contos sol e lua

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terça-feira, 29 de junho de 2010

Druida-A Espiritualidade dos Celtas


Os historiadores costumavam dizer que os Druidas eram os sacerdotes dos povos Celtas, a antiga raça Celta era também uma criação do período de Renovação, provocado por ideais políticos ingleses e por ideais românticos num período no qual tanto a Escócia quanto a Irlanda lutavam para se desvencilhar do controle britânico. Atualmente é mais claramente aceito e compreendido o fato de que os europeus da Idade do Ferro não possuíam uma cultura homogênea, e que jamais houveram invasões desses ditos Celtas; ao invés disso, o que se espalhou pela Europa foi a tecnologia do trabalho em ferro e as vantagens e benefícios associados.
Os povos encontrados na Grã Bretanha pelos historiadores e escritores romanos há dois mil anos realmente possuíam uma espiritualidade muito clara e seus sacerdotes eram conhecidos como Druidas. Há quanto tempo esses sacerdotes eram conhecidos como "Druidas" é assunto para a evolução lingüística, e atualmente, para a tradição, é um tanto irrelevante. Mais importante é dizer que Júlio César, o único escritor a ter encontrado um Druida pessoalmente, nos diz que essa Tradição tem origem na Grã Bretanha.
O Druidismo é uma espiritualidade natural das Ilhas Britânicas. Como qualquer espiritualidade nativa que é profundamente arraigada na terra, suas bases são a própria Terra e os Ancestrais, através dos quais honramos as forças da Natureza. Ao honrar a Terra, o solo que nos alimenta, o sol que nos dá luz e calor, a fonte de nossa água, as plantas e os animais, honramos nosso mundo externo. Ao honrar nos ancestrais e todos os que nos tornaram o que somos, honramos nosso meio-ambiente interior. É esta teia de temas que confere às tradições pagãs muito de sua força.
Toda tradição local evolui de acordo com as cores e texturas do meio em que se desenvolve. Assim, se por um lado existem semelhanças entre as espiritualidades ancestrais dos índios americanos, Aborígenes, Huna, Maia, Shinto, Maori e outras, por outro elas diferem de modo determinante por conta do clima e da paisagem. O Druidismo surgiu das rochas, das florestas e da chuva da Grã-Bretanha, e sua própria natureza está envolta pela beleza, poder e lendas que envolvem a Grã-Bretanha desde tempos imemoriáveis. O Druidismo é a prática de se honrar a força vital enquanto ela floresce, vive, perece e gera vida novamente nestas terras.
Mas o fluxo de energia vital está sempre em constante mutação, e isto fica especialmente óbvio em uma ilha de clima temperado. Os botões da primavera se abrem, macios sob a chuva fria, alongando-se no verão antes de adotar a coloração dourada sob as luas da colheita, para então liberar seus grãos e dançar livremente ao sabor dos ventos frios do inverno. É a partir desta compreensão da vida como um rio que flui que recebemos o cerne da prática druídica: Awen. Esta antiga palavra galesa, que literalmente significa "Espírito Flutuante", é compreendida como a Inspiração divina e é justamente essa busca pela Inspiração que é parte tão importante da tradição. Awen é o poder, a água do fonte sagrado, ou o leite da Deusa Mãe, encontrado no Santo Graal. Awen é a Inspiração líquida e a essência de todo o conhecimento que era (ou é) fervido no caldeirão dos deuses ancestrais, os caldeirões do Renascimento.
Se a salvação pode ser vista, talvez de modo simplista, como a busca definitiva do cristianismo, então a Inspiração é a busca do Druidismo. Por sermos animistas, nós entendemos que toda a criação possui um espírito, e a matéria e o mundo físico são a criatividade desse espírito. O Druida sabe que é nesta relação, de espírito para espírito, que a Inspiração é encontrada. Ao sentar-se no topo de uma escarpa, observando o sol a se pôr no oceano, nosso espírito reconhece o poder e a beleza essenciais que formam o espírito, e então ele recebe a Inspiração. Ao segurar uma pedra que cintila com cristais, tocamos e somos tocados pelo espírito da pedra, de sua natureza, de sua história. Ao sentir a energia das árvores na floresta, a vitalidade das sementes que transplantamos na primavera, a força do cavalo que responde à nossa inclinação e muda de direção, ao sentir os véus prateados da lua sobre nossa pele nua, recebemos a Inspiração.
Quando reconhecemos o espírito de algum aspecto da criação - seja um elemental, uma planta, um animal, uma pedra ou um humano - recebemos a oportunidade de conhecer nosso próprio espírito, de responder a partir desse nosso espírito, e é esta consciência que nos dá o poder associado ao velho druida arquetípico: a mistura de vulnerabilidade e invulnerabilidade. Pois no Druidismo não existe o desejo de transcender a realidade. O Druida explora a suavidade e a beleza da carne e do sangue, desfrutando de seu potencial, expressando sua criatividade através do mundo físico e da matéria, descobrindo a beleza do mundo a sua volta, sempre ciente de sua impermanência e seu estado de constante mutação, sempre ciente da energia espiritual que é eterna e invulnerável.
Quando o espírito toca o espírito, onde há comunhão nesse nível e a energia vital é trocada, ali flui o Awen. É como o relâmpago que irrompe entre a terra e o céu, entre os olhos dos amantes.
Mas aspirar a beleza da Inspiração não é o bastante. É responsabilidade de um Druida assegurar que essa energia continue a fluir, de espírito para espírito, pois a energia retida no corpo ou na alma estagna e incha na forma de doença ou vaidade. Dessa forma, a Inspiração deve ser manifesta, a energia inalada deve ser exalada e isto ocorre através da critividade do Druida.Emma Restall Orr.

A Kabalah.


