Constantino I, Imperador de Roma, abraçou o cristianismo no ano 312. E logo no ano seguinte, estando em Milão, declarou o cristianismo religião oficial em todo o Império Romano.
A partir do ano 313, os cristãos perderam aquela pureza que tanto os tinha notabilizado. E de vítimas converteram-se em algozes daqueles que até havia pouco os perseguiam. Assim perderam aquela força espiritual que tanto os elevara. Destruíram as religiões antigas, matando os seus chefes. Destruíram os seus ídolos e apossaram-se dos templos, onde passaram a oficiar. Mas... surgiu uma dificuldade: os povos, habituados, a conduzirem a sua fé com o auxílio de imagens dos deuses, sentiam agora um vácuo, pois os cristãos eram contrários ao culto das imagens! Isto causava-lhes dificuldades. E, então, os cristãos voltaram ao culto idólatra, mas, em vez dos deuses pagãos, levaram para o altar imagens de mártires cristãos ou de pessoas que no cristianismo se distinguiram pela sua virtude e santidade, ou mesmo por feitos em favor dos cristãos.
Santa Luzia.
Assim, Santa Luzia surge nos altares em substituição duma antiquíssima deusa a quem os pagãos pediam a defesa da sua vista. E esta deusa, que teve o seu culto em vários países com diferentes nomes, não era mais do que o Logos planetário de Vénus, o planeta que vemos brilhar no Céu em duas épocas do ano, como estrela matutina e como estrela vespertina. Quando Vénus era estrela da manhã, os antigos chamavam-lhe Lúcifer, palavra que significa "o que traz ou faz luz".
Só depois do poeta Milton haver dado publicidade aos seus trabalhos, é que Lúcifer passou a ter o significado de "diabo".
Um dos primeiros papas da Igreja Católica Romana intitulava-se "Lúcifer". E no quarto século da nossa era, existia uma seita cristã intitulada "Luciferianos".
"Lúcifer" é uma palavra derivada de outra, latina, lucifer, que significa "o portador de luz", "o que ilumina". Equivale exactamente à palavra grega phosfóros.
Também no livro de Job se chama ao planeta Vénus, ou estrela matutina, "Filho de Deus".
Santa Luzia é, para os católicos Romanos, protectora da vista. E, por esse facto, a 13 de Dezembro de cada ano, celebram festas em sua honra.
Em Portugal foi consagrado o dia de Santa Luzia à recolha de óbulos para fomentar a protecção aos cegos, sem os humilhar. O que se pretende não é exercer caridade amesquinhando, mas a solidariedade edificante, pois o que se procura é criar estabelecimentos que valorizem os cegos e os convertam em elementos úteis à sociedade em que vivem, para os dignificar e libertar das condições duras que actualmente suportam.
De facto, os cegos podem ser preparados para vários serviços, o que lhes dará meios de subsistência e alegria, ganhando com isso a sociedade, por recuperar alguns cooperadores e por se libertar duma verdadeira legião de inválidos, de condenados a uma vida duplamente infeliz, por falta de vista e por não ganharem dignamente o seu pão de cada dia.
A vida, que tem sempre espinhos para todos, é ainda mais dura para os deserdados da sorte. Mas para os cegos, só porque não podem ver, é particularmente espinhosa.
A Origem da Cegueira.
O que estará na origem da cegueira?
Não se nasce cego, rico, pobre, são, enfermo, perfeito, defeituoso, escravo ou livre, para mandar e dirigir ou para ser mando e dirigido, por acaso, como aquelas ervas daninhas que ninguém semeia e nascem sozinhas. Nasce-se cego por alguma razão. Ao longo de vidas passadas, comportamo-nos por forma que temos de renascer tantas vezes quantas forem necessárias para mudar a natureza do mal que fizémos, no bem que temos de aprender a praticar amorosamente. Por isso mesmo, o Destino é que nos compele a renascer nas condições que temos. E isso para que tenhamos o ensejo de emendar os nossos erros e nos tornarmos cada vez mais perfeitos.
O que é o Destino?
E o que é o Destino?
É o efeito da soma de tudo quanto fizémos em vidas passadas, de bom e de mau. É uma espécie de conta-corrente do passado, para orientação do porvir. Tudo quanto fazemos numa vida ficará esperando por nós, na vida ou vidas seguintes. O que semeámos no passado dará os seus frutos no futuro!
Não estamos neste mundo para gozar, como todos sinceramente desejamos. Estamos aqui para evolucionar, para nos aperfeiçoarmos, para ascendermos a condições mais dignas, a estados superiores ao presente. E esta ascese consome a vida, custa muito sofrimento. Realiza-se vagarosamente, sendo necessário nascer e morrer muitas vezes antes de atingirmos a perfeição que nos libertará das condições terrenas, sempre mesquinhas e vis. O que somos numa vida prepara o programa da seguinte. E por esta razão o povo diz uma grande verdade quando afirma: "Elas cá se fazem e cá se pagam".
Os ricos que não souberem usar bem a fortuna, aproveitando-a para seu proveito exclusivo, para seu regalo apenas, indiferentes a todas as penas e dificuldades que sofrem os seus semelhantes, serão os pobres do amanhã, da vida seguinte! Eles serão, na sua próxima volta ao mundo, os mendigos e os sem trabalho, os infelizes que sempre lutarão com falta de meios de subsistência, para que saibam buscar o equilíbrio em tudo, se façam justos, aprendam a sublime lição do amor que deve unir todos os seres, porque a finalidade das nossas vidas é a busca da perfeição. E esta não existirá enquanto olharmos uns para os outros com orgulho, vaidade, egoísmo, inteiramente fechados em nós e nos do nosso próprio sangue.
Quantas vezes surpreendemos nos mendigos uns resquícios de orgulho que não podem ter outra origem senão a vida passada? Conservam uma vaga e imprecisa memória do que foram e não se conformam inteiramente com o destino. Por isso não levam resignadamente a sua cruz. E desta maneira o seu penar torna-se mais agudo, o horizonte faz-se cada vez mais escuso, até que o pobre aprenda a sua dura lição.
Os que nascem enfermos ou aleijados são os que, em vidas passadas, abusaram da sua saúde, vitalidade, assim como também da dos seus semelhantes, para sustentarem vícios, ou para darem largas aos seus instintos cruéis, sem piedade nem consideração. Os cegos... esses usaram mal a vista, e por esse facto agora estão privados dela.
O Rei David.
Vejamos um caso da história, que todos conhecem.
O rei David, numa tarde quente de Verão, após a sesta, estava no terraço do seu palácio. Viu uma linda mulher, descuidada, a tomar banho em sua casa. Os seus olhos não foram suficientemente castos. A sua alma, em vez de resistir aos ardores terrenos da carne, lançou-se na fogueira da sensualidade. E as chamas subiram tão alto que o famoso rei mandou apresentar essa mulher diante de si. Vendo-a tão formosa, não se lembrou que dentro dela havia um ser divino que nasceu para ser dignificado. E, em vez de se comportar dignamente diante dela, submeteu-a ao seu desmedido desejo libidinoso.
