contos sol e lua

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Durga - Dakini.


Quando Mahishashura, o búfalo demônio, ameaçava destruir o mundo, os Devas que tinham os poderes de detê-lo juntaram seus poderes (Shakti), e criaram Devi Durga, que com sucesso destruiu o demônio. Durga é a protetora de lei e da ordem (Dharma), e a destruidora do mal. Durga está identificada próximo com Shakti, e, como tal, é a contra-forma feminina de Siva. Ela é a guardiã protetora sempre atenta, tanto feroz como no amor. Ela possui dez braços, três olhos, e monta um leão ou um tigre. O Durga Puja é celebrado em toda a Índia como um dos mais importantes festivais.A deusa Durga representa a força do ser supremo que preserva a ordem moral e a correção da criação. A palavra sânscrita durga significa a força ou o lugar protegido, difícil de ser alcançado. Durga, também chamada de divina mãe, protege da ação dos demônios e da miséria. Ela destrói as forças do mal como inveja, ira e orgulho. Sua adoração é muito popular entre os hindus. Ela é chamada de muitos outros nomes, como Parvati, Ambika e Kali. Na forma de Parvati, ela é conhecida como a divina esposa do deus Shiva e a mãe de seus filhos, Ganesha e Karttikeya.

Simbolismos associados à figura e Durga:

Durga veste roupas vermelhas. A cor vermelha simboliza ação. Sua aplicação na vestimenta indica que Durga está sempre ocupada destruindo o mal e protegendo da dor e sofrimento.

O tigre simboliza a força ilimitada. Durga montando um tigre indica sua força ilimitada, seu poder de proteção da virtude e destruição do mal.

Os dezoito braços de Durga significam a força combinada das nove encarnações do deus Vishnu (que apareceu na terra em diferentes tempos no passado). A décima encarnação, a Kalkin (um homem em um cavalo branco), ainda está por vir.

O som que emana da concha é o som sagrado da sílaba AUM, que é o som da criação. Uma concha em uma das mãos de Durga significa a última vitória da virtude sobre o mal e do certo sobre o errado.

As armas nas mãos de Durga passam a idéia de que apenas um tipo de arma não é suficiente para a destruição de todos os tipos de inimigos. Por exemplo, orgulho precisa ser destruído pela humildade, o egoísmo pelo desapego e o prejuízo pelo auto-conhecimento.Wikepédia.

A DANÇA CÓSMICA.


Sim, o universo é uma dança. E nós somos os dançarinos que participam deste evento mágico. A dança e os dançarinos existem juntos. Como haverá dança sem o dançarino? E como haverá dançarino sem dança? Deus e a criação existem juntos, sempre existiram, e sempre existirão. Universos aparecem, universos desaparecem. Mas Aquilo que deu origem, a fonte de energia principal que deu início ao aparecimento simplesmente não desaparece, porque é Eterna, está fora do tempo, está fora do espaço. Apenas Isto existe independentemente de qualquer coisa. Deus Pai existe além de tudo. Deus Filho é a criação. A criação é passageira. Deus Pai é Eterno.

O que é Eterno sempre foi chamado de simplesmente luz. A escuridão vem a vai. Ela é uma ausência temporária da luz. Mas a luz permanece. Escuridão é apenas ausência de luz.

Muitos de nós ainda estamos fora do foco principal da espiritualidade. Sofremos e alimentamos nossos problemas, porque simplesmente não sabemos viver sem eles. Mantemos o foco no mundo relativo do sofrimento, no mundo passageiro, e não olhamos com atenção e carinho para Aquilo que sempre permanece, todo o instante, e é a fonte de tudo que há.


Se escuridão é falta de luz, o que você precisa? Simplesmente aprender uma coisa muito bela e muito simples: aprender a focar o Eterno, exatamente no momento presente, exatamente aqui.

Aprender a focar a fonte da luz é o que mestres e professores espirituais tem chamado de meditação. E esta luz está disponível onde Deus está. Onde Deus estaria senão aqui-agora o tempo inteiro? Mas, então, porque nos sentimos tão separados de Deus e da vida? Porque todos os conceitos de Deus que nós aprendemos na sociedade nos fizeram separar-se Dele, e não aproximar-se Dele.

Nós aprendemos que Deus está distante, em algum lugar, depois da morte, julgando nossos atos bons e maus. Que infantilidade! Nós simplesmente criamos um Deus humano com apegos e aversões, e então vivemos com medo de nós mesmos. Criamos um Deus a partir de nossas neuroses. É por isso que Niesztche disse: “Deus está morto”. É claro que ele estava se referindo ao Deus criado pelo homem, fabricado pela mente humana e sua sede de poder e controle. Sim, temos de enterrar aquele Deus castigador, aquele Deus vingativo ao qual temos de temer. Este Deus não pode ser o Deus real, porque o Deus real não pode ser entendido pelo pensamento. O Deus real é Amor. Pelo pensamento apenas coisas mundanas e culturais podem ser entendidas. Deus não precisa ser entendido, apenas vivido. Você não precisa entender o amor, não precisa escrever tratados sobre o amor. Você tem de viver o amor. Deus é o mistério da sua natureza. Ele não está distante de você, porque em última instância, ele é a única coisa que existe. Os universos vêm e vão, os corpos vêm e vão, a mente vêm e vai, mas aquilo que deu origem a tudo isso permanece. Meu corpo, pensamentos e sentimentos estão sempre mudando. Mas há algo que posso verificar agora que não está mudando e nunca mudará: esse algo é Consciência Pura, ou o Eterno em mim. Reconhecer isto é estar em paz.

Naseeb é terapeuta, professor de meditação, e palestrante.

Terra.


Aceita a minha homenagem, Terra, enquanto faço a minha última vénia ao dia.
Ajoelhado aos pés do altar do poente

Tu és poderosa, e apenas reconhecível pelos poderosos;
Tu equilibras o encanto e a severidade,
Misturando o masculino com o feminino,
Trazendo à vida humana o insuportável conflito.
A taça que a tua mão direita enche com nétar
É esmagada pela tua mão esquerda;
O teu pátio ressoa com o teu riso trocista.
Tornas o heroísmo difícil de alcançar;
Toda a excelência custosa
Não tens misericórdia com aqueles que merecem misericórdia.
Um incessante combate oculta-se a teus pés:
As tuas colheitas e frutos são coroas de vitória ganhas na batalha.
Terra e mar são os teus cruéis campos de batalha –
A vida proclama o seu triunfo no rosto da morte.
A civilização finda os seus alicerces na tua crueldade:
A ruína é a condenação exata para qualquer falta.