MALKUTHH – PRINCIPIUM - PHALLUS
Todas as religiões conservaram a lembrança de um livro primitivo escrito em figuras pelos sábios dos primeiros séculos do mundo, e cujos símbolos, simplificados e vulgarizados mais tarde, forneceram à Escritura suas letras, ao Verbo seus caracteres, à Filosofia oculta seus signos misteriosos e seus pantáculos.
Este livro, atribuído a Enoque, o sétimo senhor do mundo depois de Adão, pelos hebreus; a Hermes Trismegisto pelos egípcios; a Cadmo, o misterioso fundador da Cidade Santa, pelos gregos, - este livro era o resumo simbólico da tradição primitiva, chamada, depois de Cabala, uma palavra hebraica que é equivalente a tradição.
Esta tradição repousa inteiramente sobre o dogma único da magia: o visível é para nós a medida proporcional do invisível. Ora, os antigos, tendo observado que o equilíbrio é, em física, a lei universal, e que resulta da oposição aparente de duas forças, concluíram que em Deus, isto é, na primeira causa vivente e ativa, se deviam reconhecer duas propriedades necessárias uma à outra: a estabilidade e o movimento, a necessidade e a liberdade, a ordem racional e a autonomia volitiva, a justiça e o amor, e, por conseguinte, também a severidade e a misericórdia; e são estes dois atributos que os cabalistas judeus personificam de algum modo sob os nomes de Geburah e Chesed.
Acima de Geburah e Chesed reside a coroa suprema, o poder equilibrante, princípio do mundo ou do reino equilibrado, que vemos designado sob o nome de Malkuth no versículo oculto e cabalístico do Pater de que já falamos.
Mas Geburah e Chesed, mantidos em equilíbrio, em cima pela coroa e embaixo pelo reino, são dois princípios que podem ser considerados, quer na sua abstração, quer na sua realização. Abstratos ou idealizados, tomam os nomes superiores de Hocmah , a sabedoria, e de Binah , a inteligência.
Realizados, chamam - se à estabilidade e o progresso, isto é, a eternidade e a vitória: Hod e Netsah .
Tal é, conforme a Cabala, o fundamento de todas as religiões e de todas as ciências, a idéia prima e imutável das coisas: um tríplice triângulo e um círculo, a idéia do ternário explicada pela balança multiplicada por si mesma nos domínios do ideal, depois a realização desta idéia nas formas. Ora, os antigos uniram as noções primárias desta simples e grandiosa teologia à própria idéia dos números, e qualificaram, assim, todos os algarismos da década primitiva.
1. Kether - A Coroa, o poder equilibrante.
2. Hocmah – A Sabedoria, equilibrada na sua ordem imutável pela iniciativa da Inteligência.
3. Binah – A Inteligência ativa, equilibrada pela Sabedoria.
4. Chesed – A Misericórdia, segunda concepção da Sabedoria, sempre benévola, porque é forte.
5. Geburah – O Rigor necessitado pela própria Sabedoria e pela Bondade. Sofrer o mal e é impedir o bem. 6. Tiphereth – A Beleza, concepção luminosa do equilíbrio nas formas, o intermediário entre a coroa e o reino, o princípio mediador entre o criador e a criação. (Que sublime idéia não achamos aqui da poesia e do seu soberano sacerdócio!)
7. Netsah – A Vitória, isto é, o triunfo eterno da inteligência e da justiça.
8. Hod - A Eternidade das vitórias do espírito sobre a matéria, do ativo sobre o passivo, da vida sobre a morte. 9. Yesod - O Fundamento, isto é, a base de toda crença e de toda verdade, é o que chamamos em filosofia o Absoluto . 10. Malkuth - O Reino, é o universo, é a criação inteira, a obra e o espelho de Deus, a prova da razão suprema, a conseqüência formal que nos força a remontar às premissas virtuais, o enigma cuja palavra é Deus, isto é: razão suprema e absoluta.
Estas dez noções primárias, unidas aos dez primeiros caracteres do alfabeto primitivo, significando, ao mesmo tempo, princípios e números, são os que os mestres da Cabala chamam as dez Sephiroth.
O tetragrama sagrado.
Indica o número, a origem e as relações dos nomes divinos. É ao nome de Iodchavad, escrito com estes vinte e quatro sinais coroados de um tríplice florão de luz, que devem ser referidos os vinte e quatro anciãos coroados do Apocalipse. Na Cabala, o princípio oculto é chamado de ancião, e este princípio, multiplicado e como que refletido nas causas segundas, cria suas imagens, isto é, tantos anciãos quantas concepções diversas há da sua única essência. Estas imagens menos perfeitas, ao se afastarem da sua fonte, lançam nas trevas um último reflexo ou um último clarão que representa um velho horrível e desfigurado: é o que vulgarmente é chamado o diabo. Por isso, um iniciado ousou dizer: “O diabo é Deus compreendido pelos malvados ”; e um outro, em termos mais estranhos, mas não menos enérgicos, acrescentou: “O diabo é formado dos fragmentos de Deus ”. Podemos resumir e explicar estas asserções tão novas, fazendo notar que, até no simbolismo, o demônio é um anjo caído do céu por ter querido usurpar a divindade. Isso pertence à linguagem alegórica dos profetas e lendários. Filosoficamente falando, o diabo é uma idéia humana da divindade sobrepujada e despojada do céu pelo progresso da ciência e da razão. Moloch, Adramelek, Baal, foram, entre os orientais primitivos, as personificações do deus único, desonradas por atributos bárbaros. O deus dos jansenistas, criando para o inferno a maioria dos homens e comprazendo - se com as torturas eternas dos que não quis salvar, é uma concepção ainda mais bárbara do que a de Moloch; por isso, o deus dos jansenistas já é para os cristãos sábios e esclarecidos um verdadeiro Satã caído do céu.
Os cabalistas, multiplicando os nomes divinos, uniram todos, quer à unidade do tetragrama, quer à figura do ternário, quer à escada sefírica da década: traçam assim a escada dos nomes e dos números divinos.
Triângulo que se pode traduzir assim, em letras romanas:

I
IA
SDI
JEHV
ELOIM
SABAOT
ARARITA
ELVEDAAT
ELIM GIBOR
ELIM SABAOT
O conjunto de todos estes nomes divinos, formado do único tetragrama, mas fora do próprio tetragrama, é uma das bases do Ritual hebreu, e compõe a força oculta que os rabinos cabalistas invocam sob o nome de Semhamphorash.
Falaremos agora dos Taros, sob o ponto de vista cabalístico. Já indicamos a fonte oculta de seu nome. Este livro hieroglífico se compõe de um alfabeto cabalístico e de uma roda ou círculo de quatro décadas, especificadas por quatro figuras simbólicas e típicas, tendo cada uma, para raio, uma escada de quatro figuras progressivas representando a Humanidade: homem, mulher, moço e criança; senhor, senhora, combatente e criado. As vinte e duas figuras do alfabeto representam primeiramente os treze dogmas, depois as nove crenças autorizadas pela religião hebraica, religião forte e fundada sobre a mais alta razão.
Eis a chave religiosa e cabalística dos Taros, expressa em versos técnicos à maneira dos antigos legisladores:

1 Aleph. Tudo mostra uma causa inteligente, ativa.

2 Bet. O número dá prova da unidade viva.
3 Gimmel. Nada pode limitar aquele que tudo contém.
4 Dalet. Só, antes de qualquer princípio, está presente em toda parte.
5 Heh. Como é único senhor, é o único adorável.
6 Vav. Revela aos corações puros seu dogma verdadeiro.
7 Zayin. Mas é preciso um só chefe às obras da fé.
8 Het. É por isso que só temos um altar, uma lei.
9 Tet. nunca o Eterno mudará a sua base.
10 Yod. Dos céus e dos nossos dias regula cada fase.
11 Khaf. Rico em misericórdia e enérgico no punir.
12 Lamed.Promete a seu povo um rei no porvir.
13 Mem. O túmulo é a passagem para a terra nova. Só a morte acaba, a vida é eterna.
Tais são os dogmas puros, imutáveis, sagrados. Completemos, agora, os números reverenciados: 14 Nun.g O bom anjo é aquele que acalma e tempera.
15 Samekh. O mau é o espírito de orgulho e cólera.
16 Ayin. Deus manda no raio e governa o fogo.
17 Peh. Vésper e o seu orvalho obedecem a Deus.
18 Tzadi. Coloca sobre nossas torres a Lua como sentinela.
19 Kuf.O seu sol é a fonte em que tudo se renova.
20 Resh. O seu sopro faz germinar o pó dos túmulos.
0 ou 21 Shin. Onde os mortais sem freio descem em multidão.
21 ou 22 Tav. Sua coroa cobriu o propiciatório.
E sobre os querubins faz pairar sua glória.
Com o auxílio desta explicação, puramente dogmática, já se pode entender as figuras do alfabeto cabalístico do Tarô. Assim a figura nº 1, chamada o Pelotiqueiro, representa o princípio ativo na unidade de autotelia divina e humana; o nº 2, chamado vulgarmente a Papisa, figura a unidade dogmática dos números, é a Cabala ou a Gnose personificada; o nº 3 representa a Espiritualidade divina sob o emblema de uma mulher alada, que tem numa das mãos a águia apocalíptica, e, na outra, o mundo suspenso na ponta do seu cetro. As outras figuras são tão claras e tão facilmente explicáveis como estas primeiras. Os quatro signos, isto é, aos Paus, às Copas, às Espadas e aos Círculos ou Pantáculos,, vulgarmente chamados Ouros. Estas figuras são hieróglifos do tetragrama; assim, o Pau é o phallus dos egípcios ou iod dos hebreus; a Copa é o octeis ou o hê primitivo; a Espada é a conjunção de ambos ou o lingham figurado no hebreu anterior ao cativeiro pelo vô , e o Círculo ou Pantáculo, imagem do mundo, é o hê final do nome divino.
Tomemos um Tarô e reunamos, quatro por quatro, todas as páginas que formam a Roda ou ROTA de Guilherme Postello; ponhamos juntos os quatro ases, os quatro dois, etc., e teremos dez montes de cartas que dão a explicação hieroglífica do triângulo dos nomes divinos, de acordo com a escada do denário que demos precedentemente. Poderemos, pois, lê - los assim, referindo cada número à Sephirot correspondente:

Heh.Vav.Het.Yod.

Quatro letras do nome que contém todos os nomes.
1 . - KETHER.
Os quatro ases:
A coroa de Deus tem quatro florões.

2. – CHOCMAH
Os quatro dois:
A sua sabedoria se espalha e forma quatro rios.

3. - BINAH
Os quatro três:
Da sua inteligência dá quatro provas.

4. - CHESED
Os quatro quatro:
Da sua misericórdia há quarto benefícios.

5. - GEBURAH
Os quatro cinco:
O seu rigor quatro vezes pune quatro erros.

6. - TIPHERET
Os quatro seis:
Por quatro raios puros a sua beleza se revela.

7. – NETSAH
Os quatro sete:
Celebremos quatro vezes a sua vitória eterna.

8. - HOD
Os quatro oito:
Quatro vezes triunfa na sua eternidade.

9. - YESOD
Os quatro nove:
Por quatro fundamentos seu trono é suportado.


10. - MALCHUT
Seu único reino é quatro vezes o mesmo:
E conforme os florões do divino diadema.
Por este arranjo tão simples, o sentido cabalístico de cada lâmina. Assim, por exemplo, o cinco de paus significa rigorosamente Geburah de Jod , isto é, justiça do Criador ou cólera do homem; o sete de copas significa vitória da misericórdia ou vitória da mulher; o oito de espada significa conflito ou equilíbrio eterno; e assim outras. Assim podemos compreender como faziam os antigos pontífices para fazer este oráculo; as lâminas lançadas à sorte davam sempre um sentido cabalístico novo, mais rigorosamente verdadeiro na sua combinação, unicamente a qual era fortuita; e, como a fé dos antigos nada dava ao acaso, eles liam as respostas da Providência nos oráculos do Tarô, que eram chamados Theraph ou Theraphims entre os hebreus, como o pressentiu primeiramente o sábio cabalista Gaffarel, um dos magos habituais do cardeal Richelieu.
Quanto às figuras, eis um último dístico para explicá - las:

REI, DAMA, CAVALEIRO, VALETE

Esposo, moço, criança, toda a humanidade,
Sobem por estes quatro degraus à unidade.
As dez Sephiroth e as vinte e duas lâminas do tarô formam o que os cabalistas chamam os trinta e dois caminhos da ciência absoluta. Quanto às ciências particulares, dividem -nas em cinqüenta capítulos, que chamam as cinqüenta portas. (Sabemos que porta significa governo ou autoridade entre os orientais). Os rabinos dividem a Cabala também em Bereschit ou Gênese universal, e Mercavah, ou carro de Ezequiel; depois, das duas maneiras de interpretar os alfabetos cabalísticos, formam duas ciências, chamadas Gematria e a Temurah, e compõem delas a arte notória, que fundamentalmente nada mais é que a ciência completa dos signos do Tarô e a sua aplicação complexa e variada à adivinhação de todos os segredos, quer da filosofia, quer da natureza, quer do futuro. Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Canção de Amairgin.


Eu sou o vento sobre o mar,
Sou uma onda do oceano,
Sou o rugido do mar,
Sou um boi dos sete exílios,
Sou um falcão num penhasco,
Sou uma lágrima do sol,
Sou uma curva num labirinto,
Sou um javali em bravura,
Sou um salmão numa lagoa,
Sou um lago numa planície,
Sou uma força a distribuir-se,
Sou o espírito do dom da habilidade,
Sou uma folha de grama a oferecer à terra matéria decomposta,
Sou um deus da criação a oferecer inspirações.

Quem mais limpa as pedras da montanha?
Quem é que declama o nascer do sol?
Quem é que diz onde o sol se põe?
Quem traz o gado da casa de Tethra?
Sobre quem sorri o gado de Tethra?
Quem é este boi?
Quem é o deus tecelão que remenda a palha dos ferimentos?
O encantamento de uma lança.
O encantamento do vento.
Versão da Canção de Amairgin in: MATTHEWS, Caitlín & MATTHEWS, John. The Encyclopedia of Celtic Wisdom: a Celtic Shaman’s Sourcebook. London: Rider, 2001.

Ritos Celtas.