Esta mulher era casada, e o seu marido andava numa guerra que o próprio rei David mantinha. Betsabé, esposa de Urias, fez saber ao rei, um dia, que se preparava para lhe dar descendência. David ficou inquieto e tratou de buscar os meios de encobrir o seu delito. Escreveu a Joab, comandante da campanha, e ordenou-lhe que mandasse Urias à sua presença. Depois, disfarçadamente, mandou-o para sua casa, para que estivesse algum tempo com sua mulher e mais tarde se julgasse autor do fruto adulterino. A ordem real foi prontamente cumprida. Urias apresentou-se diante do seu monarca e foi por ele interrogado a respeito de operações guerreiras. Seguidamente foi-lhe ordenado por David:
"Desce a tua casa e lava os teus pés".
Urias retirou-se e o rei mandou atrás dele um manjar, para que, depois de comer e beber, ficassem embotados os seus sentidos e pudesse cair inconscientemente na armadilha. Mas Urias, em vez de ir para sua casa juntar-se a Betsabé, deixou-se ficar à porta do palácio do rei. E dali não quis sair.
A notícia deste facto alarmou novamente o monarca, que mandou ir a sua presença o ultrajado marido. Interpelou-o deste modo:
– Não vens tu duma jornada? Porque não desceste a tua casa?
Urias, solenemente, respondeu:
– A Arca, Israel e Judá ficam em tendas; Joab, meu senhor, e os servos do meu senhor estão acampados no campo; e hei-de eu entrar na minha casa, para comer e beber, e para me deitar com a minha mulher?
Pela tua vida, e pela tua alma, não farei tal coisa.
O rei sentia-se descoberto! O seu ardil falhara inteiramente. E agora?
O adulterino monarca, rebuscando um novo plano, ensaiou outro processo: convidar Urias para tomar com ele uma refeição e embriagá-lo, mandando-o depois para sua casa, a fim de se consumar o objectivo.
"E David o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o embebedou: e à tarde saiu a deitar-se na sua cama como os servos do seu senhor; porém, não desceu a sua casa".
Mais uma vez caíram os ardis do rei. E outro foi buscado, mais realista e cruel:
"E sucedeu que, pela manhã, David escreveu uma carta a Joab: e mandou-lha pela mão de Urias".
Nesta carta, o monarca ordenou o seu último plano:
"Coloca Urias na frente da maior força da peleja; e retirai-vos de trás dele, para que seja ferido e morra".
Desta vez não falhou o plano traiçoeiro; "... tendo Joab observado bem a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia estarem homens valentes. E, saindo os homens da cidade, e pelejando com Joab, caíram alguns do povo, e dos servos de David. Urias também morreu".1
Por causa duma teia de aranha, que mal se tocou e logo se desfez, maculou-se toda a pureza duma alma, destruindo-se totalmente um ideal. Foram ceifadas muitas vidas humanas. E tudo se fez com a maior facilidade, por abundar o poder e faltar a fiscalização.
Betsabé na Corte de David.
Quanto sofrimento desencadeado em tão curto espaço de tempo! E que proveito recebeu o famoso rei David do seu tresloucado acto?
Toda esta criminosa situação foi devida à excelente vista do monarca!
Se não tivesse visto, não teria pecado. E aquelas vidas teriam sido poupadas. O rei não teria criado tão grande responsabilidade. Será digno nascer com vista, quem dela fez tão mau uso?
Passado o tempo de luto, David levou para o seu palácio a viúva de Urias. E fez dela sua mulher. O filho adulterino não viveu por muito tempo, e o rei sofreu muito com a sua perda. Depois, Betsabé deu a David o seu sucessor, o glorioso rei Salomão. Mas o monarca, depois que viu Betsabé, nunca mais pôde ter descanso na vida. Os desgostos sucederam-se ininterruptamente. E com eles foram tão abundantes as lágrimas vertidas, que ao fim da sua existência estava quase cego. Desta maneira, o monarca tinha iniciado o esgotamento das suas gravíssimas culpas, de que tinha a mais viva e profunda consciência, como se depreende dos salmos que escreveu.
Por ter dado largas ao instinto sexual, David lançou-se no cadinho ardente para sofrer depois as consequências dos seus actos e aprender as lições que nele se encerram.
Devemos ser prudentes no uso da vista, nunca a usando para fins delituosos, se queremos possuir, ao regressar a este mundo, boa visão.
Quem Mal Anda...
Qual será a pena que merece aquele que seduz, colhe a flor inocente e pura, e depois de apreciar a sua beleza e perfume a lança indiferentemente na fama dos mais duros e escabrosos caminhos? Como resgatará as suas culpas? Não sorverá depois, na próxima vida, gota a gota, todo o fel que derramou? Ah! Decerto que sim. Pagará sofrendo na mesma medida, para que aconteça o que diz o povo: "é para saber o gosto que o fado tem"!
O fado é o Destino, o registo de tudo o que semeámos, bom e mau, em vidas passadas.
"Quem mal anda, mal acaba"!, diz ainda uma voz popular. E na voz do povo, que se diz ser a voz de Deus, há muita sabedoria profunda, embora inconsciente.
"Quem com ferros mata, com ferros morre", diz outro antigo e sábio prolóquio, que Jesus recordou a Pedro no momento em que o pescador feriu com espada o soldado que prendia o Messias. E, de facto, neste mundo de expiação, tudo se paga.
Só nos isentamos das penas ajudando os que sofrem a suportar as suas punições. Ajudemos por todos os meios aqueles que sofrem, não recebendo pelo que fizermos a menor paga. Ajudemos entusiasticamente e por amor, porque na medida em que ajudarmos os que sofrem, aliviaremos o peso do nosso próprio Destino. Façamos, portanto, todo o bem que pudermos. E sempre sem olhar a quem o fazemos. E se tivermos oportunidade para isso, façamo-lo mesmo aos que nos aborrecem ou nos causam algum mal, porque desta maneira estaremos a vencer o nosso próprio Destino.
Francisco Marques Rodrigues.
contos sol e lua
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Os Cegos
Constantino I, Imperador de Roma, abraçou o cristianismo no ano 312. E logo no ano seguinte, estando em Milão, declarou o cristianismo religião oficial em todo o Império Romano.
