinito em altura, que se une por outras linhas retas e divergentes ao oriente e ao ocidente.
Mas a esse triângulo visível, a razão compara um outro triângulo invisível, que ela afirma ser igual ao primeiro: é o que tem por cimo a profundeza e cuja base virada é paralela à linha horizontal que vai do oriente ao ocidente.
Estes dois triângulos, reunidos numa só figura, que é a de uma estrela de seis raios, formam o signo sagrado do selo de Salomão, a estrela brilhante do macrocosmo.
A idéia do infinito e do absoluto é expressa por este signo, que é o pantáculo, isto é, o mais simples e o mais completo resumo da ciência de todas as coisas.
A própria gramática atribui três pessoas ao verbo. A primeira é a que fala, a segunda é aquela a quem se fala, a terceira é aquela de quem se fala.
O princípio infinito, ao criar, fala de si mesmo a si mesmo.
Eis a explicação do ternário e a origem do dogma da Trindade.
O dogma mágico também é um em três e três em um.
O que está em cima assemelha- se ou é igual ao que está em baixo.
Assim, duas coisas que se assemelham e o verbo que exprime a sua semelhança, fazem três.
O ternário é o dogma universal.
Em magia, princípio, realização, adaptação; em alquimia, azoth, incorporação, transmutação; em teologia, Deus, encarnação, redenção; na alma humana, pensamento, amor e ação; na família, pai, mãe e filho. O ternário é o fim e a expressão e suprema do amor: dois se procuram só para ficarem três.
Há três mundos inteligíveis, que correspondem uns aos outros pela analogia hierárquica: - o mundo natural ou físico, o mundo espiritual ou metafísico, e o mundo divino ou religioso.
Deste princípio, resulta a hierarquia dos espíritos, divididos em três ordens e subdivididos nestas três ordens, sempre pelo ternário.
Todas estas revelações são deduções lógicas das primeiras noções matemáticas do ente e do número.
A unidade, para tornar- se ativa, deve multiplicar- se. Um princípio indivisível, imóvel e infecundo, seria a unidade morta e incompreensível.
Se Deus só fosse um, nunca seria criador nem pai. Se fosse dois, haveria antagonismo ou divisão no infinito, e seria a partilha ou morte de todas as coisas possíveis; é, pois, três, para criar de si mesmo e à sua imagem a multidão infinita dos entes e números.
Assim, ele é realmente único em si mesmo e tríplice na nossa concepção, o que no - lo faz ver também tríplice em si mesmo e único na nossa inteligência e no nosso amor.
Isto é um mistério para o crente e uma necessidade lógica para o iniciado nas ciências absolutas e reais.
O Verbo manifestado pela vida é a realização ou a encarnação.
A vida do Verbo, realizando seu movimento cíclico, é a adaptação ou a redenção. Este tríplice dogma foi conhecido em todos os santuários esclarecidos pela tradição dos sábios. Quereis vós saber qual é a verdadeira religião? Procurai aquela que realiza mais na ordem divina; a que humaniza Deus e diviniza o homem; a que conserva intacto o dogma do ternário, que encarna o Verbo, fazendo ver e tocar Deus aos mais ignorantes: enfim, aquela cuja doutrina convém a todos e pode adaptar- se a tudo; a religião que é hierarquia e cíclica, que tem, para as crianças, alegorias e imagens; para os homens feitos, uma alta filosofia; sublimes esperanças e doces consolações, para os velhos.
Os primeiros sábios que procuravam a causa das causas viram o bem e o mal no mundo; observaram a sombra e a luz; compararam o inverno à primavera, a velhice à juventude, a vida à morte, e disseram: - A causa primeira é benfeitora e rigorosa, ela vivifica e destrói.
Há, pois, dois princípios contrários, um bom e um mau? – gritaram os discípulos de Manés.
Não, os dois princípios do equilíbrio universal não são contrários, se bem que, em aparência, sejam opostos: porque é uma sabedoria única que opõe um ao outro.
O bem está à direita e o mal à esquerda; mas a bondade suprema está acima dos dois, e ela faz servir o mal ao triunfo do bem, e o bem à reparação do mal.
O princípio de harmonia está na unidade, e é o que dá, em magia, tanto poder ao número impar:
Mas o mais perfeito dos números ímpares é três, porque é a trilogia da unidade.
No trigramas de Fo -Hi, o ternário superior de compõe de três yang ou figuras masculinas, porque, na idéia de Deus, considerado como princípio de fecundidade nos três mundos, não se poderia admitir nada de passivo.
É também por isso que a trindade cristã não admite a personificação da mãe, que é implicitamente enunciada na do filho. É também por isso que é contrário às leis da simbologia hierática e ortodoxa personificar o Espírito Santo sob a figura de uma mulher.
A mulher sai do homem, como a natureza sai de Deus: por isso, o Cristo se eleva a si próprio ao céu e assume a Virgem Mãe; dizemos a ascensão do Salvador e a assunção da mãe de Deus.
Deus, considerado como Pai, tem a natureza por filha.
Como Filho, tem a Virgem por mãe e a Igreja por esposa.
Como Espírito Santo, ele regenera e fecunda a humanidade.
É assim que, nos trigramas de Fo -Hi, aos três yang superiores correspondem os três yin inferiores, porque os trigramas de Fo -Hi são um pantáculo semelhante aos dois triângulos de Salomão, mas como uma interpretação ternária dos seis pontos da estrela flamejante:
O dogma é tanto mais divino quanto mais verdadeiramente for humano, isto é, quanto resumir a mais alta razão da humanidade; por isso, o Mestre que chamamos o Homem -Deus se chamava a si mesmo o Filho do homem.
A revelação é a expressão da crença admitida e formulada pela razão universal no verbo humano.
