contos sol e lua

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lenda da Solidão.

Na deserta praia de sua vida, um feliz eremita ergueu, certa vez, um lindo castelo de areia e povoou de mil figuras da ilusão! Ouviu vozes, músicas. O mavioso canto de sereia transbordou-se em seu coração! E ele, dando asas à ilusão, sonhou com a cidade grande e lamentou a sua solidão. Ao longe, o mavioso e triste canto de uma rolinha, se destacava no pungente painel de uma sutil saudade, que já se prenunciava! Entre a moldura da tristeza, suas árvores tão queridas, de braços abertos para os céus, pareciam-lhe rogar em uma surda oração para que não fosse embora, mas ele levantou-se e disse: adeus! Mas ao chegar à cidade só encontrou gente de braços cruzados para Deus, para o próximo e para seus irmãos. Assustado, olhou para o céu e viu, no encantado e imenso Templo de Deus, milhares de estrelas em torno de uma poética lua, irradiantes de luz e vitais influências para todas as formas de vida da terra e do cosmos, em geral. Voltou seu olhar novamente para os homens, mas viu que a luz de seus olhares há muito se extinguira nas nebulosas masmorras de seus vícios e ilusões. Olhou para as árvores dos pomares e as viu carregadas de frutas que a todos serviam, pobres e ricos, sem nada pedir. De ânimo renovado e com grandes ideias, procurou seus irmãos, porém não encontrou neles qualquer fruto do amor pelo próximo em seus corações. Olhou para o mar e o viu semeado de pescadores em seus pequenos barcos, repletos de peixes! Voltou novamente o seu olhar, com um restinho de esperança, a procura de seus irmãos. Descobriu, mais uma vez desiludido, que o barco de suas vidas, vazio de boas obras, boiava à deriva, no turbulento mar de suas lamentáveis ambições! Envergonhado por seus irmãos perante Deus, não mais se atrevia em olhar para cima. Cabisbaixo, olhava para o chão quando notou uma correção de disciplinadas formiguinhas e, mais além, ordenadas abelhinhas, todas operando pacífica e conscientemente em torno do ideal único e sagrado: a comunidade! Comparou-as com o ser humano e sentiu-se decepcionado e convencido de que eram mesmo egoístas, vaidosos e ambiciosos, pois muitos de reuniam em torno de uma comunidade com a intenção de tirar vantagens e dar vazão às suas vaidades e maus instintos. E naquele momento, o eremita começou a compreender que a telecomunicação que tanto o encantara, vencendo todas as distâncias, não conseguira vencer a mais importante: a imensa distância, cada vez maior, que existe entre as almas do ser humano. Desiludido, abandonou aquela pobre comunidade, uma verdadeira selva de frias pedras com homens de gelo e templos de areia. No caminho de volta ao terno aconchego de sua tão querida floresta e à pureza de seu comunitário convívio entre sua fauna e flora tão agredidas pela ambição do ser humano, ele foi meditando. E então, num arroubo de entusiasmo e lucidez, exclamou: — Meu Deus! Eu agora sinto a tua fascinante presença! Eu te vejo em toda parte! No majestoso jequitibá e na humilde flor da tiririca! No trinado do canário e no coaxar de um velho sapo! Na força do jaguar e na beleza de uma frágil borboleta! Eu te vejo em toda extasiante pureza que deslumbra meus olhos e acalenta meu coração! Porque tu és a própria pureza que os homens, cegos de amor, estão destruindo! E o bom eremita admirava encantado sua exuberante floresta, com suas belas árvores tão repletas de flores, frutos e ninhos de passarinhos. E a pureza de seus rios, tão cristalinos, sempre servindo a tudo e a todos! O significado do gesto daquelas árvores de braços abertos para o céu compreendeu, agora, ser uma muda e eterna oração de agradecimento ao divino criador pela oportunidade de viver e ser úteis. Seus animais e suas aves em comunidades multicoloridas eram uma orquestra de seres felizes, em cantos mil, de amor a Deus, ao próximo e a liberdade! Compreendia que agora começava a ver a sagrada obra de Deus com “olhos de ver”, como tanto pegou o Grande Mestre! Que a solidão que julgava ter era apenas uma nota desafinada do enganoso canto das profanas sereias da vida! Compreendia compadecido que aqueles seres que respeitava como irmãos, nada mais eram que um rebanho de robôs em solidões paralelas! Revista Universo Maçônico.Ed.17.Novembro de 2011. Autor: Ir∴ Lacerda Júnior

Destinos.