A partir do ano 313, os cristãos perderam aquela pureza que tanto os tinha notabilizado. E de vítimas converteram-se em algozes daqueles que até havia pouco os perseguiam. Assim perderam aquela força espiritual que tanto os elevara. Destruíram as religiões antigas, matando os seus chefes. Destruíram os seus ídolos e apossaram-se dos templos, onde passaram a oficiar. Mas... surgiu uma dificuldade: os povos, habituados, a conduzirem a sua fé com o auxílio de imagens dos deuses, sentiam agora um vácuo, pois os cristãos eram contrários ao culto das imagens! Isto causava-lhes dificuldades. E, então, os cristãos voltaram ao culto idólatra, mas, em vez dos deuses pagãos, levaram para o altar imagens de mártires cristãos ou de pessoas que no cristianismo se distinguiram pela sua virtude e santidade, ou mesmo por feitos em favor dos cristãos.
Santa Luzia.
Assim, Santa Luzia surge nos altares em substituição duma antiquíssima deusa a quem os pagãos pediam a defesa da sua vista. E esta deusa, que teve o seu culto em vários países com diferentes nomes, não era mais do que o Logos planetário de Vénus, o planeta que vemos brilhar no Céu em duas épocas do ano, como estrela matutina e como estrela vespertina. Quando Vénus era estrela da manhã, os antigos chamavam-lhe Lúcifer, palavra que significa "o que traz ou faz luz".
Só depois do poeta Milton haver dado publicidade aos seus trabalhos, é que Lúcifer passou a ter o significado de "diabo".
Um dos primeiros papas da Igreja Católica Romana intitulava-se "Lúcifer". E no quarto século da nossa era, existia uma seita cristã intitulada "Luciferianos".
"Lúcifer" é uma palavra derivada de outra, latina, lucifer, que significa "o portador de luz", "o que ilumina". Equivale exactamente à palavra grega phosfóros.
Também no livro de Job se chama ao planeta Vénus, ou estrela matutina, "Filho de Deus".
Santa Luzia é, para os católicos Romanos, protectora da vista. E, por esse facto, a 13 de Dezembro de cada ano, celebram festas em sua honra.
Em Portugal foi consagrado o dia de Santa Luzia à recolha de óbulos para fomentar a protecção aos cegos, sem os humilhar. O que se pretende não é exercer caridade amesquinhando, mas a solidariedade edificante, pois o que se procura é criar estabelecimentos que valorizem os cegos e os convertam em elementos úteis à sociedade em que vivem, para os dignificar e libertar das condições duras que actualmente suportam.
De facto, os cegos podem ser preparados para vários serviços, o que lhes dará meios de subsistência e alegria, ganhando com isso a sociedade, por recuperar alguns cooperadores e por se libertar duma verdadeira legião de inválidos, de condenados a uma vida duplamente infeliz, por falta de vista e por não ganharem dignamente o seu pão de cada dia.
A vida, que tem sempre espinhos para todos, é ainda mais dura para os deserdados da sorte. Mas para os cegos, só porque não podem ver, é particularmente espinhosa.
A Origem da Cegueira.
O que estará na origem da cegueira?
Não se nasce cego, rico, pobre, são, enfermo, perfeito, defeituoso, escravo ou livre, para mandar e dirigir ou para ser mando e dirigido, por acaso, como aquelas ervas daninhas que ninguém semeia e nascem sozinhas. Nasce-se cego por alguma razão. Ao longo de vidas passadas, comportamo-nos por forma que temos de renascer tantas vezes quantas forem necessárias para mudar a natureza do mal que fizémos, no bem que temos de aprender a praticar amorosamente. Por isso mesmo, o Destino é que nos compele a renascer nas condições que temos. E isso para que tenhamos o ensejo de emendar os nossos erros e nos tornarmos cada vez mais perfeitos.
O que é o Destino?
E o que é o Destino?
É o efeito da soma de tudo quanto fizémos em vidas passadas, de bom e de mau. É uma espécie de conta-corrente do passado, para orientação do porvir. Tudo quanto fazemos numa vida ficará esperando por nós, na vida ou vidas seguintes. O que semeámos no passado dará os seus frutos no futuro!
Não estamos neste mundo para gozar, como todos sinceramente desejamos. Estamos aqui para evolucionar, para nos aperfeiçoarmos, para ascendermos a condições mais dignas, a estados superiores ao presente. E esta ascese consome a vida, custa muito sofrimento. Realiza-se vagarosamente, sendo necessário nascer e morrer muitas vezes antes de atingirmos a perfeição que nos libertará das condições terrenas, sempre mesquinhas e vis. O que somos numa vida prepara o programa da seguinte. E por esta razão o povo diz uma grande verdade quando afirma: "Elas cá se fazem e cá se pagam".
Os ricos que não souberem usar bem a fortuna, aproveitando-a para seu proveito exclusivo, para seu regalo apenas, indiferentes a todas as penas e dificuldades que sofrem os seus semelhantes, serão os pobres do amanhã, da vida seguinte! Eles serão, na sua próxima volta ao mundo, os mendigos e os sem trabalho, os infelizes que sempre lutarão com falta de meios de subsistência, para que saibam buscar o equilíbrio em tudo, se façam justos, aprendam a sublime lição do amor que deve unir todos os seres, porque a finalidade das nossas vidas é a busca da perfeição. E esta não existirá enquanto olharmos uns para os outros com orgulho, vaidade, egoísmo, inteiramente fechados em nós e nos do nosso próprio sangue.
Quantas vezes surpreendemos nos mendigos uns resquícios de orgulho que não podem ter outra origem senão a vida passada? Conservam uma vaga e imprecisa memória do que foram e não se conformam inteiramente com o destino. Por isso não levam resignadamente a sua cruz. E desta maneira o seu penar torna-se mais agudo, o horizonte faz-se cada vez mais escuso, até que o pobre aprenda a sua dura lição.
Os que nascem enfermos ou aleijados são os que, em vidas passadas, abusaram da sua saúde, vitalidade, assim como também da dos seus semelhantes, para sustentarem vícios, ou para darem largas aos seus instintos cruéis, sem piedade nem consideração. Os cegos... esses usaram mal a vista, e por esse facto agora estão privados dela.
O Rei David.
Vejamos um caso da história, que todos conhecem.
O rei David, numa tarde quente de Verão, após a sesta, estava no terraço do seu palácio. Viu uma linda mulher, descuidada, a tomar banho em sua casa. Os seus olhos não foram suficientemente castos. A sua alma, em vez de resistir aos ardores terrenos da carne, lançou-se na fogueira da sensualidade. E as chamas subiram tão alto que o famoso rei mandou apresentar essa mulher diante de si. Vendo-a tão formosa, não se lembrou que dentro dela havia um ser divino que nasceu para ser dignificado. E, em vez de se comportar dignamente diante dela, submeteu-a ao seu desmedido desejo libidinoso.