No primeiro capitulo da tua história os Demónios eram supremos –
Rudes, bárbaros, brutais
Aos seus dedos toscos e grossos faltava arte;
Com clavas e malhos nas mãos armaram motins do mar e nas montanhas.
O seu fogo e o seu fumo agitaram violentamente o céu até ao pesadelo;
Eles controlaram o mundo inerte;
Eles cegaram o ódio da Vida.

Os deuses vieram a seguir; com os seus feitiços e subjugaram os Demónios –
Despedaçada foi a insolência da matéria
A Terra-Mãe estendeu no seu manto verde:
Nos picos do Este estava a Aurora;
Nas costas Oeste caiu A Noite
Derramando a Paz no seu cálice

Os Demónios foram humilhados
Mas a barbárie primordial manteve as suas garras na tua história.
De repente podia invadir a ordem com a anarquia –
Dos negros esconderijos do teu ser
Pode surgir como uma serpente.
A sua loucura está no seu sangue
Os feitiços dos deuses ressoam no céu e no ar e na floresta,
Cantando solenemente dia e noite; alto e baixo;
Mas das regiões sob a tua superfície
Às vezes os Demónios semidomesticados levantam os seus capelos –
Eles ferem-te profundamente e às tuas criaturas
Arruinando a tua própria criação.

No teu assento sobre o bem e o mal,
À tua vasta e terrível beleza,
Ofereço hoje a minha homenagem de vida ferida.
Toco o teu enorme e sepultado depósito da vida e da morte,
Sinto-o através do meu corpo e do meu pensamento.
Os cadáveres de inúmeras gerações de homens jazem amontoados no teu pó:
Eu também acrescentarei alguns punhados, a medida à medida da final das minhas dores e alegrias,
Acrescentando a esse enorme absorvente, a essa forma absorvente, a essa fama absorvente,
A esse silencioso monte de pó.

Terra, presa à pedra ou voando entre as nuvens;
Absorta na medição silenciosa da cordilheira
Ou ruidosamente como o bramido de insones ondas do mar;
És a beleza e a fertilidade, o terror e a fome.
Por um lado acres de searas, inclinando-se com a maturação,
Limpas do orvalho de cada manhã por delicados raios de sol –
Ao poente também, oferecendo na sua ondulante verdura a Alegria, a Alegria;
Por outro lado, nos desertos insalubres, secos, estéreis,
A dança de espetros entre ossos de animais espalhados.

Contemplai as tuas tempestades Baisakh desceras velozmente como falcões negros
Rasgando o horizonte com bicos de luz relampejante
Com chicotada da cauda nas arvores
Até estas caírem desesperadas no chão;
Telhados de colmo soltam-se
Fugindo do vento como condenados das suas correntes.

Mas em Phalgun vi a quente brisa do Sul,
Propagar todas as rapsódias e solilóquios do amor
No seu perfume de flor e manga;
Vi o vinho espumante do Céu transbordar da taça da lua;
Ouvi sebes submeterem-se bruscamente à agitação do vento
E estalarem em ofegantes murmúrios.
Tu és gentil e feroz, antiga e renovada;
Emergiste do fogo sacrificial da criação original há muito, muito tempo.
A tua peregrinação cíclica está preparada com vestígios sem sentido da história;
Abandonando as tuas criações sem remorsos, juntas umas sobre as outras,
Esquecidas.

Guardião da Vida, tu alimentas-nos
Em pequenas gaiolas de tempo fragmentado,
Fronteiras de todos os nosso jogos, limites reconhecidos.

Hoje, estou à tua frente sem ilusões:
Não te peço a imortalidade à tua porta
Para os muitos dias e noites que passei a tecer as tuas grinaldas.
Mas se eu tivesse dado real valor
Ao teu pequeno assento um minúsculo segmento de uma das Eras
Que se abrem e fecham como clarões nos milhões de anos
Da tua órbita solar ;
Se eu tivesse ganho nos tribunais da vida algum sucesso,
Então marcaria a minha fronte com um sinal feito da tua argila –
Para ser apagado a tempo pela noite
Na qual todos os sinais desaparecem no desconhecido final.

Ó longínqua, impiedosa Terra,
Antes de eu ser completamente esquecido
Deixa-me colocar a minha homenagem aos teus pés.
Rabindranath Tagore.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Caminho de Santiago - A Lenda.


A Lenda

Muito se tem contado nos últimos anos acerca do Caminho de Santiago. Depois de ter sido um caminho percorrido por peregrinos na Idade Média, eis que ganhou novo fôlego mercê, principalmente, do livro de Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”. Este livro teve a virtude de despertar em muita gente a imaginação e a busca do fantástico, como se fazer o Caminho, percorrer os seus mais de mil quilómetros a pé, operasse uma transformação profunda na personalidade de cada um. É facto que esta transformação por vezes acontece, mas limita-se a casos muito raros de pessoas realmente empenhadas na busca do seu verdadeiro Eu.

De um caminho iniciático nas suas origens remotas, transformou-se numa rota turística, levando as pessoas a fazerem-no sem saberem bem porquê, por curiosidade e porque virou moda. Para Fulcanelli, o misterioso autor do livro “O Mistério das Catedrais”, O Caminho é uma viagem simbólica que todos os filósofos e alquimistas devem fazer. Nas suas palavras, “A concha (vieira) de Compostela (…) serve na simbólica secreta paras designar o princípio Mercúrio (a água benta dos filósofos), também chamado Viajante ou Peregrino. É usada misticamente por todos os que empreendem o trabalho e procuram obter a estrela (compos stella)”.

O termo peregrino apareceu na Idade Média para designar os cristãos que viajavam até Roma ou Jerusalém para visitar os lugares sagrados ou, como auto punições para pagarem promessas ou cumprirem punições canónicas. A partir mais ou menos do século IX, Compostela passou a estar incluída nos lugares de peregrinação do cristianismo. No entanto, como veremos em próximas crónicas, o Caminho de Santiago não é de origem cristã, é muito mais antigo que o próprio cristianismo. Nesta iremos falar da lenda, ou das lendas, que há várias.

A lenda principal diz-nos que Tiago, o Maior, para o distinguir do outro Tiago, era um dos apóstolos preferidos de Jesus, juntamente com João, de quem era irmão, ambos filhos de Zebedeu e Maria Salomé. Depois da crucificação de Jesus, Tiago terá ficado em Jerusalém para continuar a obra do Mestre, tendo a sua acção provocado a ira de Herodes Agripa que terá dado ordem para o decapitarem. Não se sabe bem se morreu por decapitação ou apedrejamento, prática muito comum entre os judeus. O que é facto é que morreu em Jerusalém, e a lenda começa, justamente, após a sua morte.