É por isso que se diz que, no Homem -Deus, a divindade é humana e a humanidade é divina.
Dizemos tudo isto filosoficamente e não teologicamente; e isto de modo algum toca no ensino da Igreja, que condena e sempre deve condenar a magia.
Paracelso e Agrippa não elevaram altar contra altar e se submeteram à religião dominante no seu tempo. Aos eleitos da ciência, as coisas da ciência, aos fiéis, as coisas da fé.
O imperador Juliano, no seu hino ao rei Sol, dá uma teoria do ternário, que é quase identicamente a mesma que a do ilustre Swedenborg.
O sol do mundo divino é a luz infinita, espiritual e incriada; esta luz de verbaliza, se é permitido falar assim, no mundo filosófico, e torna - se o foco das almas e da verdade; depois, ela se incorpora e fica luz visível no sol do terceiro mundo, sol central dos nossos sóis, e do qual as estrelas fixas são as faíscas sempre vivas.
Os cabalistas comparam o espírito a uma substância que fica fluida no meio divino e sob a influência da luz essencial, mas cujo exterior se endurece como a cera exposta ao ar, nas regiões mais frias do raciocínio ou das formas visíveis. Essas cascas ou envoltórios petrificados (diríamos melhor, carnificados, se o termo fosse francês) são a causa do erro e do mal, que provêm do peso e da dureza dos envoltórios anímicos. No livro de Zohar e no da revolução das almas, os espíritos perversos, ou maus demônios, não são denominados de outro modo senão de cascas, cortices.
As cascas do mundo dos espíritos são transparentes, as do mundo material são opacas; os corpos são mais do que só cascas temporárias e de que as almas devem ser liberadas; mas os que nesta vida obedecem ao corpo, fazem para si um corpo interior ou uma casca fluídica, que fica sendo a sua prisão e o seu suplício depois da morte, e até o momento em que chega a fundi - la no calor da luz divina, aonde o seu peso lhe impede de subir; eles chegam aí só com esforços infinitos e o auxílio dos justos que lhes dão a mão, e durante todo esse tempo são devorados pela atividade interior do espírito cativo, como que numa fornalha ardente. Os que chegam à fogueira da expiação aí se queimam como Hércules no monte Eta e se libertam, assim, do seu incômodo; mas a maioria tem falta de coragem diante desta última prova, que lhe parece uma segunda morte, mais horrível do que a primeira, e ficam assim, no inferno, que é eterno de direito e de fato, mas no qual as almas nunca são precipitadas nem retidas contra sua vontade.
Os três mundos se correspondem mutuamente pelos trinta e dois caminhos de luz, que são os degraus da escada santa; todo pensamento verdadeiro corresponde a uma graça divina no céu, e a uma obra útil na terra. Toda graça de Deus suscita uma verdade e produz um ou vários atos, e reciprocamente todo ato move nos céus uma verdade ou uma mentira, uma graça ou um castigo. Quando um homem pronuncia o tetragrama, escrevem os cabalistas, os nove céus recebem um abalo, e todos os espíritos gritam uns aos outros: “Quem, pois, perturba assim o reino do céu?" Então, a terra revela ao primeiro céu os pecados do temerário que toma em vão o nome do eterno, e o verbo acusador é transmitido de círculo em círculo, de estrela em estrela, de hierarquia em hierarquia.
Toda palavra tem três sentidos, toda ação um tríplice valor, toda forma uma tríplice idéia, porque o absoluto corresponde, de mundo em mundo, com suas formas. Toda determinação da vontade humana modifica a natureza, interessa a filosofia e se escreve no céu. Há, pois, duas fatalidades, uma que resulta da vontade do incriado e de acordo com a sua sabedoria, e outra que resulta das vontades criadas e de acordo com a necessidade das causas segundas, nas suas relações com a causa primeira.
Nada, pois é indiferente na vida e as nossas determinações, aparentemente mais simples, provocam muitas vezes uma série incalculável de bens ou de males, principalmente nas relações do nosso diáfano com o grande agente mágico, como explicaremos alhures.
O ternário, sendo o princípio fundamental de toda a Cabala ou tradição sagrada de nossos antepassados, teve de ser o dogma fundamental do cristianismo, de que explica o dualismo aparente pela intervenção de uma harmoniosa e onipotente unidade. O Cristo não escreveu o seu dogma, e só o revelou em segredo ao seu discípulo favorito, único cabalista, e grande cabalista entre os apóstolos. Por isso, o Apocalipse é o livro da gnose ou doutrina secreta dos primeiros cristãos, doutrina cuja chave é indicada por um versículo secreto do Pater , que a Vulgata não traduz, e que no rito grego (conservador das tradições de São João) só é permitido aos padres pronunciar. Este versículo, perfeitamente cabalístico, se acha no texto grego do evangelho conforme São Mateus e em vários exemplares hebraicos. Ei - lo nestas duas línguas sagradas:
A palavra sagrada Malkuthh , substituída por Kether , que é seu correspondente cabalístico, e a balança de Geburah e Chesed, repetindo - se nos círculos ou céus que os gnósticos chamavam Eones, dão, nesse versículo oculto, a chave de arco de todo o templo cristão. Os protestantes traduziram -no e o conservaram no seu Novo Testamento, sem achar a sua alta e maravilhosa significação, que lhes teria desvendado todos os mistérios do Apocalipse ; mas é uma tradição na Igreja que a revelação destes mistérios está reservada para últimos tempos.