Esta mulher era casada, e o seu marido andava numa guerra que o próprio rei David mantinha. Betsabé, esposa de Urias, fez saber ao rei, um dia, que se preparava para lhe dar descendência. David ficou inquieto e tratou de buscar os meios de encobrir o seu delito. Escreveu a Joab, comandante da campanha, e ordenou-lhe que mandasse Urias à sua presença. Depois, disfarçadamente, mandou-o para sua casa, para que estivesse algum tempo com sua mulher e mais tarde se julgasse autor do fruto adulterino. A ordem real foi prontamente cumprida. Urias apresentou-se diante do seu monarca e foi por ele interrogado a respeito de operações guerreiras. Seguidamente foi-lhe ordenado por David:
"Desce a tua casa e lava os teus pés".
Urias retirou-se e o rei mandou atrás dele um manjar, para que, depois de comer e beber, ficassem embotados os seus sentidos e pudesse cair inconscientemente na armadilha. Mas Urias, em vez de ir para sua casa juntar-se a Betsabé, deixou-se ficar à porta do palácio do rei. E dali não quis sair.
A notícia deste facto alarmou novamente o monarca, que mandou ir a sua presença o ultrajado marido. Interpelou-o deste modo:
– Não vens tu duma jornada? Porque não desceste a tua casa?
Urias, solenemente, respondeu:
– A Arca, Israel e Judá ficam em tendas; Joab, meu senhor, e os servos do meu senhor estão acampados no campo; e hei-de eu entrar na minha casa, para comer e beber, e para me deitar com a minha mulher?
Pela tua vida, e pela tua alma, não farei tal coisa.
O rei sentia-se descoberto! O seu ardil falhara inteiramente. E agora?
O adulterino monarca, rebuscando um novo plano, ensaiou outro processo: convidar Urias para tomar com ele uma refeição e embriagá-lo, mandando-o depois para sua casa, a fim de se consumar o objectivo.
"E David o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o embebedou: e à tarde saiu a deitar-se na sua cama como os servos do seu senhor; porém, não desceu a sua casa".
Mais uma vez caíram os ardis do rei. E outro foi buscado, mais realista e cruel:
"E sucedeu que, pela manhã, David escreveu uma carta a Joab: e mandou-lha pela mão de Urias".
Nesta carta, o monarca ordenou o seu último plano:
"Coloca Urias na frente da maior força da peleja; e retirai-vos de trás dele, para que seja ferido e morra".
Desta vez não falhou o plano traiçoeiro; "... tendo Joab observado bem a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia estarem homens valentes. E, saindo os homens da cidade, e pelejando com Joab, caíram alguns do povo, e dos servos de David. Urias também morreu".1
Por causa duma teia de aranha, que mal se tocou e logo se desfez, maculou-se toda a pureza duma alma, destruindo-se totalmente um ideal. Foram ceifadas muitas vidas humanas. E tudo se fez com a maior facilidade, por abundar o poder e faltar a fiscalização.
Betsabé na Corte de David.
Quanto sofrimento desencadeado em tão curto espaço de tempo! E que proveito recebeu o famoso rei David do seu tresloucado acto?
Toda esta criminosa situação foi devida à excelente vista do monarca!
Se não tivesse visto, não teria pecado. E aquelas vidas teriam sido poupadas. O rei não teria criado tão grande responsabilidade. Será digno nascer com vista, quem dela fez tão mau uso?
Passado o tempo de luto, David levou para o seu palácio a viúva de Urias. E fez dela sua mulher. O filho adulterino não viveu por muito tempo, e o rei sofreu muito com a sua perda. Depois, Betsabé deu a David o seu sucessor, o glorioso rei Salomão. Mas o monarca, depois que viu Betsabé, nunca mais pôde ter descanso na vida. Os desgostos sucederam-se ininterruptamente. E com eles foram tão abundantes as lágrimas vertidas, que ao fim da sua existência estava quase cego. Desta maneira, o monarca tinha iniciado o esgotamento das suas gravíssimas culpas, de que tinha a mais viva e profunda consciência, como se depreende dos salmos que escreveu.
Por ter dado largas ao instinto sexual, David lançou-se no cadinho ardente para sofrer depois as consequências dos seus actos e aprender as lições que nele se encerram.
Devemos ser prudentes no uso da vista, nunca a usando para fins delituosos, se queremos possuir, ao regressar a este mundo, boa visão.
Quem Mal Anda...
Qual será a pena que merece aquele que seduz, colhe a flor inocente e pura, e depois de apreciar a sua beleza e perfume a lança indiferentemente na fama dos mais duros e escabrosos caminhos? Como resgatará as suas culpas? Não sorverá depois, na próxima vida, gota a gota, todo o fel que derramou? Ah! Decerto que sim. Pagará sofrendo na mesma medida, para que aconteça o que diz o povo: "é para saber o gosto que o fado tem"!
O fado é o Destino, o registo de tudo o que semeámos, bom e mau, em vidas passadas.
"Quem mal anda, mal acaba"!, diz ainda uma voz popular. E na voz do povo, que se diz ser a voz de Deus, há muita sabedoria profunda, embora inconsciente.
"Quem com ferros mata, com ferros morre", diz outro antigo e sábio prolóquio, que Jesus recordou a Pedro no momento em que o pescador feriu com espada o soldado que prendia o Messias. E, de facto, neste mundo de expiação, tudo se paga.
Só nos isentamos das penas ajudando os que sofrem a suportar as suas punições. Ajudemos por todos os meios aqueles que sofrem, não recebendo pelo que fizermos a menor paga. Ajudemos entusiasticamente e por amor, porque na medida em que ajudarmos os que sofrem, aliviaremos o peso do nosso próprio Destino. Façamos, portanto, todo o bem que pudermos. E sempre sem olhar a quem o fazemos. E se tivermos oportunidade para isso, façamo-lo mesmo aos que nos aborrecem ou nos causam algum mal, porque desta maneira estaremos a vencer o nosso próprio Destino.
Francisco Marques Rodrigues.
Mestres Individuais.
Um dos problemas mais difíceis que tem de enfrentar o instrutor de um movimento espiritual é a impaciência dos estudantes que desejam colher o que não semearam, que são incapazes de esperar pela colheita. Estudantes esses que desejam resultados imediatos e, se não lhes nascem asas em determinado prazo, fixado por eles mesmo, elevam o grito ao céu e buscam um "mestre individual", estando dispostos a atirar o senso comum pela janela fora, caso o mesmo garanta resultados.
Já tratámos deste assunto noutra ocasião, mas como há sempre quem se esqueça e, além deles, há os novos estudantes que diariamente chegam à Fraternidade, é necessário que assuntos de tão grande importância sejam regularmente apreciados.
Já alguém viu alguma vez, em qualquer instituição de ensino, desde o jardim de infância à universidade, um professor para cada estudante? Nós, não. Nenhum conselho directivo sancionaria semelhante desperdício de energia. Nem tão-pouco se recomendaria um só professor para determinados alunos, só pelo facto de eles serem impacientes ou quisessem passar pelos diversos anos académicos "rapidamente". E, finalmente, se houvesse alguma excepção que aconselhasse tal anormalidade, seriam precisos professores que tivessem a capacidade de transmitir os conhecimentos aos seus alunos de uma forma maciça, método que teria, naturalmente, grandes perigos.