Alguns dos seus discípulos meteram o corpo num barco e deixaram-no à deriva no Mediterrâneo, entregando à Divina Providência o destino dessa tumba flutuante. Foi assim que, à deriva, o barco atravessou todo o Mediterrâneo, passou o Estreito de Gibraltar e subiu pelo Atlântico, para ir encalhar na Galiza, num local chamado Iria Flávia, que depois se veio a chamar Padron, no rio Ulla.

Parece que alguns dos discípulos embarcaram no mesmo barco à deriva. Chegados à Galiza, ao reino que na altura se chamava Louve e que era governado por uma rainha que também se chamava Louve, desembarcaram o corpo e colocaram-no sobre uma pedra enorme, que se derreteu sob o corpo moldando um belo sarcófago.

Os discípulos foram pedir à rainha um local apropriado para sepultar o corpo, contando-lhe os muitos milagres que Tiago realizara, como o milagre da viagem e de terem aportado àquela costa, e o milagre da pedra se moldando para formar a tumba.

A rainha mandou-os falar com o rei de Espanha e este, ao fim de longo diálogo, acabou por autorizar que o corpo fosse sepultado naquelas terras.

Louve ficou extremamente irritada quando os discípulos lhe transmitiram a autorização do rei de Espanha. Deu-lhes então um carro puxado por dois bois para transportar o corpo e disse-lhes que escolhessem o lugar que mais lhes agradasse. Mas os bois eram dois touros bravos. Os discípulos, que não desconfiavam de nada, levaram o corpo montanha acima e deram de caras com um dragão que cuspia fogo e ameaçava matá-los. Fizeram o sinal da cruz e, imediatamente, o dragão se partiu pelo meio. Quando viram que os bois eram touros selvagens, fizeram novo sinal da cruz e os touros se tornaram mansos como cordeiros.

Então os bois, sem que ninguém os guiasse, levaram o corpo para o palácio da Louve que, ao ver os prodígios que tinham acontecido, dedicou o seu palácio a Santiago.

Esta é talvez a lenda principal, que deve muito à imaginação e fantasia. O reino de Louve, assim como a rainha do mesmo nome, provavelmente nunca existiu. Como veremos mais tarde, “Louve” tem um significado especial na tradição galaica. Não é possível, mesmo entregue à Divina Providência, que um barco saindo da Palestina à deriva possa ter atingido a costa da Galiza. O melhor que poderia ter acontecido era encalhar na praia de uma das muitas ilhas gregas, na costa norte de África, ou na costa do sul da Europa. Também não é possível que os discípulos tenham obtido autorização do rei de Espanha, pois esta não existia na altura.

Uma variante da lenda diz que, após o barco ter aportado na ria, o corpo foi transportado para uma colina que hoje se chama Pico Sacro, e aí teria sido sepultado. Depois terá sido de novo transladado para outro local chamado Arca Marmorica, perto da localidade de Amorea, e ficou esquecido durante vários séculos.

Somente no ano de 813 ou 830, no reinado de Afonso-o-Casto, o corpo foi reencontrado por um eremita chamado Pelágio, cujo nome significa “homem do mar”. Assim, por milagre, Pelágio foi informado do local onde se encontrava a sepultura de Tiago por umas luzes sobrenaturais que dançavam sobre o túmulo. Outra versão diz que se tratava de uma estrela a qual, como a estrela de Belém, teria ficado pairando sobre o local do túmulo do apóstolo. Daqui o nome de Compostela (campo da estrela).

Santiago transformou-se no padroeiro das Espanhas quando apareceu na batalha de Clavijo, em 844, travada contra os mouros, brandindo uma espada flamejante, espalhando o morticínio entre os infiéis e levando as forças do rei Ramiro à vitória, salvando para o cristianismo todo o norte da Península Ibérica.

Apesar da lenda poder contribuir para a solidificação das estruturas da Igreja na região e em todo o mundo cristão, não deixou, no entanto, de provocar algumas reticências nos meios tradicionais cristãos. Por este motivo, foi proposta uma outra variante em que os discípulos teriam transportado o corpo dos arredores de Granada, no sul da Península, tentando assim tornar mais plausível a viagem do barco á deriva, pois era mais lógico ter encalhado no sul, na costa mediterrânica, do que na costa atlântica da Galiza.

Há quem afirme também que Tiago andou pregando pela Península, acompanhado de poucos discípulos, dado o seu carácter irascível, e por um cão. Veremos mais tarde o significado do cão. É claro que esta ideia não tem qualquer base de suporte, uma vez que historicamente está estabelecido que Tiago nunca deixou a Palestina.

Uma lenda não é um documento histórico, nem é História, é apenas um conjunto de elementos retirados da tradição que vai sendo construído ao longo do tempo por via das crenças e do imaginário popular. Uma lenda não é criada por ninguém, cria-se a si própria recebendo os contributos da ansiedade, dos sonhos, da fantasia do ser humano que, espera sempre um milagre ou algo de fantástico para compensar as dificuldades da sua vida. Depois as lendas podem ser moldadas ou utilizadas para servirem a determinados objectivos. Evidentemente que o bispo de Iria Flávia, que oficializou a descoberta do túmulo de Tiago, não queria saber se a chegada do barco milagroso era verdadeira. Para ele, a lenda servia perfeitamente aos seus desígnios de transformar o local no campo sagrado onde repousavam os restos do apóstolo Tiago. É deste modo que se estabeleceu também a concha (vieira) como símbolo do peregrino a Santiago de Compostela.

Segundo algumas versões, o barco, quando encalhou na margem do rio Ulla, estava coberto dessas conchas. Segundo outras, o barco não conseguia atracar e assim, dois cavaleiros meteram-se à água para ajudar a tripulação e, quando saíram da água viram-se inteiramente cobertos de conchas.

Não importa saber que essas conchas não se fixam, não se colam a coisa nenhuma, vivem móveis na lama marinha. Mas é interessante saber que essas conchas, vieiras para os peregrinos, se chamam “mérelles”, do nome de uma aldeia marítima perto de Noya. É interessante também saber que “mérelles” significa “mãe da luz”.

Tudo isto, a viagem milagrosa, a vieira, a estrela, foi sendo acumulado para transformar o local no mais importante centro de peregrinação da cristandade, sobrepondo-se a Jerusalém pelas dificuldades e pelos perigos em demandar esta cidade.

Esta lenda tem o mesmo valor que muitas outras, como a lenda do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, ou como a lenda da busca do Graal. Não corresponde a factos concretos mas, pode conter alguns elementos de verdade, distorcidos pelo tempo, pelas crenças e pelo imaginário. De notar que o barco com o corpo de Tiago surge do mar e entra numa ria da Galiza; o túmulo foi descoberto por um homem do mar, Pelágio; o símbolo do peregrino é uma concha marítima. O mar, como veremos em futuras crónicas, tem particular importância na cultura e tradição da Galiza.

