contos sol e lua

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domingo, 12 de setembro de 2010

Introdução ao Ritual da Alta Magia.


Conheceis a velha soberana do mundo, que sempre caminha e nunca se cansa?
Todas as paixões desregradas, todas as voluptuosidades egoístas, todas as forças desenfreadas da humanidade e todas as fraquezas tirânicas precedem a proprietária avarenta do nosso vale de lágrimas, e, com a foicinha na mão, estas operárias infatigáveis fazem uma eterna colheita.
A rainha é velha como o tempo, mas esconde o seu esqueleto sob os restos da beleza das mulheres que ela rouba à sua juventude e aos seus amores.
A sua cabeça é coberta de cabelos frios que não lhe pertencem. Desde a cabeleira de Berenice, toda brilhante de estrelas, até os cabelos encanecidos precocemente, que o algoz cortou da cabeça de Maria Antonieta, a espoliadora das frontes coroadas enfeitou - se com os despojos das rainhas.
O seu corpo pálido e gélido está coberto de enfeites desbotados e mortalhas de trapos.
Suas mãos ósseas e cheias de anéis seguram diademas e ferros, cetros e ossos, pedrarias e cinzas.
Quando ela passa, as portas se abrem por si mesmas; entra através das pareces, penetra até nas alcovas dos reis, vem surpreender os despojadores do pobre nas suas mais secretas orgias, assenta- se à sua mesa e lhes dá de beber, sorri aos seus cantos com seus dentes sem gengivas, e toma o lugar da cortesã impura que se esconde sob as suas saias.
Gosta de andar junto dos voluptuosos que se adormecem; procura as carícias como se esperassem aquecer- se nos seus abraços, porém geral tudo o que toca e não se aquece nunca. Todavia, às vezes, diríamos que está com vertigem; ela não passeia mais com lentidão, corre; e se os seus pés não são muito rápidos chicoteia as ancas de um cavalo pálido e o lança todo estafado através das multidões. Com ela galopa o assassinato num cavalo russo; o incêndio, estendendo sua cabeleira de fumaça, voa diante dela, movendo suas asas vermelhas e negras, e a fome e a peste a seguem passo a passo, em cavalos doentios e descarnados, catando as raras espigas que ela esquece para completar sua ceifa.
Depois deste cortejo fúnebre, vêm duas crianças radiantes de sorriso e de vida, a inteligência e o amor do século futuro, o duplo gênio da humanidade que vai nascer.
Diante deles, as sombras da morte recuam como a noite diante das estrelas da aurora; lavram a terra com ligeireza e semeiam nela, a mancheias, a esperança de um outro ano.
Porém, a morte não virá mais, implacável e terrível, roçar, como mato seco, as espigas maduras do século vindouro; ela cederá o lugar ao anjo do progresso que desprenderá suavemente as almas da sua cadeia mortal, para deixá- las subir para Deus.
Quando os homens souberem viver, não morrerão mais; transformar - se- ão como a crisálida que se torna uma borboleta brilhante.
Os terrores de morte são filhos da nossa ignorância, e a própria morte não é tão horrenda senão pelos restos de que se cobre e as cores sombrias com que se rodeiam suas imagens. A morte é verdadeiramente o trabalho da vida.
Existe na natureza uma força que não morre, e esta força transforma continuamente os seres para os conservar. Ela é a razão ou o verbo da natureza.
Existe também no homem uma força análoga à da natureza, e esta força é a razão ou o verbo do homem. O verbo do homem é a expressão da sua vontade dirigida pela razão.
Este verbo é onipotente quando é razoável, porque então é análogo ao próprio verbo de Deus.
Pelo verbo da sua razão, o homem faz - se conquistador da vida e pode triunfar da morte.
A vida inteira do homem é somente parturição ou abortamento do seu verbo. Os entes humanos que morrem sem ter entendido e sem ter formulado a palavra de razão, morrem sem esperança eterna.
Para lutar com vantagem contra o fantasma da morte é preciso ter- se o homem identificado com as realidades da vida.
Que importa a Deus um aborto que morre, desde que a vida é eterna? Que importa à natureza um desvario que perece, desde que a razão sempre viva conserva as chaves da vida?
A força terrível e justa que mata eternamente os abortos foi chamada, pelos hebreus, Samael; pelos orientais, Satã; e pelos latinos, Lúcifer.
O Lúcifer da cabala não é um anjo maldito e fulminado, é o anjo que ilumina e que regenera queimando; é para os anjos de paz o que o cometa é para as tranqüilas estrelas das constelações da primavera.
A estrela fixa é bela, radiante e calma; ela respira os celestes aromas e olha com amor as suas irmãs; vestida com sua roupagem esplêndida e a fronte ornada de diamantes, ela sorri, cantando o seu cântico da manhã e da tarde; goza um repouso eterno que nada poderia perturbar, e caminha solenemente, sem sair do lugar que lhe é determinado entre as sentinelas da luz.
Contudo, o cometa errante, todo ensangüentado e desgrenhado, acorre das profundezas do céu; precipita - se através das esferas tranqüilas, como um carro de guerra entre as fileiras de uma procissão de vestais; ousa afrontar a espada flamejante dos guardas do sol, e, como uma esposa apaixonada que procura o esposo sonhado pelas suas noites de viuvez, penetra até o tabernáculo do rei dos dias, depois foge, exalando os fogos que o devoram e arrastando após si um longo incêndio; as estrelas empalidecem ao seu aproximar, os rebanhos constelados que pastam flores de luz nas vastas campinas do céu parecem fugir do seu sopro terrível. O grande conselho dos astros se reúne, e a consternação é universal: a mais bela das estrelas fixas é, enfim, encarregada de falar em nome de todo o céu e propor a paz ao mensageiro vagabundo.
Meu irmão – diz ela – por que perturbas a harmonia das nossas esferas? Que mal te fizemos nós e por que, em vez de errar ao acaso, não te fixas no teu lugar na corte do sol? Por que não vens cantar conosco o hino da tarde, enfeitado, como nós, com uma roupa branca que se prende no peito por um broche de diamante? Por que deixas flutuar, através dos vapores da noite, a tua cabeleira, da qual escorre um suor de fogo? Oh! Se tomasses um lugar entre os filhos do céu, quanto parecerias mais belo! A tua fronte não ficaria mais inflamada pela fadiga da tua carreira inaudita; teus olhos seriam puros e tua fronte sorridente seria branca e avermelhada como a de tuas felizes irmãs; todos os astros te conheceriam, e, longe de temer a tua passagem, se alegrariam ao teu aproximar; porque estarias ligado a nós pelos laços indestrutíveis da harmonia universal, e a tua existência seria mais uma voz no cântico do amor infinito.
E o cometa responde à estrela fixa:
N ão creias, ó minha irmã, que possa errar ao acaso e perturbar a harmonia das esferas; Deus traçou meu caminho como o teu, e se a minha carreira te parece incerta e vagabunda, é porque os teus raios não poderiam estender - se tão longe para abarcar o contorno da eclipse que me foi dada por carreira. A minha cabeleira inflamada é o fanal de Deus; sou o mensageiro dos sóis e fortaleço - me nos seus fogos para os partilhar no meu caminho aos novos mundos que ainda não têm bastante calor, e aos astros envelhecidos que têm frio na sua solidão. Se me afadigo nas minhas longas viagens, se sou de uma beleza menos atrativa do que a tua, se o meu enfeite é menos virginal, não deixo, por isso, de ser, como tu, um nobre filho do céu. Deixa - me o segredo do meu destino terrível, deixa-me o espanto que me rodeia, amaldiçoa -me, se não podes compreender-me: não deixarei, por isso, de realizar a obra que me foi imposta e continuarei a minha carreira sob o impulso do sopro de Deus! Felizes das estrelas que repousam e que brilham, como jovens rainhas, na sociedade tranqüila dos universos! Eu sou o proscrito que viaja sempre e tem o infinito por pátria. Acusam - me de incendiar os planetas que aqueço e de atemorizar os astros que ilumino; censuram -me de perturbar a harmonia dos universos porque não giro ao redor dos seus centros particulares e os prendo uns aos outros, fixando meus olhares no centro único de todos os sóis. Fica, pois, sossegada, bela estrela fixa, não quero tirar a tua luz tranqüila; pelo contrário, esgotarei por ti a minha vida e o meu calor. Poderei desaparecer do céu quando me tiver consumido; a minha sorte terá sido tão bela! Saiba que no templo de Deus ardem fogos diferentes que lhe dão glória; tu és a luz dos candelabros de ouro, e eu a chama do sacrifício: realizemos os nossos destinos.
Acabando estas palavras, o cometa sacode a sua cabeleira, cobre - se com a sua couraça ardente e se lança nos espaços infinitos em que parece desaparecer para sempre.
É assim que aparece e desaparece Satã, nas narrações alegóricas da Bíblia.
Um dia, diz o livro de Jó , os filhos de Deus tinham vindo para se apresentarem ao Senhor e, entre eles, também estava Satã, a quem o Senhor perguntou: Donde vens?
E ele respondeu: Fiz a volta da terra e a percorri.
Eis como um evangelho gnóstico, encontrado no Oriente por um sábio viajante, nosso amigo, explica, em proveito do simbólico Lúcifer a gênese da luz:
"A verdade que se conhece é o pensamento vivo. A verdade é o pensamento que está em si mesmo; e o pensamento formulado é a palavra. Quando o pensamento eterno procurou uma forma, disse: “Faça - se a luz! ”
Ora, este pensamento que fala é o Verbo; e o Verbo diz: “Faça - se a luz, porque o próprio Verbo é a luz dos espíritos ”.
A luz incriada, que é o Verbo divino, irradia porque quer ser vista; e quando diz: “Faça- se a luz! ”, ordena aos olhos que se abram; criam inteligências.
E quando Deus disse: “Faça - se a Luz! ”, a inteligência foi feita e a luz apareceu.
Ora, a inteligência, que Deus tinha vertido do sopro da sua boca, como uma estrela desprendida do sol, tomou a forma de um anjo esplêndido e o céu o saudou com o nome de Lúcifer.
A inteligência despertou- se e compreendeu totalmente a si mesma ao ouvir esta palavra do Verbo divino: “Faça- se a luz! ”
Ela sentiu - se livre, porque Deus lhe tinha ordenado de o ser; e respondeu, levantando a cabeça e estendendo as suas asas:
Não serei a escravidão!
Serás, pois, a dor? – perguntou- lhe a voz incriada.
Serei a Liberdade! – respondeu a voz.
O orgulho te seduzirá – retrucou a voz suprema – e produzirás a morte.
Tenho necessidade de lutar contra a morte para conquistar a vida – disse ainda a luz criada.
Deus, então, desprendeu do seu seio o fio de esplendor que retinha o anjo soberbo e, vendo - o lançar- se na noite que assinalava de glória, amou o filho do seu pensamento e, sorrindo com inefável sorriso, disse a si mesmo: “Como a luz era bela! ”
Deus não criou a dor; é a Inteligência que a aceitou para ser livre. E a dor foi a condição imposta ao ser livre, por aquele que é o único que se não pode enganar, porque é infinito.
Porque a essência da inteligência é o juízo; e a essência do juízo é a liberdade.
O olho percebe realmente a luz exclua pela faculdade fechar- se e abrir- se. Se fosse forçado a estar sempre aberto, seria escravo e vítima da luz; e, para fugir desse suplício, cessaria de ver.
Assim, a Inteligência criada não só é feliz de afirmar a Deus pela liberdade que tem de negar a Deus. Ora, a Inteligência que nega, afirma sempre alguma coisa, pois afirma a sua liberdade.
É por isto que o blasfemo glorifica a Deus; é por isso que o inferno era necessário à felicidade do céu.
Se a luz não fosse repelida pela sombra, não haveria formas visíveis.
Se o primeiro dos anjos não tivesse afrontado as profundezas da noite, a parturição de Deus não teria sido completa e a luz criada não teria podido separar- se da luz por essência.
Jamais a Inteligência teria sabido quanto Deus é bom, se nunca o tivesse perdido!
Jamais o amor infinito de Deus teria brilhado nas alegrias da sua misericórdia, se o filho pródigo do céu tivesse ficado na casa de seu pai.
Quando tudo era luz, a luz não estava em parte alguma; ela estava contida no seio de Deus que estava em trabalho para a produzir. E quando disse: “Faça- se a luz! ”, permitiu que a noite repelisse a luz e o universo saiu do caos.
A negação do anjo que, ao nascer, recusou ser escravo, constituiu o equilíbrio do mundo e o movimento das esferas começou.
E os espaços infinitos admiraram este amor da liberdade, tão imenso para encher o vácuo da noite eterna e tão forte para suportar o ódio de Deus.
Mas Deus não podia odiar o mais nobre de seus filhos, e só o experimentava, pela sua cólera, para confirmá- lo no seu poder.
Por isso, o próprio Verbo de Deus, como se tivesse inveja de Lúcifer, quis descer do céu e atravessar triunfalmente as sombras do inferno.
Quis ser proscrito e condenado; e meditou adiantadamente a hora terrível em que exclamaria, no extremo do seu suplício: “Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste? ”
Como a estrela da manhã precede o sol, a insurreição de Lúcifer anunciou à natureza nascente a próxima encarnação de Deus.
Talvez Lúcifer, caindo na noite, arrastou uma chuva de sóis e estrelas por atração da sua glória!
É por isso que, sem dúvida, fica calmo ao alumiar as horríveis angústias da humanidade e a lenta agonia da terra, porque é livre na sua solidão e possui sua luz.
Tais eram as tendências dos heresiarcas dos primeiros séculos. Uns, como os outros, adoravam o demônio sob a figura da serpente; outros, como os Cainitas, justificaram a revolta do primeiro anjo como a do primeiro assassino. Todos estes erros, todas estas sombras, todos estes ídolos monstruosos da anarquia que a Índia opõe, nos seus símbolos, à mágica Trimurti, tinham encontrado, no cristianismo, padres e adoradores.
Em nenhuma parte do Gênese se fala do demônio. É uma serpente alegórica que engana nossos primeiros pais. Eis o que a maioria dos tradutores fazem o texto sagrado dizer:
"Ora, a serpente era mais sutil que qualquer animal do campo que o Senhor Deus tinha feito ”.
E eis o que diz Moisés:
V ’há -Nahasch haîath harum micol háîath hachadeh asher hashah Ihôah Ælohîm.
Isto é, conforme Fabre d'Olivet:
"Ora, a atração original (a cupidez) era a paixão arrastadora de toda vida elementar (a moda interior) na natureza, obra de Ilhôah, e Ente dos Entes ”.
Mas, aqui, Fabre d'Olivet está fora da verdadeira interpretação, porque ignorava as grandes chaves da Cabala. A palavra Nahasch, explicada pelas letras simbólicas do Tarô, significa rigorosamente:
14 n Nun – A força que produz as misturas.
5 h Hê – O recipiente e o produtor passivo das formas.
21 c Schin – O fogo natural e central equilibrado pela dupla polarização.
A palavra empregada por Moisés, lida cabalisticamente, nos dá, pois, a descrição e definição deste agente mágico universal, figurado em todas as teogonias pela serpente e ao qual os hebreus davam também o nome de Od , quando manifesta a sua força ativa; o nome de Od, quando deixa aparecer a sua força passiva, e de Aur, quando se revela inteiramente no seu poder equilibrado, produtor da luz no céu e do ouro entre os metais.