Se isto é verdade para o ensino académico oficial, por que razão pode haver diferença para as escolas da ciência espiritual? Disse o Cristo: "Se eu lhes falei de coisas terrenas, não me acreditaram, como me acreditariam se lhes tivesse falado de coisas espirituais?". A razão disto, amigos, é que nenhum "mestre individual", mesmo no caso de existirem, poderia iniciar alguém nos mistérios da alma, se o discípulo não preparar, primeiro, o seu trabalho. E quem quer que diga, ou que publique, que garante a iniciação de alguém, define-se e cataloga-se, a si mesmo, como impostor.
Além disso, quem se deixar enganar mostra, também, muito pouco discernimento. De outro modo compreenderia que nenhum mestre aceitaria usar o seu tempo e energia, egoisticamente com um só aluno, quando poderia usá-lo com a mesma facilidade, para instruir muitos outros.
Acrescentemos, por último, que jamais os Irmãos Maiores assistiriam a alguém com carácter de "mestres individuais". Quem assim o julgar cai num tremendo engano, ou em deliberada desonestidade.
Max Heindel
Solidariedade e Cooperação.
A vida do homem é um contínuo anseio: ou procura bens materiais ou busca ilusões. Se levado a certos limites, estimula o estudo e o trabalho fecundo. Para além de determinada meta, leva à prática da violência, à selecção brutal dos indivíduos ou dos grupos e à desumanização da vida social e internacional.
Nos círculos cultos e esclarecidos, este espírito de conquista evolui pacificamente. Desenvolve-se no sentido de obtenção da virtude, do saber, do carácter, da perfeição. O sábio, o erudito e o investigador, que se consagram ao estudo dos problemas que os preocupam, levam a cabo um esforço benéfico voltado para a conquista positiva, procurando adquirir conhecimentos, alcançar ideias, verdades, certezas ou conceber técnicas.
Porém, uma educação orientada no sentido da competição do egoísmo e da violência, associada ao refinamento dos mecanismos de embrutecimento, levam a que a espécie humana organizada em “sociedades” se comporte no planeta Terra como espécie predadora, aniquilando recursos, alterando equilíbrios e até invertendo evoluções.
Apoiadas em valores quantitativistas, estas sociedades modificam a qualidade de vida e a própria mentalidade social. Passam a ser dominadas por uma febre incontrolável de conquista desaustinada de bens materiais ou de riquezas. E é assim que, apesar de se falar muito em solidariedade e cooperação, todos se lançam, consoante os temperamentos, à conquista de certos objectivos tidos como valiosos e sinais de êxito pela mentalidade social contemporânea: a celebridade, a glória, a luxúria, o luxo, a ociosidade. O mais vulgar e mediático é a celebridade. Geralmente, nem se toma sequer a consciência de que a celebridade desprovida de conteúdo é um êxito vazio. O dinheiro e as propriedades, encarados com um fim em si mesmo, é outra expressão do referido êxito. Mas a expressão mais elevada do dito êxito é o Poder, considerado este como a capacidade, real ou virtual, de tomar e fazer cumprir decisões que afectam a vida própria e as alheias. É aqui que se identifica muitas vezes a distância desproporcionada que separa o demérito de algumas pessoas do estatuto social em que vivem.
Uma inevitável preocupação surge à luz quanto se pensa em tudo o que ficou dito e perguntamos a nós próprios: que pecados originais contaminam o homem e as variadíssimas formas sociais, atraindo-os para esses falsos êxitos, o orgulho e a malevolência?
Aqui, as opiniões dividem-se. Todas as grandes religiões preconizam o domínio da “carne”. E aconselham a vencer, pelo espírito, a exteriorização dos seus apetites. A condição animal do homem seria então o obstáculo impeditivo da integração na harmonia cósmica, a conseguir através do espírito universal, dos valores da renúncia, da purificação e da ascese.
Mas admitem outros que, pelo contrário, a adulteração da humanidade se fica a dever aos elementos corruptos da vida social. É a explicação dos mitos bíblicos. Adão e Eva foram corrompidos pela serpente – o símbolo do conhecimento. E até alguns filósofos – como Rousseau – defendem a existência do “bom selvagem”.
É certo que a vida social pressupõe a realização de esforços próprios por parte de cada um. São legítimos e enobrecedores. Mas tais esforços devem ser convergentes e não antagónicos. O que se passa é que o mundo, embora nos pareça grande, é suficientemente pequeno para inter-relacionar todos os nossos interesses. Convém, pois, harmonizá-los, em vez de pô-los em conflito. Os produtores precisam dos consumidores; os trabalhadores manuais precisam dos trabalhadores intelectuais. Os homens grosseiros beneficiam com a delicadeza das almas sensíveis. Os ociosos lucram com o esforço e o exemplo dos homens activos, e por aí adiante. Sendo hoje altamente gregária, a humanidade vê a sua equação de sobrevivência posta também em termos da compreensão de que a vida social só pode existir com base na cooperação e na solidariedade. A partir de certos limites, a luta tem como consequência a impossibilidade de se desenvolver um trabalho fecundo e contínuo, atiçando ódios e suprimindo garantias necessárias a qualquer actividade eficaz e produtiva. A fraqueza e insuficiência de cada indivíduo devem ser fortalecidas pela fraqueza e insuficiência dos seus semelhantes. Todos precisamos uns dos outros. E com as nações dá-se o mesmo que com os indivíduos membros da sociedade. Alguma coisa deve ser cedida para garantir o todo. Neste ponto de vista, ganhamos pelo que damos.
Procurar justificar logicamente toda a ordem de desgraças que os homens têm derramado sobre si próprios na ânsia de atingir os falsos êxitos tem sido uma constante no processo que antecede o acender dos conflitos e o posterior varrer das cinzas resultantes do fogo da violência. Poderá ir-se iludindo o assunto com a procura das causas em factos importantes e espectaculares, em vez de os identificar naqueles actos individuais “infinitamente pequenos”, que o simples exame retrospectivo, ou “exame de consciência”, ajuda a dominar e a disciplinar. Uma sociedade onde esta reflexão não esteja enraizada nos hábitos pessoais não pode ter condições de desenvolvimento. E, portanto, não elabora mundivisões originais e adequadas à experiência do dia-a-dia e do progresso sofrendo assim uma carência que nada pode colmatar. Essa sociedade fica entregue à confusão, correndo o risco de não identificar o essencial e de sacrificá-lo ao acidental. E quando o essencial e o acidental se encontrem confundidos, a anarquia de valores e ideias torna-se inevitável, depressa surgindo equívocos e fracassos que parasitariamente minam o edifício social.