Malkuthh, apoiado em Geburah e Chesed, é o templo de Salomão, tendo por colunas Jakin e Boaz. É o dogma de adâmico, apoiado, de um lado, sobre a resignação de Abel, e, de outro, sobre o trabalho e os remorsos de Caim; é o equilíbrio universal do ser, baseado sobre a demonstração da alavanca universal, procurada inutilmente por Arquimedes. Um sábio que empregou todo o seu talento para fazer- se obscuro e que morreu sem ter querido fazer- se compreender, tinha resolvido esta suprema equação, achada por ele na Cabala, e temia antes de tudo que, exprimindo - se mais claramente, pudessem saber a origem das suas descobertas. Ouvimos um dos seus discípulos e admiradores indignar- se, talvez de boa fé, ouvindo chamá- lo de cabalista, e, entretanto, devemos dizer, para a glória deste sábio, que as suas investigações abreviaram consideravelmente o nosso trabalho sobre as ciências ocultas, e que a chave da alta Cabala, que acabamos de criar, foi doutamente aplicada a uma reforma absoluta de todas as ciências nos livros de Hoené Wronski.
A virtude secreta dos Evangelhos está, pois, contida em três palavras e essas três palavras fundaram três dogmas e três hierarquias. Toda ciência repousa sobre três princípios, como o silogismo sobre três termos. Há também três classes distintas ou três classes originais e naturais entre homens, que são todos chamados a subir da mais inferior à mais elevada. Os hebreus chamam estas séries ou graus do progresso dos espíritos, Asiah, Jezirah e Briah. Os gnósticos, que eram os cabalistas cristãos, chamavam -nas Hylé, Psiquê e Gnosis; o círculo supremo chamava- se, entre os hebreus, Aziluth, e entre os gnósticos, Pleroma.
No tetragrama, o ternário, tomado no começo da palavra, exprime a copulação divina; tomado no fim, exprime o feminino e a maternidade. Eva tem um nome de três letras, mas o Adão primitivo é expresso pela única letra Jod, de modo que Jeová devia ser pronunciado Iéva . Isto nos leva ao grande e supremo mistério da magia, expresso pelo quaternário.Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

As Colunas do Templo.


CHOCMAH – DOMUS - GNOSIS
A ciência é a posse absoluta e completa da verdade.
Por isso, os sábios de todos os séculos tremeram diante desta palavra absoluta e terrível; tremeram arrogar- se o primeiro privilégio da divindade, atribuindo a si a ciência, e se contentaram, em lugar do verbo saber , que exprime o conhecimento, e da palavra ciência, com a de gnosis, que exprime somente a idéia do conhecimento por intuição.
Que sabe, com efeito, o homem? Nada, e, entretanto, nada lhe é permitido ignorar.
N ada sabe, e é chamado a tudo conhecer.
Ora, o conhecimento supõe o binário. É preciso para o ente que conhece um objeto conhecido.
O binário é gerador da sociedade e da lei; é também o número da gnose. O binário é a unidade multiplicando - se por si mesma para criar; e é por isso que os símbolos sagrados fazem sair Eva do próprio peito de Adão.
Adão é o tetragrama humano, que se resume no iod misterioso, imagem do phallus cabalístico. Ajuntai a este iod o nome ternário de Eva, e formareis o nome de Jeová , o tetragrama divino, que é a palavra cabalística e mágica por excelência:
que o sumo sacerdote, no templo pronunciava Jodcheva. É assim que a unidade, completa na fecundidade do ternário, forma com ele o quaternário, que é a chave de todos os números, de todos os movimentos e de todas as formas.
O quadrado, girando sobre si, produz o círculo que lhe é igual e está para a quadratura do círculo como o movimento circular de quatro ângulos iguais que giram ao redor de um mesmo ponto.
O que está em cima, diz Hermes, é igual ao que está em baixo: eis o binário servindo de medida à unidade, e a relação de igualdade entre o alto e o baixo, eis que forma com eles o ternário.
O princípio criador é o phallus ideal; e o princípio criado é o cteis formal.
A inserção do phallus vertical no cteis horizontal forma o stauros dos gnósticos ou a cruz filosófica dos maçons. Assim, o cruzamento de dois produz quatro, que, movendo - se, determinam o círculo com todos os seus graus.
Aleph. é o homem; Bet. é a mulher; 1 é o princípio; 2 é o verbo; A é o ativo; B é o passivo; a unidade é Bohas; o binário é Jakin.
Nos trigramas de Fo -Hi, a unidade é o Yang; e o binário é o Yin.
Bohas e Jakin são os nomes das duas colunas simbólicas que estavam diante da porta principal do templo de cabalístico de Salomão.
Estas duas colunas explicam em Cabala todos os mistérios do antagonismo, quer natural, quer político, quer religioso, explicam a luta geradora do homem e da mulher, porque, conforme a lei a lei da natureza, a mulher deve resistir ao homem, e este deve atraí - la ou submete- la.
O princípio ativo busca o princípio passivo, o cheio é amante do vácuo. A goela da serpente atrai a sua cauda, e, girando sobre si mesma ela foge de si e persegue a si mesma.
A mulher é a criação do homem, e a criação universal é a mulher do primeiro princípio.
Quando o ente princípio se fez criador, erigiu um iod ou um phallus, e, para lhe dar lugar no cheio da luz incriada, teve de cavar um cteis ou um fosso de profundidade igual à dimensão determinada pelo seu desejo criador, e destinado por ele ao iod na luz irradiante.
Tal é a linguagem misteriosa dos cabalistas no Talmude, e, por causa da ignorância e da maldade do vulgo, é -nos impossível explica - la ou simplifica- la mais.
Que é, pois, a criação? A casa do Verbo criador. Que é o cteis ? É a casa do phallus .
Qual a natureza do princípio ativo? É espalhar. Qual é a natureza do princípio passivo? É reunir e fecundar.
Que é o homem? É o iniciador, o que destrói, cultiva e semeia. Que é a mulher? É a formadora, a que reúne, rega e ceifa.