Os nossos destinos são obra inteiramente nossa, exclusivamente nossa; nós os talhámos e eles por nós esperam; nós os semeámos e os havemos de colher! Tudo quanto fazemos prepara, edifica o nosso destino, o nosso porvir. Por isso, destino e carácter são duas coisas tão intimamente ligadas entre si, que não podem ser separadas! Cristo, na sua linguagem simbólica, disse a seu respeito: “O que tu semeias, isso mesmo hás-de colher”. E nestas palavras tão simples, o Mestre revela uma grande verdade. Ao entrar neste mundo por meio da forma física, feita do mais subtil pó da terra, em molde elaborado de éter, nós somos forçados a lutar contra as leis naturais, inteligentes, vivas e sempre prontas para nos dominarem. Pode parecer aos leitores que desconhecem a filosofia rosacruz que tais leis são impossíveis, pois não conhecem outras que não sejam as que o homem faz, escritas, impressas, inertes, servindo apenas e rigidamente para orientarem a nossa conduta na sociedade; as leis da Natureza são vivas, agem sobre nós, compelem-nos à acção e repelem-nos na sua actuação; arrastam-nos e podem elevar-nos às mais sublimes alturas. Quem não as viu ainda operando num ciclone? Numa tempestade que tudo destroi na sua passagem? Num terramoto ou num maremoto que tudo arrasam? E todavia elas regulam o tempo, produzem tudo quanto é necessário à nossa existência terrena. Não podemos dispensar a sua colaboração connosco, tão preciosas elas são. Temos de nos acautelar com esses elementos para que não nos criem sérios obstáculos; e essa cautela resume-se em ordenar bem todos os nossos actos, fortalecer a nossa vontade para realizar os nossos planos, para que eles não lesem os direitos alheios e estejam dentro das nossas possibilidades, quer dizer, dentro do absolutamente justo. Porque, se os nossos pensamentos e actos preparam os nossos destinos, e todos desejamos somente o que é bom, somos forçadamente levados a só praticar acções justas. E, assim, teremos melhores destinos, um porvir mais calmo e feliz. Se, pelo contrário, nos deixarmos arrastar pelo pendor terreno, o nosso carácter não melhora, as nossas condições são confusas e penosas, criaremos então destinos sombrios e dolorosos. O destino colectivo abrange grandes grupos de pessoas, a aldeia, a cidade, a nação e muitas vezes grupos de nações, pois reúne todos aqueles egos que criaram pelos seus crimes, ao longo de vidas passadas, as mesmas condições de destino. Nos destinos individuais achamos aqueles que vivem solitários, recusando a convivência com outros seres, ou tendo mesmo de suportar a sua recusa a ligarem-se com eles. O carácter destas pessoas está em perfeita harmonia com elas. Evitam, a seu modo, e de concordância com os seus desejos, as pessoas e as coisas, isolam-se, gozam ou sofrem sozinhos, o que lhes torna muito mais dura a existência. Todos os golpes do destino são suportados de qualquer modo, mas procurando sempre encobri-los no seu reduto espiritual, dispensando, sempre que possível, o auxílio de outras pessoas. Nos destinos comuns tudo é diferente. Juntam-se dois indivíduos de sexo oposto e desta união resulta que automaticamente se ligam a eles todos os parentes de ambos, e os filhos, e os filhos destes, e os seus associados para o estabelecimento das famílias. Mas, ainda as coisas não ficam por aqui. A todos se unem os amigos, os inimigos, os vizinhos e os colegas de trabalho, queremos dizer, todas as pessoas que vivem tão perto que não podem deixar, de algum modo, de tomar parte nas suas alegrias e tristezas. E então vêm marido e mulher, ou são pais e filhos, irmãos, tios, primos, cunhados, sogros, vizinhos ou colegas, pois de vida em vida são-nos facultados meios de redimir o mau passado, de vencer o mal, de curar o ódio e o transformar em amor, em bem. Por isso nós somos testemunhas tantas vezes de cenas desagradáveis entre cônjuges, entre irmãos, cunhados, tios, sogros, pais e filhos, vizinhos ou colegas de trabalho. E quantas vezes ao esboçar-se um matrimónio, logo surgem discordâncias familiares. E tudo se faz no sentido de evitar o casamento, chegando mesmo ao uso de meios condenáveis. Se buscamos justificações sérias, não as encontramos. Tudo quanto se alega não ultrapassa o domínio do disparate e da má vontade injustificável. Mas se buscamos as ocultas causas de tão grande má vontade vamos achá-las em vidas passadas. É ódio velho, mas não cansado ainda. Muitas vezes o detestado matrimónio realiza-se, mesmo sem o acordo familiar, e a má vontade acaba por