É no seio dos mecanismos de intervenção destas sociedades em que vivemos que a filosofia rosacruz desempenha o seu papel. A sua missão decisiva, neste campo, é a de ajudar a compreender que o ser humano é um universo em miniatura e que tem dentro de si as mais estranhas forças, às vezes difíceis de interpretar. E, também, ajudar a conhecê-las dentro do possível, e também dentro do possível dominá-las, para que o ser humano não se torne num motivo de crítica e numa fonte viva de desordem.
F. M. C.
sábado, 27 de julho de 2013
A SABEDORIA DO MUNDO ANIMAL Uma Antiga Tradição Celta.
Os nossos Professores Animais.
Os nossos antepassados reverenciavam cada aspecto do mundo natural e consideravam cada parte deste mundo capaz de ser um aliado, um guia e um professor. O Druida de hoje é capaz de obter inspiração, direcção e assistência de cada reino do mundo natural, mas nos tempos antigos talvez isso fosse mais simples e menos incomum – havia menos “coisas” entre nós e o mundo da Natureza e a mundovisão predominante considerava
que cada parte dela estava imbuída de vida espiritual e significado. Os animais, em particular, eram reverenciados pelas suas qualidades e eram vistos como sagrados à Deusa ou aos deuses.
Diz-se que um certo número de tribos ou clãs descenderam de animais, tais como o “povo dos gatos” na Escócia e as “tribos do lobo”, assim como os “cabeças de cão”, na Irlanda. Também se diz que algumas famílias tinham antepassados animais. A foca, por exemplo, era o antepassado original de pelo menos seis famílias na Escócia e na Irlanda. A maior parte das tribos tinha os seus animais totémicos, claramente demonstrados nos seus nomes, como os Caerini e os Lugi em Sutherland (“Povo das Ovelhas” e “Povo dos Corvos”), os Epidii de Kintyre (“Povo dos Cavalos”), os Tochrad (“Povo dos Javalis”), os Taurisci (“Povo dos Touros”) e os Brannovices (“Povo dos Corvos”).
As famílias também tinham animais totémicos, visíveis nos seus nomes, nos seus brasões ou nas suas tradições familiares. Todos conhecemos sobrenomes ingleses que são claramente nomes de animais, tal como Fox (“Raposa”), e a maior parte de nós conhece o animal que está relacionado com os nomes de origem clássica, tal
como Philip, oriundo do grego e que significa “amante de cavalos”. Porém, muitos nomes em gaélico vêm directamente do reino animal e tentámos mencionar tantos quanto possível no Capítulo Dois d'O Oráculo Animal dos Druidas. Aprender que nomes como “Filho de Raposa” ou “Pequeno Lobo” eram comuns na tradição nativa britânica faz-nos sentir mais próximos dos nossos irmãos e irmãs da tradição nativa americana.
Os nossos antepassados adoravam e respeitavam os animais de tal forma que escolhiam ser enterrados com eles, para os ter como guias e companheiros no Outro Mundo. Usavam os seus ossos e os seus dentes como amuletos. Usavam as suas peles para se vestirem e fazerem os seus leitos, para fazerem os seus escudos, tambores e gaitas-de-foles. Aceitavam as suas peles, os chifres, os cascos e a carne como dádivas e faziam uso de todas as partes dos animais – até mesmo os excrementos eram por vezes utilizados para efeitos de cura. Quando caçavam, pediam permissão à Deusa, antes de se aventurarem a tirar a vida de qualquer criatura. A caça em si era considerada sagrada e tinha uma série de tabus para proteger tanto o caçador como a caça.
O elo existente entre os nossos antepassados e os animais era tão extraordinariamente rico que estes se relacionavam não só com os animais selvagens, mas também com os guardiães, guias neste mundo e no próximo, curandeiros, amigos e professores. Não é de espantar que eles os considerassem sagrados e companheiros dos deuses. Apenas nós, uma humanidade recente e bidimensional, é que vemos os animais como sendo meramente criaturas “menores”, de inteligência inferior e de pouco valor, para além do facto de servirem de alimento.
Enraizado no Tempo.
A reverência pelos animais e a consciência de que eles são professores e guias é tão antiga como a própria humanidade. As grutas de Drachenloch, na Suíça, exibem altares com cerca de 70.000 anos dedicados ao Urso. Nas grutas de Lascaux, em França, as extraordinárias pinturas de animais e a estátua cerimonial do corpo de um urso têm mais de 19.000 anos. Os animais eram claramente o centro de uma prática religiosa desde os primórdios do tempo. Na Grã-Bretanha, num povoado mesolítico em Yorkshire, encontraram-se hastes de veado com cerca de 10.000 anos que foram adaptadas para ser ritualisticamente usadas na cabeça.
Usar peles de animais, cabeças e penas era uma forma de identificação com os mesmos, de ser esses animais por algum tempo, de partilhar dos seus poderes e de receber a inspiração divina. Na Grã-Bretanha, os nativos ainda faziam isto no séc. VII d.C. – sendo que Santo Agostinho condenou este “hábito extremamente obsceno de se vestirem como veados”. Na Irlanda, o Bardo usava o tugen – uma capa de penas feita com “peles de pássaros, brancas e multicoloridas... da cintura para baixo e com pescoços de patos bravos e cristas da cintura até ao pescoço”.
Para além de se vestirem como animais, os nossos antepassados sacrificavam-nos e enterravam-nos ritualisticamente. Qualquer relutância que se possa ter inicialmente face a este comportamento deve ser temperada com a consciência de que hoje em dia milhões de animais criados industrialmente são sacrificados diariamente sem qualquer acompanhamento ou contexto espiritual – ao passo que os sacrifícios e rituais dos nossos antepassados envolviam um pequeno número de criaturas e uma consciência profunda da dádiva que o animal estava a conceder ao ser sacrificado. Parece que os animais eram enterrados cerimonialmente como uma acção de graças nos silos de cereais subterrâneos quando estes deixavam de ser úteis e eram selados. É possível que se tenham feito rituais semelhantes com os animais que acompanhavam os mortos ou que eram enterrados em altares ou santuários.
A importância dos animais na vida religiosa dos nossos antepassados também pode ser vista no facto de quatro dos oito festivais druídicos do ano, conhecidos como Festivais de Fogo, estarem particularmente ligados à vida campestre da pastorícia e e da agricultura, e sabe-se que têm sido celebrados durante pelo menos os últimos 7.000 anos. O Imbolc, no dia 1 de Fevereiro, é o tempo do nascimento dos cordeiros, dos vitelos e das primeiras sementeiras. O Beltane, no dia 1 de Maio, assinala o início do Verão, quando os rebanhos são levados para as pastagens altas. O Lughnasadh, no dia 1 de Agosto, marca o início das colheitas e o Samhuinn, no dia 1 de Novembro, assinala o princípio do Inverno, quando os animais são trazidos até aos vales e se fazem as matanças para a carne que deve ser conservada.