O homem faz a guerra, e a mulher procura a paz; o homem destrói para criar, a mulher edifica para conservar; o homem é a revolução, a mulher é a conciliação; homem é o pai de Caim, a mulher é a mãe de Abel.
Que é a sabedoria? É a conciliação e a união dos dois princípios, é a docilidade de Abel dirigindo a energia de Caim, é o homem segundo as doces inspirações da mulher, é a depravação vencida pelo legítimo casamento, é a energia revolucionária abrandada e dominada pelas doçuras da ordem e da paz, é o orgulho submetido ao amor, é a ciência reconhecendo as inspirações da fé.
Então, a ciência humana torna - se sábia, porque ela é modesta, e se submete à infalibilidade da razão universal, ensinada pelo amor ou pela caridade universal. Ela pode tomar o nome de Gnose, porque, ao menos, conhece o que ainda não se pode vangloriar de saber perfeitamente.
A unidade só pode manifestar- se pelo binário; a própria unidade e a idéia da unidade já fazem dois.
A unidade do macrocosmo revela - se pelas duas pontas opostas dos dois triângulos.
A unidade humana completa - se pela direita e pela esquerda. O homem primitivo é andrógino. Todos os órgãos do corpo humano são dispostos por dois, exceto o nariz, a língua, o umbigo e o iod cabalístico.
A divindade, una na sua essência, tem duas condições essenciais por bases fundamentais do ser: a necessidade e a liberdade.
As leis da razão suprema são necessárias em Deus e regulam a liberdade, que é necessariamente razoável e sábia.
Para fazer visível a luz, Deus somente supôs a sombra.
P ara manifestar a verdade, fez possível a dúvida.
A sombra é a repulsão da luz, e a possibilidade do erro é necessária para a manifestação temporal da verdade.
Se o escudo de Satã não parasse a lança de Mikael, a força do anjo vai se perderia no vácuo ou deveria manifestar- se por uma destruição infinita dirigida de cima para baixo.
E se o pé de Mikael não retivesse Satã na sua ascensão, Satã iria destronar Deus, ou antes se perder nos abismos da altura.
S atã é, pois, necessário a Mikael como o pedestal à estátua, e Mikael é necessário a Satã como o freio à locomotiva.
Na dinâmica analógica e universal, só há apoio no que resiste.
Por isso o universo é balanceado por duas forças que o mantêm em equilíbrio: a força que atrai e a que repele. Estas duas forças existem em física, filosofia e religião. Elas produzem, em física, o equilíbrio, em filosofia, a crítica; e em religião, a revelação progressiva. Os antidos representaram este mistério pela luta de Eros e Anteros, pelo combate de Jacó com o anjo, pelo equilíbrio da montanha de ouro, que conservam ligadas com a serpente simbólica da Índia, de um lado os deuses e do outro os demônios.
É também figurado pelo caduceu de Hermanubis, pelo dois querubins da arca, pelas duas esfinges do carro de Osíris, pelos dois serafins, o branco e o preto.
A sua realidade científica é demonstrada pelos fenômenos da polaridade e pela lei universal das simpatias ou antipatias.
Os discípulos ininteligentes de Zoroastro divinizaram o binário, sem referi - lo à unidade, separando, assim, as colunas do templo e querendo dividir Deus. O binário em Deus só existe pelo ternário. Se concebeis o absoluto como dois, é preciso imediatamente concebe - lo como três, para achar o princípio unitário.
É por isso que os elementos materiais análogos aos elementos divinos se concebem como quatro, explicam - se como dois e, finalmente, só existem como três.
A revelação é o binário; todo verbo é duplo ou supõe dois.
A moral que resulta da revelação é fundada sobre o antagonismo, que é a conseqüência do binário. O espírito e a forma se atraem e se repelem como a idéia e o sinal, como a verdade e a ficção. A razão suprema necessita do dogma para se comunicar às inteligências finitas, e o dogma, passando do domínio das idéias ao das formas, se faz participar dos dois mundos, e tem, necessariamente dois sentidos que falam sucessivamente ou ao mesmo tempo, quer ao espírito, quer à carne.
Por isso, no domínio moral há duas forças: uma que tenta e outra que reprime e que expia. Estas duas forças são figuradas nos mitos do Gênese pelos personagens típicos de Caim e Abel.
Abel oprime Caim por sua superioridade moral; Caim para libertar- se, imortaliza seu irmão matando - o, e fica vítima do seu próprio crime. Caim não pôde deixar viver Abel e o sangue de Abel não deixa mais Caim dormir.
No Evangelho, o tipo de Caim é substituído pelo do Filho pródigo, a quem seu pai perdoa tudo, porque ele volta depois de ter sofrido muito.
Em Deus, há misericórdia e justiça; ele faz justiça aos justos e misericórdia aos pecadores.
Na alma do mundo, que é o agente universal, há uma corrente de amor e uma corrente de cólera.
Este fluido ambiente e que penetra em todas as coisas; este raio destacado da coroa do sol e fixado pelo peso da atmosfera e pela força de atração central; este corpo do Espírito Santo que chamamos o agente universal, e que os antigos representavam sob a figura da serpente que morde a sua cada; este éter elétrico e magnético, este calórico vital e luminoso, é figurado nos antigos monumentos pela cintura de Isis, que se volve e resolve em laço de amor ao redor dos dois pólos, e pela serpente que morde a sua cauda, emblema da prudência e de Saturno.
O movimento e a vida consistem na tensão extrema das duas forças.
Prouve a Deus, dizia o Mestre, que fôsseis totalmente frio ou totalmente quente!
Com efeito, um grande culpado é mais vivo que um homem fraco e morno, e a sua volta à virtude será em razão direta da energia dos seus desvios.