Os primeiros celtas não construíam templos para a adoração de seus deuses, mas mantinham altares em bosques de (Nemeton) dedicados a serem locais de adoração. Algumas árvores eram consideradas elas próprias sagradas. A importância das árvores na religião celta pode ser mostrada pelo fato que o nome da tribo dos Eburônios contém uma referência a yew tree, e nomes como Mac Cuillin (filho de acebo), e Mac Ibar (filho de yew) aparecem nos mitos irlandeses. Apenas durante o período de influência romana os celtas começaram a construir templos, um hábito que foi passado as tribos germânicas que os suplantaram.
Escritores romanos insistiam que o sacrifício humano era praticado pelos celtas em larga escala e há indícios dessa possibilidade vindos de achados na Irlanda, no entanto a maior parte da informação sobre isso veio de rumores de "segunda mão" que chegavam a Roma. São muito poucas as descobertas arqueológicas que substanciam o processo de sacrifício e assim os historiadores modernos consideram que os sacrifícios humanos eram um acontecimento extremamente raro nas culturas Celtas.
Mas havia também, no entanto, um culto guerreiro centrado nas cabeças cortadas de seus inimigos. Os celtas muniam seus mortos de armas e outros pertences, o que indica que acreditavam na vida após a morte. Depois do funeral, eles também cortavam a cabeça do morto e esmagavam seu crânio para evitar que seu espírito permanecesse preso.
Nenhuma menção aos cultos celtas pode deixar de descrever os druidas. Esses sacerdotes representam simplesmente a classe mais ou menos hereditária de xamãs, característica de todas as sociedades indo-européias antigas. Em outras palavras, eles são o equivalente a casta brâmane indiana ou aos magi persas, e como estes um especialista nas práticas de magia, sacrifício e augurio. Eles eram conhecidos por ser particularmente associados a carvalhos e trufas; essas últimas talvez usadas na confecção de medicamentos ou alucinógenos. Outra figura importante na manutenção das lendas célticas era o bardo; aquele que, através de suas músicas, difundia os feitos de bravura dos heróis do passado. Desse ponto de vista a cultura celta não foi uma cultura histórica - do ponto de vista que não teve história escrita (ainda que os celtas possuíssem formas rudimentares de escrita, baseadas em traços verticais e horizontais). Suas histórias eram transmitidas oralmente, e os bardos eram particularmente bons nisso já que, uma vez que suas histórias eram musicadas, tornava-se fácil lembrar das palavras exatas que a compunham. Além disso, eles podem ter sido considerados uma espécie de profetas. Os historiadores Estrabo descreveu-os como "vates", palavra que significa inspirado, estasiado. É bem possível que a sociedade céltica tivesse, além da religião taumatúrgica e ritualística dos druídas, um elemento de comunicação estásica com o Além. A Conversão dos Druidas.
O Cristianismo se espalhou com muita facilidade pelas regiões célticas como a Gália, Bretanha, Grã-Bretanha e Irlanda. A presença se faz notar desde o século II, mas mais intensamente a partir do século IV. Vários mosteiros são abertos. São Colombano fundou mosteiros em Annegray no Vosges, em Luxeit na Borgonha, e até em Bobbio na Lombardia. São Patrick (ou São Patrício) é o santo padroeiro da Irlanda. Vários manuscritos da Idade Média contam a sua lenda. Nascido possivelmente em 390 ou 415 (não há certeza sobre as datas), ele não tem origem irlandesa, mas grã-bretã. Quando jovem, foi raptado por piratas e tornado escravo na Irlanda. Liberto seis anos depois, se torna sacerdote e depois bispo, quando decide responder a um chamado divino para converter os seus sequestradores. Desembarca em Ulster, querendo implantar uma rede de discipulos, e inicia a conversão dos druidas, ritualísticos da sociedade local. E, desde então, oficialmente, em cada ultimo domingo do mês de julho, multidões de irlandeses galgam o monte Croagh Patrick para render homenagem ao santo fundador.
Resquícios Modernos.
Os modos e as crenças celtas tiveram um grande impacto na atualidade das regiões em que se encontravam. Conhecimentos sobre a religião pré-cristã ainda são comuns nas regiões que foram habitadas pelos celtas, apesar de agora estarem diminuindo. Adicionalmente, muitos santos não-oficiais são adorados na Escócia, como Saint Brid na Escócia (Brigid, na Irlanda), uma adaptação cristã da deusa de mesmo nome. Vários ritos envolvendo peregrinações a vales e poços considerados sagrados aos quais creditam propriedades curativas têm origem celta. As festas dos celtas eram baseadas nos solstícios e equinócios.O Imbolc era celebrado no dia 1º de fevereiro e marcava o começo da vida da natureza depois da hibernação do inverno.O Samhain,a festa dos mortos,ocorria em 1º de novembro.A festa cristã de todos os santos no dia 1º de novembro é derivada dessa data comemorativa celta.F.P.Wikepédia.

A Iniciação.


Iesod – Bonum.
O iniciado é aquele que possui a lâmpada de Trismegisto, o manto de Apolônio, e o bastão dos patriarcas.
A lâmpada de Trismegisto é a razão esclarecida pela inteligência; o manto de Apolônio é a posse plena e total de si mesmo, que isola o sábio das correntes instintivas; e o bastão dos patriarcas é o auxílio das forças ocultas e perpétuas da natureza.
A lâmpada de Trismegisto alumia o presente, o passado e o futuro, mostra claramente a consciência dos homens, ilumina os recônditos do coração das mulheres. A lâmpada brilha com tríplice chama, o manto se redobra três vezes, e o bastão se divide em três partes.
O número nove é o dos reflexos divinos: ele exprime idéia divina em toda sua força abstrata, mas também exprime o luxo na crença e, por conseguinte, a superstição e a idolatria.
É por isso que Hermes fez dele o número da iniciação, porque o iniciado reina sobre a superstição e pela superstição, e só ele pode caminhar nas trevas, apoiado como está no seu bastão, envolto no seu manto e iluminado pela sua lâmpada.
A razão foi dada a todos os homens, mas nem todos sabem fazer uso dela; é uma ciência que é preciso aprender. A liberdade é oferecida a todos, mas nem todos sabem apoiar- se nela; é um poder de que é preciso apoderar- se.
A nada chegamos que não nos custe mais de um esforço. O destino do homem é que se enriqueça do que ganha e que depois tenha, como Deus, a glória e o prazer de dar.
A ciência mágica se chamava, outrora, arte sacerdotal e arte real, porque a iniciação dava ao sábio o império sobre as almas e a aptidão para governar as vontades.
A adivinhação é também um dos privilégios do iniciado; ora, adivinhação é simplesmente o conhecimento dos efeitos contidos nas causas e a ciência aplicada aos fatos do dogma universal da analogia.
Os atos humanos não se escrevem somente a luz astral; deixam também os seus traços na fronte, modificam as feições e o andar, mudam o acento da voz.
Cada homem traz, pois, consigo a história da sua vida, legível para o iniciado. Ora, o futuro é sempre a conseqüência do passado, e as circunstâncias inesperadas não mudam quase nada dos resultados racionalmente esperados. É possível, pois, predizer a cada homem o seu destino.
É possível julgar de uma existência inteira por um só movimento; um só desacerto pressagia uma série de desgraças. César foi assassinado porque amava as poesias de Ossian; Luiz Filipe devia deixar o trono como o fez, porque usava um guarda - chuva. São paradoxos para o vulgo, que não compreende as relações ocultas das coisas; mas são razões para o iniciado, que compreende tudo e de nada se admira.
A iniciação preserva das falsas luzes de misticismo; ela dá à razão humana o seu valor relativo e a sua infalibilidade proporcional, unindo -a à razão suprema pela cadeia das analogias.
O iniciado não tem, pois, esperanças duvidosas, nem temores absurdos, porque não tem crenças desarrazoáveis; sabe o que pode e nada lhe custa ousar. Por isso, para ele, ousar é poder.
Eis, pois, uma nova interpretação dos atributos do iniciado; a sua lâmpada representa o saber, o manto que o envolve representa a sua discrição, o seu bastão é o emblema da sua força e da sua audácia. Ele sabe, ousa e cala- se.
Sabe os segredos do futuro, ousa no presente e cala - se sobre o passado.
Sabe as fraquezas do coração humano, ousa servir- se delas para fazer a sua obra, e cala- se sobre os seus projetos.
Sabe a razão de todos os simbolismos e de todos os cultos, ousa praticá- los ou abster- se deles sem hipocrisia e sem impiedade, e cala- se sobre o dogma único da alta iniciação.
Sabe a existência e a natureza do grande agente mágico, ousa fazer os atos e pronunciar as palavras que o submetem à vontade humana, e cala - se sobre os mistérios do grande arcano.
O or isso, podeis vê- lo muitas vezes triste, nunca abatido nem desesperado; muitas vezes pobre, nunca envilecido nem miserável; muitas vezes perseguido, nunca abandonado nem vencido.
Ele se lembra muitas vezes da viuvez e do assassinato de Orfeu, do exílio e da morte solitária de Moisés, do martírio dos profetas, das torturas de Apolônio, da cruz do Salvador; sabe em que abandono morreu Agrippa, cuja memória ainda é caluniada; sabe a que fadigas sucumbiu o grande Paracelso, e tudo o que teve de sofrer Raimundo Lullo para, enfim, chegar a uma morte sanguinolenta. Lembra - se de Swedenborg fazendo - se de louco ou mesmo perdendo a razão, a fim de fazer perdoar a sua ciência; de Saint-Martin, que se ocultou toda a sua vida; de Cagliostro, que morreu abandonado nos calabouços da Inquisição; de Cazotte, que subiu ao cadafalso. Sucessor de tantas vítimas, não ousa menos, mas compreende ainda mais a necessidade de calar - se.
I mitemos o seu exemplo, aprendamos com perseverança; quando soubermos, ousemos e calemo -nos. Eliphas Levi - Ritual e Dogma da Alta Magia.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A Realização.