Xamanismo e Animais de Poder.
Trabalhar com animais de poder é uma característica central do Xamanismo e podemos encontrar inúmeros elementos xamânicos intricados na filosofia e na prática do Druidismo.
Michael Harner, uma autoridade mundial em Xamanismo, fala do caminho xamânico como algo que se poderia definir como um método para abrir uma porta e entrar numa realidade diferente. Uma parte significativa da cerimónia e da meditação Druídicas tem como objectivo viajar até outras realidades, bem como a palavra “Druida” se relaciona com palavras que significam “carvalho” e “porta” – sendo que o símbolo da porta ou portal é central nos ensinamentos Druídicos.
Joseph Campbell, o grande mitógrafo, mostrou-nos que existe um conjunto de características que distingue a arte de um xamã. Estas incluem: a dança ritual, a posse de uma vara ou bordão, a dança extática, o uso de uma vestimenta animal, a identificação com um pássaro, veado ou touro, tornar-se senhor dos animais de caça e das iniciações e o controlo de um animal mágico ou “familiar”. Na literatura druídica, existem vestígios de possíveis danças rituais nas antigas danças folclóricas e existem numerosas referências às varas e bordões druídicos e a estados alterados de consciência ou de êxtase. Todas as restantes características mencionadas por Campbell relacionam-se com animais e todas estão presentes na tradição druídica. Já abordámos o uso de trajes animais, tais como o veado ou o pássaro. Os druidas eram muitas vezes identificados com animais: eram apelidados de víboras ou leitões, dizia-se que tinham o “conhecimento do grou, do corvo ou do pássaro” ou recebiam nomes como Mathgen, que significa Nascido-de-Urso. Os veados e os touros são particularmente importantes no Druidismo – o veado é um mensageiro do Outro Mundo, montado pelo sábio Merlin, e o touro é sagrado ao deus Taranis, o beneficente deus do céu, do trovão, do relâmpago e do carvalho. O touro tem uma presença proeminente na música sagrada do Druidismo – eram ritualisticamente usados chocalhos de bronze com forma de testículos de touro, assim como cornos de bronze, que foram encontrados um pouco por toda a Grã-Bretanha e Irlanda, que muitas vezes se assemelham a cornos de touro. Estes últimos, quando tocados com o método de respiração circular usado pelos tocadores de didgeridoo, soam como o bramir dos touros. Encontramos a imagem do “senhor dos animais de caça” na iconografia e na literatura celtas. Podem ser vistas imagens de Cernunnos ou do Senhor da Caça tanto na Grã-Bretanha como em França e a imagem avassaladora do senhor de todos os animais aparece no Mabinogion galês. Por fim, o controlo de um animal mágico ou familiar relaciona-se habitualmente com um atributo da bruxa no folclore britânico, sendo a lebre, a rã e o gato citados como os familiares mais comuns. Existem muitas ligações históricas entre o Druidismo e a Bruxaria.
O Outro Mundo Celta
Um ponto central na mundivisão druídica é a crença de que o mundo material em que vivemos corresponde apenas a um nível ou plano de existência. Por detrás e para além deste mundo fica o Outro Mundo, o mundo dos poderes e das potências, dos espíritos e das forças que nos podem guiar e ajudar, se simplesmente conseguirmos reconhecer a sua existência e aceitar a sua realidade.
Os animais, em particular, são reverenciados pela sua capacidade de estabelecer uma ponte entre estes dois mundos. Eles podem trazer-nos mensagens do Outro Mundo e agir como nossos guias nesse reino, quando nos despojamos dos nossos corpos na morte. Porque eles têm simultaneamente uma forma espiritual e uma forma física, podem ser os nossos guardiães e protectores, mesmo quando não estão fisicamente presentes. Embora cada animal tenha o seu próprio caminho para o Outro Mundo, um estudo dos animais aqui descritos neste Oráculo irá demonstrar que eles formam determinados grupos que se adequam particularmente a certas funções: alguns são mais adequados como guardiães e protectores, outros como curandeiros, guias, professores, transmutadores de forma ou familiares. Pode encontrar um guia relativo a estas diferentes categorias na página 163 d'O Oráculo Animal dos Druidas. É interessante reparar que a grande maioria destes animais são considerados sagrados à Deusa.
Animais Interiores, Animais de Poder, Guias Totémicos.
Trabalhar com o Oráculo Animal pode colocar-nos em contacto com quatro tipos diferentes de animais. Primeiramente, pode despertar-nos para a beleza do animal no mundo físico, levando-nos a descobrir mais acerca da sua vida e dos seus hábitos. Em segundo lugar, pode pôr-nos em contacto com os nossos “animais interiores”. De alguma forma, os animais agem como símbolos ideais ou imagens dos nossos medos e ânsias mais profundas ou de partes da nossa psique que foram negadas, reprimidas ou simplesmente negligenciadas. Ao acolher e nutrir os animais que entram na nossa consciência através do Oráculo, em sonhos, meditações ou divagações, enriquecemos o nosso mundo interior e descobrimos um caminho de crescimento pessoal que está em perfeita sintonia com o mundo natural.
Em terceiro lugar, existem animais de poder. A tradição druídica, tal como outras vias indígenas, acredita que os animais também existem sob forma espiritual no Outro Mundo e que, por vezes, esses animais podem visitar-nos – para nos dar energia ou cura, inspiração ou conselhos. Porque cada um deles tem um poder específico, dom ou “remédio”, eles são geralmente chamados de “animais de poder”.
O quarto tipo de animais é conhecido como “totem”. Se optarmos por trabalhar com animais de poder, podemos acabar por desenvolver uma relação especial com um deles ou mais. Iremos sentir muitas vezes a sua presença na nossa consciência – guiando-nos, ensinando-nos e ajudando-nos. Podemos então dizer que estes animais de poder se tornaram os nossos “totens” ou “familiares”.Philip & Stephanie Carr-Gomm.
sábado, 20 de julho de 2013
Stairway To Heaven. Led Zeppelin
Escadaria Para O Paraíso
Há uma senhora que tem certeza de que tudo o que reluz é ouro
E ela está comprando a escada para o céu
Quando ela chega lá ela sabe se as lojas estiverem todas fechadas
Com uma palavra ela consegue o que veio buscar
E ela está comprando a escadaria para o paraíso
Há um aviso na parede, mas ela quer ter certeza
Porque você sabe, às vezes as palavras têm duplo sentido
Em uma árvore a beira do riacho há um rouxinol que canta
Às vezes todos os nossos pensamentos estão vazios
Oh, isso me faz pensar
Oh, isso me faz pensar
Há algo que sinto quando olho para o oeste
E meu espírito chora por liberdade
Em meus pensamentos eu vejo anéis de fumaça atravessando as árvores
E as vozes daqueles que observam
Oh, isso me faz pensar
Oh, isso me faz pensar
E é sussurrado que logo, se todos entoarmos a canção
Então o flautista nos levará à razão
E um novo dia nascerá para aqueles que chegaram lá
E a floresta irá ecoar com gargalhadas
Se ouvir barulho em seus arbustos, não se assuste
É só uma limpeza do inverno para a chegada da primavera
Sim, há dois caminhos que você pode seguir, mas na longa caminhada
Ainda há tempo de mudar o caminho que você segue
Oh,e isso me faz pensar
Sua cabeça lateja e não para nunca
Caso você não saiba, o flautista está te chamando para se juntar a ele
Querida moça, você ouve o vento que sopra?