É, pois, esta antiga serpente que envolve o mundo e apazigua a sua cabeça devoradora sob o pé de uma Virgem, figura da iniciação; desta Virgem, que apresenta uma criança recém - nascida à adoração dos reis magos e recebe deles, em troca deste favor, ouro, mirra e incenso.
O dogma serve, assim, em todas as religiões hieráticas, para encobrir o segredo das forças na natureza de que pode dispor o iniciado; as fórmulas religiosas são os resumos destas palavras cheias de mistério e forças que fazem os deuses descerem do céu e os submetem à vontade dos homens. A Judéia tirou os segredos disso do Egito, a Grécia enviou os seus hierofantes, e mais tarde, os seus teósofos à escola dos grandes profetas; a Roma dos Césares, minada pela iniciação cristã das catacumbas, desmoronou - se um dia na Igreja e refizeram um simbolismo com os restos de todos os cultos que a rainha do mundo tinha submetido.
Conforme a narração do Evangelho, a inscrição pela qual estava declarada a realeza espiritual do Cristo era escrita em hebraico, grego e latim; era a expressão da síntese universal.
O helenismo, com efeito, esta grande e bela religião da forma, não tinha menos do que os profetas do judaísmo anunciado a vinda do Salvador; a fábula de Psiquê é uma abstração mais do que cristã, e o culto dos panteus, reabilitando Sócrates, preparava os altares para esta unidade de Deus, de que Israel foi o misterioso conservador.
Mas a Sinagoga renegou o seu Messias e as letras hebraicas foram apagadas aos olhos cegos dos judeus.
Os perseguidores romanos desonraram o helenismo, que a falsa moderação de Juliano, o filósofo, não pode reabilitar, o qual foi chamado, talvez injustamente, Apóstata, porque o seu cristianismo nunca foi sincero. A ignorância da Idade Média veio, depois, opor os santos e as virgens aos deuses, deusas e ninfas; o sentido profundo dos símbolos helênicos ficou mais incompreendido do que nunca; a própria Grécia, não somente perdeu as tradições do seu antigo culto, mas também se separou da Igreja latina; e assim, aos olhos dos latinos, as letras gregas foram apagadas, como as letras latinas desapareceram aos olhos dos gregos.
Assim, a inscrição da Cruz do Salvador desapareceu totalmente e só ficaram iniciais misteriosas.
Mas quando a ciência e a filosofia, reconciliadas com a fé, reunirem, num só, todos os diferentes símbolos, então todas as magnificências dos cultos antigos florescerão de novo na memória dos homens, proclamando o progresso do espírito humano na intuição da luz de Deus.
Porém, de todos os progressos, o maior será o que, pondo as chaves da natureza entre as mãos da ciência, prenderá para sempre o horrendo fantasma de Satã e, explicando todos os fenômenos excepcionais da natureza, destruirá o império da superstição e da tola credulidade.
É para a realização deste progresso que consagramos nossa vida e que passamos o nosso tempo nas investigações mais laboriosas e mais difíceis. Queremos libertar os altares, derrubando os ídolos; queremos que o homem de inteligência se torne o padre e rei da natureza, e queremos conservar, explicando -as, todas as imagens do santuário universal.
Os profetas falaram por parábolas e imagens, porque a linguagem abstrata lhes faltou e porque a percepção profética, sendo o sentimento da harmonia ou das analogias universais, se traduz naturalmente por imagens, as quais, tomadas materialmente pelo vulgo, se tornaram ídolos ou mistérios impenetráveis.
O conjunto e a sucessão destas imagens e destes mistérios são o que chamamos simbolismo, que vem, pois, de Deus, embora seja formulado pelos homens.
A revelação acompanhou a humanidade em todas as suas idades e se transfigurou com o gênio humano; mas sempre exprimiu a mesma verdade.
A verdadeira religião é uma e seus dogmas são simples e ao alcance de todos. Todavia, a multiplicidade dos símbolos apenas foi um livro de poesia necessário para a educação do gênio humano.
A harmonia das belezas exteriores e a poesia da forma deviam revelar Deus à infância humana; mas Vênus teve logo Psique como rival, e Psique seduziu o amor.
É assim que o culto da forma devia ceder a estes sonhos ambiciosos da alma que já embelezava a eloqüente sabedoria de Platão. A vinda de Cristo era assim preparada, e é por isso que era esperada; veio porque o mundo o esperava, e a filosofia se transformou em crença para se popularizar.
Mas, libertado por esta mesma crença, o espírito humano protestou logo contra a escola que queria materializar os seus sinais, e a obra do catolicismo romano foi unicamente preparar, sem o saber, a emancipação das consciências e lançar as bases da associação universal.
Todas estas coisas foram somente o desenvolvimento regular e normal da vida divina na humanidade; porque Deus é a grande alma de todas as almas, é o centro imutável ao redor do qual gravitam todas as inteligências, como uma imensidade de estrelas.
A inteligência humana teve a sua manhã; o seu meio - dia virá; depois, em seguida, o seu declínio, e Deus será sempre o mesmo.
Mas, parece aos habitantes da terra, que o sol se levanta novo e tímido, que brilha ao meio - dia em toda a sua força, e que à tarde deita fatigado. Contudo, é a terra que gira, e o sol é imóvel.
Tendo, pois, fé no progresso humano e na estabilidade de Deus, o homem livre respeita a religião nas suas formas passadas e não blasfemaria mais Júpiter do que Jeová; saúda ainda com amor a irradiante imagem do Apolo Pythio, e lhe acha uma semelhança fraterna com o rosto glorioso do Redentor ressuscitado.
Crê na grande missão da hierarquia católica e se compraz em ver os pontífices da Idade Média oporem a religião como dique ao poder absoluto dos reis; mas protesta, com todos os séculos revolucionários, contra a escravidão da consciência que as chaves pontifícias queriam prender: é mais protestante que Lutero, porque nem mesmo crê na confissão de Augsburgo, e mais católico do que o papa, porque não tem medo que a unidade religiosa será rompida pela malevolência das cortes.
Confia em Deus mais do que na política de Roma para a salvação da idéia unitária; respeita a velhice da Igreja, mas não teme que morra; sabe que a sua morte aparente será uma transformação e uma assunção gloriosa.
O autor deste livro faz um novo apelo aos magos do Oriente para que venham reconhecer, ainda uma vez, no Mestre divino, cujo berço saudaram, o grande iniciador de todos os tempos.
Todos os seus inimigos caíram; todos os que o condenavam morreram; os que o perseguiam estão deitados para sempre, e ele sempre está de pé!
Os homens de inveja se coligaram contra ele e concordaram num só ponto; os homens de divisão se uniram para destruí - lo; fizeram - se reis, e os proscreveram; fizeram - se juízes, e lhe deram a sua sentença de morte; fizeram - se algozes, e o executaram; fizeram - lhe beber a cicuta, crucificaram - no, lapidaram -no e deitaram suas cinzas ao vento; depois, coraram de espanto: ele estava de pé, diante deles, acusando - os pelas suas chagas e fulminando - os com o brilho das suas cicatrizes.