Mas, há sempre um mas nestas coisas em que uma pesquisa mais profunda revela, talvez tenha sido, efectivamente, descoberto um túmulo contendo um corpo, ou os restos dele. Só que esse corpo, com toda a probabilidade, não era o do apóstolo Tiago.

Nos seus primórdios a Igreja viu-se a braços com uma infinidade de desvios à sua ortodoxia, que foram aparecendo por todo o mundo cristão da altura. Esses desvios foram chamados de heresias e, para combatê-los, foram realizados inúmeros concílios e sínodos. Os elementos considerados heréticos não sofriam outra pena além da expulsão e excomunhão. Só mais tarde a Sagrada Inquisição passou a assá-los em fogueiras.

É muito provável que o corpo descoberto por Pelágio fosse o do bispo Prisciliano, que viveu, mais ou menos, entre 340 e 385. Prisciliano criou uma doutrina completamente diferenciada e adversa da doutrina ortodoxa. O seu movimento, que durou ainda alguns séculos depois da sua morte, foi chamado de “priscilianismo”. Era um movimento que poderíamos chamar de gnosticismo primitivo e teve forte influência na Igreja da Galiza e do norte de Portugal.

Prisciliano era acusado de artes mágicas, de admitir mulheres em igualdade de condições com os homens, nos seus rituais e nas leituras da Sagrada Escritura. Era acusado do uso de ervas para fins medicinais e praticas abortivas. Era acusado também de ser um estudioso da astrologia cabalística.

Ao fim de vários concílios e sínodos, em que se procurou trazer Prisciliano de volta para o seio da doutrina oficial da Igreja, acabou por ser condenado à morte e decapitado, no ano 385, juntamente com seis dos seus discípulos, tornando-se assim o primeiro herege justiçado pela Igreja Católica.

Existe uma clara correspondência entre a lenda de Santiago e a história de Prisciliano. Não é credível que o corpo de Tiago tenha ficado oculto por oito séculos e só tenha sido descoberto em 813 ou 830. Tratando-se de quem era, um dos discípulos preferidos de Jesus, é lícito pensar-se que as primeiras comunidades cristãs da Galiza não esquecessem o local do seu sepultamento, mas que o transformassem rapidamente num lugar sagrado de veneração. Tratando-se do corpo de Prisciliano, dada a pressão da Igreja combatendo a heresia e a perseguição aos seus seguidores, é natural que a sua sepultura tivesse sido ocultada.

O priscilianismo ficou de tal modo enraizado na consciência colectiva da Galiza e na sua tradição, que há quem chame ao Caminho de Santiago o Caminho Prisciliano de Compostela. Há até um filme realizado por Luís Bunuel com esse nome, embora o seu verdadeiro título seja “A Via Láctea – O Estranho Caminho de Santiago”.

Manuel O. Pina.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Grande silêncio e a paz interior.


O Grande Silêncio é o nome de um documentário de 160 minutos, lançado em 2005, que retrata a vida da comunidade dos monges cartuxos em Isère, França, produzido por Phillipe Gröning. É uma meditação silenciosa sobre a vida monástica. Sem música à exceção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas ou quaisquer comentários. Evoca a passagem do tempo, das estações, o dia dos monges e as orações. É um filme sobre a presença do absoluto na vida de homens que dedicam a sua existência a Deus, no grande silêncio. O próprio cineasta diz que saiu mudado depois dos seis meses vividos no mosteiro. Que acontece quando mergulhamos no silêncio? O que muda em nós?

O silêncio como experiência e lugar de encontro é algo de revolucionário, e nunca reacionário. É preciso silenciar para ouvir. É preciso silenciar para recuperar a saúde física e mental. O mundo anda doente, pois vive um exagero de decibéis que ensurdecem e atordoam. Apatia ou resignação são os sinais da alienação de onde estamos e de quem somos. Isso tudo é fruto do barulho e da dispersão. A pessoa silenciosa ou taciturna é alguém que está além ou aquém das palavras. Tem um fio de prumo sobre sua cabeça. É alguém que vive em paz e transmite paz em palavras e atitudes. Dizem os árabes em um famoso ditado: "não abra a boca se o que tens a dizer não for mais belo que o silêncio". Essa é a mesma percepção de São Bento ao afirmar em sua Regra aos monges que: "... raras vezes se deve conceder, até aos discípulos mais perfeitos, licença para entreterem conversações, embora sobre assuntos bons, santos e edificantes, tão importante é o silêncio; porquanto está escrito: Falando muito não evitarás o pecado (Pr 10,19). E em outro lugar: A morte e a vida estão em poder da língua (Pr 18,21) (Regra de São Bento, capítulo VI, O espírito de Silêncio)".

Se lembrarmos das vidas de quatro personagens das religiões, vemos que se apresentaram como homens de Deus vivenciando largos momentos de fecundo silêncio e se puseram a falar o que lhes fora revelado no silêncio. Do judaísmo, Moisés e profetas como Oséias ou Elias fizeram a experiência do silêncio. No mundo islâmico, o profeta Muhammad nas grutas da Arábia Saudita ouve a fala do arcanjo Gabriel. No budismo os mestres espirituais, das escolas da China e do zen-budismo japonês encontraram o caminho da sabedoria. O próprio Jesus Cristo, filho de Deus Altíssimo é um primoroso exemplo de quem soube viver o silêncio em frequentes, longas e profundas experiências de oração, como descritas pelos evangelistas (Lc 6,12; Mt 14,23; Mc 1,35; Jo 17).

O silêncio está vinculado à proximidade do mistério e da intimidade com Deus. As coisas mais íntimas são sempre pronunciadas aos sussurros e murmúrios. Talvez seja por essa razão que o salmista diga na versão hebraica: "O louvor, para Vós, ó Deus, é silêncio (Salmo 65,2)". A louvação mais alta e mais verdadeira acontece quando suprimimos ou esgotamos as palavras. Penetramos o vasto universo do recolhimento interior e da contemplação de tudo o que existe. Nesse lugar e espaço de silêncio é que o Espírito pode fazer ressoar a Palavra Eterna e nos despertar de um sono que nos dispersava ou escondia nossa essência interior e a conexão com Deus.