E você sabia que sua escadaria repousa no vento sussurrante?
E conforme seguimos por essa estrada
Com nossas sombras mais altas que nossas almas, lá caminha uma moça que todos conhecemos
Que tem um brilho branco e quer mostrar
Como tudo ainda vira ouro, e se você ouvir com muita atenção
A canção finalmente chegará até você
Quando todos são um e um é o todo, yeah
Pra ser agitado e não rolar
E ela esta comprando a escadaria para o paraíso
A maldição de Tutancamon.
Rainer Sousa
As lendas e mitos que cercam as pirâmides atraem muitas pessoas e reforçam o lado misterioso que cerca a antiga cultura egípcia. Esse mistério começou a ser instigado com a febre de escavações e expedições arqueológicas que tomaram conta das antigas cidades egípcias. Em 1923, um grupo de pesquisadores comemorou a descoberta da tumba de um faraó com mais de 3000 anos de existência.
Este faraó era o lendário Tutancamon, que teve sua múmia encontrada ao lado de artefatos em ouro, bacias cheias de grãos e uma inscrição egípcia prometendo que a morte afligiria todo aquele que viesse a perturbar o sono do faraó. Mesmo com seu tom ameaçador, aquele e outros avisos não foram capazes de sanar a cobiça dos saqueadores de tumbas que violaram o descanso de diversas outras múmias. Será que a maldição atingiria aqueles que ignoravam o silencioso aviso?
Em meio a tantas lendas, o arqueólogo Howard Carter resolveu embrenhar-se na região do Vale dos Reis à procura dos artefatos pertencentes a algum faraó egípcio. Chegando por ali por volta de 1916, a equipe liderada por esse pesquisador não acreditava nos avisos que diziam ser impossível encontrar algum tesouro arqueológico entre tantas escavações inacabadas. Seis anos depois, Howard ainda não havia conseguido encontrar pistas de um desconhecido rei egípcio que havia sido enterrado naquela região.
Obcecado por suas hipóteses, tentou organizar uma última escavação em uma região ocupada por algumas cabanas. Depois de remover as rudimentares construções do local, as primeiras escavações foram presenteadas com o encontro de uma escadaria. Alguns dias depois, a equipe de Carter percebeu que se tratava de um acesso a uma passagem obstruída. Aquela descoberta impulsionou um trabalho mais intenso que, logo em seguida, desbloqueou um corredor que dava acesso a uma outra porta.
A porta possuía um lacre visivelmente quebrado e, posteriormente, reconstruído. Tal indício diminui as expectativas de Howard Carter em encontrar um tesouro arqueológico intacto. Depois vencer o obstáculo de uma última porta, a equipe arqueológica deparou-se com uma sala abarrotada de artefatos de grande detalhe e um trono revestido em ouro. Nessa sala percebeu a existência de uma outra porta onde, por uma fresta, identificou-se um novo cômodo.
Após essas descobertas, Carter teve a astúcia de fechar os acessos àquele local e lançar um monte de entulho na via de acesso a escadaria. Meses depois, levantou uma maior quantidade de recursos e especialistas para trabalharem naquele grande achado. Voltando à primeira sala, retirou e catalogou todos os seus objetos. Dessa vez, abriu o segundo cômodo e lá deu de cara com uma enorme urna funerária que ocupava quase todo o espaço do lugar.
Em quase três meses de trabalho, removeu outras três urnas menores depositadas dentro da urna maior. No interior da última urna descobriu um pesado sarcófago feito em pedra. Após contar com o auxílio de um guindaste para remover o tampo de pedra, Howard Carter retirou um véu de linho que cobria uma bela máscara mortuária feita em ouro, vidro e pedras coloridas; e um ataúde no formato de um corpo. Depois disso, duas novas camadas de máscaras e ataúdes foram retirados do interior do sarcófago.
Passados tantos obstáculos, a equipe de arqueólogos vislumbrou o corpo do faraó Tutancamon queimado e enrijecido pelas resinas utilizadas em seu processo de mumificação. A mais valiosa descoberta arqueológica da época foi alcançada depois de anos de dedicação. No entanto, a riqueza da descoberta reavivou os rumores da famosa maldição de Tutancamon. Já na primeira vez que descobriu a escadaria, o canário de Carter foi comido por uma cobra, indicando o primeiro mau presságio.
Na época em que a tumba foi descoberta, o empresário Lorde Carnavon – financiador da equipe de Carter – foi um dos primeiros a conhecer o sarcófago. Logo em seguida, o empresário teve uma ferida infecciosa provocada pela picada de um mosquito. O estado febril acabou levando-o à morte em poucos dias. Antes de morrer, disse à irmã que Tutancamon o havia convocado. No dia em que faleceu, o cachorro do empresário foi vítima de um enfarte fulminante.
A notícia da morte de Lorde Carnavon logo agitou os esotéricos e supersticiosos sobre as maldições daquela tumba faraônica. Depois do ocorrido, Arthur Mace – integrante da equipe de Carter – morreu repentinamente no mesmo hotel em que Carnavon passou seus últimos dias. Joel Woolf, dono das primeiras fotos de Tutancamon, e Richard Bethell, secretário de Carter, também faleceram em condições inexplicáveis. Nessa mesma funesta coincidência se juntaram a irmã e a mulher de Carnavon.
Ao longo de seis anos após a descoberta, trinta e cinco pessoas ligadas à descoberta da múmia de Tutancamon morreram em condições misteriosas. Para combater as lendas e explicações sobrenaturais, cientistas levantaram a hipótese de que alguma substância tóxica ou fungo venenoso fora criado na época para que ninguém viesse a profanar aquela sala mortuária. Outros ainda chegaram a afirmar que os egípcios já conheciam a energia atômica e teriam depositado urânio nas tumbas.
Durante o século XX, o alvoroço causado pela maldição das tumbas acabou perdendo sua força mediante outras tranqüilas descobertas arqueológicas. Mesmo que as explicações científicas para as tragédias fossem plausíveis, o desencadear de tantas mortes não consegue ser explicado satisfatoriamente como uma simples eventualidade. O desconhecido ainda encobre esse episódio.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Silêncio – Clarice Lispector.
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
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