Crêem degolá- lo no berço de Belém, e está vivo no Egito! Arrastam -no sobre a montanha para o precipitar; a multidão dos seus assassinos o rodeia e já triunfa da sua perda certa: um grito se faz ouvir; não é, então, ele que acaba de quebrar- se nos rochedos do precipício? Empalidecem e olham - se; mas ele, calmo e sorridente, passa no meio deles e vai - se embora.
Eis uma outra montanha que acabam de tingir com o seu sangue; eis uma cruz e um sepulcro, e soldados guardam o seu túmulo. Insensatos! O túmulo está vazio, e aquele que julgavam morto, caminha tranqüilamente, entre dois viajantes, no caminho de Emmaús.
Onde está ele? Aonde vai? Adverti os senhores da terra! Dizei aos Césares que o seu poder está ameaçado! Por quem? Por um pobre que nem tem uma pedra para descansar sua cabeça, por um homem do povo, condenado à morte dos escravos. Que insulto ou que loucura! Não importa, os Césares vão desenvolver todo o seu poder: sangrentos editos proscrevem o fugitivo, em toda parte se levantam cadafalsos, abrem - se circos repletos de leões e gladiadores, acendem - se fogueiras, correm torrentes de sangue, e o Césares, que se crêem vitoriosos, ousam acrescentar um nome àqueles com que blasonam seus troféus, depois morrem, e sua apoteose desonra os deuses que acreditaram defender. O ódio do mundo confunde, num mesmo desprezo, Júpiter e Nero; os templos, de que a adulação fez túmulos são derrubados sobre cinzas proscritas, e sobre os restos dos ídolos, sobre as ruínas dos impérios, ele só , aquele que os Césares proscreviam, aquele que tantos satélites perseguiam, aquele que tantos algozes torturavam, ele só está de pé, ele só reina, ele só triunfa!
Não obstante, os seus próprios discípulos logo abusam do seu nome; o orgulho penetra no santuário; os que deviam anunciar a sua ressurreição querem imortalizar a sua morte, a fim de se nutrir, como corvos, da sua carne sempre renascente. Em vez de imitá - lo no eu sacrifício e dar seu sangue para seus filhos na fé, prendem - no no Vaticano, como num novo Cáucaso, e fazem - se abutres deste divino Prometeu. Mas que lhe importa do seu mau sonho? Só prenderam a sua imagem; quanto a ele, sempre está de pé, e caminha de exílio em exílio e de conquista em conquista.
É que se pode prender um homem, mas não se retém cativo o Verbo de Deus. A palavra é livre e nada pode comprimi - la.
Esta palavra viva é a condenação dos maus, e é por isso que queriam fazê- la morrer; mas, enfim, são eles que morrem, e a palavra de verdade fica para julgar a sua memória!
P ôde Orfeu ser despedaçado pelas bacantes; Sócrates bebeu o copo de veneno; Jesus e seus apóstolos morreram pelo último suplício; João Huss, Jerone de Praga e tantos outros foram queimados; a noite de São Bartolomeu e os massacres de setembro fizeram, por sua vez, mártires; o imperador da Rússia tem ainda à sua disposição cossacos, cnutes e os desertos da Sibéria; mas o espírito de Orfeu, Sócrates, Jesus e todos os mártires fica sempre vivo, no meio dos perseguidores, mortos por sua vez; fica de pé no meio das instituições que caem e dos impérios que se desmoronam!
É este espírito divino, o espírito do Filho único de Deus, que São João representa, no seu Apocalipse, de pé, no meio dos candelabros de ouro, porque é o centro de todas as luzes, tendo sete estrelas na sua mão, como a semente de um céu inteiramente novo, e fazendo descer a sua palavra à terra sob a figura de uma espada de dois gumes.
Quando os sábios, desanimados, adormecem na noite da dúvida, o espírito do Cristo está em pé e vigia.
Quando os povos, cansados do trabalho que liberta, se deitam e se enfraquecem nos seus grilhões, o espírito do Cristo fica de pé e protesta.
Quando os sectários cegos das religiões já estéreis se prosternam no pó dos velhos tempos e se arrastam servilmente num temor supersticioso, o espírito do Cristo fica de pé e ora.
Q uando os fortes se enfraquecem, quando as virtudes se corrompem, quando tudo se inclina e se envilece para procurar um mísero alimento, o espírito do Cristo fica de pé, olhando para o céu e espera a hora do seu Pai.
Cristo quer dizer sacerdote e rei por excelência.
O Cristo, iniciador dos tempos modernos, veio ao mundo para formar, pela ciência e principalmente pela caridade, novos reis e novos sacerdotes. Os antigos magos eram sacerdotes e reis.
A vinda do Salvador tinha sido anunciada aos antigos magos por uma estrela. Esta estrela era o pentagrama mágico que traz em cada uma das suas pontas uma letra sagrada.
Esta estrela é a figura da inteligência que rege, pela unidade da força, as quatro forças elementares. É o pentagrama dos magos. É a estrela flamejante dos filhos de Hiram. É o protótipo da luz equilibrada. Para cada uma das suas pontas um raio de luz sobe. De cada uma das suas pontas um raio de luz desce.
E sta estrela representa o grande e supremo athanor da natureza, que é o corpo humano.
A influência magnética parte em dois raios da cabeça, de cada mão e de cada pé.
Um raio positivo é equilibrado por um raio negativo.
A cabeça corresponde aos dois pés; cada mão com uma das mãos e um pé, os dois pés com a cabeça e uma das mãos.
Este signo regular da luz equilibrada representa o espírito de ordem e harmonia. É o sinal da onipotência do mago.
Por isso, este mesmo signo, quebrado ou irregularmente traço, representa a embriaguez astral, as projeções anormais e desregradas do grande agente mágico, por conseguinte, os enfeitiçamentos, a perversidade, a loucura, e é o que os magistas chamam a assinatura de Lúcifer.
Existe uma outra assinatura que representa também os mistérios da luz: - é a assinatura de Salomão.
Os talismãs de Salomão traziam, de um lado, a impressão do seu selo, cuja figura demos no final do 5 º capítulo do nosso Dogma . Do outro lado, estava a assinatura, cuja forma é figurada na página precedente.
E sta figura é a teoria hieroglífica da composição dos ímãs e representa a lei circular do raio.
Prendemos os espíritos desregrados, mostrando - lhes, quer a estrela flamejante do pentagrama, quer a assinatura de Salomão, porque fazemos ver, assim, a prova da sua loucura, ao mesmo tempo em que os ameaçamos com um poder soberano capaz, de os atormentar, chamando - os à ordem.
Nada atormenta os maus como o bem. Nada é mais odioso à loucura do que a razão.
Mas se um operador ignorante se servir destes signos sem os conhecer, é um cego que fala da luz aos cegos. É um burro que quer ensinar a ler às crianças.
Se o cego guiar o cego, disse o grande e divino Hierofante, ambos cairão no fosso.
Ultima palavra para resumir toda esta introdução.
Se fordes cegos como Sansão, quando sacudirdes as colunas do templo, as ruínas vos esmagarão.
Para mandar na natureza, é preciso ter- se tornado superior à natureza pela resistência às suas atrações.
Se vosso espírito está perfeitamente livre de todo preconceito, toda superstição e de toda incredulidade, mandareis nos espíritos.
Se não obedecerdes às forças fatais, as forças fatais vos obedecerão.
Se fordes sábios como Salomão, fareis as obras de Salomão.
S e fordes santos como Cristo, fareis as obras do Cristo. Para dirigir as correntes da luz móvel, é preciso estar fixo numa luz imóvel. Para mandar nos elementos, é preciso ter dominado seus furacões, seus raios, seus abismos e suas tempestades.
É preciso saber para ousar .
É preciso ousar para querer .
É preciso querer para ter o Império.
E para reinar, é preciso calar .
Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

