contos sol e lua

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Vivendo e morrendo conscientemente.


Agora que o bardo da morte desponta diante de mim,
Eu vou parar de prender as coisas, de desejar e me apegar,
Vou entrar sem distrações na clara percepção dos ensinamentos,
E ejetar a minha consciência para a dimensão da percepção não nascida.
Quando eu deixar este corpo composto de carne e sangue,
Saberei ser ele apenas uma ilusão passageira.

Padma Sambhava em O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS.

Nos ensinamentos tibetanos, a morte é mais um momento no qual devemos praticar a atenção plena. Lembrar-se da inevitabilidade de nossa morte, encarar o fato inescapável da nossa própria mortalidade e da impermanência de todas as coisas, pode ser a mais liberadora das meditações, porque apresentar a realidade das coisas como realmente são, ajuda a desalojar o egoísmo grosseiro, o apego e a miopia - colocando nossas vidas na perspectiva correta.

A morte é um espelho, que reflete e ilumina tanto a vaidade quanto o sentido de nossas vidas. A morte é o momento da verdade, quando nos encontramos com a realidade face a face. Para todos nós, é também um momento de oportunidade, quando podemos atingir nossa natureza original. A morte é mais certa do que o amor, e com certeza aguarda a todos nós na doença ou na velhice. A sabedoria perene nos diz que deveríamos nos preparar para o nosso fim, o que nos tornará melhor preparados para viver - ou morrer - de forma iluminada.

Diz-se que na morte apenas duas coisas contam: o que fizemos em nossas vidas e o estado interior que temos na hora de morrer. Estes dois fatores determinam o que vem depois. Buda ensinou que a experiência real do momento de morrer é crucial para o próximo renascimento, e que no momento da morte ocorrem experiências espirituais extraordinárias que oferecem um portal para a grande liberação. Portanto, a atmosfera física e os estados de espírito daqueles que estão ao redor do moribundo são extremamente importantes, e paz, conforto, gentileza, amor, aceitação e harmonia ajudam a guiar o morto, da melhor maneira possível, em sua travessia.

Tradicionalmente no Tibet, o Bardo Thodol, conhecido no ocidente como o livro tibetano dos mortos, é lido na cabeceira da cama de alguém que está morrendo, tanto na hora da morte como por vários dias subseqüentes. Ele é uma meditação guiada, lida em voz alta, normalmente por um lama, para ajudar a direcionar o morto ou o moribundo através dos vários estados de transição no bardo. Este maravilhoso livro antigo é uma escritura de sabedoria que nos conduz à liberdade e à iluminação através do reconhecimento da clara luz da realidade na hora da morte, e depois. Ele também mostra como reconhecer e atingir a clara luz (a qualidade luminosa inata da mente natural) dentro de cada um de nós, nesta vida. Apesar de ter sido ostensivamente escrito para oferecer ao morto ou moribundo conforto, orientação e libertação pela audição, o Bardo Thodol também nos mostra como viver, porque cada momento é tanto um nascimento quanto uma morte.

Bardo1 é uma palavra tibetana que significa "No meio" ou "Em transição". Ensina-se que existem ao todo seis estados de bardo, acabam oferecendo suas oportunidades específicas. Três delas ocorrem quando ainda estamos vivos: o bardo desta vida cobre o período inteiro desde que nascemos até a nossa morte; o bardo da meditação se refere ao estado meditativo quando conseguimos reconhecer nossa natureza búdica; e o bardo do sonho ocorre quando dormimos, e também pode ser usado para treinar a mente.

Os outros três estados de bardo cobrem o período entre a morte e o renascimento, e constituem o foco primário do Livro Tibetano dos Mortos.

O Bardo da Morte.

Este bardo se refere ao processo de morrer em si. No Tibet, a morte é considerado um processo de purificação, porque estamos voltando para clara luz, nosso estado natural intrínseco de luminosidade - estamos nos dissolvendo nele. No momento da morte, esta clara luz da realidade desponta para cada um de nós. É a nossa própria natureza radiante, algumas vezes chamada de Rigpa – o estado desperto e iluminado. Entretanto, para podermos realmente nos beneficiar deste "Momento da Verdade" e atingir a libertação, precisamos estar preparados. Se não, ele vai nos escapar rapidamente. Como a maioria de nós ainda está ligada aos hábitos e padrões de comportamento estabelecidos em vida, não reconhecemos a luminosidade pelo que ela é. Reagimos de forma não apropriada e inconsciente. Em vez de mergulharmos nela, em um ato de fé, nos entregando à luminosidade, nos fundindo nela. E assim o momento passa. As instruções de Kalu Rinpoche para esse momento de grande luminosidade foram: "Solte o corpo e a mente, e dissolva-se na clara luz da luminosidade interior. Reconheça o raiar da clara luz e se liberte neste instante. Enxergue além das ciladas, do dualismo da vida e da morte".

O Bardo do Dharmata (Realidade.

Neste segundo estado de bardo, temos outra oportunidade de atingir a libertação. Kalu Rinpoche dizia que a coisa mais importante para nos lembrarmos aqui é que, como nos sonhos, tudo o que veremos aqui é criação de nossas mentes, e pode ser mudado, da mesma forma que se pode acordar dentro dos sonhos e alterá-los. Neste estado, é como se sonhássemos, e nada mais pode realmente nos fazer mal. A libertação pode ocorrer se conseguirmos apagar a resistência e as dúvidas, soltar tudo e nos entregarmos à luminosidade inata da mente natural. Se não pudermos fazer isso, então o próximo bardo inexoravelmente começará.

O Bardo do Vir-a-Ser.

Neste terceiro estado de bardo pós-morte, nossas percepções estão voltando. Novamente, temos preferências e aversões, e somos atraídos para lugares e pessoas que nos são familiares. À medida que nossos apegos, paixões e propensões cármicas começam a se afirmar, estamos nos aproximando do renascimento. Nesse momento, faríamos bem em voltar nossas mentes para as intenções do bodhisativa, que são beneficiar e servir todos os seres sem exceções. Livres das ciladas da atração e da repulsão, devemos procurar o meio ambiente oportuno para exercer o voto de bodhisativa. Se você achar que está neste estado do bardo, através da coragem destemida e da visão pura, vá além e abandone sua atração e seu desejo pelo homem e mulher que se unem em união sexual. Em vez disso, perceba este casal amoroso, que serão seus novos pais, como um casal búdico - Sr. e Sra. Sabedoria e Compaixão. Graciosamente, entre neste templo humano e encontre sua nova vida.

Vivendo a Morte: Uma Meditação.

Todos nós temos que nos defrontar com as questões da vida e da morte. Quer seja a morte de um familiar idoso ou o nascimento de um filho, o nascimento e a morte são parte da vida. A filosofia, a ciência, a religião, as artes lidam com a vida e a morte, e com a morte ou renascimento. Todos nós nos perguntamos o que acontece quando morremos. Será que a morte é o nosso fim? E o que isso significa para nós? Como podemos dar mais sentido às nossas vidas?

Existem diversas religiões e culturas, mas todas compartilham de pelo menos um princípio comum: todas têm ritos, rituais e especialistas para lidar com a morte e o morrer. Estes ritos nos oferecem conforto e segurança diante da precariedade e da insegurança da existência. Será que continuamos? Será que atingimos um fim abrupto? Não existe mais nada? E o céu? E o inferno? Existe vida depois da morte? Vamos nos defrontar com Deus ou com o carma? Verdade ou conseqüência? Como podemos ter certeza de qualquer coisa? Isso pode ser verificado ou estão nos pedindo para acreditar e confiar em um mito ou na imaginação? Devemos acreditar nas pessoas que dizem ter voltado das experiências de quase morte? Devemos acreditar em Edgar Cayce e nos outros videntes? Devemos acreditar nos lama encarnados, muitos dos quais dizem que se lembram de vidas passadas e parecem ter algum controle consciente sobre o processo - como se estivessem evoluindo, por escolha, através de diferentes níveis da escola espiritual? Como podemos saber? Quem sabe?

Os budistas perceberam há muito tempo que contemplar a própria mortalidade é uma prática que ajuda a ter foco e estabelecer prioridades. A vida espiritual, a jornada de despertar e dar sentido às nossas vidas enquanto aprendemos a amar, é na verdade uma questão tanto de vida quanto de morte. A precariedade da vida nos ajuda a permanecer totalmente dispersos no aqui agora.

O que o budismo tibetano nos oferece, juntamente com seus ensinamentos pragmáticos e éticos, é uma forma de lidar com a própria experiência da morte - uma forma de encarar a morte no momento presente. Este treinamento pode nos ajudar muito a lidar com o momento da morte. Passamos a apreciar mais, estar mais atentos e mais abertos a cada momento da vida, que se torna mais pungente devido à sua absoluta impermanência.

Ao aprender a deixar esta vida ir embora, aprendemos também a viver cada momento sem arrependimentos. Aprendemos a tomar decisões sem arrependimentos. Cada decisão se torna a decisão certa. Quando aprendemos a largar as coisas em vida, abandonamos nossos rancores, obtemos o perdão e nos aliviamos do fardo do ressentimento, da amargura e da hostilidade. Assim, encontramos uma conclusão e podemos soltar velhas tristezas e antigas queixas, deixando estes padrões congelados morrerem. É assim que morremos sem arrependimentos, enquanto aprendemos a viver de novo. Aqui, neste momento. Respiração por respiração. Eis aqui uma meditação que nos ajuda a fazer isso:

Respire profundamente relaxe. Deixe tudo se acomodar. Esteja totalmente presente, naturalmente presente, sem esforço. Você está se sentando por um instante, um instante eterno. Não perca o momento. Só existe este.

Sinta tudo, como é. Esteja presente, alerta, desperto e relaxado. Abra-se para a presença sem esforço, para a consciência pura. A presença total. Tenha consciência de estar consciente, uma percepção luminosa, sem centro, aqui e agora. Deixe que tudo aconteça sem esforço, de forma transparente. Abandone o controle, a manipulação e o julgamento.

A cada respiração, solte um pouco mais. A cada respiração, solte, relaxe, abra e centre-se cada vez mais profundamente. Cada expiração é uma pequena morte. Simplesmente esteja com a expiração, e a cada expiração solte um pouco mais. Um pouco mais ... solte os nós do seu psiquismo. Relaxe. Largue tudo. Solte a tensão dos ombros, expire-a. Expire aquele pensamento, aquela lembrança, solte, solte, solte.
Solte a expiração. Morra um pouco a cada expiração. Morra no momento presente. Qualquer sensação sinta, deixe-a partir. Largue o corpo, largue a mente, largue os pensamentos e a personalidade. Largue tudo. Solte. Largue sua auto-imagem, sua casa, suas posses, seus planos, sua carreira. Solte. Tudo está perfeitamente resolvido na mente natural que não nasce nem morre.

Abandone as tentativas de controlar a mente. A cada expiração, solte. Aperte a embreagem do desapego espiritual e desengrene a marcha. A cada expiração, solte mais alguma coisa - o que vier à cabeça, uma sensação, uma emoção, um sentimento, um relacionamento uma pessoa, um medo, uma posse. Respiração à respiração, momento a momento - simplesmente solte tudo. Habitue-se a evoluir, a se transformar, a passar sem resistência, sem se agarrar, sem apegos. Respiração a respiração, vá soltando. Deixe todos fenômenos ilusórios irem embora.

A cada respiração, perdoe aos outros. Perdoe às pessoas de seu passado - aquelas com quem não tem mais contato, e também as que ainda estão ao seu redor. Perdoe a sí. Aceite os outros como são. Aceite totalmente a si mesmo. Deixe tudo ser como é. Isto é a sabedoria em ação. A cada respiração, abandone o medo, a expectativa, a raiva, o arrependimento, o desejo, a frustração, a fadiga. Abandone a necessidade de aprovação. Abandone os velhos julgamentos e as opiniões. Morra para tudo isto, e voe livremente. Eleve-se na liberdade da ausência de desejos.

Solte. Deixe. Veja através de tudo seja livre, completo, luminoso e volte para casa.

Com este tipo de meditação, as camadas sutis que formam quem nós somos começam a se arrumar, e nós penetramos mais profundamente no nosso estado natural - o estado despojado do ser autêntico. Isto é uma transformação ocorrida aqui e agora. Um renascimento espiritual.Do livro "O despertar do buda interior"Lama Surya Das.

A Esfinge e a Cruz.


O grande enigma dos séculos antigos, a esfinge, depois de ter feito a volta ao mundo sem achar repouso, parou ao pé da cruz, este outro grande enigma; e há dezoito séculos e meio a contempla e medita.
Que é o homem? - pergunta a esfinge à cruz, - e a cruz responde à esfinge, perguntando-lhe: - Que é Deus?
Já dezoito vezes, o velho Ahasverus fez também a volta do globo; e, no fim de todos os séculos, e no começo de todas as gerações, passa perto da cruz muda e diante da esfinge imóvel e silenciosa.
Quando estiver cansado de caminhar sempre, sem nunca chegar, é aí que ele repousará, e então a esfinge e a cruz falarão por sua vez para o consolar.
Eu sou o resumo da sabedoria antiga - dirá a esfinge. - Sou a síntese do homem. Tenho uma fronte que pensa e peitos que se inflamam de amor; tenho garras de leão para a luta, flancos de touro para o trabalho e asas de águia para subir à luz. Só fui entendida nos tempos antigos pelo cego voluntário de Tebas, este grande símbolo da misteriosa explanação que devia iniciar a humanidade à eterna justiça; mas agora o homem não é mais o filho maldito que um crime original faz expor à morte do Cytheron; o pai veio, por sua vez, expiar o suplício do filho; a sombra de Laios gemeu com os tormentos de édipo; o céu explicou ao mundo o meu enigma nesta cruz. é por isso que eu me calo, esperando que ela mesma se explique ao mundo: repousa, Ahasverus, porque é aqui o termo da tua dolorosa viagem.
Eu sou a chave da sabedoria futura - dirá a cruz. - Sou o signo glorioso do stauros que Deus fixou nos quatro pontos cardiais do céu, para servir de duplo eixo ao universo. Expliquei na Terra o enigma da esfinge, dando aos homens a razão da dor: consumei o simbolismo religioso, realizando o sacrifício. Eu sou a escada sangrenta pela qual a humanidade sobe a Deus e pela qual Deus desce aos homens. Eu sou a árvore do sangue, e as minhas raízes o bebem em toda a terra, para que não seja perdido, e forme nos meus braços frutos de devotamento e de amor. Sou o sinal da glória, porque revelei a honra; e os príncipes da terra me penduraram ao peito dos bravos. Um dentre eles me deu um quinto braço para fazer de mim uma estrela; mas sempre me chamo a cruz. Talvez aquele que foi o mártir da glória previa o sacrifício, e queria, acrescentando um braço à cruz, preparar um encosto para a sua própria cabeça ao lado da do Cristo. Estendo os meus braços tanto à direita como à esquerda, e espalhei igualmente as bênçãos de Deus sobre Madalena e sobre Maria; ofereço a salvação aos pecadores, e aos justos a graça nova; espero Caim e Abel para os reconciliar e unir. Devo servir de ponto de ligação entre os povos, e devo presidir ao último julgamento dos reis; sou o resumo da lei, porque trago escrito nos meus braços: Fé, Esperança e Caridade. Sou o resumo da ciência, porque explico a vida humana e o pensamento de Deus. Não temas, Ahasverus, não mais temas minha sombra; o crime do teu povo tornou-se o do universo, porque também os cristãos crucificaram o seu Salvador; eles o crucificaram, lançando aos pés a sua doutrina de comunhão; eles o crucificaram na pessoa dos pobres; eles o crucificaram, maldizendo a ti próprio e prescrevendo o teu exílio; mas o crime de todos os homens os envolve no mesmo perdão; e tu, o Caim humanitário, tu, o mais velho dos que a cruz deve resgatar, vem repousar embaixo de um dos seus braços ainda tinto do sangue redentor! Depois de ti, virá o filho da segunda sinagoga, o pontífice da lei nova, o sucessor de Pedro; quando as nações o tiverem proscrito como tudo, quando não houver senão a coroa do martírio, e quando a perseguição o tiver feito submisso e dócil como justo Abel, então virá Maria, a mulher regenerada, a mãe de Deus e dos homens; e ela reconciliará o judeu errante com o último papa, depois começará de novo a conquista do mundo para dá-lo aos seus dois filhos. O amor regenerará as ciências, e razão e a fé. Então serei a árvore do paraíso terrestre, a árvore da ciência do bem e do mal, a árvore da liberdade humana. Os meus imensos ramos cobrirão o mundo inteiro, e as populações afadigadas descansarão debaixo da minha sombra; os meus frutos serão o alimento dos fortes e o leite das criancinhas; e as aves do céu, isto é, os que passam cantando, levados nas asas da inspiração sagrada, estes repousarão nos meus ramos, sempre verdes e carregados de frutos. Repousa, pois, Ahasverus, na esperança deste belo porvir; porque é aqui o termo da tua dolorosa viagem.
Então o judeu errante, sacudindo o pó de seus pés doloridos, dirá à esfinge:
Eu te conheço desde há muito! Ezequiel te via outrora, atrelada a esta carruagem misteriosa que representa o universo e cujas rodas estreladas giram umas nas outras; realizei uma segunda vez os destinos errantes do órfão do Cytheron; como ele, matei meu pai, sem o conhecer; quando o deicídio se realizou e quando chamei sobre mim a vingança do seu sangue, me condenei a mim mesmo à cegueira e ao exílio. Eu fugia de ti e te procurava sempre, porque era a primeira causa das minhas dores. Mas tu viajavas penosamente como eu, e, por caminhos diferentes, devíamos chegar juntos; bendito sejas tu, ó gênio das antigas idades, por me haveres levado ao pé da cruz!
Depois, dirigindo-se à própria cruz, Ahasverus dirá, enxugando a sua última lágrima:
Desde há dezoito séculos te conheço, porque eu te vi levada pelo Cristo que sucumbiu sob este fardo. Abanei a cabeça e te blasfemei então, porque ainda não tinha sido iniciado à maldição; era preciso à minha religião o anátema do mundo para lhe fazer compreender a divindade do maldito; é por isso que sofri com coragem meus dezoito séculos de expiação, vivendo e sofrendo sempre no meio das gerações que morriam ao redor de mim, assistindo à agonia dos impérios e atravessando todas as ruínas e olhava sempre com ansiedade para ver se não estavas caída; e depois de todas as convulsões do mundo, sempre te via de pé! Mas não me aproximava de ti, porque os grandes do mundo ainda te haviam profanado, e feito de ti o patíbulo da Liberdade santa! Não me aproximava de ti, porque a Inquisição tinha entregue meus irmãos à fogueira em presença da tua imagem; não me aproximava de ti, porque não falavas, ao passo que os falsos ministros do céu falavam, em teu nome, de danação e vinganças; e eu só podia ouvir as palavras de misericórdia e união! Por isso, desde que a tua voz chegou ao meu ouvido, senti meu coração mudado e a minha consciência se acalmou! Bendita seja a hora salutar que me levou ao pé da cruz!
Então uma porta se abrirá no céu e a montanha do Gólgota será o seu sólio e, diante desta porta, a humanidade verá, com admiração, a cruz irradiante guardada pelo judeu errante, que terá deposto a seus pés o seu bastão de viagem, e pela esfinge, que estenderá as suas asas e terá os olhos brilhantes de esperança, como se fosse tomar um novo vôo e se transfigurar!
E a esfinge responderá à pergunta da cruz, dizendo: - Deus é aquele que triunfa do mal pela prova de seus filhos, aquele que permite a dor, porque possui em si o remédio eterno; Deus é aquele que é, e diante de quem o mal não existe.
E a cruz responderá ao enigma da esfinge: - O homem é o filho de Deus que se imortaliza ao morrer, e que se liberta, por um amor inteligente e vitorioso, do tempo e da morte; o homem é aquele que deve amar para viver, e que não pode amar sem ser livre; o homem é o filho de Deus e da Liberdade!
Dogma e Ritual da Alta Magia', de Eliphas Levi.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Dama Inglesa e o Cavaleiro.


Era uma uma esplendorosa dama inglesa
O sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
E ela se casaria com um cavaleiro escocês
Em nome de um amor que ainda será o Senhor de tudo

Alegremente eles viram o sol nascente
Quando ele brilhou sereno, sobre o muro de Carlisle
Mas ficariam tristes antes que o dia acabasse
Ainda que o amor fosse o Senhor de tudo.

Seu pai lhe deu um broche e uma jóia fina
Onde o sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
O irmão a ela nada deu, exceto por um frasco de vinho
Em nome da fúria, causada pelo amor que era o Senhor de tudo.

Para ela, uma campina e uma várzea
Onde o sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
Ele jurou matá-la, antes de ver
Um cavaleiro escocês, Senhor de tudo.

O vinho que tomou, a ela não fez bem
O sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
Quando morta, nos braços de seu verdadeiro amor, ela caiu
Em nome de um amor que ainda era o Senhor de tudo!

Ele trespassou o coração do irmão dela
Onde o sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
Então a ira do verdadeiro amor faria tudo perecer
Aquele amor ainda pode ser o Senhor de tudo!

E seguida, ele pegou a cruz divina,
Onde o sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
E morreu em nome dela, na Palestina
Então o amor, ainda era o Senhor de tudo.

Agora, vós namorados, que provaram sua fidelidade
O sol brilha sereno, sobre o muro de Carlisle
Rezem pelas almas que morreram pelo amor
Para que ele seja o Senhor de Tudo!

Magia Natural.


A magia natural é direta e objetiva. Apesar de tudo o que possa ter ouvido, a magia não é algo sobrenatural, não natural ou mesmo alienígena. Ela está em nossos próprios quintais, em nossas casas; na própria essência de nossos seres. As forças da Natureza dão poderes à magia – e não aos demônios, "Satã" ou anjos caídos.

Um dos maiores mistérios da magia é que não há mistérios. Pelo contrário, eles estão constantemente se revelando ao nosso redor. O estudo de um simples botão de rosa, de uma folha de grama ou do sopro do vento por meio das folhas de uma árvore revelará tanto quanto, senão mais, sobre a verdadeira natureza da magia do que uma centena de empoeirados tomos renascentistas.

A Natureza é o universo em si. Não apenas seus poderes, mas também suas manifestações. Algumas dessas manifestações, como os espelhos, são artificialmente produzidas, mas estão ligadas e conectadas aos poderes da Natureza por intermédio de seu simbolismo.

Em nossa era cada vez mais automatizada, muitas pessoas se encontram isoladas do planeta que sustenta e mantém nossas próprias vidas. A verdadeira dependência que temos da Terra está esquecida. Muitos estão rompendo suas conexões com a Terra. Como resultado, este é um período de grande agitação, tanto nos planos individuais como no global.

A magia da Terra pode ajudar a descobrir, trabalhar e resolver muitas das pequenas crises e problemas que nos afligem atualmente enquanto indivíduos. Certamente não é uma solução simples para os problemas do mundo, mas pode trazer ordem a nossas vidas, e isso já é um bom começo.

Segundo o pensamento da magia, o corpo humano é o "microcosmo" (pequena representação) da Terra, que seria o "macrocosmo". A Terra é também o microcosmo do Universo. Em outras palavras, somos representações da essência do planeta e, por conseqüência, do Universo. Assim sendo, ao mudarmos a nós mesmos, mudamos a Terra e o Universo.

A magia é útil quando traz tais mudanças a nossas vidas e, dessa forma, à própria Terra, e tais mudanças devem ser positivas.

O objetivo de toda magia, trilhas ocultas e religiões místicas é a perfeição do ser. Embora isto possa não ser obtido em uma vida, é perfeitamente possível que melhoremos a nós mesmos. Este ato singular já faz com que a Terra se torne muito mais saudável.

Se praticar qualquer magia, seja ao desenhar um coração na areia, contemplar um espelho para antever o futuro, seja para atar um nó para auxiliar um amigo com problemas, tenha em mente os mais elevados aspectos de seus trabalhos. Você está melhorando o mundo e ajudando a curá-lo das terríveis mazelas que sofreu por nossas mãos.

É isso que torna o praticante da magia natural verdadeiramente divino.

Os elementos da Magia

Os "elementos" dentro do simbolismo mágico são os componentes básicos de tudo o que existe. Esse quatro elementos – Terra, Ar, Fogo e Água – são ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, físicos e espirituais.

A partir desses elementos todas as coisas foram formadas, de acordo com o pensamento mágico. Nosso conhecimento científico atual, que sustenta haver muitos outros "blocos de construção", não contraria este princípio; é apenas uma versão mais elaborada.

Não é nada sábio encarar os quatro elementos em termos puramente físicos. Terra, por exemplo, refere-se não apenas ao planeta no qual vivemos, mas também ao fenômeno terreno, da base e da estabilidade. Similarmente, o Fogo é muito mais do que a labareda.

Uma vez que esta é a magia da Natureza, utilizando poderes, instrumentos e símbolos naturais, é importante compreender tais poderes. Um dos meios de fazê-lo é por intermédio do estudo dos elementos.

O sistema elemental foi elaborado e aprimorado na Renascença, mas sua raízes se estendem muito mais para trás na história. Pode ser visto apenas como um conveniente sistema de organização para os diversos tipos de magia. Pode também ser encarado como o real sistema de poderes que podem ser acessados para auxiliar em encantamentos e rituais. Cabe a você definir o modo como os vê.

Apesar de os elementos serem descritos como "masculinos" e "femininos", isso não deve ser encarado de maneira preconceituosa. Assim como todos os sistemas da magia, isso é simbólico – descreve os atributos básicos dos elementos em termos facilmente compreendidos. Não significa que seja mais masculino praticar magia do Fogo, ou que a magia de Água seja mais apropriada para mulheres. É apenas um sistema de símbolos.

Sua compreensão ajudará muito em seus trabalhos de magia.

Magia das Pedras

A magia das pedras é aquela com a qual quase todas as pessoas estão familiarizadas, pois muitas sabem ao menos da existência das pedras de nascimento, aquelas que "pertencem" ao mês de seu aniversário. Há também uma grande massa de folclore relacionada aos poderes e usos mágicos de pedras preciosas e semipreciosas. Por exemplo, dizia-se que as pérolas causavam lágrimas, as opalas trazem azar a quem as usa e que diamantes representam a constância do amor; eis o porquê de serem usados em anéis de casamento e noivado.

Apesar de o folclore das pedras preciosas e semipreciosas ser geralmente contraditório (alguns peritos dizem que as pérolas causam lágrimas de alegria, e que as opalas atraem boa sorte), isso não é realmente importante, pois é uma prática muito cara que poucos de nós teriam condições de praticar.

Mas as pedras comuns, as quais vemos nas ruas ou escavamos de nossos quintais, aquelas que se amontoam em leitos de rios e praias, ou que se espalham como se uma mão gigante as houvesse espalhado sobre o terreno, essas pedras possuem poderes e podem ser utilizadas em magia do mesmo modo que aquelas de enorme valor comercial.

O simples fato de a pedra ser valiosa não lhe confere nenhum poder especial. Claro que, quanto mais rara for a pedra, maior a mística que a cerca. Os diamantes são um ótimo exemplo. Mas eles não são necessários em magia.

Alguma vez você já se pegou apanhando pedras em um passeio, guardando pedregulhos em seus bolsos sem motivo aparente? Ou talvez você já tenha comprado um pedaço brilhante de ágata ou ônix numa loja de presentes ou de curiosidades. Já se perguntou por quê?

Centenas de milhares de anos atrás, as pedras eram usadas como ferramentas. Elas – e ossos – eram as únicas ferramentas disponíveis, e os povos antigos as utilizavam para colher plantas como alimento, para caçar, costurar suas vestes e executar qualquer tarefa que não pudessem com suas próprias mãos.

Hoje em dia, as pedras não recebem muita atenção, a não ser quando um jardineiro as encontra no solo, e silenciosamente as xinga pelo trabalho que representam para ele. Mas elas podem ser instrumentos valiosos na magia, são baratas e facilmente obtidas. Você mora na cidade? Deve haver um parque em alguma parte, ou um terreno baldio.

Magia das Imagens

A magia de imagens surge como visões de desdenhosos bonecos de vodu repletos de alfinetes pretos. Temos que "agradecer" à mídia e a um século de propaganda fundamentalista por isso...

O tão famoso "boneco de vodu", que nem é ligado apenas àquela religião tão incompreendida nem tampouco é necessariamente um boneco, tem suas origens na magia de imagens, a qual é bem conhecida por todos os sistemas mágicos desde o início da história registrada.

Por toda a parte, foram feitas imagens – de diversos tipos de madeira, argila, chumbo, ouro e prata; gravadas em grandes folhas, cascas de árvore, peles de animais; moldadas em limões, cebolas, maçãs, ovos, nabos, castanhas, cocos, limas, batatas e a famigeradas da raiz de mandrágora.

Algumas vezes, a imagem era esculpida em grande detalhe, até mesmo as tranças do cabelo. Em outras, era uma rústica representação esculpida em superfícies planas, como as cascas de frutas, cascas de árvore ou mesmo na própria terra, rabiscada com as pontas dos dedos ou com bastões na areia.

Sejam quais forem as substâncias, ou os encantamentos, as imagens permanecem sendo um dos objetos mais utilizados na história da magia.

Hoje, após quase cinco mil anos de uso contínuo de uma técnica que remete a um período no qual vivíamos em cavernas, ainda carrega uma infundada reputação maligna.

Certo, a magia de imagens foi utilizada para propósitos negativos, mas do mesmo modo quase todos os outros tipos de magia também o foram. Sua contribuição mais útil às artes da magia foi permitir a nós que tivéssemos uma planta, um diagrama de nós mesmo ou daqueles para os quais queremos praticar magia.

A imagem realmente não se torna a pessoa representada; nenhuma imagem é batizada ou recebe o sopro da vida, como nos trabalhos mais obscuros.

As figuras ou imagens servem apenas como uma planta com a qual planejamos e geramos nosso futuro, sempre visando melhores condições.

Magia de Nós

A magia de nós tem suas origens há pelo menos 4.000 anos, quando as tabuletas cuneiformes foram confeccionadas no Oriente Próximo, descrevendo vários tipos de magia que envolvem o uso de nós.

Apesar de ser conhecida em todas as culturas e provavelmente por todas as eras, a magia de nós está caindo em desuso atualmente e corre o risco de ser completamente esquecida.

Por que deveria uma forma de magia global, simples, prática e eficaz ser esquecida? Provavelmente pelo simples fato de ser simples e prática. Na maioria das vezes a magia tem sido adornada em rituais que beiram o absurdo: algo muito simples era desdenhado por aqueles que aprenderam rituais pomposos e estilizados.

A magia de nós ainda é tão poderosa quanto em 2000 a. C. e ainda pode ser utilizada hoje em dia com bons resultados.

Há muitos "remanescentes" da magia de nós na cultura contemporânea. Um dos focos de "remanescência" é o folclore, num costume ou superstição praticado ou lembrado por pessoas que esqueceram suas origens.

Por que amarramos um barbante ao redor de um dedo para nos lembrarmos de algo importante, por exemplo? O que exatamente significa a expressão em inglês "he's bound to do it"? ("Ele está destinado a isso", ou, literalmente, ele está 'amarrado' a isso".)

Atar um nó de forma concreta, física, a uma idéia, concepção ou pensamento abstrato. Portanto, quando ata um nó ao redor de seu dedo, pensando na coisa que deseja lembrar posteriormente, você está estabelecendo uma conexão em sua mente entre nó (o físico) e o pensamento de que precisa se lembrar (o mental). Num plano mais mágico, você ata o nó não para se lembrar do assunto, mas para ter certeza de que você irá se lembrar dele.

Uma das técnicas da magia de nós é atá-lo, especialmente ao redor da imagem de uma pessoa, literalmente "amarrando" a imagem com um barbante, ou a imagem a um objeto, com a intenção de inibir as ações, os pensamentos da pessoa. "He's bound to do it", ele está amarrado a esse destino, remete-nos a um tempo no qual acreditava-se literalmente nessa expressão – alguém teria que fazer algo porque sua imagem estava amarrada.

Difícil de acreditar? Séculos atrás havia muitas leis e estatutos proibindo que imagens fossem amarradas, assim como o uso de nós em magia.

De fato, a certa altura qualquer ornamento torcido ou com nós era considerado pagão e idólatra na Alemanha, enquanto, por outro lado, entalhava-se freqüentemente nós mágicos em igrejas para proteger contra a entrada de magia ou "espíritos" pagãos.

Magia com Velas

A magia com velas é uma arte complexa, e vários bons livros foram escritos sobre o assunto. Entretanto, apresentamos aqui as bases, uma vez que elas podem ser incorporadas a outras formas de magia. É também um método bem prático. Os poucos rituais e encantamentos aqui apresentados cobrem uma grande variedade de situações e, com uma dose de criatividade, podem ser levemente adequadas para servir a qualquer necessidade.

A magia com velas acesas funciona com o auxílio do fogo (a chama da vela), das cores (a vela em si) e outros itens que deseje utilizar. É habitual utilizar ervas em conjunto com a magia de velas, pois são um reservatório de energia por si só.

Magia dos espelhos

A pergunta da rainha das feiticeiras a seu espelho mágico no antigo conto de fadas, hoje conhecido como "Branca de Neve", é um eco de práticas tão velhas quando o próprio tempo. Como muitos dos instrumentos de magia, o espelho é um objeto inspirado na Natureza.

Os primeiros espelhos eram os lagos. Num dia tranqüilo, quando as águas não formam ondas, pode-se observar um reflexo bastante detalhado. Na tentativa de capturar esse fenômeno, poliam-se pedras e metais até que, por fim, produziu-se o vidro que, quando revestido em um dos lados com uma fina camada de prata, produzia uma superfície reflexiva perfeita – um lago perfeitamente cristalino, "congelado" para ser usado quando desejado.

Espelhos (e superfícies reflexivas) há muito dominam nossa imaginação. Há diversas referências a espelhos no folclore, assim como na magia, se bem que tais práticas estão quase que esquecidas hoje.

O simbolismo do espelho é simples e ao mesmo tempo complexo. É considerado sagrado à lua, pois, como a lua reflete a luz do sol, o espelho é um objeto reflexivo. Sendo um símbolo lunar, os espelhos utilizados em magia são geralmente de forma redonda.

Além disso, os espelhos nos permitem ver coisas que não poderíamos ver sem sua ajuda – não apenas as coisas físicas, mas também coisas mais elevadas, como as memórias de vidas passadas, visões do futuro, ou de eventos ocorrendo simultaneamente em outros locais.

A magia com espelhos provavelmente teve seu apogeu durante a Grécia Clássica e em Roma. Espelhos polidos de bronze eram utilizados em rituais de magia e cosméticos. A maioria desses espelhos era pequena e usada com as mãos.

Uma antiga técnica para induzir clarividência é refletir a luz de uma fogueira na lâmina brilhante de uma espada ou faca; o reflexo assim apanhado causava visões a quem nela se concentrava. Esta é apenas mais uma forma de magia com espelhos metálicos.

Apesar de práticas como essa ainda serem utilizadas, a maioria das práticas de magia com espelhos atualmente é feita com espelhos de vidro. Espelhos antigos não são necessariamente melhores, pois tendem a possuir imperfeições (como a perda da folha de prata), o que pode interferir. Muitas vidraçarias cortam espelhos sob medida, portanto não é impossível obter aqueles redondos.

Para rituais rápidos, pode-se até mesmo utilizar um espelho de bolso, se bem que isso é muito mais fácil para mulheres. Muitos encantamentos foram lançados enquanto uma mulher fingia retocar sua maquiagem.

Lembre-se sempre de que o espelho é uma simples ferramenta, um elo com a lua, com seu subconsciente, e por fim com a própria Natureza.

A magia costuma ser espontânea, e você deve estar preparado praticamente para tudo.

Magia do Mar

É aquela praticada próximo ao oceano, ou com objetos criados e transformados pelo oceano.

Há milênios o mar é cultuado, temido, consagrado, ora-se a ele, oferecem-se sacrifícios a ele, é reverenciado. Tem sido a morada de deusas e deuses, sereias e tritões, ondinas e serpentes – monstros horrendos e encantadoras sereias que enganavam os marinheiros, atraindo-os para a morte em rochas traiçoeiras.

Sob suas ondas escondem-se antigas e fabulosas terras e civilizações – Atlântida, Lemúria, Lyonesse, para citar algumas – e dele toda a vida surgiu. Portanto, o mar é tanto o início quanto o fim, o alfa e o ômega – a fonte de toda a vida e daquilo que a consome.

Em priscas eras, assim como hoje, os centros populacionais localizam-se nas proximidades de rios ou na costa, garantindo acesso fácil e alimentos – peixes, crustáceos, algas - bem como uma plataforma pela qual artefatos de bambu e piche, madeira e cordas, e posteriormente de formas mais sofisticadas, podiam flutuar e viajar para terras distantes.

Esses povos dependiam do mar para obter alimento; assim, suas próprias vidas eram nele personificadas. Deusas e deuses surgiram de suas profundezas e amorosamente abriram seus braços para abraçar os povos simples, ou sopravam ondas que destruíam suas frágeis embarcações e devastavam aldeias.

Assim como os rios, nascentes e riachos eram reverenciados, também o mar o era. Em conjunto com os ritos religiosos, praticava-se magia, assim como hoje.

Muitas das antigas deidades do mar são hoje objeto de livros – Possêidon, Ísis, Llyr, Mari, Netuno, Shony, Tiamat, Dylan, Manannan – todos esses e muitos outros receberam libações, incensos, sacrifícios.

O que os livros parecem desconhecer é que eles ainda vivem; seus murmúrios são ouvidos nos ruídos do oceano e seus poderes aumentam e minguam com a lua. Eles aguardam o momento de se erguer e serem novamente reconhecidos.

Apesar de não precisar cultuar o mar ou suas deidades para praticar a magia do mar, você deve respeitá-lo como um amplo depósito de poder. É nossa mãe ancestral, mais antiga que os continentes sobre os quais vivemos, mais velha que a árvore ou a pedra. É o próprio tempo.
Rituais e Encantamentos da Tradição', de Scott Cunningham;

A Dança Dos Mascarados.

Quando à época da primavera
em que as árvores estão coroadas de folhas
Os freixos e carvalhos, bétulas e teixos
estão vestidos com belos laços

Quando as corujas chamam à quieta lua
no véu azul da noite
As sombras das árvores aparecem
Em meio à luz das lanternas

Estivemos caminhando pela noite inteira
E também por uma parte deste dia
Agora, mais uma vez retornando
Trazemos uma guirlanda de flores

Quem vai descer até os sombrios bosques
E lá invocar as trevas?
E amarrar um laço nos braços protetores
Nesta primavera?

O cantar dos pássaros parece preencher o bosque
Que quando o bardo toca
Todas suas vozes podem ser ouvidas
Mesmo após o passar dos dias da floresta
E eles deram as mãos e dançaram
Uma ciranda, em círculos e fileiras
E cai a jornada da noite
Quando todas as cores se vão
"Uma guirlanda de flores nós lhe trazemos
E em sua porta nós estamos
É um broto bem cuidado,
o trabalho da mão de nosso senhor"

A Noite Negra da Alma.

Sobre uma noite escura
A chama do amor estava queimando em meu peito
E como uma lanterna brilhante
Eu fugi de minha casa enquanto todos dormiam

Ocultada pela noite
E pela escada secreta eu rapidamente fugi
O véu escondia meus olhos
Enquanto tudo dentro dormia quieto como a morte

Oh noite, és minha guia
Da noite mais amada do que o sol
Oh noite que une o amante
Com aquela que ama
Transformando um no outro

Sobre esta noite mística
Em segredo, além da visão mortal
Sem guia ou luz
Que queimava tão profundo em meu coração
Aquele fogo me guia
E se mostra tão brilhante quanto o sol do meio-dia
Para onde ele ainda espera
Era um lugar onde ninguém poderia chegar

Dentro do meu coração batendo
Que se mantém inteiramente para ele
Ele dormiu
Embaixo dos cedros, todo meu amor que eu dei
Das paredes seguras
O vento colocaria seu cabelo contra sua sobrancelha
E com sua mão lisa
Acariciado cada sensação minha que permitiria

Eu me perdi para ele
E coloquei minha face no peito de meu amante
E o cuidado e o pesar cresceram escuros
Como a névoa de manhã se tornou a luz
Lá eles entre os lírios claros
Lá eles entre os lírios claros
Lá eles entre os lírios claros.
Loreena McKennitt.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Raízes Wiccanas.


Não podemos analisar os Mistérios Wiccanos sem nos referirmos aos celtas e aos druidas das Ilhas Britânicas. As antigas regiões da Irlanda, da Bretanha, da Escócia e do País de Gales evocam imagens de reinos místicos e segredos ocultos, pois é ali que podem ser encontrados os mistérios do Caldeirão de Cerridwen e dos ensinamentos das transformação ocultos na história de Taliesin. Ali também encontramos os míticos Tuatha de Danann e muitas lendas esplendorosas de heróis míticos como Hu Gadarn e Cuhulainn. É em tais lendas que podemos encontrar e desvendar os princípios dos Ensinamentos Misteriosos.
Entretanto, as mais antigas Tradições de Mistérios européias conhecidas (exceção feita aos temas alegóricos de Atlântida e Lemúria) originam-se, na verdade, das antigas regiões da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Itália, ou de regiões próximas. No mais das vezes, essas culturas antecedem a tradição celta em cerca de mil anos ou mais. Nas terras célticas, os druidas também transmitiam uma Tradição de Mistérios – uma mescla de crenças locais e influências externas. Muitos estudiosos atualmente crêem que o culto dos druidas teria sido um resquício de um antigo clero indo-europeu. A Tradição de Mistérios dentro da religião Wiccana teve origem na cultura neolítica da Grande Deusa da Antiga Europa, e não diretamente das influências indo-européias sobre a religião celta de modo geral.
Em seu livro The Goddesses and Gods of Old Europe (University of California Press, 1982), a professora Marija Gimbutas descreve a Antiga Europa como a região que compreende a Itália e a Grécia, estendendo-se ainda pela Checoslováquia, o sul da Polônia e o oeste da Ucrânia. Gimbutas afirma que nessa área, entre 7000 e 3500 a.C., teve origem o antigo culto matrifocal da Grande Deusa e seu consorte, o Deus Cornífero. Ela se refere ao povo dessa região antiga como pertencendo a uma cultura pré-indo-européia: matrilinear, agrícola, pacífica e sedentária.
Gimbutas prossegue descrevendo a Antiga Europa e seus aspectos singulares como cultura neolítica. Em um de seus capítulos, ela descreve:
Entre 7000 e 3500 a.C., os habitantes dessa região desenvolveram uma organização social muito mais complexa do que seus vizinhos ocidentais e do norte, formando comunidades que comumente se agrupavam em cidadelas, inevitavelmente levando à especialização do trabalho e à criação de instituições religiosas e governamentais. Eles descobriram por si sós a possibilidade de utilizar cobre e ouro na confecção de ornamentos e ferramentas, e aparentemente desenvolveram uma escrita rudimentar. Se definirmos civilização como a habilidade de um determinado povo de se adaptar a seu meio ambiente e de desenvolver artes, tecnologia, escrita e relações sociais apropriadas, fica evidente que a Antiga Europa atingiu um notável grau de sucesso.
É aqui, no culto neolítico da Grande Deusa da Antiga Europa, que surgiram os alicerces dos antigos Mistérios Wiccanos. É aqui, portanto, que começaremos a relacionar os antigos segredos transmitidos geração após geração. No decorrer de nossa exploração, observaremos o fluxo dos Ensinamentos Misteriosos à medida que passam da região egéia à mediterrânea. Analisaremos como ingressam na Itália e se mesclam às civilizações etrusca e romana. Partindo do sul da Europa, rastrearemos sua corrente rumo ao ocidente, e os seguiremos em direção à Europa Setentrional, pois foi ali que os celtas abraçaram os mistérios e os incorporaram a seu próprio sistema de crenças, o qual se tornou o que convencionamos chamar de Tradição dos Mistérios Wiccanos.

Em seu livro The Mysteries of Britain (Newcastle Publishing, 1993), Lewis Spence afirma que os ensinamentos druídicos surgiram de uma combinação da cultura mediterrânea neolítica com as crenças nativas da antiga Bretanha. De acordo com Spence, antigos viajantes mediterrâneos da Nova Idade da Pedra e da Idade do Bronze chegaram ao litoral briânico e introduziram o Culto aos Mortos, comum às antigas crenças da Europa Setentrional de então. Com o início da Idade do Ferro, a ilha doa Bretanha ficou isolada, e dessa forma as crenças celtas transformaram os ensinamentos importados numa religião única ao povo celta.

A religião da Antiga Europa havia se espalhado pelo ocidente partindo do sul da Europa por volta de 4500 a.C., como comprova o descobrimento na Espanha e na França de ícones de estilo semelhante ao do antigo culto matrifocal da região e egéia-mediterrânea. Por volta de 3000 a.C., povos do mediterrâneo, da Espanha e da Bretanha Menor se estabeleceram nas colinas ao sul da Inglaterra, levando consigo à religião da Antiga Europa. O Culto aos Mortos, associado aos espíritos dos mortos, com festivais celebrados em outubro e novembro, ainda sobrevive desde tempos longínquos na Itália e na ilha da Sicília, bem como na Inglaterra. O historiador John Morris (University College, Londres), em seu livro The Age of Arthur (cap. 8: “Pagan Ireland”), nos diz que povos da Sicília e do sul da Itália se estabeleceram na Irlanda no terceiro milênio a.C. e introduziram tumbas derivadas dos túmulos em rocha da Sicília e da Itália. Morris afirma que estes são o “povo de Partholon”, mencionado nos mitos irlandeses.

Em algum ponto entre 600 e 500 a.C., os celtas invadiram a Inglaterra e se depararam com o antigo Culto aos Mortos mediterrâneo. Spence atesta que os celtas a princípio temiam o Culto e nutriam temor especial pelas sidhe (fadas), que na verdade eram os espíritos dos mortos. Outra interessante conexão da Antiga Europa é dos primeiros etruscos (1000 a.C.) no norte da Itália, que acreditavam numa raça mística conhecida como Lasa, também associada aos mortos (conhecidos posteriormente pelos romanos como espíritos ancestrais chamados Lare). As similaridades na aparência e no folclore são muito grandes para que sejam apenas coincidência.

Spence especula que os druidas eram, na verdade, um grupo sacerdotal sobrevivente ao Culto aos Mortos mediterrâneo, os quais os celtas conseqüentemente vieram a respeitar e honrar após ocuparem a Bretanha:

Os homens de Long Barrow eram comerciantes, viajando da Espanha para a Bretanha, num período comumente determinado por volta de 2000 a.C., e o fato de terem adotado o Culto aos Mortos é comprovado por seus hábitos de sepultamento. Outras raças os sucederam, mas, apesar de suas crenças religiosas terem deixado algumas marcas, o Culto aos Mortos local permaneceu como fé oficial e absorveu todas as outras posteriormente introduzidas, com o povo celta adotando seus princípios e fundindo amplamente sua mitologia a ela... [O druidismo] surgiu de um Culto aos Mortos que vinha se desenvolvendo durante a Antiga Idade da Pedra...

Assim sendo, os druidas se tornaram os sacerdotes da ilha, preservando as antigas tradições que se fundiram numa nova e única religião celta. Devemos notar, entretanto, que Spence, apesar de nenhuma culpa poder lhe ser imputada, erra quanto ao período dos homens de Log Barrow, confiando nas errôneas evidências científicas disponíveis na época (a data mais provável é 400 a.C.).

Segundo consta, os celtas não possuíam templos até o período galoromano. Celebravam suas cerimônias em santuários nas florestas, sob a direção dos druidas que haviam se tornado seus líderes religiosos. O nome druida significa “conhecendo o carvalho”, ou “encontrando o carvalho”, e está obviamente associado à prática de culto nos bosques. Após a influência dos romanos, os celtas ergueram templos pagãos, muitos dos quais foram descobertos por arqueólogos tanto na Bretanha como na Gália.

Os celtas foram o primeiro povo definido a formar uma cultura distinta nos territórios europeus ao norte dos Alpes. Antes da metade do primeiro milênio, eles eram completamente desconhecidos para o mundo civilizado mediterrâneo. Por volta do século IV a.C. foram catalogados pelos gregos como um dos mais numerosos povos bárbaros do mundo conhecido de então (os outros eram os cítios e os persas).

É possível rastrear as origens das tribos celtas até a cultura de Túmulos da Idade do Bronze, que atingiu seu apogeu por volta de 1200 a.C. Contudo, os celtas não figuram como povo distinto e identificável até a época do período de Hallstatt (dos séculos VII a VI a.C.). Durante o período de Hallstatt, os celtas se espalharam pela França, Ilhas Britânicas, e rumo ao leste a partir da Europa Central. Bandos celtas também penetraram na Itália, Romênia, Trácia e Macedônia. Ali atacaram os territórios etruscos, romanos e gregos, e foram posteriormente expulsos através dos Alpes pelas legiões romanas.

A partir da metade do primeiro século a.C., os celtas ficaram encalacrados entre o Império Romano em expansão ao longo do Reno e do Danúbio e os invasores germânicos do sul. Ao final do século, os celtas haviam perdido o controle sobre o continente e foram posteriormente contidos pelos romanos que avançavam para invadir a Bretanha (pela primeira vez por volta de 56 a.C. sob o comando de Júlio César). Como resultado sua cultura foi transformada por séculos de ocupação romana, e posteriormente pela Igreja Católica Romana. As antigas tradições pagãs foram relegadas a uma sociedade oculta onde sobreviveram na Antiga Religião da Wicca (bem como em muitas tradições folclóricas).

A história da Antiga Religião se estende ao obscuro passado da transformação dos caçadores-coletores em uma comunidade agrícola. Isso vale dizer que a essa altura ela se torna mais facilmente identificável para nós. As raízes da Wicca como religião expressiva datam da Era Glacial, quando os humanos pintavam e esculpiam cenas nas paredes das cavernas. Algumas cena retratam temas de caça e outras são aparentemente de origem cerimonial, se não sobrenatural em conceito. À medida que prosseguimos aqui nossas explorações pela história da Antiga Religião, tenha em mente que, onde não apresento datas ou referências a obras, estou tratando da história oral da Tradição dos Mistérios.

Quando os humanos caçadores-coletores que habitavam as florestas começaram a desenvolver uma sociedade agrícola, mantiveram consigo as antigas deidades do mundo selvagem. O deus com cornos de gamo da floresta foi transformado no deus com cornos de bode dos pastos. Isso se deveu em grande parte à necessidade de se domesticarem animais numa sociedade agrícola. O deus da floresta tornou-se então o deus das colheitas.

O foco do antigo culto, no entanto, não era centrado numa forma masculina, mas sim uma feminina. Os primeiros ancestrais dos Wiccanos cultuavam a Grande Deusa, personificação dos mistérios femininos. Como a Grande Mãe, ela refletia a misteriosa e poderosa natureza das mulheres, a qual lhes consentia sangrar por dias sem enfraquecer e gerar outra vida humana. Não só esse poder era um mistério para o homem antigo, como também o era para a mulher antiga. Por sua necessidade de compreender (e de algum modo controlar) essas habilidades, as mulheres se isolaram dos homens e formaram sociedades femininas.

Alguns estudos modernos muito convincentes parecem indicar que foram as mulheres quem primeiro estabeleceram o sistema de tabus. Em alguns aspectos, apenas para se livrarem da atenção sexual dos machos, mas também para estarem próximas umas das outras durantes os períodos de menstruação e parto. As mulheres transmitiam o conhecimento das ervas que aliviavam a dor e reduziam os sangramentos, bem como outros “segredos” aos quais os homens não tinham acesso. Durante o regime patriarcal, os tabus permaneceram, mas com conotações diferentes dos originais.

Os homens naturalmente temiam o que não compreendiam e julgavam o sistema de tabus não como um período em que as mulheres estariam isoladas e juntas, mas como uma situação que eles deveriam evitar. Dessa forma, para os homens os processos de menstruação e parto se misturavam a medo e ameaça. Tudo o que sabiam era que esses períodos os afastavam dos prazeres das relações sexuais e causavam dor física às mulheres. Da imaginação comum à natureza humana durante um período de segregação forçada, imagens negativas começaram a se desenvolver. Tais imagens negativas evoluíram com o passar dos séculos para uma mentalidade que via erroneamente a menstruação como um processo impuro e contagioso.

Foi em parte graças a essa mentalidade que o homem se afastou da espiritualidade do Culto à Deusa e se aproximou do culto ao guerreiro-caçador. Por não poderem amamentar, menstruar ou parir ( e já que seu papel na fecundação ainda não era completamente entendido), os homens buscaram uma compreensão de sua própria relevância. Esse foi, no entanto, um processo lento, e muitos homens permaneceram na religião matrifocal como sacerdotes. A maioria deles era de anciãos e caçadores incapacitados, os quais, deixados para trás durante as caçadas e lutas, passavam a ser treinados por xamãs femininas. Desse grupo de homens surgiu o que viria a se tornar o sacerdócio da Wicca. Com o tempo ocorreu uma cisão entre as sociedades masculinas, e elas conseqüentemente se separaram em cultos de orientação solar e lunar. À medida que os homens ascendiam ao poder, passaram a desafiar a estrutura de descendência matrilinear e a supremacia dos conceitos religiosos matrifocais.

A imagem da Grande Mãe permaneceu como uma força poderosa mesmo depois da mudança da religião matrifocal para a patriarcal. A Igreja Católica manteve sua divindade na forma de Maria, a mãe de Deusa. Até mesmo a própria Igreja passou a ser conhecida como a Sagrada Madre Igreja. A necessidade de se ter uma fonte de cuidados próxima (à qual servir como nos tempos matrilineares) nunca foi afastada do inconsciente do homem. A figura materna é a mais forte e duradoura imagem da experiência humana.

Foram em grande parte as mulheres que estabeleceram a cultura humana e conduziram a humanidade da era dos caçadores-coletores para a sociedade agrícola. A imagem da Grande Deusa Mãe era o símbolo externo das preocupações e necessidades da comunidade humana. Mas ela ainda incorporava os temores dos povos antigos e destarte era também conhecida como “Mãe Terrível”, a destruidora da vida, daí representando a morte. Como seu símbolo, a Lua, a deusa adotava diferentes formas e diferentes matizes de luz e sombra.

Vilas que dependiam das terras cultivadas e dos animais domesticados apareceram pela primeira vez no sudeste da Europa no sétimo milênio. Imagens da Grande Deusa Mãe entalhadas em pedra surgiram na arte neolítica da Antiga Europa por volta de 6500 a.C., com imagens de deidades masculinas com chifres. O grande número de imagens e estátuas descobertas por arqueólogos indicam um culto matrifocal distribuído entre os povos da Antiga Europa. Esse antigo culto continha as origens das crenças religiosas da Wicca.

Quando a palavra “Wicca” passou a ser conhecida pelo grande público, ela era usada como referência à Antiga Religião européia pré-cristã. Atualmente, seu significado foi alterado para incluir uma visão mais ampla dos conceitos neo-pagãos e de Nova Era. A Antiga Religião da Wicca foi originalmente um culto à fertilidade que idolatrava buma Deusa e um Deus. Possuía, um certo estágio de sua evolução, uma hierarquia que consistia de uma Suma Sacerdotisa e um Sumo Sacerdote, auxiliados por sacerdotisas e sacerdotes. Essencialmente, a Wicca era uma religião da Natureza, enfocando as energias que fluem sobre a terra com o passar das estações.

Examinaremos os fundamentos da Antiga Religião, apresentando uma visão do que ela foi um dia e do que é hoje. Creio que é importante recuperar nossa herança e compreender nossa condição atual, para que não nos esqueçamos de quem fomos e para que possamos saber quem somos hoje. Não podemos esquecer que a Antiga Religião, fundada sobre as Leis da Natureza, possui em seu interior certas leis, padronizadas de acordo com as da Natureza. A Tradição de Mistérios dentro da Antiga Religião é um sistema através do qual os indivíduos podem aprender a evoluir espiritualmente por meio de uma compreensão das leis metafísicas refletidas nas leis da Natureza.

As raízes culturais da Antiga Religião retrocedem aos tempos tribais da humanidade. Em suas tentativas de compreender o mundo a seu redor, esse povos primitivos deram os primeiros passos em direção à religião. Nas grandes manifestações de poder da Natureza, como tempestades e terremotos, eles viam a ação de Seres maiores do que eles, aos quais posteriormente viram a chamar de Deuses. Da tendência humana de personificar as coisas surgiu uma hoste de espíritos e deidades. As lendas da Arte são repletas de histórias nas quais os deuses interagem com a humanidade. Até os mais comuns mitos esotéricos tratamn de tais encontros. Parece então provável que a humanidade primitiva realmente tenha entrado em contato com uma raça superior de Seres (Deuses ou indivíduos pertencentes a uma sociedade avançada ainda mais antiga), que os impressionaram de modo a gerar uma veneração ritual. Certamente existem muitos mistérios não solucionados (tais como Stonehenge, a planície de Nazcar e as estátuas da Ilha da Páscoa) que nos propõem uma avaliação mais profunda.

Nos Antigos Caminhos, as lendas retratam Deuses que olhavam por seus seguidores, salvando-os da Queda da Humanidade no correr da Primeira e da Segunda Era. Essas eras refletem as lendas da Lemúria e da Atlântida. Não eram apenas os Deuses, contudo, que cuidavam da humanidade, orientando-a, mas também os antigos xamãs da tribos. Os primeiros xamãs eram em sua maioria mulheres que, durante a rotina diária de colheita e preparo de alimentos, aprenderam os segredos das ervas.

Antes do surgimento da agricultura, os humanos dependiam da vida animal e, dessa forma, dos caçadores das tribos. Antigas lendas retratam bravos caçadores que, disfarçados de animais (com peles e chifres), aproximavam-se mais das manadas. Com o passar do tempo, a imagem desses heróis com chifres tornou-se a imagem do Deus que provia animais às tribos. Como previamente observado, os heróis com chifres após determinado tempo não mais participavam das caçadas (normalmente em razão de ferimentos) e sua condição especial dentro do clã lhes propiciava treinamento religioso e em magia pelas xamãs femininas. Desse fato tiveram origem a Sacerdotisa e seu Sacerdote. Originalmente, as mulheres dirigiam a tribo em assuntos religiosos ou espirituais, enquanto aos homens eram reservados papéis secundários. As mulheres eram vistas como entes mágicos pelos homens por sua capacidade de gerar rebentos, e por isso eles aceitavam sem contestação a dominação feminina. Apenas após perceberem seu papel na procriação foi que os homens exigiram um papel mais determinante nos assuntos religiosos. Isso trouxe com o resultado uma relação de parceria entre os sexos, ao contrário das relações anteriores, de dominação. Posteriormente, os homens forma gradativamente forçados a se tornar guerreiros além de caçadores, passaram a ter maior importância e conseqüentemente passaram a exercer maior controle sobre todos os assuntos tribais.

A sociedade matrifocal existente (a que o culto do caçador-guerreiro conseqüentemente usurpou) havia se estabelecido muitos séculos atrás. Sua Grande Mãe foi a mais antiga forma divina criada pela humanidade. A respeito desse antigo culto, Marija Gimbutas escreve:

A arte focada na Deusa, com sua notável ausência de imagens relacionadas à guerra e à dominação masculina, reflete uma ordem social na qual as mulheres eram as líderes dos clãs ou em que as rainhas sacerdotisas tinham papel central.
Marija Gimbutas, The Language of the Goddess

Gimbutas afirma que o culto à Grande Deusa da Antiga Europa sofreu um declínio gradativo a partir de talvez 4300 a.C., pondo fim a seu reinado solitário por volta de 2500 a.C. (graças à expansão do patriarcado dos indo-europeus). A partir de 2500 a.C., a religião da Europa resultou de uma fusão das crenças matrifocais européias com as práticas patriarcais indo-européias (na maioria das regiões foram da Europa Central, onde Gimbutas declara que o culto à Grande Deusa foi obliterado).

Ela escreve também que, no sul e no oeste da Europa, houve muito mais resistência, o que possivelmente explicaria o porquê de muitos dos antigos ensinamentos de Mistérios europeus terem sido preservados por tradições como a Strega italiana (um culto de bruxaria ainda hoje existente):

As regiões egéia e mediterrânea e a Europa Ocidental resistiram mais ao processo; ali, especialmente nas ilhas de Thera, Creta, Malta e Sardenha, a cultura da Antiga Europa floresceu através de uma invejavelmente pacífica e criativa civilização até 1500 a.C., de mil a 1500 anos depois da transformação completa da Europa. Contudo, a religião da Deusa e seus símbolos sobreviveram como subcorrente em muitas áreas.


A autora trata também de um “sistema social não-patriarcal e não-matriarcal” equilibrado, que continuou a ser refletido nos elementos das religiões etrusca e romana. Quando levamos em conta que os etruscos assumiram seu poder por volta de 1000 a.C. na Itália, fica aparente que eles ou mantiveram ou herdaram muito da religião da Antiga Europa, transmitindo-o aos romanos, que adotaram muitos conceitos etruscos. O antigo historiador grego Theopompus (século IV a.C.) escreveu que as mulheres etruscas eram socialmente iguais aos homens, cultas, “excessivamente permissivas” sexualmente e possuíam um amor geral pelo prazer.

Roma viria a conquistar praticamente todo o mundo conhecido na época. Os soldados da ocupação romana espalharam o paganismo italiano de sua vilas rurais por todas as terras conquistadas e ocupadas (em contraste com a religião do Estado romano, à qual o povo comum, na melhor das hipóteses, prestava juramentos falsos). Isso explicaria muitas das semelhanças entre as crenças e práticas do norte e do sul da Europa pagã. No ano de 43 d.C., os romanos invadiram oficialmente a Bretanha (ao contrário da incursão anterior de César) e mantiveram a ilha sob seu poder até por volta da metade do século V (410 d.C, segundo os registros romanos). Tamanha foi a influência dos quase 400 anos de ocupação romana que a cultura, a arte religiosa e a arquitetura celta foram irremediavelmente alteradas.

Geral Gardner, no capítulo seis de seu livro The Meaning of Witchcraf (Weiser, 1976), relaciona a tradição dos Mistérios Romanos e da Vila dos Mistérios em Pompéia às cerimônias de iniciação da Wicca celta. Ela afirma:

Agora, isso pode significar que os verdadeiros segredos de magia chegaram à Bretanha através dos Mistérios, o que vale dizer, antes do ano 100, e que as bruxas britânicas eram apenas sábias das aldeias... Em tal período as idéias religiosas eram compartilhadas e adotadas livremente; mas é possível que certas idéias e práticas tenham chegado à Bretanha através dos Mistérios trazidos pelos romanos.

Fazendo justiça à intenção de Gardner, ele não cria que essa possibilidade representasse a verdade absoluta, e acreditava firmemente que a Wicca representasse a sobrevivência do paganismo da Europa Ocidental (o qual Gardner ignorava tivesse surgido na Europa Setentrional). Para entender as origens da Wicca pré-cristã, devemos nos debruçar sobre a História Antiga e a civilização humana.

À medida que os humanos passaram a construir cidades e impérios, as visões religiosas das filosofias solar e lunar começaram a se distanciar. Os aspectos controladores, reguladores e dominantes das filosofias solares pareciam mais adequados para se conquistar e controlar os inimigos mais rapidamente que os aspectos influentes, intuitivos e cooperativos das filosofias lunares. Isso, com o tempo, levou à formação de duas religiões pagãs distintas. Contudo, uma vez que eram os homens a deter os poderes político e militar, bem como a reger os Ritos Solares, os Cultos Lunares acabaram por se tornar ilegais em razão do receio de que pudessem ameaçar a supremacia do Culto Solar.

Os Cultos Lunares passaram a praticar seus ritos em segredo, longe das áreas urbanas. As florestas e as montanhas se tornaram templos para os cultuadores da Lua. Apesar do domínio dos homens de orientação solar, o coração do povo pulsava no ritmo Lunar (com a Deusa). Cultos secretos abundavam, como os Benandanti italianos, que lutavam contra espíritos maléficos, carregando cajados com hastes de erva-doce na ponta ao defender as plantações na colheita. Outras sociedades surgiram para preservar e proteger os Antigos Caminhos (como a Sociedade de Diana).

O Culto da Bruxaria e outras Tradições de Mistérios floresceram até o século IV, quando os primeiros cristãos saquearam e destruíram templos pagãos e proibiram a prática de ritos. Em 324, o imperador Constantino decretou que o cristianismo passaria a ser a religião oficial do Império Romano. Templos pagãos foram destruídos ou convertidos em igreja cristãs. Gradativamente, com o passar dos anos, os costumes pagãos foram absorvidos pelo cristianismo, e a Antiga Religião passou a ser desertada pela população, passando a existir apenas nas sombras. Somente pequenos grupos de pessoas se reuniam nos antigos locais para celebrar os ritos sazonais, pois a maioria temia os fanáticos cristãos, apesar de os habitantes de vilas e cidades ainda consultarem a bruxa local buscando curas e auxílio mágico.

No Sul da Europa, certas regiões ainda se atinham fortemente à Antiga Religião. A Toscana, no norte da Itália, era provavelmente o maior centro de paganismo, seguida de perto pela região do Benevento no centro baixo da Itália. Com o tempo, entretanto, até mesmo esses focos de resistência sucumbiram ante o poder da Igreja cristã. Em 662, um sacerdote cristão chamado Barbatus tentou, em vão, convertê-lo. O imperador Constans II levantou cerco a Benevento, ameaçando aniquilar sua população. Barbatus recebeu a promessa do imperador de que a cidade seria poupada se seus habitantes renunciassem ao paganismo. Romualdus concordou com essas condições. Em 663 Constans levantou seu cerco e Barbutus foi escolhido bispo de Benevento. Os locais de culto pagão foram destruídos e o cristianismo substituiu oficialmente o paganismo.

No norte e no oeste da Europa, a Antiga Religião sofreu intensa perseguição. Os antigos deuses pagãos locais ainda eram cultuados em pequenas aldeias, e muitos povoados possuíam uma sábia ou um sábio entendido em ervas e encantamentos. A igreja atacou violentamente esses indivíduos, rotulando-os de agentes de Satã e utilizando os versos bíblicos contra eles, o que resultou em sentenças de morte por prática de bruxaria.

Tudo o que sobreviveu das crenças, cultos e práticas pagãs foi julgado demoníaco e eliminado pela teologia e pela lei cristã. O Sínodo de Roma em 743 baniu quaisquer oferendas ou sacrifícios a deuses ou espíritos pagãos. O Sínodo de Paris, em 829, emitiu um decreto advogando a execução de bruxas, feiticeiras, etc., citando as passagens bíblicas do Levítico 20:6 e do Êxodo 22:18. o mais antigo julgamento resultando em pena de morte ocorreu em 102 em Orleans, França, Execuções de bruxas ocorreram desde 1100, mas a prática não era aceita até 1300. A primeira execução na Irlanda foi a da Dama Alice Kyteler, em 1324. o primeiro julgamento público , na França, aparentemente ocorreu em 1335, envolvendo uma certa Anne-Marie de Georgel.

Um dos mais antigos exemplos de legislação secular contra a bruxaria foi instigado no século XII por Rogério II, rei normando das Duas Sicílias. Ele afirmou que o preparo de poções do amor, funcionando ou não, era crime. Em 1181, o Doge Orlo Malipieri de Veneza também editou leis punindo poções e magia. Apesar de a bruxaria ser um crime punível oficialmente por todo o século XIII, a febre das bruxas do norte da Europa não atingiu o sul da Europa até uniformizar o início do século XV.

Bulas papais, como a editada por Inocente VII em 1484, transformaram a perseguição às bruxas numa epidemia descontrolada. Nos primeiro ano após sua publicação, 41 pessoas forma queimadas em Como, Itália, após as diligentes investigações dos Inquisidores Dominicanos. Em 1510, 140 bruxos foram queimados em Brescia e 300 mais em Como três anos depois. Em Valcanonia, 70 pessoas foram queimadas e o Inquisidor declarou ter outras 5.000 sob suspeita. A Alemenha assistiu a mais de 6.000 execuções e os números totais da Europa Setentrional são estimados em 50.000 durante o período da Perseguição, França e Inglaterra efetuaram menos de 2.000 execuções, enquanto a Europa Oriental totalizou aproximadamente 17.000.

Em 1951, o Parlamento da Inglaterra revogou as últimas leis contra a bruxaria. Pouco tempo depois, surgiu na Grã-Bretanha uma renovação do Culto. Em 1954 e 1959, Gerald Gardner publicou seus livros, Witchcraft Today e The Meaning of Witchcraft (Macmillan, 1922), que revelaram muito acerca da real natureza do Culto. O próprio Gardner eras um bruxo inglês, e muito fez para mudar a imagem dos bruxos influenciada pelo cristianismo. Por mais estranho que pareça, os ritos revelados por Gardner contêm muitos aspectos da bruxaria italiana. O nome italiano Aradia surge no Sistema inglês, junto ao texto originalmente em italiano chamado The Charge of The Goddess.

Dois homens cujas pesquisas exerceram grande influência sobre Gerald Gardner foram Charles Leland e James Frazer. Leland estudou e pesquisou a bruxaria italiana no final do século XIX e Frazer foi notabilizado por sua pesquisa acerca da relação entre magia e religião. Ambos eram autores com obras publicadas; Leland escreveu Aradia – Gospel of the Witches, além de Etruscan Magic & Occult Remedies (University Books, edição de 1963), e Frazer escreveu The Golden Bough (Macmillan, 1922), que foi, por muitos anos, um clássico na área.

Muitos dos elementos da Wicca, como relatados por Gerald Gardner, podem ser encontrados nos primeiros trabalhos de Leland e Frazer. A conhecida Sagração à Deusa, por exemplo, origina-se claramente do texto italiano encontrado em Aradia – Gospel of the Witches, de Leland, escrito quase meio século antes da versão Gardneriana. A prática cerimonial de bruxos realizarem encontros ao natural, o culto a uma Deusa e um Deus, e a prática da magia também são anteriores aos escritos de Gardner e são mencionados em Aradia – Gospel of the Witches (publicado em 1890). Tratei extensivamente desse tema em meu livro Ways of the Strega (Llewellyn, 1995), apresentando abundante documentação histórica corroborando essa idéia.

Durante os anos 1950 e 1960, a Wicca cresceu e se desenvolveu em partes da Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. Surgiram muitas revistas Wiccanas e neopagãs, criando uma rede para a comunidade pagã. Dois dos mais bem-sucedidos periódicos eram Green Egg e Circle Network News, os quais ainda hoje são publicações importantes. Outras, como The Crystal Well, Harvest e The Shadow’s Edge forma periódicos importantes em sua época. A Wiccan Pagan Press Alliance (WPPA) serve atualmente como sistema de rede e apoio para escritores e revistas na comunidade pagã.

Durante o final da década de 1960, a Wicca oferecia uma espiritualidade alternativa a uma nova geração, e muitos dos que se envolveram com o movimento hippie desaguaram na Wicca. A Wicca era menos severa e dogmática do que os sistemas judaico-cristãos ainda dominantes nos anos 60. Isso oferecia grandes atrativos a uma geração que já vinha questionando a sociedade e as instituições que a apoiavam.

A Wicca também atraiu aqueles que haviam sofrido emocionalmente com o establishment e a Igreja, em razão de estilos de vida alternativos ou pontos de vista não-convencionais. Após o movimento hippie, que ensinara amor e individualidade, surgiu o movimento da Nova Era. Esse movimento introduziu o uso de cristais, freqüências de ondas mentais, alienígenas e tudo o mais que surgisse. Talvez mais do que qualquer outra, a mensagem enfocada pela Nova Era enfatizava o Self, a Individualidade. Não eram os mesmos ensinamentos acerca da individualidade dos anos 60; era muito mais abrangente e difuso.

A década de 1980 talvez tenha assistido às mais significativas mudanças até agora. A filosofia da Nova Era germinou na Wicca e encontrou solo fértil na mente aberta de seus praticantes. Em pouquíssimo tempo, muitas crenças Wiccanas foram modificadas e alteradas para acomodar uma nova geração. Essa década assistiu também a uma abundante produção de livros sobre a Wicca e outros assuntos correlatos. Novas tradições surgiam lá e cá, todas com uma idéia diferente ou um novo enfoque. Essa década desviou o foco das antigas tradições Wiccanas em favor de sistemas ecléticos.

Agora, na década de 1990, temos visto a crescente popularização dos boletins computadorizados tais quais os fornecidos por servidores como Compuserve e Americana OnLine (AOL). Esses serviços oferecem um fórum para que os Wiccanos e neopagãos possam discutir uma variedade de tópicos e formular e responder perguntas. Alguns assinantes formaram Cyber Covens, celebrando rituais on-line através do modem dos computadores. Pessoalmente, tenho minhas reservas quanto ao assunto, mas é interessante observar essa evolução moderna da Wicca.

Por causa de algumas das modificações dentro da Wicca moderna, muitos dos antigos praticantes passaram a utilizar o termo Witch (Bruxo) em vez de Wiccanos para descrever a si mesmos. Esse fenômeno passa a ser especialmente curioso quando se considera que há não muito tempo muitas dessas mesmas pessoas preferiam utilizar o termo Wiccano em razão da incompreensão do público quanto ao verdadeiro significado do que seja um Bruxo. O uso atual desse termo aparentemente indica um desejo de ser identificado como praticante de um sistema de crenças mais antigo e tradicional. Atualmente, a Wicca é formada em grande parte por tradições autogeradas fortemente fundamentadas em material eclético. Quando alguém se intitula Wiccano hoje, pode ser que se identifique com um sem-número de crenças ou práticas que um outro Wiccano não necessariamente aceitaria.

Quando descrevo a Wicca atual como uma religião da Nova Era, se comparada à Wicca de algumas décadas atrás, acodem-me algumas impressões. A Wicca é como uma árvore, e quer me parecer que as Antigas Tradições Wiccanas são as raízes. As novas Tradições Wiccanas são como as flores que se renovam na primavera, e talvez essa Nova Era seja mais uma primavera. A fragrância das flores difere da fragrância da madeira da velha árvore na qual elas crescem. Talvez a fragrância das flores seja a emanação do espírito da árvore, a essência do que a árvore produz.

Para que uma árvore floresça e continue a produzir flores e sementes, ela necessita de um sistema seguro de raízes para nutrir os novos brotos. É muito fácil nos deliciarmos com as flores enquanto esquecemos da planta como um todo. As raízes de uma planta a sustentam em condições adversas. Em muitos casos, a planta pode aparentemente desaparecer, mas a raiz sob o solo restabelecerá a planta novamente em condições ideais. Temo que, atualmente, o objetivo principal da comunidade Wiccana seja o de produzir belas flores, e que o conhecimento da árvore como um todo esteja se perdendo.

Se pudermos unir equilibradamente as novas e as velhas tradições, asseguremos que a sabedoria e o conhecimento de nossos ancestrais sobreviverão com o que nós, por nossa vez, temos a transmitir a nossos próprios descendentes. Nós somos os antigos Wiccanos de amanhã, e espero que nossa coragem e dedicação a essa antiga religião nos traga o mesmo respeito perante nossos descendentes, do mesmo modo que nós honramos os valorosos homens e mulheres que sobreviveram à Inquisição.

O que os antigos Wiccanos preservaram com suas vidas? Uma coleção de encantos e rituais? Seria apenas um confortável conjunto de crenças pré-cristãs que eles preferiam? Não – o que eles protegiam era, isso sim, uma mentalidade e uma espiritualidade. Os instrumentos e as chaves para o entendimento, através do qual os mistérios podiam ser acessados, eram mais importantes do que suas próprias vidas. Eles estavam protegendo as raízes da árvore.

Um de meus professores certas vez me disse que, se não temos nada pelo que valha a pena morrer, então não temos nada pelo que valha a pena viver. Será que arriscaríamos nossas vidas atualmente para proteger nossos Livros das Sombras se condições como as da Inquisição ainda existissem? Será que realmente compreendemos o que era tão precioso aos nossos ancestrais Wiccanos? Há uma velha história sobre um grupo de bruxos que caminhou mar adentro rumo à morte para não ser apanhado pela Inquisição. À medida que avançavam na água, eles entoavam os nomes sagrados da Deusa, até que a última de suas vozes foi silenciada sob as ondas. Esses eram bruxos que compreendiam os mistérios.

A Wicca é como uma árvore com ramos abertos, fornecendo abrigo e alimento a todos os que em sua sombra buscam refúgio. A primavera restaura o crescimento que surge sob os galhos, e da velha madeira da árvore surge então seu fruto. Ocultas sob isso tudo estão as raízes que suportam a árvore, mantendo-a de pé. Se essas raízes são bem alimentadas, a árvore floresce. Se as raízes não recebem coisa alguma, conseqüentemente a árvore fenecerá e tombará com o passar do tempo. As raízes da árvore que hoje chamamos Wicca necessitam de nossa atenção. Vamos nos deter e cuidar de nosso antigo jardim.
Do Livro Mistérios Wiccanos, de Raven Grimassi.