HOD - VIVENS.
As causas se revelam pelos efeitos, e os efeitos são proporcionais às causas. O verbo divino, a palavra única, o tetragrama, se afirmou pela criação quaternária. A fecundidade humana prova a fecundidade divina: o iod do nome divino é a virilidade eterna do primeiro princípio. O homem compreendeu que foi feito à imagem de Deus, quando compreendeu que Deus era a idéia que se fazia de si mesmo engrandecida até o infinito.
Compreendendo Deus como o homem infinito, o homem disse a si mesmo: - Eu sou o Deus finito.
A magia difere do misticismo em não julgar a priori mas, sim, depois de ter estabelecido a posteriori a própria base dos seus julgamentos, isto é, só depois de ter compreendido a causa pelos efeitos contidos na própria energia da causa, por meio da lei universal da analogia; por isso, nas ciências ocultas, tudo é real, e as teorias são estabelecidas somente sobre as bases da experiência. São as realidades que constituem as proporções do ideal, e o mago só admite como certo, no domínio das idéias, o que é demonstrado pela realização da palavra; é o verbo propriamente dito. Um pensamento se realiza tornando - se palavra; esta se realiza pelos sinais, sons e figuras dos sinais: é este o primeiro grau de realização. Depois, ela se imprime na luz astral por meio dos sinais da escrita ou da palavra; ela influi sobre outros espíritos, refletindo - se neles; se reflete atravessando o diáfano dos outros homens, aí toma formas e proporções novas, depois se traduz em ato e modifica a sociedade e o mundo; é este o último grau de realização. Os homens que nascem num mundo modificado por uma idéia, trazem consigo a sua impressão e é assim que o verbo se faz carne. A impressão da desobediência de Adão, conservada na luz astral, só pode ser apagada pela impressão mais forte da obediência do Salvador, e é assim que se pode explicar o pecado original e a redenção, num sentido natural e mágico.
A luz astral, representada nos antigos símbolos pela serpente que morde a sua cauda, representa, ao mesmo tempo, a malícia e a prudência, o tempo e a eternidade, o tentador e o Redentor. É que esta luz, sendo o veículo da vida, pode servir de auxiliar tanto ao bem como ao mal, e pode ser tomada pela forma ígnea de Satã como pelo corpo do Espírito Santo. É a arma universal da batalha dos anjos, e ela alimenta tão bem as chamas do inferno como o raio de São Miguel. Poderíamos compará- la a um cavalo de natureza análoga à que é atribuída ao camaleão, e que sempre refletisse a armadura do seu cavaleiro.
A luz astral é a realização ou a forma da luz intelectual, como esta é a realização ou forma da luz divina.
O grande iniciador do Cristianismo, compreendendo que a luz astral estava sobrecarregada dos reflexos impuros da depravação romana, quis separar seus discípulos da esfera ambiente dos reflexos e fazê- los atentos unicamente à luz interior, a fim de que, por meio de uma fé comum, pudesse comunicar - se mutuamente por meio de novos cordões magnéticos a que chamou graça, e vender, assim, as correntes transbordadas do magnetismo universal, ao qual dava os nomes de diabo ou Satã, para exprimir a sua putrefação. Opor uma corrente a outra é renovar o poder da vida fluídica. Por isso, os reveladores nada mais fizeram do que adivinhar, pela exatidão de seus cálculos, a hora própria das reações morais.
A lei de realização produz o que chamamos o respiro magnético, de que são impregnados os objetos e lugares, o que lhes comunica uma influência conforme com nossas vontades dominantes, principalmente com as que são confirmadas e realizadas por atos. Com efeito, o agente universal, ou a luz astral latente, sempre procura o equilíbrio; enche o vácuo e aspira o cheio, o que faz contagioso o vício, como certas doenças físicas, e serve poderosamente ao proselitismo da virtude. É por isso que a coabitação com seres antipáticos é um suplício; é por isso que as relíquias, quer dos santos quer dos grandes celerados, podem produzir efeitos maravilhosos de conversão ou perversão súbita; é por isso que o amor sexual, muitas vezes, se produz por um sopro ou contato, e não somente pelo contato da própria pessoa, mas até por meio dos objetos que ela tocou e magnetizou sem o saber.
A alma aspira e respira exatamente como o corpo. Ela aspira o que crê ser felicidade, e respira idéias que resultam das suas sensações íntimas. As almas doentes têm mau hálito e viciam a sua atmosfera moral, isto é, misturam seus reflexos impuros com a luz astral que as penetra e nela estabelecem correntes deletérias.
Muitas vezes ficamos admirados de sermos assaltados, na vida social, por pensamentos maus que não julgamos possíveis, e não sabemos que isso é devido a alguma vizinhança mórbida. Este segredo é de grande importância, porque leva à manifestação das consciências, um dos poderes mais incontestáveis e mais terríveis da arte mágica.
O respiro magnético produz em redor da alma uma irradiação de que ela é o centro, e ela rodeia- se do reflexo de suas obras, que lhe fazem um céu ou um inferno. Não há atos solitários e não poderia haver atos ocultos; tudo o que realmente queremos, isto é, tudo o que confirmamos pelos nossos atos, fica escrito na luz astral, onde se conservam os nossos reflexos; estes reflexos influem continuamente sobre o nosso pensamento por meio do diáfano, e é assim que cada um se torna e permanece filho das suas obras.
A luz astral, transformada em luz humana no momento da concepção, é o primeiro envoltório da alma, e, combinando - se com os fluidos mais sutis, forma o corpo etéreo ou o fantasma sideral dos que fala Paracelso na sua filosofia intuitiva ( Philosophia sagax ). Este corpo sideral, desprendendo - se na hora da morte, atrai a sim e conserva por muito tempo, pela simpatia dos homogêneos, os reflexos da vida passada; se uma vontade poderosamente simpática o atrai numa corrente particular, ele se manifesta naturalmente, porque nada há mais natural do que os prodígios. É assim que se produzem as aparições. Mas desenvolveremos isto mais completamente no capítulo especial da Necromancia.
Este corpo fluídico, submetido, como a massa da lua astral; a dois movimentos contrários, atrativo à esquerda, e repulsivo à direita, ou reciprocamente, nos dois sexos, produz em nós as lutas dos diferentes atrativos e contribui para a ansiedade da consciência; muitas vezes é influído pelos reflexos dos outros espíritos e é assim que se produzem quer as tentações, quer as graças sutis e inesperadas. É também a explicação do dogma tradicional dos dois anjos que nos assistem e experimentam. As duas forças da luz astral podem ser figuradas por uma balança em que são pesadas as nossas boas intenções para a vitória da justiça e a emancipação da nossa liberdade.