Um caminho promissor que se abre, depois de um grande silêncio, é o caminho da oração. O monge João Cassiano (360-435) afirma de maneira sucinta: "é perfeita oração aquela onde o que está orando não se lembra de que orando está" ou ainda que a boa oração seja breve e silenciosa e manifeste-se por uma tensão ardente da alma, por um transbordar inefável do coração e por um entusiasmo insaciável do espírito (João Cassiano, Da oração, Vozes, 2008, p. 97). A prece cristã é um movimento interior que se realiza em etapas sucessivas e complementares: em um primeiro momento é sempre uma inspiração advinda do coração e da vida. Depois se torna respiração e conexão com a transcendência feita em um exercício leve e ao mesmo tempo vigoroso. Depois vem a transpiração e a expiração em que nos apresentamos para Deus com nossos anseios, dificuldades, necessidades e palavras para enfim atingirmos o ápice do caminho que é a surpresa que emudece e extasia. Nesse momento ouvimos as melodias celestes e os sons inefáveis que plenificam e reverberam em nosso coração e em nossa vida.

A oração cristã parte e nos leva ao silêncio. Santo Agostinho dizia que a oração é puro silêncio (Santo Agostinho, O Mestre XII, 39). Não é posse de Deus, mas um estar em Cristo para viver no seu Espírito e segundo as suas palavras. A oração cristã é a fé que fala. Não é um estar em si somente, embora necessite de um momento introspectivo. Não é um estilo meditativo, ainda que não se realize sem um caráter reflexivo e atento aos sinais que nos chegam pelos sentidos e pelo corpo. Não é só intelectual e cerebral, ainda que não possamos dizer que se reduza ao irracional ou inconsciente. Passa por momentos de duvidas e de incertezas, vividos como aridez e ausência de iluminação. É necessário que aconteça a abertura para a fidelidade que confia na esperança. E esse portal pessoal poderá abrir-nos ao Outro, aos outros e à natureza.

O silêncio é um estado de espírito bem como uma profunda atividade de amor. Caminhar de forma progressiva na escola do silêncio pede que estejamos sintonizados com Deus e sua revelação. Esse percurso é difícil, mas realizável. Foi chamado pelos místicos como o ascetismo do silêncio. Existem obstáculos no caminho que devem ser identificados. Estão fora e dentro de cada um de nós. Os obstáculos externos são aqueles superficiais que nos desviam do reto caminho. São como ruídos que prejudicam o foco e a comunicação verdadeira. Distraem e enervam, levando-nos ao estresse ou à repressão de medos e fantasmas. Exigem um olhar arguto e persistência mesmo depois de quedas. Os internos são aqueles obscuros e muitas vezes desconhecidos. É preciso contar com a graça de Deus para enfrentá-los e resistir. Exigem conversão e misericórdia, pois o silêncio interior favorece a comunicação e sua identidade veraz. Vencidos os obstáculos podemos penetrar em um estado agudo de felicidade, tal como o silêncio foi definido por Clarice Lispector. Dizia a poetisa: "Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras".

A Igreja cristã sempre cultivou o silêncio e faz recomendações constantes para que cuidemos dele em nossas celebrações e na vida cotidiana de nossos fieis. Assim a introdução geral da Liturgia das Horas proposta pelo Papa Paulo VI, em 01/11/1970 orienta que: "Nas ações litúrgicas deve-se procurar em geral que se guarde também, há seu tempo, um silêncio sagrado (SC 30); por isso, haja ocasião de silêncio também na celebração da Liturgia das Horas. Por conseguinte, se parecer oportuno e prudente, para facilitar a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal com a Palavra de Deus e com a voz pública da Igreja, pode-se intercalar uma pausa de silêncio, após cada salmo, depois de repetida sua antífona, de acordo com antiga tradição, sobretudo se depois do silêncio se acrescentar a coleta do salmo; ou também após as leituras tanto breves como longas, antes ou depois do responsório (Liturgia das Horas, CNBB, 1984, n. 201 e 202, p.56)".

O silêncio sempre foi muito apreciado pelos monges cenobitas ou pelos anacoretas (eremitas), não porque tivesse valor em si mesmo, mas porque permite uma abertura para a plenitude que se esconde por detrás das palavras. O silêncio amado e buscado pelos monges e pelos místicos é feito de preparação e de expectativa. É um reconhecimento explícito de que somos incapazes de falar sobre o que é fundamental ou dramático. O povo simples sempre diz quando está diante de uma grande felicidade ou diante de uma grande perda ou fraqueza: não tenho palavras para explicar ou dizer. Quando alguém fala de algo que mudou sua vida fala das espumas, mas nunca das correntes submarinas. Fala do que sentiu, mas pouco pode dizer do que de fato viveu. O não dito é muito mais poderoso que a palavra. Assim quando precisamos estar com alguém que tem uma grande dor, as palavras desvanecem e se atrofiam. O melhor é calar para compreender. O silêncio, nestes momentos, exprime melhor a adoração, o abandono e o fascinante que cada ser humano busca ardentemente. E nesta "noite do Espírito", que é hora de amor, decisiva e irrevogável, perceberemos que não fomos nem seremos abandonados. Descobriremos que "depois da hora do meu amor, envolta no Vosso silêncio, chegará o dia do Vosso amor, a visão beatífica. Por consequência, agora que não sei quando chegará a minha hora, nem sequer se ela já começou, preciso esperar no limiar do Vosso santuário e do meu; preciso libertar este lugar dos ruídos do mundo (Karl Rahner, Apelos ao Deus do silêncio, Lisboa: Ed. Paulistas, 1968, p. 40)".

Em todos os povos e culturas o tema do silêncio como porta para Deus, se fez presente. O poeta, músico e filosofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), ganhador do prêmio Nobel da literatura em 1913, tornou-se mundialmente famoso por seu livro Oferenda Lírica. Nele temos um belo poema sobre o silêncio que preenche o coração: "Se não falas, como vou encher o meu coração com o teu silêncio, e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada, com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá, a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta (Gitanjali, Paulus, 1991, p. 19)".

Os monges do Oriente propuseram um caminho de oração fascinante chamado de hesicasmo, que é um estado de silêncio orante. O hesicasta é alguém que vive um estado de silêncio interior acompanhado pela memória constante de Deus. Isso exigirá uma qualidade fundamental que é a pureza de coração (Como água na fonte, Monges beneditinos camaldolenses, Loyola, 2009, p.187). Um dos maiores místicos da Igreja grega, São Simeão, o novo teólogo (949-1022) do mosteiro de Mamas, recomendava: "Sente-se sozinho e em silêncio. Incline a cabeça, feche os olhos, respire suavemente e imagine que está olhando para dentro do seu coração. Faça sua mente, ou seja, seus pensamentos, passar da sua cabeça ao seu coração. Respire e diga: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim! Pronuncie essas palavras em voz baixa, movendo suavemente os lábios, ou pronuncie-as, simplesmente, em espírito. Tente afastar todos os outros pensamentos. Esteja tranquilo, seja paciente e repita essa frase tanto quanto puder (Relatos de um peregrino russo, Vozes, 2008, p. 42)".