um apaziguamento do antigo ódio, agora já cansado. E então juntam-se e vão amar-se daí por diante. O ódio perdeu a sua cor rubra para tomar a rosada, e tudo terminou em bem. Venceram culpas do passado e puderam dar um passo em frente, para uma vida melhor, mais harmoniosa e perfeita. O ódio e o amor ligam-nos para sempre. Não merece a pena odiar, já que temos de curar as feridas do ódio com o mais puro amor. Portanto, cultivemos as melhores relações de amizade, se queremos ser felizes. O amor é aquela famosa alquimia que muda a natureza dos metais pobres em puro ouro de lei. Simplesmente os metais pobres são os nossos instintos, nossos maiores inimigos; e o ouro é a nobreza do nosso carácter. São egos que em vidas passadas negaram aos seus genitores o respeito e o amor que lhes deviam. Em vez da gratidão por lhes terem dado o ser e os amparar na vida, para que triunfem, eles preferiram a ingratidão, a falta de respeito e de amor para com seus pais. Por isso agora nasceram sem o direito ao amor dos seus genitores e, para serem criados e educados, foi necessário recolhê-los em asilos. Assim, faltando-lhes a doce chama do amor dos pais, eles hão-de ansiar por ele. Hão-de desejá-lo, ardentemente, em vidas futuras. O castigo dos nossos actos fica sempre connosco e surgem em qualquer altura das nossas vidas, mas certamente nas alturas próprias. No terramoto que destruiu Agadir, em 1960, foram retiradas dos escombros muitas vítimas algumas dias depois de estarem debaixo dos mesmos. Em que ansiedade terão vivido aqueles dias e noites entre os mortos, e sem esperança de serem salvos? Ninguém que não tenha passado por tão dura prova poderá avaliar tão horrorosa situação. Todos os que necessitam de passar por uma prova grave e colectiva, vão juntar-se no local onde o desastre ou cataclismo há-de produzir-se. E aí terão, no momento apropriado, a sua execução. Os nossos pensamentos e actos esperam sempre por nós e tecem os nossos destinos, elaboram o nosso próprio carácter. Por isso, quem desejar melhor destino, terá de modificar o seu carácter, porque só na medida em que nos aperfeiçoamos moralmente podemos modificar as nossas condições sombrias e dolorosas. Francisco Marques Rodrigues.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

o mergulhador.Vinicius de morais.

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos No líquido luar tateiam a coisa a vir Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti. És a princípio doce plasma submarino Flutuando ao sabor de súbitas correntes Frias e quentes, substância estranha e íntima De teor irreal e tato transparente. Depois teu seio é a infância, duna mansa Cheia de alísios, marco espectral do istmo Onde, a nudez vestida só de lua branca Eu ia mergulhar minha face já triste. Nele soterro a mão como a cravei criança Noutro seio de que me lembro, também pleno... Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta O outro me dava vida, este me mete medo. Toco uma a uma as doces glândulas em feixes Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos Na massa cintilante e convulsa de peixes Retiradas ao mar nas grandes redes pensas. E ponho-me a cismar… - mulher, como te expandes! Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância! De coordenadas tais e horizontes tão grandes Que assim imersa em amor és uma Atlântida! Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço No tato acelerar-se-me o sangue, na arritmia Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço. E te amo, e te amo, e te amo, e te amo Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea Como o mar ao penhasco onde se atira insano E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre. Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva O imo do teu ser, o vórtice absoluto Onde possa colher a grande flor da treva. Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos Na tua criação; amo-te as hastes tenras Que sobem em suaves espirais adolescentes E infinitas, de toque exato e frêmito. Amo-te os braços juvenis que abraçam Confiantes meu criminoso desvario E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio. Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue E me afogar de amor e chorar e chorar. Amo-te os grandes olhos sobre-humanos Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem. Por isso - isso e ainda mais que a poesia não ousa Quando depois de muito mar, de muito amor Emergindo de ti, ah, que silêncio pousa Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!