Resumo e Chave Geral das Quatro Ciências Ocultas.


SIGNA – THOT - PAN
Resumamos, agora, toda a ciência dos princípios.
A analogia é a última palavra da ciência e a primeira palavra da fé.
A harmonia está no equilíbrio, e o equilíbrio subsiste pela analogia dos contrários.
A unidade absoluta é a razão suprema e última das coisas. Ora, esta razão não pode ser uma pessoa nem três pessoas: é uma razão, e é a razão por excelência. Para criar o equilíbrio é preciso separar e unir: separar pelos pólos, unir pelo centro.
Raciocinar sobre a fé é destruir a fé; fazer misticismo em filosofia é atentar contra a razão.
A razão e a fé se excluem mutuamente pela sua natureza e se unem pela analogia.
A analogia é o único mediador possível entre o visível e o invisível, entre o finito e o infinito. O dogma é a hipótese sempre ascendente de uma equação presumível.
Para o ignorante, é a hipótese que é a afirmação absoluta, e a afirmação absoluta que é a hipótese. Há, na ciência, hipóteses necessárias, e aquele que procura realizá- las, engrandece a ciência, sem restringir a fé, porque do outro lado da fé há o infinito.
Nós cremos naquilo que ignoramos, e que a razão quer que admitamos. Definir o objeto da fé e circunscrevê - lo é, pois, formular o desconhecido. As profissões de fé são as fórmulas da ignorância e das aspirações do homem. Os teoremas da ciência são os monumentos das suas conquistas.
O homem que nega a Deus é tão fanático como aquele que O define com uma pretensa infalibilidade. Ordinariamente, definimos Deus, dizendo tudo o que Ele não é.
O homem faz Deus por uma analogia do menos ao mais: resulta disso que a concepção de Deus no homem é sempre a de um homem infinito, o que faz do homem um deus finito.
O homem pode realizar o que acredita na medida do que sabe e em razão do que ignora, e faz tudo o que quer na medida do que crê e em razão do que sabe.
A analogia dos contrários é a relação da luz à sombra, da saliência à cavidade, do cheio ao vácuo. A alegoria, mãe de todos os dogmas, é a substituição das estampas dos clichês, das sombras às realidades. É a mentira da verdade e a verdade da mentira.
Ninguém inventa um dogma, cobre - se com um véu uma verdade, e produz- se uma sombra em favor dos olhos fracos. O iniciador não é um impostor, é um revelador; isto é, conforme a expressão da palavra latina revelare , um homem que vela de novo. É o criador de uma nova sombra.
A analogia é a chave de todos os segredos da natureza e a única razão de ser de todas as revelações.
Eis aí por que as religiões parecem estar escritas no céu e em toda a natureza; isto deve ser, porque a obra de Deus é o livro de Deus, e no que ele escreve devemos ver a expressão do seu pensamento e, por conseguinte, do seu ser, pois que nós o concebemos como o pensamento supremo. Dupuis e Volney só viram um plágio nesta esplêndida analogia que devia tê - los levado a reconhecer a catolicidade, isto é, a universalidade do dogma primitivo, único, mágico, cabalístico e imutável da revelação pela analogia.
A analogia dá ao mago todas as forças da natureza; a analogia é a quintessência da pedra filosofal, é o segredo do movimento perpétuo, é a quadratura do círculo, é o templo que repousa sobre as duas colunas Jakin e Bohas , é a chave do grande Arcano, é a raiz da árvore da vida, é a ciência do bem e do mal.
Achar a escala exata das analogias nas coisas apreciáveis pela ciência é fixar as bases da fé e assim apoderar- se da baqueta dos milagres. Ora, existe um princípio e uma fórmula rigorosa, que é o grande Arcano. Não o procure o sábio, ele já o achou; mas o vulgo que o procure sempre, nunca o achará.
A transmutação metálica se opera espiritual e materialmente pela chave positiva das analogias.
A medicina oculta é simplesmente o exercício da vontade aplicada as próprias fontes da vida, a esta luz astral, cuja existência é um fato, e cujo movimento é conforme os cálculos, cuja escala ascendente é o grande Arcano mágico.
Este Arcano universal, último e eterno segredo da alta iniciação, é representado no Tarô por uma jovem nua que só toca na terra com um pé, tem uma baqueta imantada em cada mão e parece correr numa coroa suportada por um anjo, uma águia, um boi e um leão. Esta figura é análoga, quanto ao fundo das coisas, ao querubim de Jekeskiel, que vulgarmente chamamos Ezequiel.
A inteligência desta figura é a chave de todas as ciências ocultas. Os leitores do meu livro já devem compreendê - la filosoficamente, se estiverem um pouco familiarizados com o simbolismo da Cabala. Resta- nos, agora, realizar o que é a Segunda e mais importante operação da grande obra. Achar a pedra filosofal, é alguma coisa, sem dúvida; mas como devemos triturá - la para fazer dela o pó de projeção? Qual é o emprego da baqueta mágica? Qual é o poder real dos nomes divinos da Cabala? Os iniciados o sabem, os iniciáveis o saberão se, pelas indicações tão múltiplas e tão exatas que acabamos de lhes dar, descobrirem o grande Arcano.
Por que essas verdades tão simples e tão puras sempre e necessariamente são ocultas aos homens? É que os eleitos da inteligência são em pequeno número na terra, e parecem, no meio de tolos e malvados, Daniel na cova dos leões.
Aliás, a analogia nos ensina as leis da hierarquia, e a ciência absoluta, sendo uma onipotência, deve ser a partilha exclusiva dos mais dignos. A confusão da hierarquia é a verdadeira decadência das sociedades, porque então os cegos guiam os cegos, conforme a palavra do Mestre. Que a iniciação seja restituída aos padres e reis, e a ordem se fará novamente. Por isso, fazendo apelo aos mais dignos, expondo - me a todos os perigos e a todas as maldições que rodeiam os reveladores, creio fazer uma coisa útil e grande: dirijo sobre o caos social o sopro de Deus vivo na humanidade, e evoco padres e reis para o mundo futuro!
Uma coisa não é justa porque Deus a quer, disse o anjo da escola; mas Deus a quer porque ela é justa. É como se tivesse dito: - O absoluto é a razão. A razão existe por si mesma; ela existe porque existe, e não porque a supomos; ela existe ou nada existe; e como quereis vós que exista alguma coisa sem razão? A razão é a necessidade, é a lei, é a regra de toda liberdade e a direção de toda iniciativa. Se Deus existe, é pela razão. A concepção de um Deus absoluto, fora ou independente da razão, é o ídolo da magia negra, é o fantasma do demônio.
O demônio é a morte que se disfarça com as vestes gastas da vida; é o espectro de Hirrenkesept entronizado sobre os escombros das civilizações arruinadas, e escondendo a sua nudez horrível com os despojos abandonados das encarnações de Vishnu.Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