Uma religiosa carmelita de Paris, irmã Maria-Amada de Jesus (1839-1874), compreendeu claramente o papel central que o silêncio interior deve exercer em nossas vidas para a vida feliz e íntegra. Ela dizia que a vida interior pode ser resumida em uma só palavra: silêncio! E ainda falar pouco às criaturas e muito a Deus, pois o silêncio com Ele é um silêncio da eternidade, da plena união da alma com Deus. Ela divide os degraus dessa subida espiritual em doze, que podem ser comparados aos dozes graus de humildade da regra de São Bento. Aqui estão esses passos pedagógicos de uma vida silenciosa: 1. Silêncio das palavras; 2. Silêncio de movimentos ou ações; 3. Silêncio da imaginação; 4. Silêncio da memória; 5. Silêncio diante das criaturas; 6. Silêncio do coração e dos sentimentos; 7. Silêncio da humildade ou do amor-próprio; 8. Silêncio da inteligência; 9. Silêncio do julgamento; 10. Silêncio da vontade; 11. Silêncio consigo mesmo; 12. Silêncio com Deus!

Cultivando o grande silêncio ouviremos o vento tocando rochedos, o mar atingindo a praia, pássaros cantando maviosas melodias, crianças balbuciando, amigos celebrando, pobres pedindo amor, doentes sofrendo, florestas crescendo e, sobretudo seremos capazes de auscultar a voz interior proclamando que o amor de Deus existe em nós, suave e inefável. Na voz da monja Maria-Amada de Jesus, poderemos então dizer: "Eu sou semelhante a um pequeno grão de areia, que espera na praia a onda que o fará mergulhar no oceano".
Prof. Fernando Altemeyer Junior
publicado na revista O Mensageiro de Santo Antonio - jan/fev. 2012, dos frades franciscanos conventuais de Santo André.

Devaneios 1.


Morro para tudo que não fui e tudo aquilo que não escolhi.

Quantas vidas não conhecerei? Quantos “eus” não saberei.

Cada minuto é um enterro, em cada piscar um morto.

Morro de mim incessantemente a cada idéia nova e a cada memória perdida.

fica um pouco de mim por onde passo, como fotografias soltas no chão. São corpos na estrada.



Não sou nem os cadáveres que ficaram, nem este que aqui está.

Sou uma escolha que escolhe mesmo nada fazendo.

Sou todos os caminhos que deixei de optar na estrada.

Sou a soma todas as vidas que morri. Infinitas mortes. Em infinitos mundos agora tão distantes.

Se escolher é viver não ter escolhido é morrer.

Só podemos fazer uma escolha por vez, mas “não escolhemos” infinitas escolhas de uma vez.

Por que são infinitos os caminhos, mas é única a escolha.

Mais morro que vivo. Sou um morto de possibilidades.

Morrem minhas crenças para que outras surjam

morre minhas células para que outras vivam.

Morre todos os amores de todas as mulheres que não amei para que uma floresça.

A cada letra que escolho deste texto morto, milhares de palavras não escolhidas são enterradas nos silêncio das frases não ditas.

Infinitas são as letras que não optei a cada instante que você lê estas palavras.

Eu morri para todas estas poesias.

Morri para os livros e para as bibliotecas.

Morri para a grama no parque, chapinhas em poças d’água.

Morri para o beijo que não te dei ontem e para as cerejas nos copos não bebidos.

Morri para os gritos e as declarações de amor.

Morri para tua mão sobre a minha e para o teu rosto no meu peito.

Morri para o cheiro podre e para o perfume que não usou.

Morri para o vestido branco que nunca teve e para o susto no espelho.



Morri para a falta de tempo de estar contigo e para todo o tempo que eu estive comigo.

Morri quando eu dormia, morri quando tu acordavas.



Morri para todos os teus sorrisos e lagrimas em todos os teus anos até aqui.



Morri para o teu passado morri para o meu futuro.



Morri de livre arbítrio.





Mas hoje, agora, neste momento, que já passou em dias, eu escolhi morrer para tudo apenas para estar com você.

Minhas mortes me levaram até aqui.



Assim como um herói que sacrifica inúmeras vezes sua vida para colher um breve momento eu morri para viver estes instantes com você ao teu lado.

Por que são destes momentos que nasce a vida,

e são destes instantes que se faz uma existência.Poema de Mauro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Deusa e o Cosmos.


A Grande Deusa-Mãe tem sido venerada por todos os povos em todos os tempos. Apesar de seus diversos atributos, títulos e poderes, todas as divindades femininas emanam de uma única fonte: do princípio de Vida do Universo. Essa realidade suprema é chamada “A Deusa” e sua qualidade essencial é conter tudo, estar em tudo.

Nos relatos a respeito da origem do mundo, fala-se da Criação emergindo de um caos preexistente, ou de um espaço sombrio, sem limites nem forma, designado às vezes pelo nome de “águas primordiais” e que se supõe conter a totalidade das potencialidades. Dessa totalidade caótica nascem entidades distintas que o espírito humano classifica como boas ou más. Assim, a mitologia criou a imagem de boas mães, como Sofia e a Virgem Maria, mas também criou as que são consideradas más, como as Górgonas com cabelos de serpentes cujo olhar petrifica, como Sekmet (Egito), sedenta de sangue, e outras figuras ambivalentes como Hera e Afrodite (Grécia), Kâlî (Índia), Hine-nui-te-po (Oceania) e muitas outras. Essa tendência da Deusa de representar os complementares contrários – o mundo ctoniano e o celeste – caos e ordem, obscuridade e luz, esterilidade e fecundidade, destruição e criação, etc. – é habitualmente simbolizada por imagens circulares que lembram o Oroboros, a serpente que engole a própria cauda. A imagem da lua que, durante o mês lunar, passa de uma fina claridade crescente à plenitude, da obscuridade à claridade e vice-versa, é também um símbolo universal da Deusa.

O espírito humano tende a fragmentar e a categorizar. Ao contrário, o mito da Deusa nos faz conceber um único princípio de vida, pois Seu corpo – o Cosmos – engloba os diversos estados da Vida, os diferentes estados da existência. Assim, nascimento e morte são fases distintas de um mesmo processo contínuo, em que nada morre, mas tudo se transforma.

A vida, a morte e o processo de regeneração.

A maior parte das mitologias divide o Universo em céu – onde habitam os deuses, Terra – onde estão os humanos, e as profundezas da Terra e do mar – onde fica o reino dos mortos. Os antigos mitos da humanidade, ou seja, os da Suméria e do Egito, falam de muitas deusas, como Ereskigal e Neith, que foram exiladas no inferno.

O mito sumério de Ereskigal e Inanna mostra bem a ambivalência do princípio feminino do universo em seus aspectos de vida e morte e a constante possibilidade de regeneração. Inanna desce aos infernos para fazer voluntariamente a experiência de sua própria morte e de sua regeneração. Antes, porém, de descer ao reino de Ereskigal, seu lado sombrio, ela deve atravessar sucessivamente sete portas e despojar-se, a cada vez, de uma peça de seu vestuário, abandonando, pouco a pouco, os sinais de seu poder. Nos infernos, Ereskigal fixa-a com seu olhar de morte, mata-a e suspende seu cadáver em um gancho. Só quando propõe que Dumuzi, seu muito amado filho e esposo, tome seu lugar, é que Inanna consegue deixar os infernos. Ereskigal é a rainha do “Grande Mundo de Baixo” enquanto Inanna é a “Rainha do Mundo de Cima”. Ereskigal divide os mesmos atributos com Inanna, simbolizando ambas, portanto os dois aspectos de um mesmo princípio.

Os mitos agrários falam do mesmo processo de vida, morte e regeneração. Em todos eles, a criança simboliza a semente que é colocada na terra para que germine durante o inverno e renasça sob a forma de uma nova planta que cresce e amadurece, para ser finalmente colhida. Dessa forma, o ciclo agrário anual tornou-se uma alegoria da vida humana. Em Elêusis, os mistérios de Deméter compreendiam ritos secretos durante os quais os iniciados morriam para a vida passada antes de nascer para uma nova vida. Nesse meio tempo, sua alma deveria retornar à origem. Reviviam assim, de maneira simbólica, a descida aos Infernos e o retorno à terra da divindade. Esse processo é personificado pela Deusa, em que o grão é o símbolo da alma, é a semente que se transforma em árvore. Aqui a morte é vista como anunciadora da regeneração.

A Deusa das águas primordiais.

Muitas mitologias concebem o caos primordial como uma obscura extensão de águas sem limites. Muitas vezes o mundo é criado pela própria água, outras vezes, por uma divindade criadora que coexiste com a água desde toda a eternidade.

Esse símbolo da água como fonte de vida aparece em várias
tradições. No cristianismo, é exteriorizado na prática do batismo, na medida em que o novo adepto renasce para uma nova vida. As fontes batismais foram, muitas vezes, comparadas ao útero da Virgem Maria.

No Egito do período pré-dinástico, Neith, a deusa do Oceano, personificava as águas celestes e terrestres. Deusa primordial, continha o mundo e todas as criaturas vivas.

Os mares e os oceanos têm sido comparados às águas primordiais. A maior parte das “deusas-mães”, como Ísis, no Egito, foi associada ao mar ou ao oceano, ou ainda considerada como nascida dele. Como a lua está intimamente ligada às marés, muitas culturas deram às deusas lunares um poder total sobre as extensões marítimas. A vaca divina com cornos em forma de lua crescente simboliza a lua em muitas mitologias indo-européias, e tem como parceiro o touro, que é seu amante e filho. O touro é um dos símbolos de Poséidon, deus grego do mar. Afrodite, deusa do amor entre os gregos, na versão de Hesíodo também nasce das águas do mar fecundadas pelo sêmen de Urano, sendo considerada, pelos gregos, a Grande Deusa das águas (Revista SER no 8, pág. 42 e seguintes).

A Terra-Mãe.

A Deusa também é um símbolo do planeta terra e, como tal, está encarnada nas montanhas, nos vulcões, no curso das águas, nos desertos e em todos os acidentes geográficos.

Como símbolo da Terra-Mãe, podemos citar a deusa tibetana Klu-rgyalmo, “a rainha que colocou em ordem o mundo visível”, criando a abóbada celeste com a calota de seu crânio. Com sua carne, fez a terra; com seus ossos, os oceanos e os mares; com seu sangue, os cursos de águas; com seus dois olhos, fez o sol e os planetas; com seus dentes de cima, criou a lua. O trovão, o raio e a chuva nasceram de sua voz, de sua língua e de suas lágrimas.

Muitas tradições trazem a figura da Deusa como representante do nosso planeta. Dentre elas, a mais conhecida é Gaia, a deusa grega, símbolo da natureza, com seus poderes de criação e destruição.

A Ísis universal.

Na tradição egípcia, o princípio feminino do universo é representado por Ísis – a Grande Deusa-Mãe. O hieróglifo de seu nome é um trono, e freqüentemente ela é representada com um trono sobre a cabeça. Desde a primeira dinastia, os faraós fizeram-se chamar de “Filhos de Ísis”. O trono real era considerado o seio da deusa, e o néctar que saía de seu peito lhes conferia o direito divino de reinar.

Os gregos, após conquistarem o Egito, propagaram o culto a Ísis pelo mundo ocidental. Ísis é a transcrição grega de Esi, que significa “aquela que está sobre o trono”, isto é, a rainha. Já no século II de nossa era, Plutarco a descrevia como “o princípio feminino da natureza , que tem uma quantidade enorme de nomes , pois ela pode tomar todo tipo de aspecto e formas.”

Assim, muitos de seus atributos receberam diversos nomes na mitologia grega e romana, e espalharam-se por todo o planeta, chegando até o cristianismo como a Virgem Maria.

A Grande Deusa na tradição hebraica.

Shekhina/Sabedoria é a incognoscível e incorpórea parceira de Iahvé. Nos mitos gnósticos judaicos, Shekhina criou o mundo e o primeiro homem, mas, devido ao pecado de cada geração, desde Adão até os Sodomitas, ela se afasta pouco a pouco da terra, até encontrar refúgio no sétimo céu. A personificação de Shekhina foi, em parte, atribuída à Bíblia em aramaico que troca a fórmula hebraica “Eu moro” por “a morada da minha Shekhina”. Na tradição hebraica a Deusa foi reverenciada sob o nome de Shekhina/Sabedoria; mas, sob o aspecto de Eva, foi aviltada e despojada de sua divindade. Eva (Hawwâh em hebraico) significa “mãe de todos os viventes”, mas foi rejeitada por ser considerada como a origem de todos os males do homem.

Virgem Maria - a Grande Deusa do mundo cristão.

O tema mítico que originou o relato do nascimento, vida e morte de Jesus Cristo teve origem no Oriente Próximo, muito antes da era cristã. Maria, como muitas deusas-mães que a precederam (como a Deméter dos gregos, a Ísis dos egípcios, a Ashtar/Astarté dos sumérios e muitas outras), deu nascimento a um deus encarnado que morreu para salvar a humanidade e ressuscitou pouco depois.

A Bíblia não faz muitas referências a Maria. Ela aparece pela primeira vez na Anunciação como “a mãe que traz o Salvador”. No entanto, desde o século V a Santa Virgem foi considerada co-redentora e intercessora privilegiada entre a humanidade e seu filho. A partir desse momento, torna-se milagrosa, inspira peregrinos em massa no mundo inteiro e é objeto de um culto que lhe é próprio.

No mundo cristão é venerada com vários nomes que lembram, sobretudo, sua capacidade de auxiliar os que sofrem. Assim, é muito solicitada sob os nomes de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora da Consolação, Nossa Senhora dos Prazeres, entre outros. É como se os homens intuíssem, de alguma forma, o poder de auxílio e cura contido no princípio feminino do universo.
Maria Madalena ou, mais precisamente, Maria de Magdala, que também esteve muito presente na vida de Cristo, é uma figura central entre os gnósticos, para os quais o conhecimento é a única via em direção ao divino. Enquanto prostituta arrependida, Maria Madalena possuía um conhecimento perfeito das coisas deste mundo; enquanto confidente ou, segundo certas tradições, esposa de Cristo, era um reservatório de sabedoria espiritual. Buscou o conhecimento de Deus encarnado no concreto da vida. Na Pistis Sophia, um texto egípcio do século III, Jesus louva várias vezes o saber de sua Mãe e afirma: “Maria de Magdala e João devem ser colocados acima de todos os meus discípulos e de todos os homens que serão iniciados nos mistérios do Inefável”.

A Deusa guerreira.

As deusas guerreiras são freqüentemente associadas ao sol e às estrelas. Os milhões de corpos celestes poderiam facilmente ser comparados a um exército de soldados reluzentes, esforçando-se para combater a obscuridade, isto é, combater a ignorância. Na mitologia eslava, Zarya, a deusa da aurora, é uma grande guerreira, que nasceu armada para dissipar as forças da noite. Muitas deusas guerreiras são representadas vestindo uma armadura flamejante, ou cobertas de ouro, de prata e de jóias.

Os poemas sufis são, na aparência, poemas de amor, mas, na verdade, descrevem, em linguagem cifrada, a sede pelo divino experimentada pelo místico. Nesses poemas, a “Bem-Amada” simboliza a divindade, ou a alma, e o “amante” é o místico. Deus aqui é representado como sendo feminino. A “Bem-Amada” descrita pelos sufis tem um aspecto guerreiro. Ela é a quintessência de uma deusa virgem guerreira, alternadamente feroz e ameaçadora, doce e sedutora.

A Deusa oriental da compaixão.

A divindade preferida dos chineses chama-se Kouan-Yin, a deusa da Clemência. É conhecida como “Aquela que escuta as preces, as queixas e os prantos”. Conhecida no Japão com o nome de Kan-non (ou Kannon), foi importada da China por missionários budistas, sob a forma de um bodhisattva.

Segundo a teologia budista, um bodhisattva é um ser esclarecido que, durante muitas gerações de meditação e de contemplação, aprendeu a escapar ao ciclo de mortes e renascimentos que aflige o resto da humanidade, mas escolheu reencarnar-se para ajudar os outros seres humanos a buscarem a salvação.

Kouan-yin era, na origem, Avalokitesvara, um discípulo nascido de uma lágrima derramada por Buda diante dos sofrimentos da humanidade. Essa transformação em mulher pode, à primeira vista, parecer um enigma numa religião que considera as mulheres menos perfeitas do que os homens. Mas não podemos esquecer que o budismo, quando foi introduzido na China (no séc. III), sofreu influência do taoísmo e do confucionismo. É possível então concluir que Avalokitesvara foi fundido em um sincretismo com uma divindade feminina local. Se levarmos em conta que um bodhisattva reúne em si o saber e a compaixão, não é de se surpreender que Avalokitesvara tenha sido unificado à Deusa. Como a Virgem Maria do mundo cristão, Kouan-yin ajuda os que a procuram nas horas difíceis, acolhendo-os e dando provas de clemência e piedade.

A Deusa e a busca do herói.

A Deusa está estreitamente relacionada à busca do herói. Algumas vezes é ela que inspira a sua jornada; outras vezes, aparece para ajudá-lo e guiá-lo em sua tarefa, ou para colocar-lhe obstáculos no caminho. Pode ainda aparecer como o obstáculo final, como no caso de Medusa, a Górgona, que devia ser morta por Perseu. Mas ele não seria capaz de liquidá-la sem a ajuda de Atena, a deusa da guerra e da sabedoria (Revista SER no 7, pág. 33). Tudo acontece como se o herói fosse um simples peão no tabuleiro de xadrez celeste, em torno do qual se defrontam os múltiplos aspectos da Deusa.
A busca pode ser interpretada como uma viagem de descoberta, a viagem do herói que sai em busca do próprio aperfeiçoamento, tentando conciliar dentro de si os vários aspectos da Deusa.

A conquista é simbolizada por uma “recompensa”, geralmente apresentada na figura de uma bela jovem, símbolo de sua própria alma. Sua prova consiste em “se comportar” de maneira apropriada em cada um dos aspectos da Deusa a fim de atingir o equilíbrio interior.

A Deusa e o trabalho gurdjieffiano.

Fizemos acima uma síntese de algumas faces da Deusa em diversas tradições. Poderíamos relatar inúmeras outras, mas essa não é a proposta deste trabalho. O importante aqui é notar que, sob a forma de um mito, o mesmo aspecto é relatado em várias tradições. Simbolizam os vários estados da Energia Vital, que vão do mais grosseiro ao mais sutil.

Portanto, a energia que tudo permeia no universo é uma única energia, com diversos graus de materialidade, isto é, diferentes estados vibratórios.

Em seu Ensinamento, o Sr. Gurdjieff deixa claro que “o homem é uma imagem do mundo e é impossível estudar um sem estudar o outro”1. Diz que “o mundo é feito de movimentos ondulatórios ou de matéria em diferentes estados de vibração. A velocidade das vibrações está na razão inversa da densidade da matéria”2. Assim, “quanto mais elevada for a ‘densidade da matéria’, mais baixa será a ‘densidade de vibrações’ e vice-versa”.

Portanto, o mundo manifestado possui vários planos de diferentes graus de materialidade. Com o homem, acontece a mesma coisa. Ele é um Universo em miniatura. Diz o Sr. Gurdjieff: “É necessário compreender bem a idéia da completa materialidade de todos os processos interiores, os psíquicos, intelectuais, emocionais, voluntários e outros, inclusive as aspirações poéticas mais exaltadas, os êxtases religiosos e as revelações místicas.

Em nossa vida cotidiana, vivemos em estados vibratórios muito densos, se comparados com as vibrações mais finas existentes em outros planos do universo. Isso porque a energia que nos anima está atuando sem que tenhamos consciência dela. Não entramos em contato direto com ela. Vivemos apenas os estados mais grosseiros da Deusa.
Wikepedia.