O tempo acaba o ano, o mês e a hora.

O tempo acaba o ano, o mês e a hora O tempo acaba o ano, o mês e a hora, A força, a arte, a manha, a fortaleza; O tempo acaba a fama e a riqueza, O tempo o mesmo tempo de si chora; O tempo busca e acaba o onde mora Qualquer ingratidão, qualquer dureza; Mas não pode acabar minha tristeza, Enquanto não quiserdes vós, Senhora. O tempo o claro dia torna escuro E o mais ledo prazer em choro triste; O tempo, a tempestade em grão bonança. Mas de abrandar o tempo estou seguro O peito de diamante, onde consiste A pena e o prazer desta esperança. Luís de Camões.

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver.

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís Vaz de Camões.

O Pássaro Azul da Felicidade. António de Macedo.

Muito se tem dito e escrito sobre tal coisa, lembro-me por exemplo dum livro que me impressionou vivamente na minha juventude, A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russell. Nele o autor reflecte sobre um certo número de fardos que oprimem os homens e as mulheres e os impedem de ser felizes, como a inveja, o egoísmo, o espírito de competição, o sentimento de culpa, as opressões sociais, e outros, e apresenta um conjunto de prescrições e conselhos para se adqurir — ou readquirir — o gosto de viver. Indignado contra as imposições da ética burguesa dos tempos em que escreveu, Russell não se esquece de nos alertar contra a concepção ortodoxa do pecado que leva a fazer às escondidas o que se proíbe às claras, nomeadamente no que concerne à sexualidade, com todo o rol de culpabilidade, dor e desacertos provocados por uma moral hipócrita, egocêntrica e castrante, e desajustada no seu confronto com os instintos mais livres e as aspirações mais secretas e quiçá mais legítimas do homem e da mulher dignos de si próprios. (Bom, hoje descambámos no extremo oposto, o excesso de «puritanismo vitoriano» do século xix e da primeira metade do século xx deu lugar ao actual permissivismo do «vale tudo e à vista de todos», em matéria de sexo. Não penso que seja uma melhoria nem uma libertação no verdadeiro sentido: basta ver o monstruoso cortejo de disfunções emocionais e psíquicas de toda a ordem que avassalam e atormentam os países ditos mais avançados. O ideal é saber encontrar e praticar a intersecção entre a responsabilidade e a gnose da verdadeira sacralidade do amor). No entanto, por muito crucial que este aspecto seja e muito pese, não é por aí que vai o gato às filhós, como se costuma dizer; há missionários que preferem ir iluminar almas para terras longínquas, no entanto mesmo ao pé da nossa porta estão o enfermo, o abandonado, o melancólico e todos os que sofrem duma maneira ou doutra. Onde o amor pelo nosso próximo? Onde o desapego de si? Onde o olhar compassivo e transbordante de calor fraterno ao longo da mão estendida para ajudar? Na fase infantil, o ser humano estende a mão, de facto, mas é para receber e a sua palavra predilecta é «dá-me!», e a maior alegria que se pode proporcionar à criança é a chegada do Natal ou do dia dos seus anos para receber presentes. Na fase verdadeiramente adulta, e autoconsciente, a corrente inverte-se e a maior alegria dum espírito elevado é ofertar — por isso se diz que a maneira mais segura, mais rápida e mais radiante de ser feliz é pensar menos em si e fazer mais pelos outros. O pior é que os adultos, em sua esmagadora maioria, permanecem teimosamente apegados à fase infantil, por isso não admira que sejam infelizes: o egoísmo prolongado para além da infância é fonte de extrema insegurança, o discernimento falha, o medo sobrepõe-se ao amor e o interesse próprio ao bem alheio. O desajuste é total porque quem assim se descaminhou vê-se de súbito rodeado de inimigos, ou pelo menos de competidores, e por isso o poeta brasileiro Vicente de Carvalho bem podia dizer, com lapidar desencanto: A felicidade está onde a pomos, mas nunca a pomos onde nós estamos. A felicidade não é um fim em si, é uma consequência: não estamos neste mundo para