A mulher que deve esmagar a cabeça da serpente é a inteligência, que sempre vence a corrente das forças cegas. É, dizem os cabalistas, a virgem do mar, cujos pés úmidos o dragão infernal vem lamber com sua língua de fogo, que se adormece de volúpia.
Tais são os mistérios hieráticos do binário. Mas existe um, o último de todos, que não deve ser revelado: a razão disso está, conforme Hermes Trismegisto, na ininteligência do vulgo, que daria às necessidades da ciência toda a capacidade imortal de uma cega fatalidade. É preciso conter o vulgo, diz ele ainda, pelo temor do desconhecido; e o Cristo dizia também: “Não lanceis vossas pérolas aos porcos, para que eles não as pisem, e voltando - se contra vós, não vos devorem ”. A árvore da ciência do bem e do mal, cujos frutos dão a morte, é a imagem deste segredo hierático do binário. Este segredo, com efeito, se for divulgado, só pode ser mal compreendido, e concluir- se daí a negação ímpia do livre arbítrio, que é o princípio moral da vida. Está, pois, na essência das coisas que a revelação deste segredo dá a morte, e, entretanto, este não é ainda o grande arcano da magia: mas o segredo do binário conduz ao do quaternário, ou antes procede dele e se resolve pelo ternário, que contém a palavra do enigma da esfinge tal como tinha de ser resolvido para salvar a vida, expiar o crime involuntário e assegurar o reino de Édipo.
No livro hieroglífico de Hermes, que é também denominado o livro de Thot, o binário é representado quer por uma grande sacerdotisa tendo os chifres de Ísis, a cabeça coberta, um livro aberto, que oculta pela metade com seu manto;ou pela mulher soberana, a deusa Juno dos Gregos, tendo uma das mãos elevada para o céu e a outra abaixada para a terra, como se formulasse, por este gesto, o dogma único e dualista que é a base da magia e que inicia os maravilhosos símbolos da Tábua de Esmeralda de Hermes.
No Apocalipse de São João, trata- se de dois testemunhos ou mártires, aos quais a tradição profética dá o nome de Elias e Enoque: Elias, o homem da fé, do zelo e do milagre; Enoque, o mesmo que os Egípcios chamaram Hermes, e que os
Fenícios honravam como Cadmo, o autor do alfabeto sagrado e da chave universal das iniciações ao Verbo, o pai da Cabala, aquele, dizem as santas alegorias, que não morreu como os outros homens, mas que foi arrebatado ao céu para voltar no fim dos tempos. Diziam, mais ou menos, a mesma coisa do próprio São João, que achou e explicou, no seu Apocalipse , os símbolos do verbo de Enoque. Esta ressurreição de São João e Enoque, esperada nos fins dos séculos de ignorância, será o renovamento das suas doutrinas pela inteligência das chaves cabalísticas que abrem o templo da unidade e da filosofia universal, por muito tempo oculta e reservada somente a eleitos que o mundo fazia morrer.
Mas dissemos que a reprodução da unidade pelo binário conduz forçosamente à noção e ao dogma do ternário, e chegamos, enfim, a este grande número, que é a plenitude e o verbo perfeito da unidade. Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Recipiendário.


DISCIPLINA – ENSOPH - KETHER
Quando um filósofo tomou para base de uma nova revelação da sabedoria humana este raciocínio: “Penso, logo existo ”, ele mudou de algum modo e à sua vontade, conforme a revelação cristã, a noção antiga do Ente supremo. Moisés faz dizer ao Ente dos entes: “Eu sou quem sou ”. Descartes faz dizer ao Ente dos entes: “Eu sou aquele que
pensa ”, e como pensar é falar interiormente, o homem de Descartes pode dizer como o Deus de São João Evangelista: “Eu sou aquele em quem está e por quem se manifesta o Verbo ”. In principio erat verbum .
Que é um princípio? É uma base de palavra, é uma razão de ser do verbo. A essência do verbo está no princípio: o princípio é o que é; a inteligência é um princípio que fala.
Que é a luz intelectual? É a palavra. Que é a revelação? É a palavra; o ente é o princípio, a palavra é o meio e a plenitude ou o desenvolvimento, e a perfeição do ente é o fim: falar é criar.
Porém, dizer: "Eu penso, logo existo", é concluir da conseqüência ao princípio, e recentes contradições levantadas por um grande escritor provaram suficientemente a imperfeição filosófica deste método. Eu sou, logo existe alguma coisa, nos parece uma base mais primitiva e mais simples da filosofia experimental.
Eu sou, logo o ente existe. Ego sum qui sum: eis aí a revelação primária de Deus no homem e do homem no mundo, e é também o primeiro axioma da filosofia oculta.
"O ser é o ser"
Esta filosofia tem, pois, por princípio o que existe, e nada tem de hipotético nem de casual.
Hermes (Mercúrio) Trismegisto inicia o seu admirável símbolo, conhecido sob o nome de Tábua de Esmeralda , por esta tríplice afirmação: “É verdade, é certo sem erro, é absolutamente verdade". Assim, a verdade confirmada pela experiência em física, a certeza desembaraçada de qualquer mistura de erro em filosofia, a verdade absoluta, indicada pela analogia, no domínio da religião ou do infinito, tais são as primeiras necessidades da verdadeira ciência, e é o que só a magia pode dar aos seus adeptos.
Mas, antes de tudo, quem sois vós que tendes este livro entre as vossas mãos e o começais a ler?...
No frontispício de um templo que a antiguidade dedicara ao deus da luz, lia - se esta inscrição em duas palavras: “Conhece-te a ti mesmo". Tenho o mesmo conselho a dar a qualquer homem que queira aproximar- se da ciência.