sábado, 11 de setembro de 2010

A Adivinhação.


Dentes – Furca - Amem
O autor deste livro ousou muito na sua vida e nunca um temor reteve cativo o seu pensamento. Não é, entretanto, sem verdadeiro terror que chega ao fim do dogma mágico.
Trata - se, agora, de revelar ou antes encobrir de novo o grande Arcano, este segredo terrível, segredo de vida e de morte, expresso na Bíblia por estas formidáveis e simbólicas palavras da própria serpente simbólica: I - Nequaquam moriemini ; II - Sed eritis ; III - Sicut Dii ; IV - Scientes bonum et malum .
Um dos privilégios do iniciado ao grande Arcano e que resume todos os outros é a Adivinhação .
Conforme o sentido vulgar da palavra, adivinhar significa conjeturar o que se ignora; mas o verdadeiro sentido da palavra é inefável à força de ser sublime. Adivinhar ( divinari ) é exercer a divindade. A palavra divinus , em latim, significa mais e outra coisa que a palavra divus , cujo sentido é equivalente ao homem -Deus. Devin , em francês, contém as quatro letras da palavra Dieu , mais a letra N, que corresponde, pela sua forma, ao hebraico Aleph. E que exprime, cabalística e hieroglificamente, o grande Arcano, cujo símbolo no Tarô, é a figura do pelotiqueiro.
Aquele que entender perfeitamente o valor numeral absoluto de Aleph.Multiplicado por N, com a força gramatical do N final nas palavras que exprimem ciência, arte ou poder , depois adicionar as cinco letras da palavra Devin , de modo a fazer entrar cinco em quatro, quatro em três, três em dois e dois em um, traduzindo o número que achar em letras hebraicas primitivas, escreverá o nome oculto do grande Arcano, e possuirá uma palavra de que o próprio santo tetragrama é simplesmente o equivalente e como que a imagem.
Ser adivinho, conforme a força da palavra, é, pois, ser divino, alguma coisa mais misteriosa ainda.
Os dois sinais da divindade humana, ou da humanidade divina, são as profecias e os milagres.
Ser profeta é ver adiantadamente os efeitos que existem nas causas, é ler na luz astral; fazer milagres é agir sobre o agente universal e submetê - lo à nossa vontade.
Aliás, uma das condições essenciais da adivinhação é nunca ser forçada e nunca se submeter à tentação, isto é, à prova. Nunca os mestres da ciência cederam à curiosidade de ninguém. As sibilas queimam seus livros quando Tarquínio recusa apreciá - las no seu justo valor; o grande Mestre cala - se quando lhe pedem sinais da sua missão divina; Agrippa morre de miséria antes de obedecer ao que exigem dele um horóscopo. Dar prova da ciência aos que duvidam da própria ciência é iniciar indignos, é profanar o ouro do santuário, é merecer a excomunhão dos sábios e a morte dos reveladores.
A essência da adivinhação, isto é, o grande Arcano mágico, é figurado por todos os símbolos da ciência, e se liga estreitamente com o dogma único e primitivo de Hermes. Em filosofia, dá a certeza absoluta; em religião, o segredo universal da fé; em física, a composição, a decomposição, a recomposição, a realização e a adaptação do mercúrio filosofal, chamado azoth pelos alquimistas; em dinâmica, multiplica as nossas forças pelas do movimento perpétuo; é, ao mesmo tempo, místico, metafísico e material, com correspondência de efeitos nos três mundos; obtém caridade em Deus, verdade em ciência e ouro em riqueza, porque a transmutação metálica é, ao mesmo tempo, uma alegoria e uma realidade, como muito bem sabem todos os adeptos da verdadeira ciência.
Sim, podemos real e materialmente fazer ouro com a pedra dos sábios, que é uma amálgama de sal, enxofre e mercúrio combinados três vezes em azoth por uma tríplice sublimação e uma tríplice fixação.
Sim, a operação é, muitas vezes, fácil e pode ser feita num dia, num instante: outras vezes, exige meses e anos. Mas, para ter sucesso na grande obra, é preciso ser divinus , ou adivinho, no sentido cabalístico da palavra, e é indispensável ter renunciado, para seu interesse pessoal, às vantagens das riquezas, de que nos tornamos, assim dispensadores.
Raimundo Lullo enriquecia soberanos, semeava a Europa de suas fundações e permanecia pobre; Nicolau Flamel, que está bem morto, apesar do que diz a lenda, só achou a grande obra depois de ter, pelo ascetismo, chegado a um desapego completo das riquezas. Foi iniciado pela inteligência que teve repentinamente do livro de Asch Mezareph , escrito em hebraico pelo cabalista Abraão, talvez o mesmo que redigiu o Sepher Yetzirah . Ora, esta inteligência foi em Flamel, uma intuição merecida ou antes tornada possível pelas preparações pessoais do adepto. Creio ter dito o suficiente.
A adivinhação é, pois, uma intuição, e a chave desta intuição é o dogma universal e mágico das analogias. É pelas analogias que o mago interpreta os sonhos, como vemos na Bíblia, que o patriarca José o fazia outrora no Egito: porque as analogias nos reflexos da luz astral são rigorosas como os matizes das cores na luz solar, e podem ser calculadas e explicadas com grande exatidão. É somente indispensável conhecer o grau de vida intelectual do sonhador, e pode - se revelá - lo inteiramente a si mesmo pelos seus próprios sonhos até deixá- lo profundamente admirado.
O sonambulismo, os pressentimentos e a segunda visão são simplesmente uma disposição, quer acidental, quer habitual, a sonhar num sono voluntário ou acordado, isto é, perceber os reflexos analógicos da luz astral. Explicaremos isto até a evidência no nosso Ritual , quando dermos o meio tão procurado de produzir e dirigir regularmente os fenômenos magnéticos. Quanto aos instrumentos adivinhatórios, esses são simplesmente meios de comunicação entre o adivinho e o consultante, e, muitas vezes, só servem para fixar as duas vontades sobre o mesmo signo; as figuras vagas, complicadas, móveis, ajudam a reunir os reflexos do fluido astral e é assim que vemos, nas borras de café, nas nuvens, na clara do ovo, etc., formas fatídicas, e que só existem no translúcido , isto é, na imaginação dos operadores. A visão na água se opera por ofuscação e fadiga do nervo ótico, que cede as suas funções ao translúcido e produz uma ilusão do cérebro, que toma por imagens reais os reflexos da luz astral; por isso as pessoas nervosas, tendo vista fraca e imaginação viva, são mais próprias a este gênero de adivinhação, que tem sucesso principalmente quando é feita por crianças. Ora, não se enganem aqui sobre a função que atribuímos à imaginação nas artes adivinhatórias. Vemos pela imaginação, sem dúvida, e é esse o lado natural dos milagres, mas vemos coisas verdadeiras, e é nisso que consiste a maravilha da obra natural. Convidamos à experiência todos os verdadeiros adeptos. O autor deste livro experimentou todos os gêneros de adivinhação, e obteve resultados sempre proporcionais à exatidão das suas operações científicas e à boa fé boa dos seus consultantes.
O Tarô, este livro milagroso, inspirador de todos os livros sagrados dos antigos povos, é, por causa da exatidão analógica das suas figuras e dos seus números, o instrumento mais perfeito de adivinhação que possa ser empregado com inteira confiança. Com efeito, os oráculos desse livro são sempre rigorosamente verdadeiros, ao menos num sentido, e, quando nada prediz, sempre revela coisas ocultas e dá aos consultantes os mais sábios conselhos. Alliette, que, de cabeleireiro, se tornou cabalista, no último século, depois de ter passado trinta anos a meditar sobre o Tarô, Alliette , que se chamava cabalisticamente Etteilla, lendo o seu nome como se deve ler em hebraico, esteve bem perto de achar tudo o que estava escondido nesse livro estranho; mas só chegou a deslocar as chaves do Tarô, por não nas compreender, e inverteu a ordem e os caracteres das figuras, sem destruir completamente as suas analogias, tanto elas são simpáticas e correspondentes umas com as outras. Os escritos de Etteilla, tornados muito raros, são obscuros, fatigantes e de um estilo verdadeiramente bárbaro; nem todos foram impressos, e os manuscritos desse pai dos modernos tiradores de cartas estão ainda nas mãos de um livreiro de Paris, que teve a bondade de nô - los mostrar. O que se pode ver neles de mais notável são os estudos teimosos e a boa fé do autor, que toda a sua vida pressentiu a grandeza das ciências ocultas, e teve de morrer à porta do santuário, sem nunca poder penetrar além do véu. Estimava pouco Agrippa, fazia grande caso de Jean Belot e nada conhecia da filosofia de Paracelso; mas tinha uma intuição muito exercitada, uma vontade muito perseverante, e mais sonho do que juízo; era muito pouco para ser um mago, mas era mais do que necessário para ser um adivinho vulgar muito hábil, e, por conseguinte, muito acreditado. Por isso, Etteilla teve um sucesso em voga que um mago mais sábio talvez errasse em não pretender, mas que certamente não pretenderia.
D izendo, no fim do nosso Ritual, a uma última palavra do Tarô, indicaremos o modo completo de o ler, e, por conseguinte, de o consultar, não somente sobre as sortes prováveis do destino, mas também, e principalmente, sobre os problemas da filosofia e da religião, de que dá uma solução sempre certa e da mais admirável exatidão, e se for explicado na ordem hierárquica da analogia dos três mundos com as três cores e os quatro matizes que compõem o setenário sagrado. Tudo isto pertence à prática positiva da magia, e somente pode ser sumariamente indicado e estabelecido em princípio nesta primeira parte, que contém exclusivamente o dogma da alta magia e a chave filosófica e religiosa das altas ciências, conhecidas ou antes ignoradas sob o nome de ciências ocultas.Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

Chore Pela Lua.


Siga seu senso comum
Você não pode se esconder
Atrás de um conto de fadas
Para sempre e sempre
Apenas revelando toda a verdade nós podemos descobrir
A alma desse reduto para sempre
Para sempre
Mentes doutrinadas com muita freqüência
Contém pensamentos doentios
E cometem a maioria dos pecados que eles pregam
contra
Não tente me convencer
Com mensagens de Deus
Vocês nos acusam de pecados
Cometidos por vocês mesmos
É fácil condenar sem olhar no espelho
Atrás das cenas abre a realidade.
Silêncio eterno implora por justiça
O perdão não está à venda
E nem a vontade de esquecer
Siga seu senso comum
Você não pode se esconder
Atrás de um conto de fadas
Para sempre e sempre
Apenas revelando toda a verdade nós podemos descobrir
A alma desse reduto para sempre
Para sempre
A virgindade foi roubada há muito tempo atrás
E o extintor perdeu sua imunidade
Abuso mórbido de poder no Jardim do Éden
Onde a maçã possui um rosto jovem.
Épica.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eliphas Lévi.