alcançá-la a todo o custo, mas para aprender, e o caminho que conduz à perfeita alegria — a tal «perfeita alegria» cantada pelo Poverello — começa quando aprendemos a dar o estrito valor, e não mais do que esse, às posses materiais, compreendendo que a prosperidade não se equaciona apenas com uma grande conta bancária ou uma boa marca de automóvel, mas consiste antes de mais nada em ter a consciência do Cristo Interno permitindo que esse Divino Amor se difunda e se irradie através de nós, ou seja, em saber que dispomos de todos os meios, sobretudo espirituais, para usufruir os dons da natureza e sermos capazes de partilhá-los. No Serviço de Templo da Fraternidade Rosacruz reza-se uma oração muito bonita que o diz duma forma singela, e da qual me permito transcrever algumas estrofes: Não mais luz, Senhor, Vos peço, Mas olhos para ver a existente, Nem canções mais doces; mas, se o mereço, Ouvidos para ouvir o som presente. Nem mais forças, mas apenas como usar O divino poder que já possuo; Nem mais amor, mas o dom de transformar Num gesto de carícia um esgar de amuo. Nem mais alegria, Senhor, mas sim sentir No meu íntimo a sua cálida presença, Para poder aos demais distribuir Quanto tenho de coragem e bem-querença. Não mais dádivas, amado Deus, Vos peço, Mas apenas o saber e a inspiração De espalhar à minha volta com sucesso As que tenho a transbordar do coração… A sabedoria popular ensina-nos coisas muito sérias e quase sempre de um modo simples e expressivo, às vezes aparentemente banal, como acontece com a generalidade dos contos tradicionais; estou-me a recordar de um desses contos, intitulado, se a memória não me atraiçoa, A camisa do homem feliz, e onde se descreve o drama dum príncipe que vivia rodeado de riquezas e de fausto e duma corte que rastejava a seus pés para lhe realizar todos os desejos, mesmo os mais extravagantes, e no entanto era o homem mais infeliz do mundo. Nada o satisfazia, nem vastos domínios, nem tesouros, nem conquistas, nem belas princesas, tudo o enfastiava e arrastava-se pelos salões e pelos jardins do seu palácio com um sofrimento mortal e um tédio infinito na alma. Vieram os mais conceituados médicos dos confins do reino mas nada do que receitaram resultou; por fim, alguém lhe indicou um velho sábio e feiticeiro que vivia escondido numa gruta quase inacessível numa montanha distante, conhecedor das artes secretas e capaz dos maiores prodígios. O velho sábio ouviu-lhe as queixas com atenção e disse: — O mal de Vossa Alteza tem cura. Não precisa de tomar nenhum desses medicamentos que lhe foram receitados; para se curar, bastar-lhe-á vestir a camisa dum homem feliz. O príncipe mandou convocar os seus súbditos, desde a fidalguia aos rurais, passando por burgueses, comerciantes, marinheiros, para descobrir um que lhe pudesse fornecer a ambicionada camisa, e constatou, perplexo, que por muito feliz que um ou outro aparentasse ser, no fundo havia uma ambição insatisfeita, ou uma inveja, ou uma contrariedade, ou uns ciúmes ocultos, ou um rancor contra um inimigo real ou imaginário, ou uma vergonha inconfessável, ou algum medo disto ou daquilo… Em desespero e quase a desistir, o príncipe, cavalgando um dia numa caçada, perdeu-se numas brenhas perto da fronteira do seu reino e foi parar à cabana dum lenhador. Convencido de que tinha deparado com o último homem que lhe faltava investigar, perguntou-lhe se era feliz. O lenhador respondeu que sim, abrindo-se num sorriso cordial e franco, e explicou-lhe: não trabalhava a pensar em si mas no bem-estar das pessoas a quem fornecia a lenha, a natureza dava-lhe tudo quanto precisava, os animaizinhos da floresta eram os seus amigos fiéis, não invejava ninguém e tocava música numa flauta quando acabava o trabalho ao fim do dia. O príncipe, exultante, pediu-lhe a camisa, propondo-se pagar-lhe por ela a quantia que ele exigisse. O lenhador abriu ainda mais o sorriso radioso e confessou: — Não tenho camisa! Então o príncipe compreendeu a clara finalidade da sua demanda: demonstrar-lhe que a