A magia, que os antigos chamavam o sanctum regnum , o santo reino, ou o reino de Deus, regnum Dei , só é feita para os reis e padres; sois padre? Sois rei? O sacerdócio da magia não é um sacerdócio vulgar e a sua realeza nada tem que debater com os príncipes deste mundo. Os reis da ciência são os padres da verdade, e o seu reino fica oculto para a multidão, como os seus sacrifícios e as suas preces. Os reis da ciência são os homens que conhecem a verdade e que a verdade tornou livres, conforme a promessa formal do mais poderoso dos iniciadores.
O homem que é escravo das suas paixões ou dos preconceitos deste mundo não poderia ser um iniciado; ele nunca se elevará, enquanto não se reformar; não poderia, pois, ser um adepto, porque a palavra adepto significa aquele que se elevou por sua vontade e por suas obras.
O homem que ama suas idéias e que tem medo perdê - las. Aquele que teme as verdades e que não está disposto a duvidar de tudo, antes do que admitir qualquer coisa ao acaso, esse deve fechar este livro, que lhe é inútil e perigoso; ele o compreenderia mal e ficaria perturbado, mas ficá- lo - ia muito mais se por acaso o compreendesse bem.
Se estiverdes presos por alguma coisa ao mundo, mais que à razão, à verdade e à justiça; se vossa vontade é incerta e vacilante, quer no bem, quer no mal; se a lógica vos espanta, se a verdade nua voz faz corar; se vos sentis ofendido, quando apontam vossos erros, condenai imediatamente este livro, e, não o lendo, fazei como se não existisse para vós, porém não o difameis como perigoso: os segredos que ele revela serão compreendidos por um pequeno número, e os que os compreenderem não os revelarão. Mostrar à noite a luz aos pássaros, é ocultá - la, pois que ela os cega e torna- se para eles mais obscura do que as trevas. Falarei, pois, claramente; direi tudo e tenho a firme confiança de que só os iniciados ou os que são dignos de o ser, lerão tudo e compreenderão alguma coisa.
Há uma verdadeira e uma falsa ciência, uma magia divina e uma magia infernal, isto é, mentirosa e tenebrosa; temos de revelar uma e desvendar outra; temos de distinguir o mago do feiticeiro e o adepto do charlatão.
O mago dispõe de uma força que conhece, o feiticeiro procura abusar do que ignora.
O diabo – se é permitido num livro de ciência empregar esta palavra desacreditada e vulgar – o diabo se dá ao mago e o feiticeiro se dá ao diabo.
O mago é o soberano pontífice da natureza, o feiticeiro não passa de um profanador.
O feiticeiro é para o mago o que o supersticioso e o fanático são para o homem verdadeiramente religioso.
Antes de ir mais longe, definamos claramente a magia.
A magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza, que nos vem dos magos.
Por meio desta ciência, o adepto se acha investido de uma espécie de onipotência relativa e pode agir de modo que ultrapassa a capacidade comum dos homens.
É assim que vários adeptos célebres, tais como Mercúrio (Hermes) Trismegisto, Osíris, Orfeu, Apolônio de Thyana, e outros que poderia ser perigoso ou inconveniente mencionar, puderam ser adorados ou invocados depois da sua morte como deuses. É assim que outros, conforme o fluxo e o refluxo da opinião, que faz os caprichos do êxito, tornaram - se agentes do inferno ou aventureiros suspeitos, como o imperador Juliano, Apuleio, o encantador Merlino e o arquifeiticeiro, como o chamavam no seu tempo, o ilustre e infeliz Cornélio Agrippa.
Para chegar ao sanctum regnum , isto é, à ciência e ao poder dos magos, quatro coisas são indispensáveis: uma inteligência esclarecida pelo estudo, uma audácia que nada faz parar, uma vontade que nada quebra e uma discreção que nada pode corromper ou embebedar.
Saber, ousar, querer, calar – eis os quatro verbos do mago, que estão escritos nas quatro formas simbólicas da esfinge. Estes quatro verbos podem combinar - se mutuamente de quatro modos e se explicam quatro vezes uns pelos outros.
Na primeira página do livro de Hermes, o adepto é representado coberto com um largo chapéu, cuja aba, sendo dobrada, pode ocultar a sua cabeça inteira. Ele tem em uma das mãos elevadas para o céu, ao qual parece governar com sua baqueta, e a outra mão no seu peito; tem diante de si os principais símbolos ou instrumentos da ciência, e esconde outros numa algibeira de escamoteador. O seu corpo e os seus braços formam a letra Aleph, a primeira do alfabeto, que os hebreus tiraram dos egípcios; porém, mais tarde, teremos ocasião de voltar novamente a este símbolo.
O mago é verdadeiramente o que os cabalistas hebreus chamam o microprósopo , isto é, o criador do mundo pequeno. A primeira ciência mágica sendo o conhecimento de si mesmo, também a primeira lugar de todas as obras da ciência, a que contém todas as outras e que é o princípio da grande obra, é a criação de si mesmo; este termo tem necessidade de ser explicado.
A razão suprema sendo o único princípio invariável e, por conseguinte, imperecível, pois que a mudança é o que chamamos a morte, a inteligência que adere fortemente e de algum modo se identifica a este princípio, se torna, por isso mesmo, invariável, e, por conseguinte, imortal. Compreende - se que, para aderir invariavelmente à razão, é preciso ter- se tornado independente de todas as forças que produzem, pelo movimento fatal e necessário, as alternativas da vida e da morte. Saber sofrer, abster- se e morrer, tais são, pois, os primeiros segredos que nos põem acima da dor, dos desejos sensuais e do temor do nada. O homem que procura e acha uma gloriosa morte tem fé em imortalidade, e a humanidade inteira crê nela com ele e por ele, porque ela lhe eleva altares ou estátuas, em sinal de vida imortal.