O maior ocultista do Séc. XIX, como muitos o consideram, era filho de um modesto sapateiro. Possuía uma irmã, Paulina-Louise, quatro anos mais velha que este. Desde sua infância demonstrava um grande caráter de seu talento para o desenho, seus pais introduziram-no para o ensinamento religioso.
Depois disso, aos dez anos de idade ingressou na comunidade do presbitério da Igreja de Saint-Louis em Lille, onde aprendeu o catecismo com o seu primeiro mestre, abade Hubault, que fazia seleções dos garotos mais inteligentes. Eliphas Levi foi encaminhado por Hubault ao seminário de Saint-Nicolas Du Chardonnet, para concluir seus estudos preparatórios. A vida familiar para ele havia acabado neste momento. No seminário, teve a oportunidade de aprofundar-se nos estudos da filologia, e quando completara seus dezoito anos já era apto para ler a bíblia em seu contexto original.
No ano de 1830, foi transferido para o seminário de Issy para estudar Filosofia. Dois anos depois, ingressou em Saint-Sulpice para estudar Teologia. Foi nesse tempo que esteve em Issy que escreveu seu primeiro drama bíblico, Nemrod. No seminário de Saint-Sulpice criou seus primeiros poemas religiosos, considerados de demasiada beleza.
Eliphas Levi foi ordenado diácono em 19 de dezembro de 1835, em Maio de 1836, teria sido ordenado sacerdote, se não tivesse confessado ao seu superior o amor por Adelle Allenbach, cuja primeira comunhão ele havia realizado. Suas convicções receberam um choque tão grande, que Levi sentiu-se jogado fora da carreira eclesiástica. Por resultado de uma publicação de uns escritos de sua Bíblia da liberdade foi posto preso durante oito meses, incluindo 300 francos de multa, acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contras as bases que sustentam a sociedade, de espalhar ódio e a insubordinação. Depois de tanto constrangimento, (Eliphas concluiu seus estudos) e de tantos parênteses na sua vida, enquanto esteve preso, teve contato com os estudos de Swedenborg. Segundo Eliphas mesmo afirmava, que, tais escritos não contêm toda a verdade, mas conduzem os neófitos com segurança na senda.
Começo da carreira no Ocultismo.
Deixando a prisão, realizou pequenos trabalhos, principalmente pinturas de quadros, murais nas igrejas da região e colaborações jornalísticas. Mesmo com esses contratempos da sua vida (que os considerava materiais), não deixou jamais de enriquecer seus conhecimentos e aperfeiçoar sua erudição. Em Swedenborg, encontrou os grandes magos da Idade Media que o introduziram no Adeptado, entre eles foram Guillaume Postel, Raymond Lulle e Henry Corneille Agrippa. Não obstante, em 1845, aos trinta e cinco anos de idade, escreveu sua primeira obra ocultista, nomeada : O livro das Lágrimas ou Cristo Consolador.
Obras.

* Dogma e Ritual da Alta Magia -
* História da Magia
* A Chave dos Grandes Mistérios -
* A Ciência dos Espíritos -
* As Origens da Cabala
* Os Mistérios da Cabala
* Curso de Filosofia Oculta
* Fábulas e Símbolos
* O Livro dos Sábios -
* O Grande Arcano -
* Os paradoxos da Sabedoria Oculta -
* O livro das Lágrimas ou Cristo Consolador.

A Medicina Universal.


CAPUT – RESSURRECTIO - CIRCULUS.
A maioria das nossas doenças físicas vem das nossas doenças morais, conforme o dogma mágico único e universal, e em razão da lei das analogias.
Uma grande paixão à qual a pessoa se abandona corresponde sempre a uma grande doença que prepara a si mesma. Os pecados mortais são assim chamados porque fazem física e positivamente morrer.
Alexandre, o Grande, morreu de orgulho. Ele era naturalmente temperante e entregou- se por orgulho aos excessos que lhe deram a morte.
Francisco I morreu de um adultério. Luís XV morreu por causa do seu viveiro de veados.
Quando Marat foi assassinado, morria de cólera e inveja. Era um monômano de orgulho, que se julgava único, justo, e desejava matar tudo o que não fosse Marat.
Vários contemporâneos nossos morreram de ambição fracassada depois da revolução de fevereiro.
Desde que a vossa vontade esteja irrevogavelmente confirmada numa tendência absurda, estais mortos, e o escolho em que ficareis em pedaços não está longe.
É, pois, verdade dizer que a sabedoria conserva e prolonga a vida.
O grande Mestre disse: “A minha carne é um alimento e o meu sangue uma bebida. Comei minha carne e bebei meu sangue; tereis vida ”. E como o vulgo murmurava, acrescentou: “A carne aqui nada significa; as palavras que vos digo são espírito e vida ”. Queria, pois, dizer: “Saciai -vos do meu espírito e vivei da minha vida ”.
E, quando ia morrer, uniu a lembrança da sua vida ao signo do pão e a de seu espírito ao signo do vinho, e instituiu, assim, a comunhão da fé, da esperança e da caridade.
É no mesmo sentido que os mestres hermetistas disseram: Fazei potável o ouro e tereis a medicina universal; isto é, apropriai a verdade aos vossos costumes, que ela se torne a fonte em que vos saciareis todos os dias, e tereis em vós mesmos a imortalidade dos sábios. A temperança, a tranqüilidade da alma, a simplicidade de caráter, a calma e a razão da vontade não só fazem o homem feliz, mas também sábio e forte. É fazendo - se razoável e bom que o homem se torna imortal. Somos autores do nosso destino, e Deus não nos salva sem nossa colaboração.
A morte não existe para o sábio: a morte é um fantasma tornado horrível pela ignorância e a fraqueza do vulgo.
A mudança atesta o movimento, e o movimento só revela a vida. Até o cadáver não se decomporia se fosse morto: todas as moléculas que o compunham ficam vivas e se movem para se desprender.
E pensareis que o espírito foi o primeiro a desprender- se para não mais viver! Creríeis que o pensamento e o amor podem morrer, quando até a matéria mais grosseira não morre!
Se a mudança deve ser chamada morte, morremos e renascemos todos os dias, porque todos os dias as nossas formas mudam.
Temamos, pois, manchar e rasgar os vossos vestuários, mas não temamos deixá - los quando vem a hora do repouso.
O embalsamamento e conservação dos cadáveres são uma superstição contra a natureza. É um ensaio de criação da morte; é a imobilização forçada de uma substância que de a vida tem necessidade. Mas não se deve também ter muita pressa de destruir ou fazer desaparecerem os cadáveres; porque nada se realiza repentinamente na natureza, e não se deve arriscar romper violentamente os laços de uma alma que se desprende.
A morte nunca é instantânea; ela se opera por graus, como o sono. Enquanto o sangue não esfriou completamente, enquanto os nervos podem estremecer, o homem não está completamente morto, e, se nenhum dos órgãos essenciais da vida está destruído, a alma pode ser chamada, quer por acidente, quer por uma vontade forte.
Disse um filósofo que duvidaria do testemunho universal antes de crer na ressurreição de um morto, e nisso falou temerariamente; porque é pela fé do testemunho universal que ele acreditava na impossibilidade de uma ressurreição. Que seja provada uma ressurreição, que é que resultaria disso? Que era preciso negar a evidência ou renunciar à razão? Seria absurdo supô - lo. Será necessário concluir simplesmente que se acreditou, sem razão, impossível o ressurrecionismo. Ab actu ad posse valet consecutio.
Ousemos, agora, afirmar que a ressurreição é possível, e que até ela acontece mais do que cremos. Quantas pessoas, cuja morte foi jurídica e cientificamente constatada, foram encontradas mortas, é verdade, no seu caixão, mas tendo vivido, e tendo roído os punhos para abrir as suas artérias e escapar, por uma nova morte, de horríveis sofrimentos! Um médico nos dirá que estas pessoas não estavam mortas, mas sim em letargia? É o nome que dais à morte começada que não acaba, à morte que uma volta à vida vem desmentir. Facilmente nos libertamos de embaraços com palavras, quando é impossível explicar as coisas.
A alma esta presa ao corpo pela sensibilidade e, desde que a sensibilidade cessa, é sinal certo que a alma se afasta. O sono magnético é uma letargia ou morte fictícia, e curável à vontade. A eterização ou o torpor produzido pelo clorofórmio é uma letargia verdadeira, que, às vezes, acaba por uma morte definitiva, quando a alma, feliz pelo seu desprendimento passageiro, faz esforço de vontade para ir- se embora definitivamente; o que é possível nos que venceram o inferno, isto é, cuja força moral é superior às da atração astral. Por isso, a ressurreição só é possível para as almas elementares, e são principalmente elas que estão sujeitas a reviver involuntariamente no túmulo.
Os grandes homens e os verdadeiros sábios nunca são enterrados vivos.
Daremos, no nosso Ritual , a teoria e a prática do ressuscitamento, e, aos que me perguntarem se ressuscitei mortos, responderei que, se lhes dissesse, não me acreditariam.
Resta- nos examinar aqui, se a abolição da dor é possível, e se é bom empregar o clorofórmio ou o magnetismo para as operações cirúrgicas. Pensamos, e a ciência o reconhecerá mais tarde, que, diminuindo a sensibilidade, diminuímos a vida, e que tudo o que se tira da dor em tais circunstâncias vem em proveito da morte. A dor atesta a luta da vida, por isso notamos que, nas pessoas operadas em letargia, os curativos são muito dolorosos. Se reiterássemos em cada curativo o adormecimento pelo clorofórmio, aconteceria um das duas: ou o doente morreria, ou entre os curativos a dor voltaria e seria contínua. Não violentamos impunemente a natureza.
Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.