O corpo astral nem sempre é do mesmo sexo que o corpo terrestre, isto é, as proporções das duas forças, variando da direita para a esquerda, parecem, muitas vezes, contradizer a organização visível; é o que produz os erros aparentes das paixões humanas, e pode explicar, sem as justificar de modo algum diante da moral, as singularidades amorosas de Anacreonte ou Safo.
Um magnetizador hábil deve apreciar todos estes matizes, e damos, no nosso Ritual, os meios de os reconhecer.
Há duas espécies de realizações, a verdadeira e a fantástica. A primeira é o segredo exclusivo dos magos, a outra pertence aos encantadores e feiticeiros.
As mitologias são realizações fantásticas do dogma religioso, as superstições são o sortilégio da falsa piedade; mas mesmo as mitologias e superstições são mais eficazes sobre a vontade humana do que uma filosofia puramente especulativa e exclusiva de toda prática. É por isso que São Paulo opõe as conquistas da loucura da Cruz à inércia da sabedoria humana. A religião realiza a filosofia adaptando-a às fraquezas do vulgo; tal é, para os cabalistas, a razão secreta e a explicação oculta dos dogmas da encarnação e da redenção.
Os pensamentos que não se traduzem em palavras são pensamentos perdidos para a humanidade; as palavras que não são confirmadas por atos são palavras ociosas, e não há grande distância da palavra ociosa à mentira.
É o pensamento formulado por palavras e atos que constitui a boa obra ou o crime. Logo, quer em vício, quer em virtude, não há palavra da qual não sejamos responsáveis; principalmente, não há atos indiferentes. As maldições e bênçãos sempre têm seus efeitos e qualquer ação, seja qual for, quando é inspirada pelo amor ou pelo ódio, produz efeitos análogos ao seu motivo, ao seu valor e à sua direção.
O imperador cujas imagens tinham sido mutiladas e que, levando a mão à fronte, dizia: “Não me sinto ferido ”, fazia uma falsa apreciação e diminuía nisso o mérito da sua clemência. Qual homem de bem veria com sangue frio os insultos feitos ao seu retrato? E se realmente semelhantes insultos, feitos mesmo contra a vontade, caíssem sobre nós por uma influência fatal, se a arte dos enfeitiçamentos fosse real, como não é permitido a um adepto duvidá- lo, quanto não seria mais imprudente, e até mais temerária ainda, a palavra deste bom imperador!
Existem pessoas quem nunca são ofendidas impunemente, e, se a injúria que se lhes fez é mortal, começa - se desde então a morrer. Existem outras que até não a encontrais em, vão, e cujo olhar muda a direção de vossa vida. O basilisco que mata pelo olhar não é uma fábula, é uma alegoria mágica. Em geral, é ruim para a saúde ter inimigos, e qualquer pessoa não desafia impunemente a reprovação de quem quer que seja. Antes de se opor a uma corrente, é preciso que a pessoa se assegure bem se possui a força ou se é levada pela corrente contrária; aliás será destruída ou fulminada, e muitas mortes súbitas não têm outras causas. As mortes terríveis de Nadab e Abiu, de Osa, Ananias e Safira, foram causadas pelas correntes elétricas das crenças que ultrajavam; os tormentos das ursulinas de Loudun, das religiosas de Louviers e dos convulsionários de jansenismo, tinham o mesmo princípio e se explicam pelas mesmas leis naturais ocultas. Se Urbano Grandier não tivesse sido supliciado, teria acontecido uma das duas: ou as freiras possessas morreriam em espantosas convulsões, ou os fenômenos de frenesi diabólica teriam ganho, multiplicando - se, tantas vontades e tanta força, que o próprio Grandier, apesar da sua ciência e sua razão, teria ficado alucinado a ponto de caluniar a si próprio, como fizera o infeliz Gaufridy, ou teria morrido de repente, com todas as circunstâncias terríveis de um envenenamento ou de uma vingança divina.
O infeliz poeta Gilberto foi, no século XVIII, vítima da sua ousadia em desafiar a corrente da opinião e até do fanatismo filosófico da sua época. Culpado de lesa -filosofia, morreu louco furioso, assaltado pelos mais incríveis terrores, como se o próprio Deus o tivesse punido por ter sustentado a sua causa fora de propósito, mas, com efeito, perecia vítima de uma lei da natureza que não podia conhecer; tinha - se oposto a uma corrente elétrica e caiu fulminado.
Se Marat não tivesse sido assassinado por Carlota Corday, teria infalivelmente sido morto por uma reação da opinião pública. O que o fizera leproso era a execração das pessoas de bem, e devia sucumbir a isso.
A reprovação causada pela Saint-Berthelemy foi a causa única da horrível doença e da morte de Carlos IX; e Henrique IV, se não fosse sustentado por uma imensa popularidade, que devia à força simpática de sua vida astral, Henrique IV, dizemos nós, não teria sobrevivido à sua conversão e teria perecido pelo desprezo dos protestantes, combinado com a desconfiança e a raiva dos católicos.
A impopularidade pode ser uma prova de integridade e de coragem, mas nunca é prova de prudência ou política; os golpes dados contra a opinião são mortais para os homens de Estado. Podemos ainda lembrarmo - nos do fim prematuro e violento de vários homens ilustres, que não convém mencionar aqui.
Os descréditos diante da opinião podem ser grandes injustiças, mas sempre não são menores causas de insucessos e, muitas vezes, sentenças de morte.
Do mesmo modo, as injustiças feitas a um só homem podem e devem, se não forem reparadas, causam a perda de um povo ou de uma sociedade inteira: é o que se chama o grito do sangue, porque, no fundo de toda injustiça, há o germe de um homicídio.
É por causa destas leis terríveis de solidariedade que o cristianismo tanto recomenda o perdão das injúrias e a reconciliação. Aquele que morre sem perdoar, lança - se na eternidade armado de um punhal e se devota aos horrores de uma eterna matança.
É uma tradição e uma crença invencível entre o povo a da eficácia das bênçãos ou maldição paternas ou maternas. Com efeito, quanto mais os laços que unem duas pessoas são estreitos, tanto é mais terrível nos seus efeitos o ódio entre elas. O tição de Altheu queimando o sangue de Meleagra é, na mitologia, o símbolo deste poder temível.
Todavia, que os pais tomem cuidado com isso, porque não se acende o inferno no seu próprio sangue e não se vota os seus à desgraça, sem queimar e tornar infeliz a si próprio. Nunca é um crime perdoar, e sempre é um perigo e uma ação má amaldiçoar.
Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Círculo Mágico e o Altar.