O homem torna- se rei dos animais, somente dominando - os ou prendendo - os; de outro modo, seria sua vítima ou seu escravo. Os animais são a figura das nossas paixões, são as forças instintivas da natureza.
O mundo é um campo de batalha que a liberdade disputa à força da inércia, opondo - lhe a força ativa. Al liberdades físicas são mós de que sereis o grão, se não souberdes ser o moleiro.
Sois chamado a ser o rei do ar, da água, da terra e do fogo; mas, para reinar sobre estes quatro animais do simbolismo, é preciso vencê- los e encadeá - los.
Aquele que aspira a ser um sábio e a saber o grande enigma da natureza deve ser o herdeiro e o espoliador da esfinge; deve ter a sua cabeça humana para possuir a palavra, as asas de águia para conquistar as alturas, os flancos de touro para cavar as profundezas, e as garras de leão para preparar lugar para si à direita e à esquerda, adiante e atrás.
Vós, pois, que quereis ser iniciado, sois tão sábio como Fausto? Sois impassível como Jô? Não, não é verdade? Mas vós o podeis ser, se o quiserdes. Vencestes os turbilhões dos pensamentos vagos? Sois sem indecisões e sem caprichos? Não aceitais o prazer só quando o quereis, e não o quereis só quando o deveis? Não, não é verdade? Não é sempre assim? Mas isso pode ser, se o quiserdes.
A esfinge não tem somente uma cabeça de homem, ela tem também seios de mulher; sabeis vós resistir às atrações da mulher? Não, não é verdade? E dais risada ao responder, e vos vangloriais de vossa fraqueza moral para glorificar em vós a força vital e material. Seja, permiti -vos dar essa homenagem ao asno de Sterno e de Apuleio; que o asno tenha seu mérito, não discuto, era consagrado a Príapo como o bode ao deus de Mendes. Mas deixemo - lo pelo que é, e saibamos somente se é vosso senhor ou se podeis ser o dele. Pode verdadeiramente possuir a voluptuosidade do amor, somente quem venceu o amor da voluptuosidade. Poder usar e abster- se, é poder duas vezes. A mulher vos prende pelos vossos desejos: sede senhor dos vossos desejos e prendereis a mulher.
A maior injúria que se possa fazer a um homem é chamá- lo de covarde. Ora, que é um covarde?
Um covarde é aquele que negligencia o cuidado da sua dignidade moral, para obedecer cegamente aos instintos da natureza.
Em presença do perigo é, com efeito, natural ter medo e procurar fugir: por que, pois, é uma vergonha? Porque a honra nos dá a lei de preferir nosso dever às nossas atrações e aos nossos temores. Que é, neste ponto de vista, a honra? É o pressentimento universal da imortalidade e a avaliação dos meios que podem levar a ela. A última vitória que o homem pode obter sobre a morte, é triunfar do gosto da vida, não pelo desespero, mas por uma esperança maior, que está contida na fé, por tudo o que é belo, honesto e do consentimento de todos.
A prender a vencer- se é, pois, aprender a viver, e as austeridades do estoicismo não eram uma vã ostentação de liberdade!
C eder às forças da natureza é seguir a corrente da vida coletiva, é ser escravo das causas segundas.
Resistir à natureza e domina- la é fazer para si uma vida pessoal e imperecível, é libertar- se das vicissitudes da vida e da morte.
Todo homem que está pronto a morrer ao invés de abjurar a verdade e a justiça, é verdadeiramente vivente, porque é imortal na sua alma.
Todas as iniciações antigas tinham por fim achar ou formar tais homens.
Pitágoras exercitava seus discípulos pelo silêncio e as abstinências de todo gênero; no Egito, os recipiendários eram experimentados pelos quatro elementos; na Índia, é sabido a que prodigiosas austeridades os faquires e brâmanes se condenavam, para chegar ao reino da vontade livre e da independência divina.
Todas as macerações do asceticismo são tiradas das iniciações aos antigos mistérios e elas cessaram, porque os iniciáveis, não achando mais iniciadores, e os diretores de consciência tendo - se tornado, com o tempo, tão ignorantes como o vulgo, os cegos cansaram - se de seguir os cegos, e ninguém quis passar provas que só levavam à dúvida e ao desespero: o caminho da luz estava perdido.
Para fazer alguma coisa é preciso saber o que se vai fazer, ou, ao menos, ter fé em alguém que o sabe.
Mas como arriscarei minha vida à aventura e seguirei ao acaso aquele que nem mesmo sabe aonde vai?
No caminho das altas ciências, não convém empenhar- se temerariamente, mas, uma vez em caminho, é preciso chegar ou perecer. Duvidar é ficar louco; parar é cair; voltar para trás é precipitar - se num abismo.
Vós, pois, que começastes a leitura deste livro, se vós o compreendeis e quereis ler até o fim, ele fará de vós um monarca ou um insensato. Quanto a vós, fazei deste volume o que quiserdes, não podereis nem despreza - lo nem esquece - lo. Se sois puro, este livro será para vós uma luz; se sois forte, ele será vossa arma; se sois santo, será vossa religião; se sois sábio, ele regulará a vossa sabedoria.
Mas, se sois malvado, este livro será para vós como que uma tocha infernal; ele despedaçará vosso peito, rasgando - o como um punhal; ficará na vossa memória como um remorso; ele encherá vossa imaginação de quimeras, e vos levará pela loucura ao desespero. Procurareis rir dele, e só podereis ranger os dentes, porque este livro é para vós como a lima da fábula que uma serpente tentou morder e que lhe quebrou todos os dentes.
Comecemos, agora, a série das iniciações.