maioria das pessoas é tão infeliz como ele, e por motivos tão interesseiros quando não apenas tão fúteis e inconsistentes, e que afinal não é preciso ter camisa, ou o que quer que ela represente, para se ser feliz. Por vezes a busca da felicidade assume a forma romântica duma busca do inatingível, como por exemplo a procura da misteriosa «flor azul» em que se empenhavam os poetas do Romantismo alemão, inspirados no jovem Heinrich, também ele poeta, protagonista do romance Heinrich von Ofterdingen, de Novalis (1772-1801), publicado postumamente em 1802. A Flor Azul constitui a imagem central das visões desse jovem poeta, das suas aspirações e dos seus anseios, pois só ela poderá torná-lo feliz ao libertar a sua amada Mathilde do encantamento, fazendo-a ressuscitar… mas tal não é fácil e a questa é longa e perde-se por sinuosos e fantásticos itinerários. Apenas num sonho consegue vê-la pela primeira vez: «À sua volta, um sem número de flores ostentava seus variegados tons, e um perfume dos mais deliciosos enchia de fragrâncias o ar. Ele, todavia, só tinha olhos para a Flor Azul, e longo tempo ficou a contemplá-la, tomado de uma indescritível ternura». A associação da felicidade à impossibilidade, e a associação da impossibilidade à cor azul, seja na Flor Azul dos Românticos alemães ou na Rosa Azul dos antigos Hermetistas — ou no Pássaro Azul dos mitos orientais —, fez com que a cor azul, que é a cor do céu, se tornasse símbolo duma distância mítica que esconde a verdadeira e concreta felicidade que afinal se encontra tão à nossa beira… Deus está em nós, mais perto que os nossos pés e mãos, mais perto que a nossa respiração… Gostaria de vos resumir uma curiosa história escrita pelo poeta místico James Dillet Freeman, que nos fala destas coisas e se intitula, precisamente, O Pássaro Azul da Felicidade. Poeta, escritor e conferencista, autor de inúmeras obras traduzidas em várias línguas, jubilado em 1999 por ocasião do seu 87.º aniversário — nasceu em Wilmington, Delaware, EUA, em 1912 —, Freeman faz parte do quadro permanente da Unity School of Christianity desde 1933, e a ele se devem dois poemas-orações que neste momento se encontram depositados na Lua, uma distinção de que mais nenhum outro autor se pode enaltecer! A sua Prayer for Protection, composta em 1941, foi levada para a Lua na Apollo 11, em Julho de 1969, pelo astronauta Edwin E. Aldrin Jr., que a transportou consigo durante o seu histórico passeio lunar: A luz de Deus circunda-me; O amor de Deus envolve-me; O poder de Deus protege-me; A presença de Deus vela por mim; Onde quer que eu esteja, Deus está! O seu outro poema-oração I Am There (1947) foi deixado na Lua, em microfilme, pelo astronauta James B. Irwin em 1971, durante o voo da Apollo 15. A tal história escrita por Freeman, a que aludi, começa por nos apresentar o protagonista, um homem igual a tantos outros como qualquer um de nós, que ia arrastando uma vida nem feliz nem infeliz; um dia viu anunciada uma conferência sobre o Pássaro Azul da Felicidade, que seria proferida no anfiteatro da Biblioteca local por um filósofo de renome. Foi ouvi-la e ficou preso às palavras do orador, que falava como quem tinha real experiência do que dizia e que repetia de vez em quando, durante a conferência: «Quem encontrar o Pássaro Azul da Felicidade, será realmente feliz!» Tão impressionado ficou que sentiu despertar em si um sentimento desconhecido, e o anseio por algo indefinível em que nunca pensara apresentou-se-lhe como uma verdade evidente. Descobriu então o maior e mais profundo desejo da sua vida: encontrar o Pássaro Azul da Felicidade. Tratou de se informar, meteu-se na Biblioteca e leu artigos e livros, estudou tratados, e, cá fora, prestava a maior atenção aos pássaros que voavam nos parques, nas alamedas, e em torno das árvores do seu quintal. Havia-os de todas as cores e feitios, mas nenhum se ajustava à descrição que ouvira ao conferencista. O homem entristeceu-se e os amigos procuravam consolá-lo, dizendo: — Não desanimes! Talvez