O círculo, círculo mágico ou esfera é um templo bem definido, embora não-físico. Actualmente, na Wicca, rituais e trabalhos de magia acontecem dentro de tais construções de poder pessoal.
O círculo mágico tem origem antiga. Versões dele eram utilizadas na velha magia babilónica. Magos cerimoniais da Idade Média e da Renascença também o utilizavam, bem como muitas tribos indígenas americanas, apesar de o fazerem, provavelmente, por motivos diferentes.
Há dois tipos principais de círculos mágicos. Aqueles utilizados por magos cerimoniais antigos (e actuais) são criados para proteger o mago das forças que ele gera. Na Wicca, o círculo é utilizado para criar um espaço sagrado no qual os humanos encontram a Deusa e o Deus.
Na Europa pré-cristã, a maioria dos festivais religiosos do paganismo acontecia ao ar livre. Eram celebrações ao Sol, à Lua, às estrelas e à fertilidade da Terra. As pedras erguidas, círculos de pedras, bosques sagrados e fontes cultuadas da Europa são resquícios desses antigos dias.
Os ritos pagãos passaram ao ostracismo na época de sua proibição pela nova e poderosa igreja. Nunca mais os prados ouviram as vozes cantando os nomes dos deuses solares, e a lua passava sem adoração pelos céus nocturnos.
Os pagãos tornaram-se reservados quanto a seus ritos. Alguns os praticavam ao ar livre somente sob a protecção da escuridão. Outros adaptaram-nos a ambientes fechados.
Infelizmente, a Wicca herdou esta última prática. Entre muitos Wiccanos, rituais a céu aberto constituem uma novidade, uma agradável ruptura com os rituais domésticos. Chamo a esta síndrome de "sala-de-estar de Wicca". Apesar de muitos Wiccanos praticarem sua religião em ambientes fechados, o ideal é executar os ritos ao ar livre, sob o Sol e a Lua, em locais silvestres e isolados, longe do assédio dos humanos.
Tais ritos Wiccanos são difíceis de praticar hoje. Os rituais tradicionais da Wicca são complexos e normalmente requerem um grande número de instrumentos. Privacidade é também algo difícil de obter, além do simples medo de ser visto. Por que ter medo?
Há adultos tidos como responsáveis e inteligentes que nos prefeririam ver mortos do que praticando nossa religião. Tais "cristãos" são minoria, mas certamente existem, e mesmo hoje os Wiccanos são vítimas de agressões psicológicas e violência física nas mãos dos que não compreendem sua religião.
Não permita que isto o assuste. Os rituais podem ser praticados ao ar livre, se forem adaptados para atrair o mínimo de atenção. Vestir-se com um robe preto encapuzado, enquanto mexe um caldeirão e manuseia facas no ar no meio de um parque público não é o melhor meio de evitar ser notado.
Roupas comuns são aconselháveis em rituais ao ar livre em áreas onde possa ser visto. Podemos utilizar instrumentos, mas lembre-se de que estes são acessórios, não necessidades. Deixe-os em casa se sentir que podem trazer problemas.
Em 1987, numa viagem a Maui, acordei-me ao nascer do sol e caminhei até a praia. O Sol estava apenas nascendo por detrás de Haleakala, tingindo o oceano de rosa e vermelho. Caminhei pela areia coral até um ponto onde a água morna batia em rochas vulcânicas.
Lá, depositei uma pequena pedra na areia em honra às antigas deidades havaianas. Sentado diante dela, abri-me à presença das deusas e deuses ao meu redor. A seguir, caminhei pelo mar e atirei uma plumeria lei à água, oferecendo-a a Hina, Pele, Laka, Kane, Kanaloa e todos os seus semelhantes.
Não pronunciei longos textos nem ergui instrumentos ao ar. Ainda assim, as deidades lá estavam, por toda a parte, enquanto as ondas quebravam contra minhas pernas e a aurora rompia por completo sobre o antigo vulcão, tocando o mar com uma luz esmeralda.
Rituais ao ar livre como este podem ser mil vezes mais eficazes por serem ao ar livre, e não numa sala repleta de aço e plástico e as engenhocas de nossa era tecnológica.
Quando não forem possíveis (o clima é certamente um factor), os Wiccanos transformam suas salas e quartos em locais de poder. Fazem-no ao criar um espaço sagrado, um ambiente mágico no qual as deidades são acolhidas e celebradas, e no qual os Wiccanos se dão conta dos aspectos da Deusa e do Deus interior. Pode-se também praticar magia nesse espaço. Esse espaço sagrado é o círculo mágico.
É praticamente um pré-requisito para trabalhos em ambientes fechados. O círculo define a área ritual, retém o poder pessoal, isola energias perturbadoras - em suma, cria uma atmosfera apropriada para os ritos. Permanecer dentro de um círculo mágico, observando o brilho das velas no altar, aspirando o perfume do incenso e entoando antigos nomes é uma maravilhosa experiência evocativa. Quando correctamente formado e visualizado, o círculo mágico executa sua função de aproximar-nos da Deusa e do Deus.
O círculo é construído com poder pessoal o qual é sentido (e visualizado) saindo do corpo, através do punhal mágico (athame), e rumo ao ar. Quando completo, o círculo é uma esfera de energia que engloba toda a área de trabalho. A palavra círculo é equivocada: uma esfera de energia é o que realmente se cria. O círculo simplesmente assinala o anel onde a esfera toca a terra (ou o chão) e continua através dela para formar a outra metade.
Algum tipo de marcação é feito no solo para mostrar onde o círculo secciona a Terra. Pode ser um barbante que forme um círculo, um leve círculo riscado com giz, ou objectos depositados de modo a indicar seus limites. Estes podem ser flores (ideais para ritos de primavera e verão); ramos de pinho (festivais de inverno); pedras ou conchas; cristais de quartzo e até mesmo cartas de tarô. Use objectos que activem sua imaginação e estejam em sintonia com o ritual.
O círculo tem normalmente nove pés de diâmetro, pois nove é o número da Deusa, se bem que qualquer medida confortável é aceita. Os pontos cardeais são em geral assinalados com velas ou com os instrumentos rituais a eles correspondentes.