A Pedra dos Filósofos.


ELAGABALA - VOCATIO - Sol - Aurum.
Os antigos adoravam o sol sob a forma de uma pedra preta que denominavam Elagabala ou Heliogabala. Que significava esta pedra, e como podia ela ser a imagem do mais brilhante dos astros?
Os discípulos de Hermes, antes de prometer aos seus adeptos o elixir de longa vida, ou o pó de projeção, lhes recomendavam que procurassem a pedra filosofal . Que é esta pedra , e por que uma pedra?
O grande iniciador dos cristãos convida seus fiéis a construir sobre uma pedra , se não quiserem ver derrubadas suas construções. Chama a si próprio de pedra angular e diz ao mais crente dos seus apóstolos: “Chamas -te Pedro , porque és a pedra sobre a qual construirei minha Igreja ”.
Esta pedra , dizem os mestres de alquimia, é o verdadeiro sal dos filósofos, que entra por um terço na composição do a zoth . Ora, Azoth é, como sabemos, o nome do grande agente hermético e do verdadeiro agente filosofal; por isso representam eles o seu sal sob a forma de uma pedra cúbica, como podemos ver nas doze chaves do Basílio Valentino ou nas alegorias de Trevisano.
Que é, pois, em verdade, esta pedra? É o fundamento da filosofia absoluta, é a suprema e inabalável razão. Antes de pensar na obra metálica é preciso estar sempre fixo sobre os princípios absolutos da sabedoria, é preciso possuir esta razão que é a pedra de toque da verdade. Nunca um homem de preconceitos será rei da natureza e senhor das transmutações. A pedra filosofal é, pois, antes de tudo, necessária; mas, como achá - la? Hermes no - lo ensina na sua tábua de esmeralda. É preciso separar o sutil do fixo, com grande cuidado e uma atenção extrema. Assim, devemos desembaraçar as nossas certezas das nossas crenças e fazer bem distintos os domínios respectivos da ciência e da fé; compreender bem que não sabemos as coisas que cremos, e que não cremos mais em nenhuma das coisas que chegamos a saber, e que, assim, a essência das coisas da fé é o desconhecido e o indefinido, ao passo que é tudo o contrário das coisas da ciência.
Concluirão disso que a ciência repousa sobre a razão e a experiência, ao passo que a fé tem para base o sentimento e a razão. Em outros termos, a pedra filosofal é a verdadeira certeza que a prudência humana dá às investigações conscienciosas e à dúvida modesta, ao passo que o entusiasmo religioso a dá exclusivamente à fé. Ora, ela não pertence nem à razão sem aspirações, desrazoáveis; a verdadeira certeza é a aquiescência recíproca da razão que sabe ao sentimento que crê, e do sentimento que crê à razão que sabe. A aliança definitiva da razão e da fé resultará não da sua distinção e separação absolutas, mas do seu exame mútuo e do seu concurso fraterno. Tal é o sentido das duas colunas do pórtico de Salomão, uma das quais e branca e a outra preta. Elas são distintas e separadas, até são contrárias em aparência; mas a força cega quer reuni - las, aproximando - as, a abóbada do templo se desmoronará; porque, separadas, têm uma idêntica força; reunidas, são duas forças que se destroem mutuamente. É pela mesma razão que o poder espiritual se enfraquece, quando quer usurpar o temporal, e que o poder temporal perece, vítima da sua usurpação do poder espiritual. Gregório VII perdeu o papado, e os reis cismáticos perderam e perderão a monarquia. O equilíbrio humano tem necessidade de dois pés, os mundos gravitam sobre duas forças, a geração exige dois sexos. Tal é o sentido do Arcano de Salomão, figurado pelas duas colunas do tempo, Jakin e Bohas.
O sol e lua dos alquimistas correspondem ao mesmo símbolo e concorrem para o aperfeiçoamento e a estabilidade da pedra filosofal. O sol é o signo hieroglífico da verdade, porque é a fonte visível da luz, e a pedra bruta é o símbolo da estabilidade. È por isso que os antigos magos tomavam a pedra Elagabala pela própria figura do sol, e é também por isso que os alquimistas da Idade Média indicavam a pedra filosofal como o primeiro meio de fazer o ouro filosófico, isto é, de transformar todas as forças vitais figuradas pelos seis metais em sol, isto é, em verdade e em luz, primeira e indispensável operação da grande obra, que leva às adaptações secundárias, e que faz pelas analogias da natureza, achar o ouro natural e grosseiro aos criadores do ouro espiritual e vivo, aos possuidores do verdadeiro sal, do verdadeiro mercúrio e do verdadeiro enxofre filosófico.
Achar a pedra filosofal é, pois, ter descoberto o absoluto, como dizem alhures todos os mestres. Ora, o absoluto é o que não admite mais erro, é o fixo do volátil, é a regra da imaginação, é a própria necessidade do ser, é a lei imutável de razão e verdade; o absoluto é o que é. Ora que está em algum senso precede ele que é. O próprio Deus não existe sem razão de ser e só pode existir em virtude de uma suprema e inevitável razão. É, pois, esta razão que é o absoluto; é nela que devemos crer, se quisermos que a nossa fé tenha uma base razoável e sólida. Puderam dizer, nos nossos dias, que Deus é somente uma hipótese, mas a razão absoluta não o é: ela é essencial ao ente.
São Tomás disse: “Uma coisa não é justa porque Deus a quer, mas Deus a quer porque ela é justa ”. Se São Tomás tivesse deduzido logicamente todas as conseqüências deste belo pensamento, teria achado a pedra filosofal e, em lugar de limitar- se a ser o anjo da escola, teria sido o seu reformador.
Crer na razão de Deus e no Deus da razão é tornar impossível o ateísmo. São os idólatras que fizeram os ateus. Quando Voltaire dizia: “Se Deus não existisse, era preciso inventá- lo ”, ele antes sentia que não entendia a razão de Deus. Deus existe realmente? Nada sabemos disso, mas desejamos que isso seja, e é por isso que nos o cremos. A fé formulada assim é a fé razoável, porque admite a dúvida da ciência; e, com efeito, só cremos nas coisas que nos parecem prováveis, mas que não sabemos. Pensar de outro modo é delirar; falar de outro modo é expressar- se como iluminado ou fanático. Ora, não é a semelhantes pessoas que a pedra filosofal é prometida.
Os ignorantes que desviaram o cristianismo primitivo do seu caminho, substituindo a fé à ciência, o sonho à experiência, o fantástico à realidade; os inquisidores que fizeram, durante tantos séculos, uma guerra de extermínio à magia, chegaram a cobrir de trevas as antigas descobertas do espírito humano; de modo que hoje andamos às apalpadelas para achar de novo a chave dos fenômenos da natureza. Ora, todos os fenômenos naturais dependem de uma única e imutável lei, representada também pela pedra filosofal, mas principalmente pela forma simbólica, que é o cubo. Esta lei, expressa na Cabala pelo quaternário, tinha fornecido aos hebreus todos os mistérios do seu tetragrama divino. Podemos, pois, dizer que a pedra filosofal é quadrada em todos os sentidos, como a Jerusalém celeste de São João e que traz escrito de um lado o nome de Heh.gifMem.gifLamed.gifShin.gif e do outro o de Deus; numa das suas faces o de Adão, na outra o de Heva , depois os de Azoth e Inri nas duas outras. No frontispício de uma tradução francesa de um livro do senhor de Nuisement sobre o sal filosófico, vê - se o espírito da terra de pé num cubo que é percorrido por línguas de fogo; tem um caduceu como phallus , e o sol e a lua no peito, à direita e à esquerda; está barbado, coroado, e tem um cetro na mão. É o Azoth dos sábios no seu pedestal de sal e enxofre. Dão, às vezes, a esta imagem a cabeça simbólica do bode de Mendes; é o Baphomet dos Templários, o bode do Sabbat e o verno dos gnósticos/ imagens bizarras que serviram de espantalho ao vulgo, depois de terem servido para as meditações dos sábios, hieróglifos inocentes do pensamento e da fé que serviram de pretexto aos furores das perseguições. Quanto os homens são desgraçados na sua ignorância, mas também quanto desprezariam a si mesmos se chegassem a conhecê - la!
Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia.