contos sol e lua

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Grande silêncio e a paz interior.


O Grande Silêncio é o nome de um documentário de 160 minutos, lançado em 2005, que retrata a vida da comunidade dos monges cartuxos em Isère, França, produzido por Phillipe Gröning. É uma meditação silenciosa sobre a vida monástica. Sem música à exceção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas ou quaisquer comentários. Evoca a passagem do tempo, das estações, o dia dos monges e as orações. É um filme sobre a presença do absoluto na vida de homens que dedicam a sua existência a Deus, no grande silêncio. O próprio cineasta diz que saiu mudado depois dos seis meses vividos no mosteiro. Que acontece quando mergulhamos no silêncio? O que muda em nós?

O silêncio como experiência e lugar de encontro é algo de revolucionário, e nunca reacionário. É preciso silenciar para ouvir. É preciso silenciar para recuperar a saúde física e mental. O mundo anda doente, pois vive um exagero de decibéis que ensurdecem e atordoam. Apatia ou resignação são os sinais da alienação de onde estamos e de quem somos. Isso tudo é fruto do barulho e da dispersão. A pessoa silenciosa ou taciturna é alguém que está além ou aquém das palavras. Tem um fio de prumo sobre sua cabeça. É alguém que vive em paz e transmite paz em palavras e atitudes. Dizem os árabes em um famoso ditado: "não abra a boca se o que tens a dizer não for mais belo que o silêncio". Essa é a mesma percepção de São Bento ao afirmar em sua Regra aos monges que: "... raras vezes se deve conceder, até aos discípulos mais perfeitos, licença para entreterem conversações, embora sobre assuntos bons, santos e edificantes, tão importante é o silêncio; porquanto está escrito: Falando muito não evitarás o pecado (Pr 10,19). E em outro lugar: A morte e a vida estão em poder da língua (Pr 18,21) (Regra de São Bento, capítulo VI, O espírito de Silêncio)".

Se lembrarmos das vidas de quatro personagens das religiões, vemos que se apresentaram como homens de Deus vivenciando largos momentos de fecundo silêncio e se puseram a falar o que lhes fora revelado no silêncio. Do judaísmo, Moisés e profetas como Oséias ou Elias fizeram a experiência do silêncio. No mundo islâmico, o profeta Muhammad nas grutas da Arábia Saudita ouve a fala do arcanjo Gabriel. No budismo os mestres espirituais, das escolas da China e do zen-budismo japonês encontraram o caminho da sabedoria. O próprio Jesus Cristo, filho de Deus Altíssimo é um primoroso exemplo de quem soube viver o silêncio em frequentes, longas e profundas experiências de oração, como descritas pelos evangelistas (Lc 6,12; Mt 14,23; Mc 1,35; Jo 17).

O silêncio está vinculado à proximidade do mistério e da intimidade com Deus. As coisas mais íntimas são sempre pronunciadas aos sussurros e murmúrios. Talvez seja por essa razão que o salmista diga na versão hebraica: "O louvor, para Vós, ó Deus, é silêncio (Salmo 65,2)". A louvação mais alta e mais verdadeira acontece quando suprimimos ou esgotamos as palavras. Penetramos o vasto universo do recolhimento interior e da contemplação de tudo o que existe. Nesse lugar e espaço de silêncio é que o Espírito pode fazer ressoar a Palavra Eterna e nos despertar de um sono que nos dispersava ou escondia nossa essência interior e a conexão com Deus.

Um caminho promissor que se abre, depois de um grande silêncio, é o caminho da oração. O monge João Cassiano (360-435) afirma de maneira sucinta: "é perfeita oração aquela onde o que está orando não se lembra de que orando está" ou ainda que a boa oração seja breve e silenciosa e manifeste-se por uma tensão ardente da alma, por um transbordar inefável do coração e por um entusiasmo insaciável do espírito (João Cassiano, Da oração, Vozes, 2008, p. 97). A prece cristã é um movimento interior que se realiza em etapas sucessivas e complementares: em um primeiro momento é sempre uma inspiração advinda do coração e da vida. Depois se torna respiração e conexão com a transcendência feita em um exercício leve e ao mesmo tempo vigoroso. Depois vem a transpiração e a expiração em que nos apresentamos para Deus com nossos anseios, dificuldades, necessidades e palavras para enfim atingirmos o ápice do caminho que é a surpresa que emudece e extasia. Nesse momento ouvimos as melodias celestes e os sons inefáveis que plenificam e reverberam em nosso coração e em nossa vida.

A oração cristã parte e nos leva ao silêncio. Santo Agostinho dizia que a oração é puro silêncio (Santo Agostinho, O Mestre XII, 39). Não é posse de Deus, mas um estar em Cristo para viver no seu Espírito e segundo as suas palavras. A oração cristã é a fé que fala. Não é um estar em si somente, embora necessite de um momento introspectivo. Não é um estilo meditativo, ainda que não se realize sem um caráter reflexivo e atento aos sinais que nos chegam pelos sentidos e pelo corpo. Não é só intelectual e cerebral, ainda que não possamos dizer que se reduza ao irracional ou inconsciente. Passa por momentos de duvidas e de incertezas, vividos como aridez e ausência de iluminação. É necessário que aconteça a abertura para a fidelidade que confia na esperança. E esse portal pessoal poderá abrir-nos ao Outro, aos outros e à natureza.

O silêncio é um estado de espírito bem como uma profunda atividade de amor. Caminhar de forma progressiva na escola do silêncio pede que estejamos sintonizados com Deus e sua revelação. Esse percurso é difícil, mas realizável. Foi chamado pelos místicos como o ascetismo do silêncio. Existem obstáculos no caminho que devem ser identificados. Estão fora e dentro de cada um de nós. Os obstáculos externos são aqueles superficiais que nos desviam do reto caminho. São como ruídos que prejudicam o foco e a comunicação verdadeira. Distraem e enervam, levando-nos ao estresse ou à repressão de medos e fantasmas. Exigem um olhar arguto e persistência mesmo depois de quedas. Os internos são aqueles obscuros e muitas vezes desconhecidos. É preciso contar com a graça de Deus para enfrentá-los e resistir. Exigem conversão e misericórdia, pois o silêncio interior favorece a comunicação e sua identidade veraz. Vencidos os obstáculos podemos penetrar em um estado agudo de felicidade, tal como o silêncio foi definido por Clarice Lispector. Dizia a poetisa: "Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras".

A Igreja cristã sempre cultivou o silêncio e faz recomendações constantes para que cuidemos dele em nossas celebrações e na vida cotidiana de nossos fieis. Assim a introdução geral da Liturgia das Horas proposta pelo Papa Paulo VI, em 01/11/1970 orienta que: "Nas ações litúrgicas deve-se procurar em geral que se guarde também, há seu tempo, um silêncio sagrado (SC 30); por isso, haja ocasião de silêncio também na celebração da Liturgia das Horas. Por conseguinte, se parecer oportuno e prudente, para facilitar a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal com a Palavra de Deus e com a voz pública da Igreja, pode-se intercalar uma pausa de silêncio, após cada salmo, depois de repetida sua antífona, de acordo com antiga tradição, sobretudo se depois do silêncio se acrescentar a coleta do salmo; ou também após as leituras tanto breves como longas, antes ou depois do responsório (Liturgia das Horas, CNBB, 1984, n. 201 e 202, p.56)".

O silêncio sempre foi muito apreciado pelos monges cenobitas ou pelos anacoretas (eremitas), não porque tivesse valor em si mesmo, mas porque permite uma abertura para a plenitude que se esconde por detrás das palavras. O silêncio amado e buscado pelos monges e pelos místicos é feito de preparação e de expectativa. É um reconhecimento explícito de que somos incapazes de falar sobre o que é fundamental ou dramático. O povo simples sempre diz quando está diante de uma grande felicidade ou diante de uma grande perda ou fraqueza: não tenho palavras para explicar ou dizer. Quando alguém fala de algo que mudou sua vida fala das espumas, mas nunca das correntes submarinas. Fala do que sentiu, mas pouco pode dizer do que de fato viveu. O não dito é muito mais poderoso que a palavra. Assim quando precisamos estar com alguém que tem uma grande dor, as palavras desvanecem e se atrofiam. O melhor é calar para compreender. O silêncio, nestes momentos, exprime melhor a adoração, o abandono e o fascinante que cada ser humano busca ardentemente. E nesta "noite do Espírito", que é hora de amor, decisiva e irrevogável, perceberemos que não fomos nem seremos abandonados. Descobriremos que "depois da hora do meu amor, envolta no Vosso silêncio, chegará o dia do Vosso amor, a visão beatífica. Por consequência, agora que não sei quando chegará a minha hora, nem sequer se ela já começou, preciso esperar no limiar do Vosso santuário e do meu; preciso libertar este lugar dos ruídos do mundo (Karl Rahner, Apelos ao Deus do silêncio, Lisboa: Ed. Paulistas, 1968, p. 40)".

Em todos os povos e culturas o tema do silêncio como porta para Deus, se fez presente. O poeta, músico e filosofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), ganhador do prêmio Nobel da literatura em 1913, tornou-se mundialmente famoso por seu livro Oferenda Lírica. Nele temos um belo poema sobre o silêncio que preenche o coração: "Se não falas, como vou encher o meu coração com o teu silêncio, e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada, com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá, a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta (Gitanjali, Paulus, 1991, p. 19)".

Os monges do Oriente propuseram um caminho de oração fascinante chamado de hesicasmo, que é um estado de silêncio orante. O hesicasta é alguém que vive um estado de silêncio interior acompanhado pela memória constante de Deus. Isso exigirá uma qualidade fundamental que é a pureza de coração (Como água na fonte, Monges beneditinos camaldolenses, Loyola, 2009, p.187). Um dos maiores místicos da Igreja grega, São Simeão, o novo teólogo (949-1022) do mosteiro de Mamas, recomendava: "Sente-se sozinho e em silêncio. Incline a cabeça, feche os olhos, respire suavemente e imagine que está olhando para dentro do seu coração. Faça sua mente, ou seja, seus pensamentos, passar da sua cabeça ao seu coração. Respire e diga: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim! Pronuncie essas palavras em voz baixa, movendo suavemente os lábios, ou pronuncie-as, simplesmente, em espírito. Tente afastar todos os outros pensamentos. Esteja tranquilo, seja paciente e repita essa frase tanto quanto puder (Relatos de um peregrino russo, Vozes, 2008, p. 42)".

Uma religiosa carmelita de Paris, irmã Maria-Amada de Jesus (1839-1874), compreendeu claramente o papel central que o silêncio interior deve exercer em nossas vidas para a vida feliz e íntegra. Ela dizia que a vida interior pode ser resumida em uma só palavra: silêncio! E ainda falar pouco às criaturas e muito a Deus, pois o silêncio com Ele é um silêncio da eternidade, da plena união da alma com Deus. Ela divide os degraus dessa subida espiritual em doze, que podem ser comparados aos dozes graus de humildade da regra de São Bento. Aqui estão esses passos pedagógicos de uma vida silenciosa: 1. Silêncio das palavras; 2. Silêncio de movimentos ou ações; 3. Silêncio da imaginação; 4. Silêncio da memória; 5. Silêncio diante das criaturas; 6. Silêncio do coração e dos sentimentos; 7. Silêncio da humildade ou do amor-próprio; 8. Silêncio da inteligência; 9. Silêncio do julgamento; 10. Silêncio da vontade; 11. Silêncio consigo mesmo; 12. Silêncio com Deus!

Cultivando o grande silêncio ouviremos o vento tocando rochedos, o mar atingindo a praia, pássaros cantando maviosas melodias, crianças balbuciando, amigos celebrando, pobres pedindo amor, doentes sofrendo, florestas crescendo e, sobretudo seremos capazes de auscultar a voz interior proclamando que o amor de Deus existe em nós, suave e inefável. Na voz da monja Maria-Amada de Jesus, poderemos então dizer: "Eu sou semelhante a um pequeno grão de areia, que espera na praia a onda que o fará mergulhar no oceano".
Prof. Fernando Altemeyer Junior
publicado na revista O Mensageiro de Santo Antonio - jan/fev. 2012, dos frades franciscanos conventuais de Santo André.

Devaneios 1.


Morro para tudo que não fui e tudo aquilo que não escolhi.

Quantas vidas não conhecerei? Quantos “eus” não saberei.

Cada minuto é um enterro, em cada piscar um morto.

Morro de mim incessantemente a cada idéia nova e a cada memória perdida.

fica um pouco de mim por onde passo, como fotografias soltas no chão. São corpos na estrada.



Não sou nem os cadáveres que ficaram, nem este que aqui está.

Sou uma escolha que escolhe mesmo nada fazendo.

Sou todos os caminhos que deixei de optar na estrada.

Sou a soma todas as vidas que morri. Infinitas mortes. Em infinitos mundos agora tão distantes.

Se escolher é viver não ter escolhido é morrer.

Só podemos fazer uma escolha por vez, mas “não escolhemos” infinitas escolhas de uma vez.

Por que são infinitos os caminhos, mas é única a escolha.

Mais morro que vivo. Sou um morto de possibilidades.

Morrem minhas crenças para que outras surjam

morre minhas células para que outras vivam.

Morre todos os amores de todas as mulheres que não amei para que uma floresça.

A cada letra que escolho deste texto morto, milhares de palavras não escolhidas são enterradas nos silêncio das frases não ditas.

Infinitas são as letras que não optei a cada instante que você lê estas palavras.

Eu morri para todas estas poesias.

Morri para os livros e para as bibliotecas.

Morri para a grama no parque, chapinhas em poças d’água.

Morri para o beijo que não te dei ontem e para as cerejas nos copos não bebidos.

Morri para os gritos e as declarações de amor.

Morri para tua mão sobre a minha e para o teu rosto no meu peito.

Morri para o cheiro podre e para o perfume que não usou.

Morri para o vestido branco que nunca teve e para o susto no espelho.



Morri para a falta de tempo de estar contigo e para todo o tempo que eu estive comigo.

Morri quando eu dormia, morri quando tu acordavas.



Morri para todos os teus sorrisos e lagrimas em todos os teus anos até aqui.



Morri para o teu passado morri para o meu futuro.



Morri de livre arbítrio.





Mas hoje, agora, neste momento, que já passou em dias, eu escolhi morrer para tudo apenas para estar com você.

Minhas mortes me levaram até aqui.



Assim como um herói que sacrifica inúmeras vezes sua vida para colher um breve momento eu morri para viver estes instantes com você ao teu lado.

Por que são destes momentos que nasce a vida,

e são destes instantes que se faz uma existência.Poema de Mauro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Deusa e o Cosmos.


A Grande Deusa-Mãe tem sido venerada por todos os povos em todos os tempos. Apesar de seus diversos atributos, títulos e poderes, todas as divindades femininas emanam de uma única fonte: do princípio de Vida do Universo. Essa realidade suprema é chamada “A Deusa” e sua qualidade essencial é conter tudo, estar em tudo.

Nos relatos a respeito da origem do mundo, fala-se da Criação emergindo de um caos preexistente, ou de um espaço sombrio, sem limites nem forma, designado às vezes pelo nome de “águas primordiais” e que se supõe conter a totalidade das potencialidades. Dessa totalidade caótica nascem entidades distintas que o espírito humano classifica como boas ou más. Assim, a mitologia criou a imagem de boas mães, como Sofia e a Virgem Maria, mas também criou as que são consideradas más, como as Górgonas com cabelos de serpentes cujo olhar petrifica, como Sekmet (Egito), sedenta de sangue, e outras figuras ambivalentes como Hera e Afrodite (Grécia), Kâlî (Índia), Hine-nui-te-po (Oceania) e muitas outras. Essa tendência da Deusa de representar os complementares contrários – o mundo ctoniano e o celeste – caos e ordem, obscuridade e luz, esterilidade e fecundidade, destruição e criação, etc. – é habitualmente simbolizada por imagens circulares que lembram o Oroboros, a serpente que engole a própria cauda. A imagem da lua que, durante o mês lunar, passa de uma fina claridade crescente à plenitude, da obscuridade à claridade e vice-versa, é também um símbolo universal da Deusa.

O espírito humano tende a fragmentar e a categorizar. Ao contrário, o mito da Deusa nos faz conceber um único princípio de vida, pois Seu corpo – o Cosmos – engloba os diversos estados da Vida, os diferentes estados da existência. Assim, nascimento e morte são fases distintas de um mesmo processo contínuo, em que nada morre, mas tudo se transforma.

A vida, a morte e o processo de regeneração.

A maior parte das mitologias divide o Universo em céu – onde habitam os deuses, Terra – onde estão os humanos, e as profundezas da Terra e do mar – onde fica o reino dos mortos. Os antigos mitos da humanidade, ou seja, os da Suméria e do Egito, falam de muitas deusas, como Ereskigal e Neith, que foram exiladas no inferno.

O mito sumério de Ereskigal e Inanna mostra bem a ambivalência do princípio feminino do universo em seus aspectos de vida e morte e a constante possibilidade de regeneração. Inanna desce aos infernos para fazer voluntariamente a experiência de sua própria morte e de sua regeneração. Antes, porém, de descer ao reino de Ereskigal, seu lado sombrio, ela deve atravessar sucessivamente sete portas e despojar-se, a cada vez, de uma peça de seu vestuário, abandonando, pouco a pouco, os sinais de seu poder. Nos infernos, Ereskigal fixa-a com seu olhar de morte, mata-a e suspende seu cadáver em um gancho. Só quando propõe que Dumuzi, seu muito amado filho e esposo, tome seu lugar, é que Inanna consegue deixar os infernos. Ereskigal é a rainha do “Grande Mundo de Baixo” enquanto Inanna é a “Rainha do Mundo de Cima”. Ereskigal divide os mesmos atributos com Inanna, simbolizando ambas, portanto os dois aspectos de um mesmo princípio.

Os mitos agrários falam do mesmo processo de vida, morte e regeneração. Em todos eles, a criança simboliza a semente que é colocada na terra para que germine durante o inverno e renasça sob a forma de uma nova planta que cresce e amadurece, para ser finalmente colhida. Dessa forma, o ciclo agrário anual tornou-se uma alegoria da vida humana. Em Elêusis, os mistérios de Deméter compreendiam ritos secretos durante os quais os iniciados morriam para a vida passada antes de nascer para uma nova vida. Nesse meio tempo, sua alma deveria retornar à origem. Reviviam assim, de maneira simbólica, a descida aos Infernos e o retorno à terra da divindade. Esse processo é personificado pela Deusa, em que o grão é o símbolo da alma, é a semente que se transforma em árvore. Aqui a morte é vista como anunciadora da regeneração.

A Deusa das águas primordiais.

Muitas mitologias concebem o caos primordial como uma obscura extensão de águas sem limites. Muitas vezes o mundo é criado pela própria água, outras vezes, por uma divindade criadora que coexiste com a água desde toda a eternidade.

Esse símbolo da água como fonte de vida aparece em várias
tradições. No cristianismo, é exteriorizado na prática do batismo, na medida em que o novo adepto renasce para uma nova vida. As fontes batismais foram, muitas vezes, comparadas ao útero da Virgem Maria.

No Egito do período pré-dinástico, Neith, a deusa do Oceano, personificava as águas celestes e terrestres. Deusa primordial, continha o mundo e todas as criaturas vivas.

Os mares e os oceanos têm sido comparados às águas primordiais. A maior parte das “deusas-mães”, como Ísis, no Egito, foi associada ao mar ou ao oceano, ou ainda considerada como nascida dele. Como a lua está intimamente ligada às marés, muitas culturas deram às deusas lunares um poder total sobre as extensões marítimas. A vaca divina com cornos em forma de lua crescente simboliza a lua em muitas mitologias indo-européias, e tem como parceiro o touro, que é seu amante e filho. O touro é um dos símbolos de Poséidon, deus grego do mar. Afrodite, deusa do amor entre os gregos, na versão de Hesíodo também nasce das águas do mar fecundadas pelo sêmen de Urano, sendo considerada, pelos gregos, a Grande Deusa das águas (Revista SER no 8, pág. 42 e seguintes).

A Terra-Mãe.

A Deusa também é um símbolo do planeta terra e, como tal, está encarnada nas montanhas, nos vulcões, no curso das águas, nos desertos e em todos os acidentes geográficos.

Como símbolo da Terra-Mãe, podemos citar a deusa tibetana Klu-rgyalmo, “a rainha que colocou em ordem o mundo visível”, criando a abóbada celeste com a calota de seu crânio. Com sua carne, fez a terra; com seus ossos, os oceanos e os mares; com seu sangue, os cursos de águas; com seus dois olhos, fez o sol e os planetas; com seus dentes de cima, criou a lua. O trovão, o raio e a chuva nasceram de sua voz, de sua língua e de suas lágrimas.

Muitas tradições trazem a figura da Deusa como representante do nosso planeta. Dentre elas, a mais conhecida é Gaia, a deusa grega, símbolo da natureza, com seus poderes de criação e destruição.

A Ísis universal.

Na tradição egípcia, o princípio feminino do universo é representado por Ísis – a Grande Deusa-Mãe. O hieróglifo de seu nome é um trono, e freqüentemente ela é representada com um trono sobre a cabeça. Desde a primeira dinastia, os faraós fizeram-se chamar de “Filhos de Ísis”. O trono real era considerado o seio da deusa, e o néctar que saía de seu peito lhes conferia o direito divino de reinar.

Os gregos, após conquistarem o Egito, propagaram o culto a Ísis pelo mundo ocidental. Ísis é a transcrição grega de Esi, que significa “aquela que está sobre o trono”, isto é, a rainha. Já no século II de nossa era, Plutarco a descrevia como “o princípio feminino da natureza , que tem uma quantidade enorme de nomes , pois ela pode tomar todo tipo de aspecto e formas.”

Assim, muitos de seus atributos receberam diversos nomes na mitologia grega e romana, e espalharam-se por todo o planeta, chegando até o cristianismo como a Virgem Maria.

A Grande Deusa na tradição hebraica.

Shekhina/Sabedoria é a incognoscível e incorpórea parceira de Iahvé. Nos mitos gnósticos judaicos, Shekhina criou o mundo e o primeiro homem, mas, devido ao pecado de cada geração, desde Adão até os Sodomitas, ela se afasta pouco a pouco da terra, até encontrar refúgio no sétimo céu. A personificação de Shekhina foi, em parte, atribuída à Bíblia em aramaico que troca a fórmula hebraica “Eu moro” por “a morada da minha Shekhina”. Na tradição hebraica a Deusa foi reverenciada sob o nome de Shekhina/Sabedoria; mas, sob o aspecto de Eva, foi aviltada e despojada de sua divindade. Eva (Hawwâh em hebraico) significa “mãe de todos os viventes”, mas foi rejeitada por ser considerada como a origem de todos os males do homem.

Virgem Maria - a Grande Deusa do mundo cristão.

O tema mítico que originou o relato do nascimento, vida e morte de Jesus Cristo teve origem no Oriente Próximo, muito antes da era cristã. Maria, como muitas deusas-mães que a precederam (como a Deméter dos gregos, a Ísis dos egípcios, a Ashtar/Astarté dos sumérios e muitas outras), deu nascimento a um deus encarnado que morreu para salvar a humanidade e ressuscitou pouco depois.

A Bíblia não faz muitas referências a Maria. Ela aparece pela primeira vez na Anunciação como “a mãe que traz o Salvador”. No entanto, desde o século V a Santa Virgem foi considerada co-redentora e intercessora privilegiada entre a humanidade e seu filho. A partir desse momento, torna-se milagrosa, inspira peregrinos em massa no mundo inteiro e é objeto de um culto que lhe é próprio.

No mundo cristão é venerada com vários nomes que lembram, sobretudo, sua capacidade de auxiliar os que sofrem. Assim, é muito solicitada sob os nomes de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora da Consolação, Nossa Senhora dos Prazeres, entre outros. É como se os homens intuíssem, de alguma forma, o poder de auxílio e cura contido no princípio feminino do universo.
Maria Madalena ou, mais precisamente, Maria de Magdala, que também esteve muito presente na vida de Cristo, é uma figura central entre os gnósticos, para os quais o conhecimento é a única via em direção ao divino. Enquanto prostituta arrependida, Maria Madalena possuía um conhecimento perfeito das coisas deste mundo; enquanto confidente ou, segundo certas tradições, esposa de Cristo, era um reservatório de sabedoria espiritual. Buscou o conhecimento de Deus encarnado no concreto da vida. Na Pistis Sophia, um texto egípcio do século III, Jesus louva várias vezes o saber de sua Mãe e afirma: “Maria de Magdala e João devem ser colocados acima de todos os meus discípulos e de todos os homens que serão iniciados nos mistérios do Inefável”.

A Deusa guerreira.

As deusas guerreiras são freqüentemente associadas ao sol e às estrelas. Os milhões de corpos celestes poderiam facilmente ser comparados a um exército de soldados reluzentes, esforçando-se para combater a obscuridade, isto é, combater a ignorância. Na mitologia eslava, Zarya, a deusa da aurora, é uma grande guerreira, que nasceu armada para dissipar as forças da noite. Muitas deusas guerreiras são representadas vestindo uma armadura flamejante, ou cobertas de ouro, de prata e de jóias.

Os poemas sufis são, na aparência, poemas de amor, mas, na verdade, descrevem, em linguagem cifrada, a sede pelo divino experimentada pelo místico. Nesses poemas, a “Bem-Amada” simboliza a divindade, ou a alma, e o “amante” é o místico. Deus aqui é representado como sendo feminino. A “Bem-Amada” descrita pelos sufis tem um aspecto guerreiro. Ela é a quintessência de uma deusa virgem guerreira, alternadamente feroz e ameaçadora, doce e sedutora.

A Deusa oriental da compaixão.

A divindade preferida dos chineses chama-se Kouan-Yin, a deusa da Clemência. É conhecida como “Aquela que escuta as preces, as queixas e os prantos”. Conhecida no Japão com o nome de Kan-non (ou Kannon), foi importada da China por missionários budistas, sob a forma de um bodhisattva.

Segundo a teologia budista, um bodhisattva é um ser esclarecido que, durante muitas gerações de meditação e de contemplação, aprendeu a escapar ao ciclo de mortes e renascimentos que aflige o resto da humanidade, mas escolheu reencarnar-se para ajudar os outros seres humanos a buscarem a salvação.

Kouan-yin era, na origem, Avalokitesvara, um discípulo nascido de uma lágrima derramada por Buda diante dos sofrimentos da humanidade. Essa transformação em mulher pode, à primeira vista, parecer um enigma numa religião que considera as mulheres menos perfeitas do que os homens. Mas não podemos esquecer que o budismo, quando foi introduzido na China (no séc. III), sofreu influência do taoísmo e do confucionismo. É possível então concluir que Avalokitesvara foi fundido em um sincretismo com uma divindade feminina local. Se levarmos em conta que um bodhisattva reúne em si o saber e a compaixão, não é de se surpreender que Avalokitesvara tenha sido unificado à Deusa. Como a Virgem Maria do mundo cristão, Kouan-yin ajuda os que a procuram nas horas difíceis, acolhendo-os e dando provas de clemência e piedade.

A Deusa e a busca do herói.

A Deusa está estreitamente relacionada à busca do herói. Algumas vezes é ela que inspira a sua jornada; outras vezes, aparece para ajudá-lo e guiá-lo em sua tarefa, ou para colocar-lhe obstáculos no caminho. Pode ainda aparecer como o obstáculo final, como no caso de Medusa, a Górgona, que devia ser morta por Perseu. Mas ele não seria capaz de liquidá-la sem a ajuda de Atena, a deusa da guerra e da sabedoria (Revista SER no 7, pág. 33). Tudo acontece como se o herói fosse um simples peão no tabuleiro de xadrez celeste, em torno do qual se defrontam os múltiplos aspectos da Deusa.
A busca pode ser interpretada como uma viagem de descoberta, a viagem do herói que sai em busca do próprio aperfeiçoamento, tentando conciliar dentro de si os vários aspectos da Deusa.

A conquista é simbolizada por uma “recompensa”, geralmente apresentada na figura de uma bela jovem, símbolo de sua própria alma. Sua prova consiste em “se comportar” de maneira apropriada em cada um dos aspectos da Deusa a fim de atingir o equilíbrio interior.

A Deusa e o trabalho gurdjieffiano.

Fizemos acima uma síntese de algumas faces da Deusa em diversas tradições. Poderíamos relatar inúmeras outras, mas essa não é a proposta deste trabalho. O importante aqui é notar que, sob a forma de um mito, o mesmo aspecto é relatado em várias tradições. Simbolizam os vários estados da Energia Vital, que vão do mais grosseiro ao mais sutil.

Portanto, a energia que tudo permeia no universo é uma única energia, com diversos graus de materialidade, isto é, diferentes estados vibratórios.

Em seu Ensinamento, o Sr. Gurdjieff deixa claro que “o homem é uma imagem do mundo e é impossível estudar um sem estudar o outro”1. Diz que “o mundo é feito de movimentos ondulatórios ou de matéria em diferentes estados de vibração. A velocidade das vibrações está na razão inversa da densidade da matéria”2. Assim, “quanto mais elevada for a ‘densidade da matéria’, mais baixa será a ‘densidade de vibrações’ e vice-versa”.

Portanto, o mundo manifestado possui vários planos de diferentes graus de materialidade. Com o homem, acontece a mesma coisa. Ele é um Universo em miniatura. Diz o Sr. Gurdjieff: “É necessário compreender bem a idéia da completa materialidade de todos os processos interiores, os psíquicos, intelectuais, emocionais, voluntários e outros, inclusive as aspirações poéticas mais exaltadas, os êxtases religiosos e as revelações místicas.

Em nossa vida cotidiana, vivemos em estados vibratórios muito densos, se comparados com as vibrações mais finas existentes em outros planos do universo. Isso porque a energia que nos anima está atuando sem que tenhamos consciência dela. Não entramos em contato direto com ela. Vivemos apenas os estados mais grosseiros da Deusa.
Wikepedia.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Amor.


Pense em alguém que você goste muito.

Do passado, do presente ou do futuro.

Pode ser um bichinho, um brinquedo, uma pessoa, uma criança, uma situação agradável.

Pense e sinta.

Sinta esse amor, agora, aqui, em você.

Conecte-se com o amor que habita você.

Comece a incluir nessa amorosidade todas as pessoas que estão próximas a você.

Vá expandindo sua capacidade de amar.

Inclua todas as pessoas que você conhece.

Agora inclua as que você não conhece.

Inclua próximas e distantes.

Inclua pessoas que você jamais viu.

Os povos africanos, asiáticos, australianos.

Os povos e tribos de toda a Terra.

Inclua em seu amor todo o planeta, com árvores e insetos. Flores e pássaros. Mares, rios, oceanos.

Inclua a vegetação da Amazonia e da Pantagonia.

Inclua o Mar Morto e o Deserto do Saara.

Não deixe o Pequeno Príncipe de fora.

Inclua os Lusíadas, a Odisséia, Kojiki,

Inclua toda a literatura mundial, um pouco de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Shakeaspeare, um tanto de Saragosa, uma gota de Jorge Amado, banhado por Herman Hesse e Amon Oz.

Inclua todas as religiões.

Como se não houvesse dentro nem fora.

Imagine, como John Lennon, que o mundo é um só.

O mundo é uno. O mundo, o universo, o pluriverso é um só.

Nós somos unas e unos com o uno.

Perceba.

Isto que digo é a verdade.

E só há esse caminho.

Inúmeras analogias, linguagens étnicas, expressões regionais e temporais para tentar atingir o atemporal, o fluir incessante, incadescente, brilhante, da vida em movimento transformador.

Somos a vida da Terra.

Somos a vida do Universo.

Somos a vida do Multiverso.

E quando nossos pequeninos corações humanos se tornam capazes a ir além deste saquinho de pele que chamamos o eu, nos contatamos com a essência da vida. Que é a anossa própria essência e de tudo que é, assim como é.

Algum nome? Nenhum nome?

Caminhemos.Tornamo-nos o caminho a cada passo.

Que cada passo seja um passo de paz.

Que o novo ano se abra com a abertura dos corações-mentes de todos nós seres humanos.

Abertura para o infinito.

Abertura para a imensidão.

Abertura para a ternura.

Abertura para a sabedoria.

Abertura para a compaixão.

Que todos os seres em todas as esferas e todos os tempos se beneficiem com esse amor imenso que aqui e agora juntas, juntos, nos tornamos. E ao nos tornarmos o amor tudo se torna vida e vida em abundância. Ame e manifeste esse amor agora.

Mãos em prece.
Monja Coen.

OSHO: CIÚMES.


Ciúme é comparação. E fomos ensinados a comparar, fomos condicionados a comparar, comparar sempre. Alguém possui uma casa melhor, alguém tem um corpo mais bonito, alguém tem mais dinheiro, alguém possui uma personalidade mais carismática. Compare, continue comparando a si mesmo com todo mundo que você encontrar, e o resultado será um grande ciúme; esse é o sub produto do condicionamento da comparação.

De outra maneira, se você deixa de comparar, o ciúme desaparece. Assim você simplesmente sabe que você é você e ninguém mais, e que não há nenhuma necessidade de ser outro alguém. É bom que você não se compare com as árvores, senão você começaria a se sentir muito ciumento: porque você não é verde? E porque Deus tem sido tão duro com você - e nenhuma flor? É melhor você não se comparar com os pássaros, com os rios, com as montanhas; do contrário você irá sofrer. Você só se compara com os seres humanos, porque você foi condicionado a só se comparar com os seres humanos; você não se compara com os pavões e com os papagaios. Senão seu ciúme seria bem maior; você estaria tão sobrecarregado de ciúmes que você não seria capaz de viver de maneira nenhuma.

A comparação é uma atitude muito tola, porque cada pessoa é única e incomparável. Uma vez que esse entendimento se estabelece em você, o ciúme desaparece. Cada um é único e incomparável. Você é apenas você mesmo: ninguém nunca foi como você e ninguém nunca será como você. E você também não precisa ser nenhum outro.

Deus cria somente originais; ele não acredita em cópias carbono.

Um grupo de galinhas estava no quintal quando uma bola de futebol passou por sobre a cerca e caiu no meio delas. Um galo chegou gingando, estudou-a, e então disse, "Não estou reclamando garotas, mas vejam o trabalho que eles estão fazendo no vizinho ao lado".

Na porta do vizinho grandes coisas estão acontecendo: a grama é mais verde, as rosas são mais rosadas. Todo mundo parece estar tão feliz – exceto você. Você está continuamente comparando. E a mesma coisa está acontecendo com os outros, eles também estão comparando. Talvez eles também achem que seu gramado é mais verde – sempre parece mais verde à distância – que você tem uma esposa mais bonita... Você está cansado, você não pode acreditar como você permitiu se envolver com essa mulher, você não sabe como se livrar dela – e o vizinho pode estar com ciúmes de você, que você tem uma mulher tão bonita! E você pode estar com ciúmes dele...

Todo mundo tem ciúmes de todo mundo. E com ciúmes criamos um tal inferno, e com ciúmes nos tornamos muito medíocres.

Um velho fazendeiro estava mal-humoradamente avaliando os estragos da inundação.

"Hiram!" Gritou o vizinho, "seus porcos foram todos levados pela correnteza".
"E quanto aos porcos do Thompsom?" Perguntou o fazendeiro.
"Eles também foram levados".
"E os de Larsen?"
"Também".
"Hum!" Exclamou o fazendeiro, comemorando. "Não foi tão ruim como eu pensava".

Se todos estão na miséria, isso parece bom; se todos estão perdendo, isso parece bom. Se todos estão felizes e bem sucedidos, isso tem um sabor muito amargo.

Mas por que antes de tudo a idéia do outro entra na sua cabeça? Deixe-me lembrá-lo novamente: porque você não permitiu sua própria seiva fluir; você não permitiu sua própria felicidade brotar, você não permitiu seu próprio ser florescer. Daí você se sentir vazio no íntimo, então você olha para o exterior de cada um e de todo mundo porque isso é só o que você pode ver.

Você conhece seu íntimo e você conhece o exterior dos outros:

isso gera ciúmes. Eles conhecem seu exterior e eles conhecem o interior deles: isso gera ciúmes. Ninguém mais conhece seu íntimo. Lá você sabe que você não é nada, não vale nada. E os outros parecem tão sorridentes exteriormente. O sorriso deles pode ser falso, mas como você pode saber que são falsos? Talvez seus corações sejam também sorridentes. Você sabe que seu sorriso é falso porque seu coração não está sorrindo de maneira alguma, ele pode estar lamentando e chorando.

Você conhece sua interioridade, e só você a conhece, ninguém mais. E você conhece o exterior de todos, e as pessoas fizeram o exterior delas parecer bonito. Exteriores são vitrines e são muito enganadoras.

Há uma antiga história Sufi:

Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, "Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?" Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, "Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo".

Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, "Tragam todos os seus sofrimentos para o templo". Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, "Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável".

Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.

E então Deus falou, "Coloquem suas sacolas na parede". Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: "Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola".

E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!

E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa - quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou - porque escolher o desconhecido?

E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.

Pela manhã ele orou para Deus e disse, "Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso".

Devido ao ciúme você está em constante sofrimento; você torna-se medíocre para os outros. E por causa do ciúme você começa a ficar falso, porque você começa a fingir. Você começa a fingir coisas que você não possui, você começa a fingir coisas as quais você não pode ter, que não são naturais a você. Você se torna cada vez mais artificial. Imitando os outros, competindo com os outros, que mais você pode fazer? Se alguém tem alguma coisa e você não tem, e você não tem a possibilidade natural de ter isso, o único jeito é arranjar algum substituto barato para isso.

Eu soube que Jim e Nancy Smith divertiram-se muito na Europa nesse verão. É tão legal quando um casal finalmente tem a oportunidade de realmente viver bem. Eles estiveram por toda parte e fizeram de tudo. Paris, Roma... Você diz o nome, eles estiveram lá e viram tudo.

Porém foi tão embaraçante voltar para casa e passar pela alfândega. Vocês sabem como a os oficiais da alfândega espionam todos os seus pertences. Eles abriram uma sacola e tiraram três perucas, cuecas de seda, perfume, tintura para os cabelos... Realmente embaraçante. E era apenas a sacola de Jim!

Basta olhar para dentro de sua mala e você irá encontrar tantas coisas artificiais, falsas, coisas fictícias – pra que? Porque você não pode ser natural e espontâneo? – devido aos ciúmes.

O homem ciumento vive no inferno. Pare de comparar e os ciúmes desaparecem, a mediocridade desaparece, a falsidade desaparece. Mas você só pode deixá-los se seus tesouros íntimos começarem a crescer; não existe outra maneira.

Cresça, torne-se um individuo mais e mais autêntico. Ame e respeite a si mesmo do jeito que Deus lhe fez e então, imediatamente, as portas do paraíso se abrem para você. Elas sempre estiveram abertas, você simplesmente nunca deu atenção a elas.

terça-feira, 10 de julho de 2012

HINO.


Santa Maria! Volve o teu olhar tão belo,
de lá dos altos céus, do teu trono sagrado,
para a prece fervente e para o amor singelo
que te oferta, da terra, o filho do pecado.

Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente,
meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria!
Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente,
quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria!

No tempo que passou veloz, brilhante, quando
nunca nuvem qualquer meu céu escureceu,
temeste que me fosse a inconstância empolgando
e guiaste minha alma a ti, para o que é teu.

Hoje, que o temporal do Destino ao Passado
e sobre o meu Presente espessas sombras lança,
fulgure ao menos meu Futuro, iluminado
por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.
Edgar Allan Poe.

O JARDINEIRO – Robindronath TAGORE.

És como a nuvem da tarde
flutuando no céu do meu sonho.
Posso criar-te e modelar-te segundo
os caprichos do meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos infinitos.

Os teus pés estão orvalhados pela gloria
do meu desejo, ó respingadora dos meus cânticos
da tarde.
Os teus lábios tornaram-se amargos e doces
pelo vinho da minha dor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos solitários.

É a sombra das minhas paixões que torna
sombrios os teus olhos. És a alucinação do
meu olhar.
Eis que te prendi e envolvi nas malhas dos
meus cânticos, ó meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos imortais.