seja azul cobalto ou, quem sabe, um azul forte, mais escuro! O homem compreendeu a boa intenção dos amigos mas não se conformou. Para se distrair começou a construir uma gaiola belíssima, ricamente ornamentada, onde viveria o seu Pássaro Azul, perto de si e tratado com todo o carinho. Um dia, na Biblioteca, e em conversa com um jovem estudante, este informou-o: — Já vi pássaros iguais a esse, num bosque da montanha. O estudante saiu à rua com o homem e indicou-lhe um ponto na serra que se via ao longe, muitos quilómetros além dos limites da cidade. O homem, num alvoroço, foi buscar a carrinha e encheu-a com materiais de acampamento, ferramentas e víveres, e partiu para a montanha. Lá em cima construiu uma barraca e dispôs-se a encetar uma pesquisa meticulosa. Ao fim de sete dias de buscas aturadas descobriu finalmente uma clareira onde esvoaçavam, alegres, muitos pássaros azuis, tal e qual como o conferencista descrevera. O seu contentamento não teve limites, e, ao ver que eram mansos e amigáveis aproximou-se e tentou agarrá-los, mas fugiam mal o viam perto de mais. Então voltou ao acampamento e preparou umas armadilhas que dispôs na clareira, ficando à espera. Ao cabo de várias tentativas conseguiu apanhar um deles, o mais belo de todos. Segurou-o com todo o cuidado e regressou à cidade, e, assim que chegou a casa, meteu o Pássaro Azul na esplêndida gaiola. A gaiola era maravilhosa mas o pássaro parecia infeliz, e não tocou em nenhum dos alimentos que o homem lhe pôs, nem mesmo os mais apetitosos. Ao fim de três dias, receando que a ave morresse de fome, o homem, embora pesaroso, soltou-a. Mas o Pássaro Azul não regressou de imediato à montanha. Estaria fraco? Não, agora mostrava-se feliz, no galho mais alto da árvore mais frondosa do quintal. E começou a cantar, emitindo um misterioso pio, suave e contínuo: tuit… tuit… tuit… Aquele piar, ou aquele canto, desencadeou ressonâncias enfeitiçantes na alma do homem, o canto não era repetitivo nem uniforme, modulava-se magicamente, e o homem sentiu uma necessidade íntima e desgarradora de saber o que aqueles sons significavam… De súbito — seria alucinação? — começou a entender o que o Pássaro dizia: — Queres possuir a felicidade? Terás de aprender que a felicidade há-de ser livre, para que a possuas. Agora que me conheces, já te pertenço para sempre. O homem ainda pensou que o Pássaro Azul iria regressar à gaiola de livre vontade, mas em vez disso pôs-se a voar à volta dele, cantando: — Quando quiseres encontrar-me, liberta o teu coração de pesos inúteis, relaxa-te, aquieta o espírito e vai ter comigo à clareira da montanha. Estaremos juntos todos os dias. Mas é preciso que me arranjes um cantinho no teu coração, onde me alimentarás de amor. Então, ouvir-me-ás de novo, entoando o Cântico da Felicidade! O Pássaro Azul foi-se embora mas alguma coisa ficou. Algo que não era visível nem exterior ficou para sempre na alma do homem. A sua vida mudou e todos notaram a milagrosa transformação que nele se operara. Cantava enquanto trabalhava, e muitas pessoas eram atraídas porque ele tinha sempre algo para dar. Todos se sentiam bem na sua presença, e nas horas de folga calava-se e recolhia-se em silêncio. Descobriram que era nesses momentos que ele visitava a clareira e se reabastecia de fé, de luz e de alegria. Um dia os amigos perguntaram-lhe: — Que significa aquela gaiola vazia lá fora, com um letreiro: «Aqui mora o Pássaro Azul da Felicidade»? O homem respondeu, sorrindo: — É preciso ter a gaiola vazia para o encontrar e para possuí-lo verdadeiramente. Só se pode possuí-lo em liberdade, porque ele pertence a todos! Os amigos ponderaram: — Temos a certeza que o encontraste, porque o vemos em ti! Ao que ele replicou: — Se quiserem, posso ajudar-vos a encontrá-lo, também… A história acaba sem dizer se eles tinham um coração bastante espaçoso e sem grades, onde pudesse voar livremente o Pássaro Azul da Felicidade.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O verdadeiro significado de 1º de janeiro.