Disse que a revelação é o verbo. Com efeito, o verbo ou a palavra é o véu do ente e o sinal característico da vida. Toda forma é véu de um verbo, porque a idéia, mãe do verbo, é a única razão de ser das formas. Toda figura é um caráter, todo caráter pertence e volta a um verbo. É por isso que os antigos sábios, cujo chefe é Trismegisto, formularam o seu dogma nestes termos:
"O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima ”.
Em outros termos, a forma é proporcional à idéia, a sombra é a medida do corpo calculada com sua relação ao raio. A bainha é tão profunda como o comprimento da espada, a negação é proporcional à afirmação contrária, a produção é igual à destruição, no movimento que conserva a vida, e não há um ponto no espaço infinito que não seja centro de um círculo cuja circunferência se engrandece e estende indefinidamente no espaço.
Toda individualidade é, pois, indefinidamente perfectível, porque o moral é análogo à ordem física, e porque não é possível conceber um ponto que não se possa dilatar, engrandecer e lançar raios num círculo filosoficamente infinito.
O que se pode dizer da alma inteira, deve - se dizer de cada faculdade da alma.
A inteligência e a vontade do homem são instrumentos de um valor e de uma força incalculáveis.
Mas a inteligência e a vontade têm por auxiliar e por instrumento uma faculdade muito pouco conhecida e cuja onipotência pertence exclusivamente ao domínio da magia: quero falar da imaginação, que os cabalistas chamam o diáfano ou o translúcido . Efetivamente, a imaginação é como que o olho da alma, e é nela que as formas se desenham e se conservam, é por ela que vemos os reflexos do mundo invisível, ela é o espelho das visões e o aparelho da vida mágica: é por ela que curamos doenças, que influímos sobre as estações, que afastamos a morte dos vivos e que ressuscitamos os mortos, porque é ela que exalta a vontade e que lhe dá domínio sobre o agente universal.
A imaginação determina a forma da criança no ventre materno e fixa o destino dos homens; ela dá asas ao contágio e dirige as armas na guerra. Estais em perigo numa batalha? Crede -vos invulnerável como Aquiles e o sereis, diz Paracelso. O medo atrai os pelouros, e a coragem faz retroceder as balas. É sabido que os amputados muitas vezes se queixam dos membros que não têm. Paracelso operava no sangue vivo, medicamentando o produto de uma sangria; curava as dores de cabeça à distância, operando em cabelos cortados; ele tinha excedido muito, pela ciência da unidade imaginária e da solidariedade do todo e das partes, todas as teorias ou antes todas as experiências dos nossos mais célebres magnetizadores. Por isso, as suas curas eram milagrosas, e ele mereceu que ajuntassem ao seu nome de Filipe Teofrasto Bombast o de Aureolo Paracelso, acrescentando - lhe ainda o epíteto de divino!

A imaginação é o instrumento da adaptação do verbo .

A imaginação aplicada à razão é o gênio.

A razão é una, como o gênio é uno na multiplicidade das suas obras.

Há um princípio, há uma verdade, há uma razão, há uma filosofia absoluta e universal.

O que está na unidade considerada como princípio, volta à unidade considerada como fim.

Um está em um, isto é, tudo está em tudo.

A unidade é o princípio dos números, é também o princípio do movimento e, por conseguinte, da vida.
Todo o corpo humano se resume na unidade de um só órgão, que é o cérebro.
Todas as religiões se resumem na unidade de um só dogma, que é a afirmação do ser e da sua igualdade a si mesmo, o que constitui o seu valor matemático.
Não há mais do que um dogma em magia, e ei - lo: o visível é a manifestação do invisível, ou, em outros termos, o verbo perfeito está nas coisas apreciáveis e visíveis, em proporção exata com as coisas inapreciáveis aos nossos sentidos e invisíveis aos nossos olhos.
O Mago eleva uma das mãos para o céu e abaixa a outra para a terra, e diz: Lá em cima a imensidade! Lá em baixo a imensidade ainda; a imensidade é igual à imensidade é igual à imensidade. Isto é verídico nas coisas visíveis, como nas coisas invisíveis.
A primeira letra do alfabeto da língua sagrada, Aleph, representa um homem que eleva uma das mãos ao céu, e abaixa a outra para a terra.
É a expressão do princípio ativo de todas as coisas, é a criação no céu, corresponde à onipotência do verbo aqui. Esta letra é, por si só, um pantáculo, isto é, um caráter que exprime a ciência universal.
A letra Aleph pode suprir aos signos sagrados do macrocosmo e do microcosmo, ela explica o duplo triângulo maçônico e a estrela brilhante de cinco pontas; porque o verbo é um e a revelação é uma. Deus, ando ao homem a razão, deu - lhe a palavra; e a revelação múltipla nas suas formas, mas una no seu princípio, está inteira no verbo universal, intérprete da razão absoluta.
É o que quer dizer a palavra tão mal compreendida do catolicismo , que, na língua hierárquica moderna, significa infalibilidade .
O universal em razão é o absoluto, e o absoluto é o infalível.
Se a razão absoluta leva a sociedade inteira a crer irresistivelmente na palavra de uma criança, esta criança será infalível, da parte de Deus e da parte da humanidade inteira.
A fé não é outra coisa senão a confiança razoável nesta unidade do verbo.
Crer é anuir ao que não se sabe ainda, mas que a razão nos certifica adiantadamente de saber ou ao menos reconhecer um dia.
São, pois, absurdos os pretensos filósofos que dizem: “Não creio no que não sei ”.
Pobres homens! Se soubésseis, haveria necessidade de crerdes? Mas posso eu crer ao acaso e sem razão?
- Não certamente! A crença cega e aventurada é a superstição e a loucura. É preciso crer nas coisas cuja existência a razão nos força a admitir conforme o testemunho dos efeitos conhecidos e apreciados pela ciência.
A ciência! Grande vocábulo e grande problema! Que é a ciência?.Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.