O pentagrama e um pote com sal ou terra podem ser colocados no Norte. Este é o domínio da terra, o elemento estabilizador, fértil e nutritivo que é a base dos outros três.
DEUSA OS DOIS DEUS
Simbolização das áreas divinas de um altar.
O incensário com incenso fumegante é atribuído ao Leste, lar do elemento intelectual, o Ar. Flores frescas ou incenso de varetas também podem ser usados. O Ar é o elemento da mente, da comunicação, do movimento, da adivinhação e da espiritualidade ascética.
Ao Sul, uma vela normalmente representa o Fogo, o elemento da transformação, da paixão e da mudança, do sucesso, da saúde e da força. Uma lâmpada a óleo ou um pedaço de lava vulcânica também pode ser utilizado.
Um cálice ou pote de água pode ser depositado no Oeste do círculo para representar a Água, o último dos quatro elementos. A Água é o domínio das emoções, da mente psíquica, do amor, da cura, da beleza e da espiritualidade emocional.
Alternativamente, esses quatro objectos podem ser depositados sobre o altar, em posições correspondentes às direcções e aos seus atributos elementais.
Uma vez que o círculo esteja formado ao redor do espaço de trabalho, tem início o ritual. Durante os trabalhos de magia, o ar dentro do círculo pode ficar desconfortavelmente quente e fechado - o ar de fato fica diferente do mundo externo, carregado com a energia e vivo com o poder.
O círculo é um produto da energia, uma construção palpável, a qual pode ser sentida e percebida com experiência. Não é meramente um anel de flores ou barbante, mas uma barreira sólida, viável.
De acordo com a Wicca, o círculo representa a Deusa, os aspectos espirituais da natureza, fertilidade, infinidade, eternidade. Simboliza ainda a própria Terra.
O altar, com os instrumentos, fica no centro do círculo. Pode ser feito de qualquer material, apesar de a madeira ser melhor. Recomenda-se especialmente o carvalho, devido a seu poder e força, assim como o salgueiro, sagrado para a Deusa.
A Wicca não acredita que a Deusa e o Deus habitem o altar em si. É um local de poder e magia, mas não é sacrossanto. Apesar de o altar ser normalmente preparado e desmontado para cada ritual mágico, alguns Wiccanos também possuem altares permanentes. Seu altar pode tornar-se um desses.
O altar é por vezes redondo, para representar a Deusa e a espiritualidade, apesar de também poder ser quadrado, simbolizando os quatro elementos. Pode ser nada mais do que uma área no chão, uma caixa de papelão coberta com um pano, dois blocos com uma tábua sobre eles, uma mesa de café, um velho toco de uma árvore há muito cortada ou uma pedra grande e plana. Durante rituais a céu aberto, um fogo pode substituir o altar. Incenso em varetas pode ser utilizado para delinear o círculo. Os instrumentos usados são os poderes da mente.
Os instrumentos da Wicca são normalmente distribuídos sobre o altar num padrão agradável. Em geral, o altar é montado no centro do círculo, de frente para o Norte. O Norte é a direcção do poder. É associado à Terra, e uma vez que esta é nossa morada podemo-nos sentir mais confortáveis com este alinhamento. Alguns Wiccanos também montam seus altares voltados para o Leste, onde o Sol e a Lua surgem.
O lado esquerdo do altar é geralmente dedicado à Deusa. Seus instrumentos sagrados são ali depositados: o cálice, o pentagrama, o sino, os cristais e o caldeirão. Pode-se, ainda, colocar uma imagem da Deusa ali, e também apoiar uma vassoura no lado esquerdo do altar.
Se não conseguir encontrar uma imagem apropriada da Deusa (ou se simplesmente não o quiser), pode substituí-la por uma vela verde, prata ou branca. O caldeirão, por vezes, também é colocado no chão, ao lado do altar, se for grande demais para ficar em cima dele.
No lado direito, a ênfase é no Deus. Uma vela vermelha, amarela ou dourada, ou ainda uma figura apropriada é ali colocada, assim como o incensário, o bastão, o athame (punhal mágico) e o punhal de cabo branco.
Flores podem ser colocadas no meio, talvez num vaso ou num pequeno caldeirão. Outra possibilidade é colocar o incensário no centro, para que a fumaça seja oferecida tanto para a Deusa como para o Deus, e o pentagrama pode ser posicionado diante do incensário.
Símbolo ou vela da Deusa.
Os dois.
Símbolo ou vela do Deus.
Incensário.
Pote de Água.
Vela Vermelha.
Pote de Sal.
Taça.
Pentagrama.
Incenso.
Bastão.
Caldeirão (ou material para o encantamento).
Athame.
Sino.
Bolline.
Disposição sugerida para o Altar.
Alguns Wiccanos seguem um planejamento de altar mais primitivo, mais voltado para a natureza. Para representar a Deusa, uma pedra redonda (perfurada, se disponível), uma bonequinha de milho ou uma concha do mar funcionam a contento. Cones de pinho, pedras afiadas e bolotas de carvalho podem ser usados para representar o Deus. Use sua imaginação ao montar o altar.
Se estiver trabalhando magia dentro do círculo, leve todos os itens necessários para dentro dele antes de iniciar, no altar ou sob este. Nunca se esqueça de Ter fósforos à mão, bem como um pequeno recipiente no qual depositar os fósforos utilizados (não é adequado atirá-los no incensário ou no caldeirão).
Apesar de podermos colocar imagens da Deusa e do Deus, não somos idólatras. Não acreditamos que uma tal estátua ou pilha de pedras realmente seja a deidade representada. E, apesar de reverenciarmos a natureza, não cultuamos árvores ou pedras ou aves. Simplesmente nos deleitamos com as manifestações das forças criativas universais - a Deusa e o Deus.
O altar e o círculo mágico no qual ele fica é uma construção pessoal e deve ser de seu agrado. Meu primeiro mestre de Wicca preparava altares elaborados adequados à ocasião - se não pudéssemos praticar ao ar livre. Para um rito da Lua Cheia, ele cobriu o altar com cetim branco, colocou velas brancas em suportes de cristal, um cálice de prata, rosas brancas e folhagens brancas. Um incenso composto de rosas brancas, sândalo e gardênia flutuava pelo ar. O altar resplandecente inundava o ambiente com energias lunares.“Guia essencial da Bruxa Solitária”, de Scott Cunnigham.