Todo dia 1º de janeiro o mundo se une para comemorar o Dia da Confraternização Universal e grande parte do mundo comemora a chegada do Ano-Novo. É por esse motivo que nesse dia todos desejam uns aos outros muita paz, amor e prosperidade. Fazemos planos, começamos novos projetos, olhamos para frente e desenhamos metas a serem atingidas no decorrer do ano. Deixamos-nos envolver pelo calor das emoções que ficam mais afloradas neste dia e nos enchemos de esperança e determinação para começar um novo ciclo de vida. É um dia feito para reflexão, especialmente sobre o que de fato temos feito para que a harmonia e a paz sejam construídas. Confraternização deve ser seguida de equilíbrio, afeto, interesse pelo outro e amor no coração. Neste dia nos enchemos de esperança de uma vida melhor e pedimos a Deus que nos envie seus anjos para colaborar para que tudo de bom nos aconteça. Mas muitas vezes esquecemos-nos de fazer nossa parte nesse processo. Todo ser humano minimamente espiritualizado deve ter claro dentro de si a consciência de que um mundo melhor somente é construído através de atitudes individuais e de uma espécie de reeducação. Essa é a única maneira de nos dedicarmos à construção de um mundo de paz. Não falo em passeatas, manifestações públicas de pedido de paz, apesar de muitas vezes isso funcionar, mas falo de atitudes individuais que nos ajudem a atingir esse objetivo. Tenho observado como o ser humano mudou nos últimos dez anos e infelizmente acredito que piorou muito sua qualidade humanitária. Isso é muito facilmente notado através da observação crítica quando estamos no trânsito, no supermercado, atravessando uma rua, em qualquer situação corriqueira que vivemos todos os dias. Parece que ficamos cegos para a existência do outro. As pessoas agem como se fossem as únicas, como se os outros não existissem. Passam por cima de todos feito tratores desgovernados diante do perigo. A vida se tornou uma ameaça e agimos e reagimos defensivamente o tempo todo. O culto à individualidade tem trazido alguns sérios reflexos em nossa vida pessoal e social. Sem o sentido de fraternidade e propósito não chegaremos a lugar algum. Reverência, companheirismo e compaixão tornaram-se apenas palavras bonitas modernizadas pelo movimento de Nova Era, mas que quase ninguém aplica em sua vida. A ganância, o egoísmo, o culto à individualidade tornaram-se uma espécie de deuses que a maioria de nós cultua diariamente através de pequenas atitudes. Por isso peço que neste 1º de janeiro todos se comprometam a observar e transformar suas atitudes menos nobres em atitudes éticas e conscientes de que o outro passa pelos mesmos medos e anseios que todos nós. Atitudes e reações transformadas certamente nos levarão a um 2010 verdadeiramente carregado de muita paz, prosperidade, fraternidade e amor. O compromisso por um mundo melhor deve partir de cada um de nós através de pequenas atitudes em nosso cotidiano. Um Feliz 2014 para todos nós!